O meu amor por ti tem muitas coisas dentro. Tem o amor mentolado da adolescência e os passeios ao fim da tarde em ruas de que não sei o nome. Tem os vidros embaciados de um carro em frente ao mar. Tem horas de espera elásticas. Tem a ilha de sangue num lençol branco e o espanto pela descoberta de mim. Tem o primeiro desgosto que se repete em todos os que se seguiram. Tem as histórias de um passado que não sei se aconteceu. Tem os amores que vivi antes de ti. Tem os medos que transbordam líquidos até aqui e me molham os pés. Tem as mulheres que foram tuas e agora me povoam minúsculas num desconcerto de muitas vozes. Tem estradas e casas e cheiros, um ribeiro ali ao fundo, uma janela a dar para os telhados, uma noite de fogo de artifício, tem sono e fome e sede, uma capela perdida num monte, tem o silêncio e o som, tem árvores e plantas, a lua a nascer num céu ainda claro e a dor de ser eu com tanta coisa dentro.
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11 novembro 2008
09 novembro 2008
Amor sem ti
Danço aqui para que me vejas. Não tenho medo das minhas pernas demasiado nuas, dos meus braços exagerados, do meu riso sozinho no meio da sala. Sou a mulher sem medo que dança para que a vejas, sou a mulher dos olhos pintados (eu pinto os olhos), das noites cheias de gente e sítios (eu tenho uma vida), da música que oiço e dos livros que leio (roth eno hélder mehldau). Sou a mulher de saltos altos que muda pneus cozinha escolhe vinhos faz broches tem opiniões viaja lê. Sou a mulher que te sorri do meio da sala. Danço aqui porque sou tua embora ainda não o saibas.
03 outubro 2008
Amor assassino
Agarro na tua mão e digo-te toma é bom vais gostar. Sei que estás a minha mercê, como um barco abandonado à ondulação de um cais, dizes que sim e experimentas, primeiro a medo, depois entregas-te ao delírio que tantas vezes te descrevi. Vejo-te desfalecer nos meus braços, e não contenho um sorriso, feliz, porque superaste tudo aquilo que até a mim mesmo não exigi. Chamo uma ambulância e noto a coloração do sangue em que te esvais, não podia ser mais bonita, adoro tudo em ti, o teu amor, a tua lealdade, as tuas entranhas, esta cor que certamente não voltarei a ver porque me deste a prova de amor suprema: a tua vida, quando a mataste com o com que te acenei.
20 setembro 2008
Amor cerzido
Disseste sai vai-te embora não aguento ter-te por perto e, de repente, a tua frase cresceu como uma malha numa meia preta. Primeiro um ponto branco que se vai deitando ao comprido na perna, ponho um bocado de verniz das unhas e penso que se andar depressa ninguém vai dar por nada. Olho outra vez e o ponto branco já não é só um ponto branco, cabem lá agora as noites em que não olhas para mim, os minutos em que jantamos calados, as manhãs em que és uma ausência com pressa de ir embora. Pego numa agulha e cirzo tudo com as pontas soltas do desamor e sirvo-me a ti de olhos fechados com a certeza de que este tempo passará na sombra dos dias sempre iguais.
02 outubro 2006
Amor destilado
Sei que te envergonho com os meus passos incertos e a minha voz lenta, sei que não compreendes por que me afundo e me transformo neste outro homem que tu não amas, que tu não queres, que tu odeias. Mas o que não sabes, porque nunca to disse, é que todos os dias sigo com escrúpulo de farmacêutico a receita para sobreviver ao meu amor por ti. Com o primeiro copo vai desaparecendo a tua vida no mundo, com o segundo dissolvo todo o cortejo do passado que me assalta desde que te conheci, até te descobrir no torpor destilado onde és só minha.
15 setembro 2006
Amor alinhavado
Vejo-te ao longe e nem dás por mim, sou aquela que recebe as roupas e as devolve com um sorriso de pespontos e bainhas subidas. Vou por isso inventar-me aqui, corsária sem medo num barco solitário feito desta terrina herdada de não me lembro quem, vou desencantar mapas de navegação que me salvem dos rochedos das rugas do tapete e das tempestades do soalho, vou abordar por estibordo aquele navio do cesto de costura e esvaziá-lo dos tesouros imensos que transporta. Vou construir uma vela que me faça atravessar este tapete verde para chegar até ti diferente de mim, uma outra que seja mais do que a costureira sem história e sem idade que te olha à distância de um sorriso.
12 setembro 2006
Amor cavador
Sempre me disseram que não se faz queixinhas, mas não consigo evitar as palavras que me enchem a boca para te dizer que estou infeliz e a culpa é dele, daquele homem que tantas vezes é o que eu quero que seja mas que de repente se senta à mesa numa pressa brusca de camponês, sorve a sopa, ignora o guardanapo, daquele homem que tantas vezes diz o que eu quero ouvir e de repente é tomado de uma fúria mansa que cresce sem eu saber como até acertar aqui onde a cara e coração acabam cavados pela sua mão.
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