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13 setembro 2010

variaçoes do calceteiro



Os calceteiros, essa profissao em vias de extinçao se nao se valoriza e moderniza rapidamente (com condiçoes dignas de trabalho obviamente), fazem sempre variaçoes.
Experimentem caminhar pela calçada portuguesa, na avenida da liberdade, pelo meio daquelas sequencias geométricas e ilustrativas, repetidas vezes sem conta. Reparem que ainda que parecam todas iguais,  há sempre variaçoes que fazem a diferença, mesmo quando tudo parece igual e repetido.

Sao os calceteiros que nos dizem, na calçada como na vida.

11 novembro 2008

Tony Robbins

Quero ser oradora motivacional. Dizer às pessoas que são lindas e maravilhosas, que a vida não é uma merda e que, sim, há pessoas que gostam delas como são, só assim e sem mais nada. Dar-lhes uma bofetada na cara aparvalhada pela dormência instalada dos dias que se desenrolam lentamente, uns atrás dos outros, na cara triste de expressão sombria tolhida pela falta de confianca e de auto-estima, na cara aflita, da expressão inundada por uma ansiedade cruel e mortal.
Abaná-las violentamente para exorcizar a modorra que lhes permeou a capacidade de decisão e lhes cerceou a vontade e lhes consumiu o desejo para querer, ser, fazer e acontecer, hoje, aqui e agora.
E torturá-las com recordações felizes, com lembranças bonitas e memórias deliciosas, que foram profundamente enterradas num subconsciente qualquer, para nunca mais voltarem a ser vistas ou sentidas.
E forçá-las a reagir. A sentir. A amar.
Será que funciona ao espelho?

07 setembro 2008

Alfa e Beto

imagem daqui

Soriano é professor e vive numa zona muito turbulenta na região do Magdalena Medio na Colômbia (turbulenta quer dizer que é muito perigosa e que há actores armados de todos os lados). Como nessa zona o acesso a muitas aldeias só pode ser feito de burro, pois mais nenhum outro tipo de transporte lá pode chegar, ele arranjou dois destes animais, o Alfa e o Beto, para poder fazer chegar os livros a quem deles necessita, ao mesmo tempo que vai dando as suas aulas. Só tem duas condições, têm de lavar as mãos e não podem escrever nas páginas dos livros.
O Biblioburro já faz parte da Rede Nacional de Bibliotecas da Colômbia e agora é também o título de um documentário que está a ser realizado por um outro colombiano que vive em Bruxelas, e em que Soriano é o actor principal.
Mesmo no meio da guerra, há sempre alguém que não desiste de acreditar na paz. E de construi-la no seu dia a dia.

mais informações em www.eltiempo.com

19 julho 2008

Deus está em toda a parte

É um frade italiano, Frate Metal. Diz de si próprio que é um predicantor. Há mais de uma década apaixonou-se pelo Heavy Metal, pela força que tem este estilo de música. Tem uma banda metaleira e canta para multidoes, canta para fazer as pessoas acordarem para a vida, para sentirem a vida e a sua intensidade. Fala do alcóol, das boas sensaçoes que dá e do perigo do seu abuso, fala do sexo e de como deve ser feito com responsablidade, canta cançoes à Virgem com o estilo metal. E deixa bem claro, uma coisa é o heavy metal, outra é o satanismo; o heavy metal é vida, pura vida, pura energia.
Adoro personagens assim, que se permitem sair daquilo que se espera delas socialmente. De facto, deus pode estar em toda a parte e de todas formas. Aleluia...

28 maio 2008

Grrrelatividade

Na semana passada visitei o American Museum of Natural History, na esperança de poder rever os esqueletos dos dinossauros que continuam a fazer as delícias dos crescidos, ao mesmo tempo que inspiram o mais profundo dos terrores às criancinhas que por eles são arrastadas por meio de ossadas fossilizadas dez vezes maiores que eles e vários milhões de anos mais antigas.

Em frente ao esqueleto completo de um T-Rex estava um homem, sózinho, de mãos entrelaçadas atrás das costas, e com um ar profundamente infeliz.
Ao seu pescoço estava pendurado um cartão que dizia 'John Doe, Ph. D.' AMNH Staff- Ask Me!', e dele depreendi que seria um cientista que, em vez de ter partido em busca de uma nova espécie enterrada há séculos no deserto de Gobi, ou similar, passava os seus dias enfiado numa sala de museu, rodeado de ossos e a sorrir a visitantes desconhecidos, na esperança de captar a sua atenção e de poder exibir todo o conhecimento acumulado ao longo de vários e árduos anos de estudo.

Reparando que tinha algo na mão, perguntei-lhe de que se tratava. 'Uma garra de T-Rex fossilizada', respondeu. 'Posso segurar?', perguntei. 'Yeah, sure!'. E enquanto virava e revirava o objecto, por meio de sorrisos apatetados e efusivos, mas respeitosamente silenciosos, 'UAUS!' ele lá me foi explicando que a garra era revestida de queratina, que caia com uma grande periodcidade para ser logo substituida por outra nova, etc, etc, etc, informação que eu ia registando, acenando com a cabeça e proferindo uns, 'is that so?', 'really?', 'oh, right!', cheios de interesse genuino.

Se ao menos 'John Doe Ph.D' soubesse a enorme alegria que me deu...

31 dezembro 2007

Párem as rotativas!

Tim Patch de sua graça, Pricasso nome artístico, dá toda uma nova dimensão ao mundo do retrato a óleo. Há quem por necessidade aprenda a pintar com a boca ou com os dedos dos pés, mas este sul-africano sentiu a vocação chegar sem necessitar de perder qualquer dos membros superiores. É sem dúvida um estadio superior na arte de misturar tintas e obter resultados surpreendentes.


Para encomendas, mande uma fotografia mesmo por email, ele faz a pintura, filma a feitura (que dura aproximadamente 2o minutos), manda-lhe a tela e o DVD pela módica quantia de 150 euros mais transportes.



Um novo significado para a alcunha pincel. Finalmente, o literal. Já merecia.

03 agosto 2007

Sedução na Lisboa à Noite

Para que não haja mais desculpas sobre a falta de livro de instruções do sexo oposto e a falta de oportunidade para encontrar alguém mais especial, ou mesmo que não seja especial, só alguém, há uma alma caridosa disposta a acabar com essa situação ingrata e ensinar "comportamentos de sedução heterossexual (sujeitos entre os 18 e os 25 anos) em contexto urbano nocturno, festivo, com incidência na exibição corporal, nas fantasias privadas, na sedução verbal e na passagem ao acto através de carícias e de beijos. Será apresentada uma análise dos diversos discursos femininos e masculinos sobre as experiências sexuais pessoais, bem como uma análise psico-sócio-histórico-cultural das transformações na estrutura conjugal. Estas análises serão seguidas de uma interpretação das mudanças relativamente aos comportamentos vividos em contexto nocturno." Ver aqui.

Os destinatários deste curso são "Estudantes de Antropologia ou de outras áreas, público em geral" que também terão direito a visita guiada ao "Bairro Alto, Docas de Alcântara, Rocha Conde d`Óbidos e Belém, seguida de reflexões sobre a estadia nesses contextos."

Eu sempre disse que agora é que tinha idade para saber estudar!!

15 maio 2007

Probabilidades, verniz e casino

Um destes dias acordei com uma daquelas telhas que só uma ida ao cabeleireiro resolve. Assim foi: nesse sábado à tarde cheguei ao cabeleireiro - invulgarmente cheio - e pergunta-me a senhora solícita da recepção: 'então o que vai ser?'. 'Queria cortar o cabelo'. Voltei atrás e disse: 'ah, também queria arranjar as mãos, por favor'.

Atende-me um cabeleireiro brasileiro bem-disposto que me cortou e secou a melena em 2/3 meios tempos. Metade do trabalho estava feito. O pior foi a espera pela manicure. Se o corte tinha sido expedito, não entendia a razão de tanta delonga pelas unhas. Passado uma boa 1/2 hora de espera e já farta de me olhar ao espelho na contemplação do meu novo visual (vd. o que aconteceu a Narciso), decidi arriscar a pergunta à senhora da recepção, se demorava muito a manicure. Explicou-me então que aquele dia estava a ser particularmente complicado: para além dos clientes, também os funcionários tinham que se arranjar: iam participar numa gala de cabeleireiros no Casino do Estoril. 'Mas eu vou já ver quem está disponível, só um momento'.

Calha-me na rifa uma manicure mal encarada, visivelmente contrafeita com mais trabalho. Secamente, manda-me sentar e começo-lhe a tirar a pinta, enquanto vai sacando da sua mala os instrumentos de tortura. Loura, cabelo curto, olhos claros, uma pronúncia estranha, onde os 'erres' são enrolados e algumas vogais pronunciadas de forma aberta. De resto, quase não se dava pelo sotaque.

- O que quérrrrre fázerrrrrr?
- Bom, quero que me arranje as unhas...
- Sim, mas em formáto quadrrrrrado ou como é que é?
(ui, que simpatia, isto vai ser bonito, enquanto olho de esguelha para o alicate. Espero que não se vingue nas minhas pobres cutículas e me faça sangrar, que aí amofino-me e... e... Bom.)
- Quadrado, por favor. E depois quero que me pinte as unhas de encarnado.

Longos minutos de silêncio, enquanto me tira o verniz e me lima as unhas. Decido quebrar tanto mutismo e digo-lhe: 'então parece que hoje vai haver uma festa por aqui'. Olha para mim de soslaio e diz, 'sim, vamos tódos ao Cásino do Estórrril, vai haver uma gala lá'. Continuo a falar com ela, sem nunca arriscar a pergunta do seu país de origem. Deixo-a falar até que finalmente e por sua iniciativa me diz: 'sou rrrrrussa'. Quebra a secura e ri-se muito quando lhe digo: 'Russa? Não conheço nenhuma russa. Só conheço uma romena e tenho um vizinho búlgaro. Mas isso é a mesma coisa que dizer-lhe que conheço um alemão, uma espanhola ou um italiano'. Ufa, a ligação está estabelecida, as minhas cutículas fora de perigo. 'Então se é russa, deixe-me adivinhar o seu nome: chama-se Irina'. Levanta a cabeça e faz-me um daqueles olhares mortíferos outra vez (ai as cutículas!) e responde-me: 'não. Sou Svetlana'. 'Ok, Svetlana é um bonito nome' (e acho mesmo). Depois de decidido o tom escarlate e já fora do perigo cutículas (ufa!), começamos a falar da gala no Casino.

- Já lá foi alguma vez, Svetlana? Ao Casino do Estoril?
- Eu não. Só lá pássei uma vez mas nunca entrrrrei.
- Então vai ser a sua estreia num casino! Ou não?
- Sim, vai serrrr a minha estrrrrreia.
- E vai jogar? Por exemplo, há a roleta... As slot... (sou abruptamente interrompida por um quase-grito)
- EU??? Ná rrroleta??? (mais um olhar mortífero). Nunca na vida! Sábe porrrrquê? Vou-lhe explicárrrrr:

Fico, então, de boca aberta. É que Svetlana, justificando o facto de não jogar na roleta, dá-me uma longa e detalhada explicação sobre cálculo de probabilidades e estatística, capaz de envergonhar e fazer corar qualquer estudioso da matéria. Termina a explicação com um sorriso no canto da boca. Fico em silêncio, é que cromos daqueles para a troca, só mesmo a fórmula resolvente ou o teorema de pitágoras, os únicos que ainda sei de cor...

- Bom, já percebi que a roleta está fora de questão. Mas pode sempre jogar nas slot machines...
- Nás slots? O que é issu? Sáo aquelas máquinas q têm uma alávanca?
- Sim, aquilo é muito simples: só tem que pôr lá umas fichas e puxar a alavanca e ver se as combinações lhe dão algum prémio...
- E quanto é que custam essás fichas?
- Bom, tanto quanto me lembro, pode comprar o valor que quiser...
- Ah, 'tá bem. Também só ténhu 20 eurós e o meu marrrido disse-me: 'tens 20 euros, guarda esses 20 euros'.
- Sim, mas jogar uma vez na vida é engraçado, acho... (arrependo-me do que disse).
- Está, bem, logo se vê se comprrrro essas fichás.

Dá por concluído o trabalho, que executou com esmero e rapidez. Tenho umas unhas lindas e escarlates. Despeço-me de Svetlana e desejo-lhe uma noite divertida. Esboça um sorriso e acena-me num gesto seco. Vira-se para falar com uma colega.

Estou a pagar a conta e olho novamente para trás: vejo Svetlana de mãos nos bolsos ainda a conversar com a colega. Vou ao seu encontro e estendo-lhe uma nota: 'Tome, Svetlana. Jogue nas slots machines por si e por mim. Pode ser que lhe saia alguma coisa. Nunca se sabe'. Sorri e diz obrigada, sem perder a altivez. Antes de me ir embora arrisco a última pergunta:

- Svletlana, posso -lhe fazer uma pergunta?
- Sim, digá...
- Qual era a sua profissão na Rússia?
- A minha? (sorri). Engenheira Física.

Epílogo: os cabeleireiros, como tantos outros lugares, são o espelho do Portugal cada vez mais multicultural da ultima década. Pena que as competências destes novos imigrantes não sejam devidamente aproveitadas.

E no que toca a 'engenharia das unhas', Svetlana foi perfeita: tive as mãos lindas, com verniz sem lascar, durante 15 dias.

12 março 2007

Os dias da rádio

foto cedida por câmara clara

Tenho um especial apego e afeição por aparelhos de rádio, gosto que herdei do meu pai. Lembro-me de o ver dirigir-se para a sua gigantesca pilha de rádios (onde ouvia emissões em onda curta, média e longa), de modo a ouvir - religiosamente - o noticiário da BBC, ao meio-dia, todos os dias da sua vida. Este era um hobby que trazia desde os seus tempos de juventude: aos 18 anos ia-se mantendo a par das notícias sobre a II Guerra Mundial, na emissora Rádio Clube Português, naquela época sediada na Parede (ainda lá estão os emissores).

Mais tarde, fazia-me ouvir as comunicações entre navios. Houve um dia em que sintonizámos as emissões da Rádio Galo Negro (de Savimbi), em pleno período de guerra. Soube certa altura, numa conversa, que sabia as frequências para ouvir conversas entre telemóveis, na altura em que estes apareceram. Um dos meus irmãos insistiu com o meu pai para que ele as revelasse. Nunca o fez, era um homem de princípios.

Hoje, num passeio pelo bairro onde moro descobri uma loja de 'reparações de todo o tipo de material eléctrico e electrónico'. Entrei na loja e vi um senhor por trás de um balcão que conversava com outro, por entre uma profusão de - sobretudo - televisões.

- Boa tarde. O senhor conserta aparelhos de rádio?
- Depende da marca, mas traga-me o aparelho que eu logo vejo o que posso fazer.
- Bom, na realidade tenho dois aparelhos de rádio: um muito antigo, que gostava tanto de ver recuperado.
Os olhos do senhor brilharam:
- Como é o aparelho? É de madeira?
- Sim, de madeira, com uma rede à frente e a válulas.
- Ena, esse deve ser dos bons! [fala-me de uma série de marcas, as quais não retenho os nomes]. Traga, traga que tenho para aí umas válvulas e logo vejo o que se arranja.
- Tenho também um aparelho - esse mais moderno - digital. Não sei porquê não liga, não me parece que seja a fonte de alimentação. Noutras circunstâncias tê-lo-ia deixado assim, não lhe ligaria mais, mas foi o último rádio que o meu pai comprou e tenho-lhe uma estima especial.
- Sabe, hoje em dia este tipo de material, à primeira falha ou estrago, e o pessoal já não quer saber. Rapidamente compram um novo aparelho, um modelo acima e mais novo. É o usa-e-deita-fora. Eu cá não sou assim!
- Pois eu também não... Acha que me consegue consertar os rádios?
- Traga, traga. Vou ali depois para a minha oficina na cave e logo se vê.
- Desculpe a curiosidade: o senhor trabalha há muitos anos neste ramo?
- Desde os 14 anos. E há 45 anos estabelecido nesta zona.
- Passo por cá amanhã e muito obrigada.
- Obrigado eu, menina. Até amanhã.
Vim para casa a sonhar com o meu aparelho de rádio a válvulas. Se tiver arranjo, talvez consiga sintonizar depois 'Os Parodiantes de Lisboa' e 'Quando o Telefone Toca'. Nunca se sabe...

P.S. Sempre pensei em visitar o 'Museu da rádio'. Estupidamente fui adiando o momento. Agora parece que fechou...

27 julho 2006

As minhas idas ao cabeleireiro

Gosto de usar o cabelo curto. Para quem não saiba, é ainda mais difícil cortá-lo curto que comprido, há que encontrar o cabeleireiro certo que não só o faça bem como perceba o estilo que se pretende.

Descobri finalmente o Vítor, recomendado por uma amiga.

O Vítor tem um método todo seu: corta o cabelo a seco, para assim poder ver os jeitos e remoinhos que faz. Quando chego sento-me e digo “corte” e fico à espera. Ele senta-se atrás de mim numa cadeira mais alta do que a minha, acende um cigarro, semi cerra os olhos e começa a mexer no cabelo. Usa a mão direita, a esquerda, as duas. Pousa o cigarro no cinzeiro, de onde não voltará a sair. (Vejo a cinza a aumentar e o peso a deslocar-se para o lado do filtro. Penso, vai virar, cair em cima dos meus cabelos e provocar um incêndio. Nunca aconteceu).

O Vítor parece o Eduardo mãos de tesoura depois de uma visita ao casal ventoso. Parece sempre um bocado janado (e provavelmente está mesmo), pega na tesoura e começa a cortar de uma maneira que a mim me parece aleatória. Todas as vezes que lá vou penso que é desta que vou ficar com uma pelada, que terei de corrigir com corte à soldado raso, mas é este frissom de roleta russa que me faz continuar a ser-lhe fiel. (hoje enquanto me escortanhava alguém o chamou, ele virou a cabeça e continuou a tesourar. É agora que me vaza um olho. Não foi).

A dona do cabeleireiro é uma senhora mais velha loira de óculos, que sofre das cruzes e se veste com roupas largas para esconder a perda de formas femininas que chegam na menopausa. O Vítor não se deve dar muito bem com ela, de cada vez que ela fala ele olha para mim e revira os olhos. Quando ela lhe pede para ele fazer alguma coisa a resposta é invariavelmente a mesma “não vê que agora estou ocupado?”

A menina que lava o cabelo deve ter saído há pouco da adolescência, e é cúmplice do Vítor. Hoje ele disse-lhe “jurei pela minha mãezinha. E sabes bem o que eu sinto pela minha mãe, não sabes?” Ela “pois”.

Chegou ao fim e deixou-me, ao contrário do que eu lhe tinha pedido, o cabelo mais comprido atrás. Disse-lhe que não gostava. Com um ar seguríssimo respondeu-me:

“como conselheiro de imagem que sou, digo-lhe que é assim que lhe fica bem. A menina tem uma cara redonda e assim alonga. Mesmo que me peça não corto mais”.

Eu obedeci e calei-me. Paguei e vim-me embora.

13 julho 2006

Mais difícil ainda

Quando era miúda tive a colecção de cromos do guiness. Ficava a olhar durante imenso tempo para a imagem do homem que arrastava locomotiva com os dentes, o que tinha o cabelo mais comprido, o sino maior do mundo, a estátua mais pequena e por aí fora. Eram recordes admiráveis que implicavam esforço, dedicação e mérito e mereciam a minha admiração.
Em Portugal existem os recordes absurdos. A árvore de Natal maior do mundo. O maior cortejo de pais natais do planeta. A maior feijoada à portuguesa jamais vista (quem mais se lembraria de fazer esta?!). A maior salada de frutas (não estou a gozar, foi feita pelos alunos da Escola Superior de Turismo). A maior bandeira humana feita só de mulheres (à qual chamaram "a mais bela bandeira do mundo", coisa que é facilmente refutável pelo misógino mais próximo).
Nenhum destes recordes altamente publicitados implica força, capacidade ou engenho. Basta juntar um monte de pessoas para fazerem a mesma coisa. Uns para se vestirem de pais natais e se passearem na rua como se fossem vencedores da maratona, um monte de mulheres a torrar ao sol no estádio universitário, uma série de pessoas para descascar muita fruta. Enfim. Houve um iluminado que teve a ideia e os outros acharam boa. Vá se lá saber porquê.
Bastava incluir a maior alheira de mirandela e a maior cova na areia jamais feita e e estávamos no top para ganhar o prémio "o-povo-que-tem-menos-que-fazer do mundo".
Hoje à hora do almoço comi o meu bacalhau à braz (o melhor do mundo), e vi as notícias (as mais longas da Europa). Soube que vai haver o 2º salão erótico em Lisboa (o maior jamais feito em Portugal) e dei de caras com uma rapariga que falava dos seus feitos com um orgulho que apenas reconheci na cara do Saramago depois do Nobel.
Dizia então a espanhola moça:
" Em Espanha sou muito conhecida por ser acrobata vaginal" (?????!!!!)
E continuou
"Consigo escrever e pintar com a vagina, faço bolinhas de sabão, e além do mais tiro cadeias de metal, agito bandeiras e coisas assim"
(achava eu que pintar com os dedos dos pés já era difícil...)
"já consegui tirar 15 metros de cadeia da minha vagina, mas acho que Lisboa é uma cidade tão bonita que quero bater o meu record e chegar aos 20 metros".
Depois disto, tirar coelhinhos de cartolas passou a ser brincadeira de crianças.