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31 julho 2008

Eu devo ter um íman

Uma das minhas alunas é minha vizinha. Não é uma vizinha qualquer, vive no andar mesmo abaixo do meu e dorme no quarto cujo tecto é o meu chão.


As probabilidades disto me ter acontecido estão de tal forma contra mim que no dia em que a vi entre a assistência na minha aula teórica pensei jogar no euromilhões, lotaria, totobola e bingo do belenenses. Foi um desperdício não o ter feito, teria com certeza ganho uma bela maquia.


No primeiro semestre consegui despachá-la com facilidade, com uma nota mediana. Neste segundo é que já me está a dar problemas. Chumbou na primeira época e a segunda também não está famosa. Dado que não é trabalhadora estudante e não tem mais hipóteses de passar, estou perante um dilema.


- Passo-a, mesmo tendo de fechar os olhos à minha honestidade e integridade, para que não tenha de me lembrar dela todas as vezes que faço amor e a cama geme?

- Chumbo-a, para ver de que massa ela é feita e se me vem com as 4 irmãs, pai, mãe, cão, dois gatos e três periquitos pedir meças e queixar de infiltrações na casa de banho?

- Deixo de fazer amor em minha casa, ou passo a usar para o efeito o vão das escadas para que deixem de perceber de que lado vem o barulho, A-ha!

- Convenço-a a mudar de curso, faculdade, universidade, com promessas de glórias eternamente mais interessantes que aqui, e ela ala para trás os montes e alto douro (se tivesse jogado na lotaria podia-lhe pagar para o fazer, que rapariga pouco previdente fui)

- Passo-lhes as minhas infestações de bichos, a ver se toda a família se muda para outro lado


Ou mudo de casa?



(continua, continua sempre)

29 setembro 2007

Ordem e desordem


Eu sei que este meu desabafo perto deste é coisa pouca, de qualquer modo não posso deixar de me manifestar. Eu explico: durante 3 semanas a minha vida foi uma não-vida. Isto é, nada mais fiz do que trabalhar numa rotina que era muito simples: acordar alvoraçada pelo despertador, pensar 'bem que dormia ainda mais umas horas', tomar banho, vestir, bater a porta, trabalhar, trabalhar, trabalhar com um dealine a pesar mais que a excalibur em cima da cabeça.

Durante 3 semanas assim foi, o tal do deadline ocupava todo o espaço da minha mente, da minha vida, do meu tempo. Felizmente, o famigerado dia chegou, o deadline foi cumprido e lá recuperei a minha vida. Pensei então: aaaaaah! agora é que vai ser aproveitar o tempo e a vida que me foram devolvidos! Nessa mesma noite fui sair, assisti um qualquer espectáculo, jantei fora, bebi uns canecos. No dia a seguir acordei à hora que o meu corpo julgou necessário.

Sábado início de tarde - olho em volta e vejo a casa de pantanas, como já não tinha memória. Deve ser falta de cafeína, vou fazer um café, é isso, não pode estar assim tão mal. Pego na cafeteira que tem uma crosta preta agarrada ao fundo. Ok, toca de a esfregar. O café pinga e eu começo a vislumbrar a dimensão da entropia que se instalou no meu cubiculum vitae: pilhas de jornais espalhados por todo o lado, louça e mais louça por lavar, lixo cheio... Abro o frigorífico e julgo ver um alien lá dentro. Fecho-o horrorizada, mas como preciso do que lá está, resolvo fazer a limpeza necessária. O conteúdo do frigorífico vai na sua grande maioria para o lixo, resolvo atar o saco bem atado, não vá ele ganhar pernas e andar.

Sento-me com o café na mão e olho para o chão: vejo novelos de cotão, migalhas, sapatos por todo o lado, roupa, livros. As minhas probres plantas que olham murchamente para mim. Hummmm... Começo a recolher tudo, a arrumar, a limpar, a lavar...

4 horas depois - a casa está mais ou menos decente, já fiz 3 máquinas de roupa. O tempo colabora, ao menos isso. Agora tenho que ir à compras e adquirir o que me falta, deve haver uma conspiração qualquer, invariavelmente a pasta-de-dentes terminha na mesma altura que o detergente para a louça, assim como o amaciador do cabelo, entre outros. Já para não falar na comida que é inexistente, aprodreceu ou ganhou nova vida. Saio de casa e vou para uma grande superfície. Uau! Programão para um sábado à tarde...

2 horas depois, regresso do hiper. Toca a arrumar tudo. Entretanto, decido tomar banho e descubro que a minha roupa ou está suja, ou por secar ou então - pior! - por passar.

4 horas a passar roupa a ferro. Não existe tarefa mais inglória que esta. Decidi abolir as camisas do meu vestuário.

Faço o jantar e acabo o dia mais exausta que qualquer um dos 21 dias que trabalhei ininterruptamente.

Se a minha vida regressa desta forma, então quero a minha não-vida de volta.

19 setembro 2007

Mais uma corrida, mais uma viagem

Se no final deste ano eu não for viver para um sítio ermo, sem vizinhos nem gente que me chateie a mona, então é a prova da minha resiliência à prova de bomba atómica.

Começámos a ter uma infestação de baratas no prédio; quase de certeza que vinha de casa da D. Madalena, mas de qualquer modo já estavam a alastrar por mais duas casas. Como eu, boa alma com lugar cativo à esquerda do senhor (seja lá ele quem for) sou a administradora voluntária deste ano, calhou-me em rifa chamar a empresa para eliminar toda a bicharada, de todas as casas, esgotos, partes comuns, e, já que estávamos nisso, os ratos que me atormentam a existência.


O meu dia começou às 8h50 com o senhor a tocar-me à porta enquanto ainda punha cremes na fronha, sem pequeno almoço. Engulo um café e mãos à obra.

Vamos de casa em casa a exterminar tudo aquilo, e eu procuro como uma louca a chave para levantar as caixas dos esgotos. Como não se encontra em lado nenhum, desato a tocar às portas de todos os prédios, a ver se alguém me pode emprestar a sua, mas claro, ninguém tem, sabe ou está. Cada vizinho a quem peço notícias do paradeiro da mesma tem uma brilhante ideia para eu executar; um que ligue à câmara, outros às chaves do areeiro, melhor ainda aos bombeiros. Que vá à casa de ferragens ao fundo da rua. Eu ia sempre perguntando “e um pé de cabra não tem?”. Estranhamente ninguém tinha, mais valia ser vizinha de ladrões de carros, esses ser-me-iam decerto mais úteis que estas abéculas. Depois de percorridos os contactos sugeridos e em nada terem resultado, decido cravar o jardineiro da câmara para me ajudar a levantar as tampas com uma picareta e uma enxada. Dêem-me uma alavanca e eu levanto o mundo; não estava errada. Eu sabia que tinha uma razão para gostar de cavadores de batatas, este também não me deixou mal: prova superada, contra todos os vaticínios.

A velha do r/c esq da janela só repetia “isso não vai dar, assim não vão conseguir”. A múmia do 2º, “ai que partem um pé”, o do 1º “já lhe disse que chamasse os bombeiros, era uma limpeza”. Eu e o cavador é que lhes mostrámos o que era, Arquimedes rules.


No meio disto, a D. Madalena não abria a porta nem por mais uma, apesar dos murros na porta e toques insistentes. Já pensávamos mandar vir a polícia, sabe-se lá o que o Jorge lhe teria feito, quando ela nos aparece sorridente com um ramo de malmequeres e violetas colhidos durante o seu bucólico passeio pelos jardins da vizinhança. Entretanto, a pespineta dos caniches era a única que não aparecia para que lá fossem a casa. Quando entra finalmente pelo prédio adentro, a rugazinha no canto da boca deixou-me logo o alarme: vem chatice. Começou com o seu tomzinho irritante de voz a dizer que na casa dela só depois das 14h30, que não podia ser, que não queria. Respiro fundo, não há de ser nada. Eles voltam na sexta, logo se vê então.

Venho para casa, sento-me no sofá estafada, depois de ter subido e descido dúzias de vezes as escadas do prédio e andado por todas as ruas do quarteirão à procura de uma abertura para os esgotos, quando recebo telefonema da vizinha do r/c: as baratas estão-se a atirar pela janela da D. Madalena abaixo, uma espécie de 11/9 da entomologia. Preferem arriscar a morte por esmagamento que a tortura do veneno. "e agora o que é que eu faço?", pergunta-me. Deixe-as cair. O que é que ela queria que eu respondesse?

Acendo um cigarro e o computador. De repente, começo a sentir a língua encortiçar e os braços dormentes. Ai que estou envenenada, ai minha mãezinha o que é eu faço. Ligo ao homem da desinfestação, explico os sintomas e pergunto-lhe se devo chamar uma ambulância.

"Minha senhora, deve ser fraqueza. Esteve o dia todo a correr de um lado para outro só com um café, que tomou À minha frente. Apanhe um bocado de ar e coma, vai ver que se sente melhor".

Era verdade. Fiquei comovida. Quero ir viver para um prédio onde tenha por vizinhos o jardineiro e o homem da desinfestação.

(continua, como sempre)

24 maio 2007

Retalhos da vida de uma condómina

Já me começaram a chatear com esta história da administração do condomínio, mas agora houve novo ataque com forças animais.
Ainda andava eu nas diligências para ter os almejados três orçamentos da praxe para fazer obras no prédio, onde pedia também para me arranjarem o tecto que apenas eu vejo por ser a única condómina a viver no ultimo andar. Via que estava abaulado e é necessário substitui-lo. No fim da semana passada tive os dados todos, preparava-me para tomar a decisão, eis senão quando chego a casa na 3ª feira e tinha tijolos, estuque, cadáveres de pombos em decomposição e pó em barda a partir do lance de escadas anterior ao meu patamar. Ao ver aquela beleza de hortaliça contive o nojo e apenas dei deo gratias por ninguém estar a passar ali por baixo no momento da derrocada. Ligo ao mestre de obras que me fez o orçamento mais conveniente e peço-lhe urgência para dar início aos trabalhos.
No dia seguinte preparo-me para sair de casa, abro a porta e tenho dois pombos a esvoaçar no patamar. Fecho a porta. Terei visto bem? Volto a abrir, continuam lá. Vou buscar a vassoura, a ver se à custa de umas pauladas os desgraçados saem por onde entraram, viro a parte da escova para cima e lá vou eu armada em Indiana. Os bichos são burros, começam às turras com toda a força contra a janela, sem perceberem que têm de passar por cima para sair, contra as paredes, contra a porta da casa ao lado, voam por cima da minha cabeça, penso que se vão borrar todos de medo mesmo por cima do meu cabelo acabado de lavar.
Desisto de os pôr fora, mas tenho mesmo de sair de casa. Desço até ao andar de baixo, mochila às costas e vassoura em riste, que deixo no andar de baixo para repetir o número na subida quando voltar.
Ligo de novo ao mestre de obras, que me diz que o técnico do telhado só está disponível para a semana. Entro em choque, faço o número da donzela em apuros, tenho pombos a esvoaçar no patamar, isto mais parece um pombal, já para não falar do cheiro nauseabundo. O senhor verga-se aos meus argumentos e veio cá esta tarde para tratar do assunto.
A sua cara perplexa ao ver a desgraça que se abateu literalmente sobre mim não deixa dúvidas, confessa que não pensou que fosse tão grave a coisa. Percebo que sou mesmo eficaz no número da princesa na torre do castelo.
Decide tapar o buraco com uma tábua, preso às traves desnudas do tecto. Para tal tem de subir por um escadote, a cerca de 4 m de altura. Num só não vai ser possível fazer o trabalho, monta então uma construcção digna de número de circo - um escadote ao fundo das minhas escadas, outro em triangulo invertido a meio dos degraus, uma tábua para fazer de passadeira e lá andam, ele e o ajudante, sem qualquer tipo de segurança, quais equilibristas no arame a tratar do meu problema. Como tenho um grave caso de vertigens, não consigo ficar a ver o espectáculo sem ter uma taquicárdia brutal e preparar o número do 112, porque juro que vão cair e morrer mesmo à minha frente. Venho então para casa, fumar cigarros e esperar pela queda que nunca chega.
Deixam-me o buraco tapado, e posso finalmente entrar e sair de casa sem perigo de encontros imediatos. Apesar de já saber da existência de pombos armados em okupas no forro do meu telhado, ainda não tínhamos sido apresentados cara a bico.

03 janeiro 2007

A casa, mais uma vez

Uns amigos pediram-me para lhes ficar com o gato enquanto iam de férias para a terrinha; o meu deu a alma ao criador há uns tempos, podia ser que servisse para matar saudades, já sabes como tratar dos bichos e o garrincha é um animal sociável que se vai dar muito bem em tua casa. Então e quando é que vocês voltam? Daqui a 15 dias. Hum, os amigos são para as ocasiões, os gatos nem dão muito trabalho, nos dias de natal não vou estar em casa mas ele amanha-se com a comida e as necessidades, não vai haver problema. Dia 23 deu entrada no albergue desta múltipla um lindo e portentoso gato preto de olhos amarelos.

Os primeiros dias correram bem, festinhas, colinho, até o deixei dormir ao fundo da minha cama ao contrário dos donos, comportando-me como os avós a mimarem os netos. Que se lixe, quando voltar para casa eles que se arranjem, entretanto trato-o como se fosse meu. O gato é muito bonito, enorme. Estende-se em cima das minhas pernas, o que seria uma óptima ideia não fosse ele tão grande e as minhas pernas tão pequenas; vira-se para me mostrar que também tem uma barriga boa para dar festinhas, arriscando-se a um bungee jumping sem corda. Ele deve gostar mesmo muito de festinhas ali, porque quando chego a casa ele vem a correr ter comigo à porta e atira-se para o chão de patas para o ar, o que me faz sempre rir imenso e me conquista imediatamente.

Ao 5º dia, por milagre do destino coincidente com a limpeza da Rosário, acordo com uma enxaqueca e a senhora com a sua verborreia constante começa logo a matraquear-me "ó menina, está uma mancha de sangue enorme no sofá parece que alguém menstruado se sentou ali". Cruzes credo, isto logo ao acordar sem café nem nada é informação a mais para mim. Penso, serei sonâmbula e terei andado a esfregar-me nos sofás sem dar por nada? Corre-me um arrepio de medo pela coluna. "ó menina, o outro sofá também tem, no encosto". Bolas, esfregar-me no encosto já me parece exagerado, mesmo para uma sonâmbula. "Menina, menina, é o gato que está a perder sangue!! Afinal se calhar é uma gata!!"

Não pode ser, ele tem bolinhas bem visíveis, não faz sentido. Quando o vou a agarrar para ver o que se passa descubro que de facto está a perder sangue das partes baixas. Ai mãezinha, vamos já para o veterinário, que o gato não me morra nos braços. Telefono, marcam-me consulta para dali a 3h. Entretanto, o bicho na sua aflição e sem dúvida enormes dores tinha-me deixado marca da sua existência em ambos os sofás, 3 das almofadas, na colcha e lençóis do quarto de hóspedes, no maple do escritório e no chão do meu quarto. Tanta actividade para um bicho tão pequeno não deixa de ser notável. Decido fechar a besta na casa de banho, sempre prefiro limpar o chão que fazer a enésima máquina de roupa, e esperamos.

Vamos finalmente ao veterinário, diagnóstico infecção urinária; urina com alguns cristais fragmentados, antibiótico durante 10 dias e ração especial para doenças renais. Vá para casa e verifique que ele urina, porque se ele entupir tem de o levar à clinica de S. Bento para ficar a soro, porque se a uretra bloqueia ele pode quinar.

Confinei a besta à casa de banho e corredor, e lá ando eu a inspeccionar as areias de cada vez que o bicho vai fazer xixi, não me apetece nada passar a meia noite do ano novo a brindar águas destiladas com os veterinários de serviço.

Hoje, ao 5º dia de tratamento o pobre gato começa a dar sinais de maior vitalidade, suspiro de alívio, o pior já passou.

Acho mesmo que a casa tem qualquer coisa contra os animais. Ainda na semana anterior a Rosário, pobre Rosário, me apareceu à beira do vómito por ter encontrado um pombo cadáver na varanda do meu quarto.

Nem pássaros nem peixes, é assim.

18 novembro 2006

Natureza feminina

Depois da casa me ter atacado com formigas, pombos, baratas alemãs e moscas rastejantes, voltou à carga ontem à noite.

Tive um jantar com umas amigas cá em casa para experimentar esse novo e fabuloso electrodoméstico chamado bimby (espécie de robot do cozinha que faz tudo por nós, especialmente desenhado para nabas da gastronomia como eu), quando durante o repasto fomos atacadas por um insecto que parecia o cruzamento entre uma vespa, uma libelinha e o Freddy Krueger - de início fiquei estupefacta mas depois horrorizada com o bicho. Foi-se esconder atrás da máquina do café, uma delas propôs que o atirássemos para o chão para esmagar com o sapato, quando o fizeram uma delas zumba com a botifarra, e a criatura começou a levantar-se qual fenix das cinzas, o que provocou em mim o horror dos filmes americanos, pensando que ele atacaria com mais poderes, o que resultou em gritos lancinantes misturados com risos pela situação. Felizmente uma delas acaba de chegar dos seus seis anos de Timor e resolveu o assunto com uma sapatada mais bem dada, embrulhou o cadáver em rolo de cozinha e ala para o caixote do lixo.

No fim da noite enquanto arrumávamos a dita maravilha do mundo moderno, descobri um ratinho pequenino, cinzento, morto em cima do balcão da minha cozinha - coisa perfeitamente inaudita desde que aqui vivo. Da estupefacção passei ao grito, de novo, seguido de risos incontroláveis encostada obviamente à parede contrária ao cadáver. Fui incapaz de pegar na criatura, inspirou-me a mais profunda repulsa e a reacção que apenas conhecia dos filmes idiotas - gritos. Não conseguia fazer outra coisa. Gritava e ria, ria tanto que parecia que chorava. De novo a nossa lorosae de serviço tratou da exumação de mais um corpo abandonado pela anima, e assim puderam ir para casa alegres e tranquilas.

Julgarão os bichos que eu sou a Dra. Doolittle? Ou deverei doar a casa à Sociedade Protectora dos Animais, já que vêm todos cá ter pelo próprio pé?

24 outubro 2006

Existencialismo

Consegui ganhar a luta aos bichos de prata, que afinal eram baratas alemãs. Depois de ter engrossado os cofres de várias marcas de insecticida, comprando casinhas com veneno, sprays, espumas e ventiladores, chamei uma empresa de desinfestacção à séria e deram cabo do assunto. Durante 1 semana encontrei cadáveres espalhados pela cozinha, de barriga para o ar, que fariam seguramente a apoplexia do budista mais convicto, mas que a mim me deram apenas a satisfação de mais um drama resolvido.
No entanto, a dita operação teve um efeito colateral estranho. As moscas que conseguem entrar cá em casa deixaram de voar e correm alegres pelo chão e nas paredes. Será a prova definitiva da reencarnação?

23 junho 2006

A casa contra-ataca


Penso que a casa leu o meu post anterior. Acaba de contra-atacar com a tampa de vidro do tacho - caiu no chão, partiu-se em mil bocados um dos quais fez ricochete e se enterrou vingativamente pela minha desnuda canela adentro, fazendo uma cratera de dimensões consideráveis.
A Christine do Carpenter era uma brincalhona ao pé deste apartamento. Que nome lhe porei?

20 junho 2006

A casa

O que se faz quando a própria casa nos quer expulsar?

Primeiro atacou-me fisicamente.

Começou com uma queimadura de 3º grau nos nós dos dedos da mão direita. Era o meu primeiro jantar de família na casa nova, fiz bacalhau no forno. Para ver se já estava pronto enfiei a mão mal protegida por uma pega, toquei com os dedos na grelha e por uma qualquer força misteriosa não os tirei durante uns belos segundos. Ainda tenho as marcas.

Depois, foi com sangue. Estava a lavar um pirex; bem sei, já tinha uma racha, mas eu tenho muita dificuldade em deitar coisas fora, achei que ainda podia servir para qualquer coisinha. A esfregar com mais intenção um bocado de esturricado, a coisa partiu-se enfiando-se pela base do meu polegar adentro. Não doeu muito, mas fiquei fascinada por ter sido apresentada ao interior da minha carne, não sabia que tinha tanta até chegar ao osso.

Como tenho uma veia de rambo, decidi cozer-me eu mesma em casa. Rambo sim, mas pós-moderna, usei daqueles pontos da farmácia. Andei assim durante duas semanas, e ainda tenho a cicatriz a quem quiser desafiar a veracidade da história.

Verificando a casa que eu sou resiliente, apesar de tudo comprei a casa, pago o condomínio e os impostos, não é uma queimadura ou um naco de carne a menos que me vão fazer desistir, atacou com animais.

Timidamente umas formigas apareceram. Eliminando fontes de alimentação exteriores, e à conta de muita sapatada, lá se foram embora.

Chegaram então os pombos, que encontraram maneira de se infiltrarem no meu sótão, onde creio abriram um bordel para aves. Um dia acordei com um barulho semelhante a um insuficiente respiratório em clímax contínuo e desesperado. Depois de perceber que não era nenhum vizinho à beira da morte tentei voltar a dormir.

Vendo que tão pouco esta estratégia resultava, vieram os ratos que devem ter comido os pombos (ou então os ditos perderam as asas, à conta de tanta actividade reprodutora). Em vez de sentir um esvoaçar ocasional por cima da minha cabeça, tenho agora corridas a passinhos pequenos e rápidos. Ao menos são mais silenciosos nos seus momentos de amor.

Se tal não bastasse, a casa enviou-me bichos de prata. No início pensei que fossem pequenas baratas, que se iriam embora com a sapatada ocasional (se funcionou com as formigas, que são mais inteligentes, também havia de funcionar com estes). Mas os brutos não se moveram. Usei umas casinhas de insecticida, que me diziam ser ideais para o efeito, mas eles gostaram tanto delas que constituíram família lá dentro e tudo; pensariam eles que era o seu Versalhes pessoal?

Ataquei com uma coisa chamada biokill, mas parece que eles gostam tanto daquilo como a minha irmã de sumol de ananás.

Ainda andamos em luta. Qualquer dia começam eles a escrever no blogue.