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04 setembro 2010

A minha vizinha ouve música horrível há horas(tu nunca mais vais saber de mim, se estou ou não mal na viiiiiiida, tu nunca mais saaaaaber). 
Nunca quis tanto um revólver.

16 outubro 2009

O gato

A vizinha do rés-do-chão vive com os estores fechados. Via-a na rua com o carrinho de compras e com um marido de olhar ausente e corpo enorme. Há algumas semanas, percebi que alguma coisa grave se passava. À entrada do prédio um homem vestido de escuro que cheirava a funerária, um outro homem de olhar resignado e a porta de casa escancarada. O marido tinha morrido. Hoje a vizinha apareceu quando passei pela sua porta e mostrou-me um gato bebé que agora é seu. Segue-me para todo o lado e nunca estou sozinha. Da casa escura com os estores sempre corridos saía uma luz quase imperceptível.

25 junho 2009

Fim do dia

Chego a casa e abro as janelas. O meu vizinho pianista regressou depois de semanas de ausência. Vejo-o pela janela do quarto onde estuda. É só uma nuca e ombros que se balançam com a música que chega até mim deste lado do jardim. Uma música feita de paragens, arranques e repetições, uma música que agora trepa frenética e me faz sorrir. Será alto ou baixo, gordo ou magro, novo ou velho?, que nome terá o dono das mãos que estudam naquele piano?, imagino-o a viver com os pais e a sonhar com a colega silenciosa de pele muito branca que observa à distância de uma escala intocável, a mesma escala que oiço daqui vezes sem fim, na certeza de que não imagina que do outro lado do jardim há alguém que sorri.

24 abril 2009

Filmes

Com o pretexto de que íamos ao cinema, a minha vizinha de baixo hoje ficou-me com a miúda umas horas, que foram muito bem aproveitadas por mim e pelo meu excelso esposo. Quando fui buscá-la, diz-me ela:

- Então, aproveitaram bem o cinema? Vens com boa cara!

- Muito bem, Paquita, nem sabes quanto. Mas não fomos ao cinema, estivemos a fazer o nosso filme.- digo-lhe eu com ar malicioso, e responde-me ela com um ar descontraidissimo.

- Ah, mas quê, estiveram a ver filmes pornográficos?

- (Glupp) nãoo, estivemos nós "a fazer o filme", a aproveitar que não estava a filha e que podíamos estar à vontade

-  Ahhh. Eu digo isso porque o meu genro, que é como se fosse meu filho, conheço-o desde que ele tinha 19 anos, está casado há 20 anos com a minha filha, vem para cá vê-los comigo. E aprende-se muito, uma série de posições que eu nem sabia, eu com o meu marido, deus o tenha, a gente dormia em camas separadas. Pois é, de vez em quando vejo esses filmes com o meu genro, a minha filha é que não gosta nada, zanga-se connosco, lá estão vocês, ainda hei-de deitar essas cassetes todas para o lixo. A minha mãe, que descanse em paz, também não gostava,  mas eu e ele entretemo-nos, é bom para passar o tempo. Mas olha, fazem vocês muito bem em aproveitar o tempo sem a filha, quando queiras ir ao cinema é só dizer e vens cá deixá-la.


31 março 2009

silêncios

Ouço-os de novo ao meu vizinho da casa do lado e à sua nova namorada, a loira pintada magra e alta com ar de hospedeira. Outro dia veio cá a anterior, a morena dos olhos tristes e chorosos sem profissão definida, com um kispo enorme e grande cinzento como talvez ela própria, talvez tivesse vindo buscar algumas das coisas com que habitou esta relação. Cruzámo-nos brevemente no elevador, ainda bem que não subimos juntas, não saberia o que dizer-lhe, ou melhor, não saberia como dizer-lhe que fique mas é contente por deixá-lo, ele não era homem que a merecesse, e que devia tirar aquele casaco e pôr-se bonita como antes, aproveitar a vida sem discussões e que lhe desejo alegria e serenidade para esta nova etapa da sua vida. Como não saberia como dizer-lhe isto, subi sem nada dizer e deixei o pensamento no ar à espera que ela o possa querer pensar. Sentada ao computador ouço os dois novos namorados na cozinha aqui ao lado a cozinhar o seu jantar e os seus silêncios.

17 março 2009

geme..geme...GEEEEME

Os meus vizinhos do lado separaram-se, e se calhar ainda bem, passavam a vida a discutir e ouvi-a muitas vezes a chorar ou a discutir com ele. Parece que a casa deve ser dele, pois agora ouço uma voz diferente de mulher na cozinha da casa do lado. Outro dia namoraram na cozinha à hora do almoço. Ouvi os gemidos dela, altos, exuberantes, excitados, contentes. A ele não o ouvi, mas sabia que estava lá, ouvia-lhe um outro sussurro mas não um gemido. Porque raio será que aos homens de uma maneira geral lhes custa tanto gemer alto e a bom som, com prazer, ignorando quem os possa ouvir? E como é bom gemer e ouvir gemer de prazer...

15 março 2009

A música anima a alma

Hoje ouço-a cantar, à minha vizinha paredes meias com o meu escritório, com quem cruzo de quando em quando palavras rápidas sobre o frio e o calor e a chuva. Tem o rádio ligado e o volume no máximo, sabe a letra toda da canção, é uma canção sobre uma mulher que se separa do marido com raiva e despeito, pop flamenco. Canta como quem espanta um fantasma, canta decidida, canta enquanto mexe nas panelas e prepara o almoço. É bom saber que ela hoje está contente.

13 março 2009

Lutos ao lado

A minha vizinha do lado está a chorar, ouço-a daqui do meu escritório, paredes meias com a sua cozinha. Desta vez parece que não é por causa do marido; sentada na secretária consigo percebê-lo ali, ao lado dela, de vez em quando ouço-lhe um sussurro, talvez lhe esteja a fazer festinhas, parece estar a consolá-la. Não, desta vez talvez não seja por causa dele, não chora de raiva como das outras vezes, não a ouço discutir, só chorar, chorar.
Sai-lhe muito lá do fundo. Será que lhe morreu alguém muito querido? Será que lhe morreu a vida que ela tinha imaginado?

Fico quietinha,
o mais silenciosa possível
recordo e me entristecem
os seus e os meus lutos,

feitos,

desfeitos

e por fazer.

22 janeiro 2009

conversa de vão de escada

Diz-me a minha vizinha, de seu nome Paquita, com aquela capacidade admirável de jorrar palavras e contar as suas coisas: sabe menina eu tenho 63 anos nunca fui à escola por causa da guerra e depois tive que ajudar a minha mãe a criar os meus irmãos mas eu gosto muito de ler, sobre o egipto, romances, e sobre medicina, isso é aquilo que eu mais gosto, às vezes as minhas amigas viram-se para mim e dizem, ai eu fui operada aos ovários e agora nunca mais posso ter um orgasmo e eu digo-lhes logo, mas vocês em que têm a cabeça, não conhecem o vosso corpo, não sabem que têm um clitoris? é só isso que precisam, e quanto ao surto de tuberculose a menina não se preocupe....

05 janeiro 2009

Só no meu prédio

Desço as escadas e cruzo-me com a vizinha do 1º esquerdo. Cumprimentamo-nos e ela bate à porta da vizinha da frente.
- Quem é?, pergunta uma voz do lado de dentro.
- É a Alegria.

29 fevereiro 2008

Ouço a chave na porta do lado

Os meus vizinhos chegaram a casa. Hoje chegam tarde, mas como é sexta feira se calhar foram jantar fora. Ouço-os a mexer nas panelas e nos tachos e a falar com a voz zangada. A cozinha deles é pegada ao meu escritório, mas com estas paredes tão finas, às vezes parece que estão aqui mesmo ao meu lado. Discutem muito, falam alto e forte e nessas alturas fico muito quietinha para que não me ouçam e discutam à vontade. Às vezes ouço-a chorar e sussurro baixinho palavras de consolo na esperança de que atravessem as paredes, a abracem e a façam sentir menos triste. Outro dia cruzámo-nos no elevador e apresentámo-nos. É uma mulher bonita, jovem. Tentei ver nos olhos dela porque é que ela continua com uma relação que a faz chorar e discutir tanto, mas nada vi, estava bem disposta nesse dia. Entre um bom dia e se precisarem de alguma coisa disponham, entrei de novo em casa e sentei-me ao computador a ouvi-la fazer o almoço.

06 janeiro 2008

Surpresas de ano novo

1 de janeiro de 2008,

1.00 h:

Tocam à porta. Era o meu vizinho do lado, que não conheço muito bem mas que já trocámos algumas palavras no elevador e que me emprestou a sua internet durante um mês enquanto a minha não chegava. Trazia uma garrafa de vinho tinto como oferta de novo ano. Agradeci-lhe imenso, contente com esta prenda tão inusitada mas também um bocado embaraçada; às vezes parece estranho que as pessoas sejam generosas, duma forma tão pouco habitual.
5.00 h:
Quando toda a gente se foi deitar, ligo-me ao skype e encontro-me com o meu melhor amigo, meu vizinho de casa e de vida durante três anos, que está agora emigrado no Canadá, a fazer sozinho uma aventura difícil. Uma hora depois celebramos os dois a meia noite de Toronto.

9.30 h:

Liga o administrador do prédio, e depois de ter desejado bom ano, avisa-nos que o vizinho de baixo se queixou que tínhamos feito muito barulho entre as 12 e a 1 da noite de ano novo, e que não o deixámos dormir porque não só dançámos e arrastámos os móveis como tocámos panelas desalmadamente. Apesar de achar que isto era completamente descabido, desci as escadas uns dias depois para desculpar-me com o vizinho. Era um velhote resmungão que me falou por detrás do postigo e só disse: o que lá vai lá vai, cortando rapidamente a conversa.

Ás vezes, os vizinhos são boas metáforas da vida. Vejamos o que traz este ano que entrou tão insolitamente.

12 agosto 2007

O Jorge

Na porta de um dos apartamentos do meu prédio coabitam uma imagem de Nossa Senhora de Fátima com um autocolante que diz não à entrada da Turquia na União Europeia. Gente estranha, pensei eu quando vim para cá morar.

Descobri que quem lá vive é uma senhora com mais de 90 anos que anda sempre sozinha. Muito magra e tímida, encolhe-se toda quando alguém passa por ela, quando a cumprimento na rua não me responde - não me deve reconhecer fora do contexto. Passa muitas horas sentada num banco do jardim em frente ao prédio, gostava de saber no que pensa. Por vezes quando me responde aos bons dias sorri, e nesse sorriso descubro uma alegria quase infantil, e imagino-a de tranças a andar de baloiço. Presumo que a santa mãe seja dela, a declaração de ostracismo de um qualquer neto ou sobrinho.

Um dia vi-a entrar com um rapaz volumoso, moreno, bigode, com um ar malandreco e autoritário. Sem dúvida o autor das afixações, que entretanto tinham aumentado com a publicidade a um campeonato de kick boxing, onde se mostravam 4 galfarros em poses ameaçadoras e possantes. Informação sem dúvida utilíssima aos 8 inquilinos do edifício.

Quando estava a tomar chá em casa dos únicos vizinhos da minha idade descobri que a D. Madalena de seu nome não tem netos e que os autocolantes se devem ao Jorge. Eles vivem mesmo em frente dela e um dia o Jorge começou a aparecer lá por casa. De início a D. Madalena dizia que era o seu sobrinho, e passado uns tempos começou a referir-se a ele apenas como “o Jorge”. O rapaz começou a ser visita habitual.

A senhora que era assídua nos pagamentos do condomínio e seguro começou a ser menos pontual e a acumular dívidas. Um dia a falar com esta vizinha disse “sabe, comecei a ter umas despesas extra. O Jorge acha que eu devo ter telefone, TV cabo, internet... começámos a fazer umas viagens, que o Jorge diz que a vida é para aproveitar enquanto cá estamos... além do mais, coitadinho, precisou de fazer uma operação à vista e como ele não tinha dinheiro eu paguei-lhe. A vida é para aproveitar, sabe”.
Depois da operação à vista o Jorge começou a aparecer menos. A D. Madalena continua a passear sozinha. A vida é para aproveitar enquanto cá estamos.

15 dezembro 2006

À porta do 1º esquerdo

Oiço a vizinha explicar "o meu cunhado é silenciado em matemáticas e económicas".

20 julho 2006

Na noite passada

Moro no ultimo andar do nº22. Uns amigos meus moram no último andar do nº24. Ambos temos alçapões para o sótão, onde apenas existe um enorme espaço de que as pombas se tentam apropriar.

Ontem à noite recebi um telefonema do meu vizinho. Tinha chegado a casa depois de 2 dias de ausência, as portas do armário da entrada estavam abertas e o alçapão tinha sido tirado do sítio. Pânico.
Saio de casa, sempre de telefone na mão, não vá o eventual larápio ter saltado do seu sótão para o meu e estar prestes a cair-me no colo com o seu ar maléfico e intenções mais que certas. Desço as escadas do meu prédio, subo as dele. Dou com o meu amigo a falar muito baixinho. "as miúdas estão a dormir?" "não, é para o ladrão não se assustar". Claro.
Chamamos a polícia, não chamamos a polícia. Se calhar foi o vento, tenta ele. O vento como, se não há nada que tenha voado da bancada da cozinha?, respondo eu. Além do mais era preciso um tufão para fazer saltar o alçapão e movê-lo 1 metro para a esquerda.
"Vamos à esquadra, se telefonarmos só e eu disser que não falta nada não vem cá ninguém"
Metemo-nos no carro, vamos para a esquadra. Dirigimo-nos ao guichet, onde o chefe do posto tem uma televisão aos berros atrás de si. Tenta-nos ouvir no meio dos gritos do écran, até que decide baixar o volume.
"falta alguma coisa em casa? jóias?"
(talvez o diadema da beatriz, que tem 3 anos)
Não, sr. agente, não falta nada. Mas alguém violou a minha residência e queria que vissem o que se passa.
O sr. chefe do posto levanta-se, sai do guichet e dirige-se ao grupo de agentes que estão na porta, a rezar a todos os santos que seja mais uma noite tranquila.
Anuncia, "Santos, vá ali com este senhor ver o que se passa na sua casa. Silva, acompanhe-o"
O Silva era um quarentão, barrigudo e careca. O Santos parecia saído de um calendário pirelli para mulheres, alto, moreno, boca grossa, olhar intenso. Olho-lhe logo para as mãos (reflexo pavloviano) e descubro um anel na mão direita.
Quando chegam, o atlético Santos sobe ao escadote e espreita lá para dentro, não sem antes libertar a sua arma do coldre e desapertar o fecho de segurança. Olha para a direita e para a esquerda, "não há cá nada".
O meu amigo sobe mesmo lá para cima, o Santos não quer dar parte fraca e sobe tb. Eu fico a falar com o Silva.
"esta zona é perigosa? ouvi dizer que há muitos assaltos a velhotes"
"ah sim, mas é mais burlas. Fazem-se passar por agentes da EDP e coisas assim, e levam-lhes o dinheiro. Mas há por aqui gente muito pouco recomendável. Por exemplo, um senhor que mora aqui no nº 28... mas não posso dizer mais"

O meu amigo e o Santos descem.
O Silva
"quando estáveis lá em cima não visteis se havia pegadas?"
Pois que não, que estava escuro, que havia muita porcaria. Mas que há passagem entre os andares num cantinho do sótão. E que se terá de investigar durante o dia.
"Há que estar sempre um passo à frente deles, um alçapão assim não pode estar aberto", avisa-me o Silva.
Perguntam ao meu amigo se ele vive sozinho; ele diz que a mulher e as filhas estão de férias no Algarve. Troca de olhares e sorrisos cumplices entre os agentes da autoridade, imagino-lhes o pensamento "a família está fora, enfia a vizinha em casa".
Cumprimentamos os senhores de bacalhau, vão-se embora. Bebemos uns copos. Eu volto para casa, durmo trancada dentro do quarto não vá o diabo tecê-las. De manhã ligo para o empreiteiro para pedir tranca para o alçapão. Ainda tenho o PC.