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04 março 2009
26 fevereiro 2009
A suspensão da descrença
foto via câmara clara
Embora de amor me incendeie
o fugaz prazer não estorva o meu desejo;
exalto a chama do Amor
e o meu coração só renega
aquele amar que o amor ofende.
20 fevereiro 2009
27 outubro 2008
11 outubro 2008
23 setembro 2008
O Outono a partir da minha janela

Da minha janela, vejo o Equinócio de Outono a amadurecer em forma de romãs. Chegou ontem, e saúdo-o com o standard Autum Leaves interpretado por Dee Daniels.16 julho 2008
Os vendedores de ilusões de Sandomil
Há quem diga que a ficção é mais estranha que a realidade. Eu até concordo, regra geral, com esta afirmação, não fosse a própria realidade desmenti-lo, de quando em vez. O que se segue é uma história real. Qualquer semelhança com a ficção é pura coincidência.
Final de tarde de um qualquer dia de Verão do ano passado. Carrego um remo de metal em cada uma das mãos, depois de uma hora a tentar remar, num esforço inglório, 200 metros do rio Alva. Um rápido pequeno, mas muito eficaz como obstáculo, fez com que andasse para cima e para baixo, para cima e para baixo, até me cansar das mesmas árvores, do mesmo moinho, da mesma água. Dirijo-me em passo lento para o bar, a arrastar os pés o mais que posso. Gosto do som que as sandálias fazem quando deslizam por entre a folhagem.
Chego ao bar, entrego os remos, peço uma cerveja de pressão. Apoio um dos cotovelos no balcão e rodo o tronco. Detenho-me a olhar para uma longa fila de mesas de madeira, com bancos corridos de madeira, uma ou outra ocupadas por trabalhadores em final de dia de trabalho, bebendo as indefectíveis minis. Para lá das mesas uma paisagem que me parece um quadro impressionista: um curso de água ladeado por árvores grandes e frondosas que deixam entrar fios de luz, esbatendo no espelho de água o reflexo das árvores. Momento perfeito, diria, quando, de repente, ouço um escarcéu digno da defunta feira popular.
- O que é que se vai passar aqui? pergunto à dona do bar.
- Ah, é um ilusionista que já vem cá pelo segundo ano e está a preparar o aparato para o espectáculo de hoje à noite. Mas já lhe disse: 'olhe que é a última hipótese que lhe dou!'.
- Então porquê?
- O ano passado começou a beber estava ainda a preparar o espectáculo e quando chegou o momento tiveram que o levar em braços dali para fora. E isto já cheio de pessoas, famílias com crianças, à espera do que não se realizou. Olhe, foi uma vergonha para mim e para o homem. Este ano voltou a aparecer, mas eu disse-lhe: 'olha, tu porta-te bem senão acabo logo com o arraial num piscar de olhos'.
- Pois, digo eu, mais um golo na ‘jola, enquanto a observo a esfregar vigorosamente o balcão.
A dada altura, um homem que se encostava, tal como eu, no balcão resolve entrar na conversa:
- Eu também já tive a minha época aqui em Sandomil.
- Ai é? E o que é o que o senhor fazia? (olhe, mais uma cerveja se faz favor).
- Bom, eu tinha um projector e tinha uns filmes e quando as noites estavam quentes projectava-os numa parede ali atrás. Era um autêntico cinema ao ar livre!
- E que filmes é que passava?
- Ora bem, no início da noite projectava grandes êxitos para as famílias. Mas depois, quando a noite se tornava noite, havia um grupo que me desafiava para passar uns filmes...
- Uns filmes?
- Sim, aqueles filmes, está a ver? Só para adultos...
- Ah! (bom, havia que responder aos apelos da audiência, penso eu, e aos vários públicos ali presentes na pequena aldeia de Sandomil). Então, e ainda continua a projectar?
- Infelizmente tive que abandonar a profissão...
- Então porquê?
- É que numa dessas noites, e se a noite já ia bem longa!, estava a passar um desses filmes quando de repente entra uma família inteira no local da projecção. O homem ficou tão doido que só tive tempo de agarrar no projector, pegar na minha Casal (mota) e arrancar a toda a velocidade de Sandomil. Só parei em São Gião. Deixei-me disso e não apareci por ali durante uns tempos valentes.
Sandomil, terra pitoresca. Uma fatalidade para os vendedores de ilusões.
11 maio 2008
Estações

Falemos de casas, do sagaz exercício de um poder
tão firme e silencioso como só houve
no tempo mais antigo.
Estes são os arquitectos, aqueles que vão morrer,
sorrindo com ironia e doçura no fundo
de um alto segredo que os restitui à lama.
De doces mãos irreprimíveis.
- Sobre os meses, sonhando nas últimas chuvas,
as casas encontram seu inocente jeito de durar contra
a boca subtil rodeada em cima pela treva das palavras.
(...)
Falemos de casas. É verão, outono,
nome profuso entre as paisagens inclinadas.
Traziam o sal, os construtores
da alma, comportavam em si
restituidores deslumbramentos em presença da suspensão
de animais e estrelas,
imaginavam bem a pureza com homens e mulheres
ao lado uns dos outros, sorrindo enigmaticamente,
tocando uns nos outros –
comovidos, difíceis, dadivosos,
ardendo devagar.
(...)
Falemos de casas, da morte. Casas são rosas
Para cheirar muito cedo, ou à noite, quando a esperança
Nos abandona para sempre.
Casas são rios diuturnos, nocturnos rios
Celestes que fulguram lentamente
Até uma baía fria – que talvez não exista,
como uma secreta eternidade.
Falemos de casas como quem fala da sua alma,
Entre um incêndio,
Junto ao modelo das searas,
na aprendizagem da paciência de vê-las erguer
e morrer com um pouco, um pouco
de beleza.
Herberto Helder
30 abril 2008
21 março 2008
No meu equinócio

...a natureza suspensa

...a natureza ambígua (ora-cacto-ora-flor)

...a natureza distendida

...a natureza submersa
17 março 2008
Coisa Amar

Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.
Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.
Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como doi
desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.
Manuel Alegre, Coisa Amar











