23 março 2016

desencontros

Ela queria conversar, ter alguém com quem divagar da vida com o calor dos corpos e encontrar luzes para questões inexplicáveis. Ele queria carinho, estava cansado de sentir tudo em cima dos ombros dele, de sentir-se só. Mas como não sabiam como dizer isso um ao outro, depois de 10 cervejas em cima e uma noite louca de dancing, propuseram-se sexo. Como acontece quando se procura uma coisa e se escolhe outra, correu tudo muito mal. As divagações ficaram mudas e inventaram a palavra rechasco, e a solidão ficou ainda mais pesada. Não se despediram porque nunca se conseguiram encontrar.


02 janeiro 2016

amor


Gosto tanto de estar com ela, aquele calor, o peso certo que me abraça e envolve o meu corpo, a paz que sinto na sua companhia pela noite dentro ou nas manhãs que se estendem. Gosto mesmo de estar com ela, adoro a minha cama e encontrar-me com ela todas as noites.

13 dezembro 2015

benção

O clitoris, o único orgão que existe com a função de dar prazer, exclusivo de quem tem XX no totobola da genética. Nuns sítios lutam para dar a conhecê-lo, noutros para que não o mutilem, noutro conhecem-no e têm-no seguro mas ainda pouco o apreciam e desfrutam.

Abençoadx seja quem o conhece e o respeita e quem experimenta e desvenda os seus mistérios. 

Améééénnnn n een enn

25 novembro 2015

Olive

Às vezes há milagres assim. Liga-se a televisão e numa série a vida toda lá dentro.






Olive Kitteridge é uma mini-série HBO e é um milagre em todos os pormenores. As histórias de pessoas como nós, que se cruzam numa pequena cidade do Maine. Tal como acontece na vida, as pessoas aqui são muitas coisas ao mesmo tempo. O amor está sempre lá, não o amor romântico e feliz, mas o amor em gestos inesperados, na pequena dor mansa que trazem pela mão, nas imensas contradições de que somos feitos.

23 novembro 2015

aqui podia morar gente

Esta ainda é a minha casa. Está abandonada, esqueci-me dela durante muito tempo, mas ainda é a minha casa. Aqui está uma parte da minha vida, quase dez anos. Tanta coisa aconteceu desde aquela noite em que decidimos ser oito e coisa nove e tal. Houve casamentos, separações, nascimentos, mortes, desgostos, paixões, a vida e quem vai lá dentro fomos nós aqui a escrever umas para as outras e para quem nos lesse, a vida e quem vai lá dentro ficou aqui escrita na parede. É a isso que regresso de vez em quando. Agora é um desses de vez em quando. E desta vez a vontade de ser a okupa que não quer deixar morrer a casa abandonada. Só não sei se consigo ser aquela que em tempos aqui escreveu.


24 maio 2015

descoincidências


A minha vida sexual mental é riquíssima. A real nem por isso.

12 maio 2015

o relógio


Lembrava-se de ver aquele relógio na palma da mão grande e amável do avô. Era um relógio de bolso, com uma correia não muito grossa prateada. O avô levava muitas vezes a mão ao bolso para saber as horas e todos os dias lhe dava corda. Os ponteiros marcavam o tempo com precisão, as horas eram importantes, a pontualidade das coisas diárias que lhes marcavam a existência era respeitada, o hoje era igual a ontem e seria igual à amanhã. Quando as avós eram vivas e quando eram muitas pessoas em casa, parecia que tudo se organizava melhor, talvez por serem muitas pessoas o trabalho do dia a dia era melhor distribuído. Às avós competia a comida e a ritualização dos dias e horas certos para cada coisa. Tinham a vida ligada aos tachos, ao alimento do corpo, às tradições do espirito enquanto os homens se consumiam na engrenagem fora da casa.
Lembrava-se também de ver esse relógio, anos mais tarde, nas mãos suaves da mãe. Nessa altura, os dias já não eram uns iguais a outros, as avós já não estavam ou já não podiam cozinhar, a mãe e o pai trabalhavam e ela e os irmãos participavam pouco da dinâmica necessária para fazer que a casa funcione. A mãe azedava em cada comida que fazia, em cada máquina de roupa que punha, estendia, dobrava e guardava. O cansaço da mãe era constante e apesar de lá fora ser uma reconhecida profissional, cá dentro as ideias filosóficas e políticas sobre o mundo eram mais deixada para quem tinha mais tempo para elas, os homens.
O relógio depois passou a estar pendurado na parede da sala de jantar por uma fita de veludo azul, e na mesa onde se reuniam xs amigxs do pai e da mãe, guarda a memória dos homens em alegres discussões, ensaiando as suas capacidades retóricas e opinativas, discutindo os destinos do país e do mundo, enquanto as mulheres, licenciadas e profissionais como eles, acabavam os preparativos para o almoço, e depois recolhiam, limpavam e organizavam tudo. Na cozinha, nessa solidariedade ou destino implícito que se tece entre mulheres, contavam-se da sua vida, dxs filhxs e amigxs comuns e discorriam sobre as ligações sociais e emocionais da vida quotidiana. Lembrava-se de estar entre a mesa da sala de jantar e a mesa da cozinha, entre os homens e as mulheres, e de gostar de estar numa e noutra. Talvez sentisse uma maior inclinação para ficar mais tempo na mesa dos homens e divertir-se com o seu humor bonacheirão e inteligente, sentia-se, sem se aperceber disso, com mais prestigio quando estava entre o discurso racional e cientifico e não entre os tachos e as conversas da vida. Mas ao mesmo tempo não percebia porque não se juntavam os dois universos, porque é que aquelas mulheres que falavam tanto entre elas não eram capaz de falar da mesma maneira quando estava toda a gente junta na mesa da sala de jantar. Imaginava muitas vezes como seria ser homem e às vezes sentia-se desconfortável por gostar de ser mulher, por sentir prazer quando se ocupava com as tarefas da casa e com as emoções da vida.
Não sabia porque se tinha lembrado de tudo isto. Talvez porque encontrou a caixa bordeaux e irrefletidamente abriu-a e encontrou aquele relógio, já sem o vidro, a fita de veludo azul gasta e esgarçada, sem ponteiros, há muito tempo sem estar nas mãos de ninguém. A ausência do seu tic tac indicava que a cada segundo o passado é um lugar habitado, sem fronteiras definidas com o presente nem com o futuro. Fechou a caixa, pôs o casaco e foi-se embora. Deixou o relógio perder-se no tempo. Tic.

17 outubro 2014

Universal

Voltei a estar solteira e dedidi testar os mercados. Os de 25-35 acham um piadão a mulheres mais velhas e giras. Os de 35-45 acham um piadão a mulheres da idade deles, que não os queiram para ter filhos. Os de 45-55 acham um piadão a mulheres mais novas e despachadas. Os maiores de 55 estão por tudo, mas acham um piadão a mulheres mais novas e que tenham conversa para eles.

Descobri que sou gosto universal, como os comandos de televisão do chinês.

06 outubro 2014

donzela em perigo

Morta de fome, meti-me no carro. Em dez minutos ia finalmente comer. No caminho, já salivava: pernil de porco, cabidela, cozido à portuguesa. Hoje marchava tudo, um prato a seguir ao outro até à congestão final.
A cinco minutos do destino, o meu carro começou a tossir. No semáforo, deu a alma ao criador. Entre caralhadas, montei o triângulo e procurei o colete na confusão do porta bagagem, sacos cama, livros, reciclagem por despejar. Fumo a sair do capô, do carro do lado sai um homem que grita 'Sou bombeiro, o seu carro estar a verter gasolina do motor'.
Pânico.
O bombeiro à paisana consegue em dois minutos orientar o trânsito que se acumula à minha volta, sacar um extintor de um café ali ao lado e chamar os colegas que estão de serviço. 
Pouco depois, o carnaval chegou à morais soares. Um camião de bombeiros entra em sentido contrário na rua, dezenas de mirones acumulam-se no passeio e eu ali de colete cor de laranja e ar aparvalhado enquanto despejam sacos de um pó branco pela poça de gasolina que enche o alcatrão. Quando o reboque finalmente chega, há uma multidão no passeio, um camião de bombeiros, um carro da polícia e uma barata tonta de colete refletor que só pensa no almoço que nunca mais chega. 
Saí dali no reboque e escoltada pela polícia. Mania das grandezas, é o que é.


30 setembro 2014

Pensamento do dia

É preferível uma boa massagem a uma má foda.


I'm baaaack :)

20 setembro 2014

Gloria



Um belo filme. Uma grande actriz. Uma história que raramente se vê no cinema: o amor, a solidão, o sexo, quando se tem quase sessenta anos. 

16 setembro 2014

Setembro

Lembro-me dela desde sempre. Sentada na sua sala a ler, enquanto a minha irmã e eu brincávamos com as casinhas que nos trazia de Nova Iorque. Lia muito. Jornais, livros, muitos livros. A minha avó ficava ali sentada, calada, e nós brincávamos com brinquedos que não existiam cá, uma escola, as casas da rua sésamo, a quinta, o aeroporto, os legos antigos que tinham sido dos nossos tios. Noutra sala, o meu avô ouvia música muito alto, tinha o radiador junto dos pés, um copo de conhaque no chão, caramelos escondidos num armário. Vivemos catorze anos na casa por cima deles. 
De vez em quando, o jogo de canasta com as amigas era lá em casa. Nós descíamos as escadas, ficávamos entre as duas mesas onde ouvíamos falar de bestes e flores. Os jogos pareciam intermináveis. Nunca mais chegava a hora do chá, a que horas é o lanche Avó? Bolos, pães, doces, o cheiro do pó de arroz e dos perfumes, a elegância dos gestos das tias das canastas que depois imitávamos, sumo em chávenas pequenas e nós as duas a sermos senhoras crescidas também, oito senhoras e duas miúdas em volta da mesa oval da casa dos meus avós. O aparador, o carrinho de chá, o louceiro com três jarros em cima, uma tela com uma vaga nossa senhora na parede, o soalho de madeira que chiava com os nossos passos. A minha avó levava-nos aos jogos de canasta nas casas das amigas, o pó de arroz, os perfumes, os bestes, o melhor lanche era em casa da nossa tia gogó, uma sala de jantar enorme, a conceição que mandava na casa e fazia a melhor trança do mundo, o tio salvador que dizia 'cautela' e se ria baixinho de tudo. A casa dos meus avós era a nossa casa, sabíamos os sítios de tudo, a cubinhos de marmelada na mesa de cabeceira do avô, os álbuns de fotografias dos seis filhos, o pote das bolachas. 
A casa dos avós era a nossa casa até ontem. Dez anos depois do marido, nove meses depois do filho, a minha avó morreu ontem, uma segunda feira de chuva de setembro. 

15 setembro 2014

A santa que vos pôs no mundo a todas

I'M BACK!

Cântico negro 4.5

Sem ironias nem cansaços nos olhos lassos, o cleverbot é um robot que fala connosco.
Acreditem ou não: fui falar com ele e nesse momento éramos 79 mil pessoas a falar com uma inacreditável inteligência artificial.
o cleverbot é tão inteligente que até conhece o 8 e coisa:


User: Do you know 8 e coisa?

CleverbotYes.

User: How do you like it?

Cleverbot: I like it just fine. Are you an Atheist?

User: Are you?

CleverbotA little bit!
User: How does it feel being a little bit atheist?
Cleverbot: Like I don't exist.


Onde já vão os mircs, facebooks e chats desta vida.
O cleverbot é que é. A sua glória é essa: criar desumanidades, não acompanhar ninguém.

Cântico negro 2.0

"Prove que não é um robot", dizem-me alguns com olhos doces.
Estendendo-me a imagem, e seguros
De que seria bom que eu visse o raio das letras desfocadas que me mostram
Quando me dizem "prove que não é um robot!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há nos olhos meus ironias e cansaços)
E cruzo os dedos
E nunca acerto nos números

Ó da casa!

Aquela ali atrás é a senhora do guichet?

Ps: Vês, eu bem te tinha dito que este inverno iamos ter a casa cheia: elas vêm aí!!

12 setembro 2014

Sem título

Passaram-se anos e, às vezes, ainda dou por mim a olhar para a tua fotografia, a tentar procurar dentro dos teus olhos se mudaste ou não. E nunca consigo uma resposta que sobreviva a ti próprio. Ainda há dias em que me magoa o teu desamor ter sido tão grande. Só a falta de amor tinha sido suficiente.