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05 junho 2009

A massagem II

Passado uns bons minutos, nos quais tive tempo suficiente para ler e reler o meu questionário e concluir três vezes que não tenho uma vida saudável mas que gosto muito dela, a sra. massagista m. da massagem hiper-especialíssima, chamou-me e levou-me até uma sala castanha, vermelha e cor de laranja com cheirinhos a incenso. Pediu-me que me despisse toda e vestisse unicamente umas cuequinhas de papel e quando estivesse pronta pusesse um cordel na porta. E assim fiz, nua e de cuequinha de papel numa sala no meio de um centro comercial, pus o cordel na porta e corri até à marquesa da massagem.
A senhora m. chegou e começou por me explicar o ritual da sessão. Consistia numa massagem anti-stress com o intuito de aliviar as zonas mais tensas do corpo, era uma massagem unicamente de costas e a primeira parte baseava-se no varrimento das más energias. Ora aí está uma coisa que devo precisar, pensei eu. Mas o que será o varrimento? A senhora m. provavelmente habituada às caras perplexas das pessoas, explicou-me de imediato que o varrimento não se tratava de uma massagem mas sim de um exercício de relaxamento que antecedia o amassamento e que durava metade da sessão. Feitas as explicações, chegara a hora da sessão bio-energética.
Deu início à sessão de varrimento, que no fundo baseava-se apenas em palmadinhas desde a ponta do pé ao pescoço que me provocaram um ataque de riso muito difícil de conter e esconder, principalmente na parte em que a senhora m. dava chapadinhas no meu rabo que começava a ficar vermelho. Eu, que nunca fui pessoa adepta de palmadas, naquele momento só consegui pensar nas ocasiões mais ordinárias em que aquelas palmadas fariam algum sentido. Mas o varrimento continuava e eu começava a achar que isto das bio-energias não era para mim, porque de facto as ditas palmadas podiam ser relaxantes mas eu não conseguia usufruir das mesmas. O problema devia certamente ser meu.
O meu monólogo interior continuava, agora rezando para que o varrimento passasse e o bendito do amassamento chegasse. E chegou, apesar de eu por essa altura já estar a ter alguns problemas para respirar e a sentir-me bastante dorida. Diga-se de passagem que apesar de rápido, aquele foi um bom amassamento. Quando eu estava finalmente a sentir as minhas bio-energias a ficarem mais calminhas, coitadinhas, a senhora m. disse-me que se eu quisesse podia ir para a sala de relaxamento pois ela tinha uma marcação a seguir.
Sozinha, deitada na marquesa com as cuequinhas de papel e besuntada de um óleo nhaca-nhaca, a última coisa que me apetecia era voltar para a sala de relaxamento com cheiro a chá de canela. Por isso, tirei as cuequinhas de papel e vesti a minha roupa, que nunca me pareceu tão bonita, e voltei para casa.
E foi em casa, deitada na minha cama, depois de um cigarro, que concluí que o melhor amassamento para as bio-energias é sem espaço para dúvidas, o sexo (o bom sexo, entenda-se). Com ou sem varrimento, com ou sem incenso, com ou sem óleo nhaca nhaca, o sexo é bom. Não preciso de responder a questionários acusatórios da minha má vida, e é muito mais relaxante.
Pode ser que para o ano, quando celebrar mais uma Primavera, a minha amiga a. me ofereça um voucher para uma esplêndida noite de sexo.

A massagem I

Há quase um mês, celebrei a minha presença neste mundo desde há poucas dezenas de anos. Para comemorar tal feito, a minha boa amiga a. ofereceu-me um voucher para uma massagem bio-energética. Eu, que ignorava o que isso quereria dizer, dirigi-me ao centro de massagens plantado em pleno centro comercial lisboeta, e sorridente fiz a marcação para a minha massagem das bio-energias. A dita massagem era, segundo me foi dito, hiper-especialíssima feita unicamente pela sra. massagista m. e portanto teria de esperar uns dias para receber o bendito amassamento das minhas carnes.
Os dias passaram-se ansiosos na expectativa da massagem que prometia aliviar-me do stress das obrigações profissionais e das inutilidades emocionais. Chegada a hora, lá entrei eu no centro comercial, airosa e feliz pela minha pré-postura zen. Passado o tumulto da restauração, das criancinhas a berrar e das mães "ó joão não corras!", subi as escadas rolantes e entrei no centro de massagens.
O shopping ruído fora agora substituído pelos piu pius dos passarinhos enquanto a água corria nos rios e o vento soprava, na faixa 4 do cd do relax. A senhora da recepção mais a sua voz monocórdica, perguntou-me se se eu era a sra. que tinha marcação bio-energética, ao que eu respondi triunfante: sim! Pediu-me, então, que tirasse os meus sapatos e deu-me uns chinelos de papel para eu ir para a sala de relaxamento preencher um questionário.
A sala de relaxamento seguia os contornos estéticos da recepção, paredes castanhas e chão preto com fotografias macro clean de plantas e uns divãs aero-dinâmicos-qualquer-coisa. Servi-me do chá que amavelmente me foi oferecido e sentei-me na cadeira. A escolha do chá revelou-se péssima, pois assim que o aproximei da minha boca, senti o cheiro a canela intenso que começava a fazer-me comichão nas narinas. Resolvi, que o melhor era esquecer o chá e dedicar-me a preencher o inquérito.
Perguntavam-me primeiro por alergias, ao que respondi "canela". Nada mais adequado. Depois, as perguntas seguiam-se. Tem peso a mais? Sim. Leva um estilo de vida saudável? Não. A sua alimentação é regrada? Não. Passa muito tempo sentada? Sim. Fuma? Sim. Bebe? Sim. Bebe café? Sim. Começava a achar que talvez aquele não fosse o melhor sítio para descomprimir, até porque o divã aero-dinâmico-qualquer-coisa me obrigava a estar deitada e deitada não consegui ler bem as perguntas e muito menos escrever as respostas. Por esta altura, a minha adrenalina já tinha aumentado em vez de ter acalmado...