31 março 2010

Não tocar

boa tarde senhoras e senhores, meninos e meninas, tomem os vossos lugares e preparem-se para ver o único o fabuloso o internacionalmente reconhecido espectáculo das maiores bolas de sabão do mundo. 
Pedimos que guardem o silêncio e a distância, o artista precisa de absoluta concentração para criar as formas efémeras que vos irão prender na próxima hora. Lembramos o estimável público que os aplausos só são permitidos no final do espectáculo, pois toda a movimentação de ar pode encerrar perigo.
Respirem devagar, prendam as mãos e lembrem-se que é proibido tocar nas bolas que irão flutuar pela sala.
Desejamos a todos um bom espectáculo.

é hoje

30 março 2010

Once i had a farm in Africa

Começa assim o livro de Karen Blixen.

Durante muitos anos, acreditei neste mantra, até perceber - finalmente - que podia conquistar o mundo inteiro. Intacto, Inteiro. Só meu.

Entre a minha cabeça, pousada nessa almofada, e o resto dos lençois que me cobrem.

No metro

Viagem de metro, de olhos fechados à espera da estação onde sairei. Tocam-me no braço. Abro os olhos e um homem põe-me na mão um cartão de visita.
- Cê quer ir no cinema hoje?
- Obrigada, mas não posso.
- E amanhã?
- Obrigada, mas já tenho coisas combinadas.
O cartão, de uma empresa, tem escrito a caneta o nome do homem: João Neves Eng (será Eng da parte da mãe ou do pai?)
Duas ou três frases de cortesia, fecho os olhos. Tocam-me de novo no braço.
- E um gelado hoje? Cê não quer não?

Cá para mim ando a destilar mel. Ou então chegou a primavera.

Sai daqui e já!

Hoje acordei inquieta.
Inquieta, insatisfeita, angustiada, descontente e pensar que raio de sentido irei dar a tudo isto.
Quero vomitar, quero vomitar-te de dentro de mim.
Arrancar-te do meu peito, fazer-te mal,cuspir-te, humilhar-te, ignorar-te.
Odeio-te. Odeio-te com todas as forças que tenho dentro.
Metes-me nojo e odeio pensar em ti ao acordar e odeio pensar em ti antes de adormecer.
Odeio-te tanto e odeio ainda mais odiar-te porque o que eu queria mesmo era nem querer saber de ti, era seres-me completamente indiferente, era estar-me verdadeiramente a cagar.
Fujo, fujo de ti em todos os cantos desta cidade e isso irrita-me.
Estou inquieta porque sei que mais tarde ou mais cedo te vou encontrar e o meu coração vai disparar e eu não quero. Não te quero. Não te quero porra, quantas vezes tenho de me dizer isto. n-ã-o-t-e-q-u-e-r-o-p-a-r-a-n-a-d-a!
Sai, sai daqui. Vai para longe, sai do meu corpo, da minha cabeça e do meu coração.
Sai ou corro contigo ao pontapé como se fosses um cão e sarnento, como se não valesses nada, como se fosses um papel infecto que se prende ao meu sapato. Sai PORRA. Vai morrer longe, morre num sítio onde eu não te veja, onde ninguém tenha o azar de encontrar sequer os teus restos mortais que não valem para nada.
Sai daqui porra, sai daqui que eu não te quero nem de perto, muda de cidade, muda de pele eu sei lá.
Mas sai daqui, daqui de dentro que já te sinto como um hóspede chato que se instalou tempo demais no quarto que te arranjei no meu coração.
Sai daqui, por favor.
Sai daqui e não olhes nunca para trás.

29 março 2010

contabilidade

jeans novas
um par de sapatos
corte de cabelo
uma saia

ter um desgosto de amor está pela hora da morte

Maldita Primavera!

Tenho uma grande constipação,
E toda a gente sabe como as grandes constipações

Alteram todo o sistema do universo,

Zangam-nos contra a vida,

E fazem espirrar até à metafísica.

Tenho o dia perdido cheio de me assoar.

Dói-me a cabeça indistintamente.

Triste condição para um poeta menor!

Hoje sou verdadeiramente um poeta menor.

O que fui outrora foi um desejo; partiu-se.


Adeus para sempre, rainha das fadas!

As tuas asas eram de sol, e eu cá vou andando.

Não estarei bem se não me deitar na cama.

Nunca estive bem senão deitando-me no universo.


Excusez un peu... Que grande constipação física!

Preciso de verdade e da aspirina.

                                      Álvaro de Campos

Por obséquio,

Quem põe este fundo assim num rosa velho ou num verdinho? Este vermelho começa a fazer-me chorar....

27 março 2010

Dias como aquele

Uma mão no meu ombro. É uma senhora de cabelo muito preto e olhos pintados. Diz-me:
- Desculpe, mas a menina está a chorar. Não esteja triste, não chore. Vai ver que não tarda nada isso já passou.
Sorrio e tenho vergonha de estar ali sentada a chorar baixinho como se não estivesse ali. Sorrio e respondo qualquer coisa, não me lembro o quê. A mão da senhora de cabelo muito preto e olhos pintados faz-me festas no ombro e no braço.
Há dias que nunca mais acabam.

As curtas do oito aos Sábados - Nº8

Olá a todos.
A curta que hoje vos apresento, talvez já seja vossa conhecida pela força com que se insurgiu pela Internet e pela polémica que causou em inúmeros foruns nacionais e internacionais, em torno da veracidade dos acontecimentos.
O filme é de David Rebordão e foi inteiramente filmado em Sintra.

Aqui vos deixo, "ACurva"

Tenham um bom fim-de-semana!

26 março 2010

24 março 2010

Inspiração


Couve-flor. Redonda ou quase redonda, branca, com folhas verdes raidas. Pensar na forma, na cor, na textura das suas partes. 
Lembrar o cheiro da couve-flor. Quando era pequena comia-a crua. Ia até às coelheiras com a couve-flor na mão e roubava pedaços que estalavam na minha boca. Preferia roubar pedaços de cenoura, mas não resistia a provar uma e outra vez o sabor daquela coisa esquisita, uma espécie de algodão embrulhado em verde ligeiramente amargo.
Couve-flor. Tenho de concentrar-me nela, inventá-la na minha cabeça, nos meus dedos, no meu nariz. 
A couve-flor pode salvar vidas.

Momento publicitário

M18


até seres derrotado pela minha boca

23 março 2010

Se a tauromaquia é cultura, o canibalismo é gastronomia e por aí adiante...

Acabei de ler e assinar a petição online: «Contra a criação de uma secção de tauromaquia no Conselho Nacional de Cultura

http://www.peticaopublica.com/?pi=PETPPA



Venho convidar-vos a fazerem o mesmo, contra uma ministra da cultura vergonhosa, contra os atentados sistemáticos à dignidade dos animais, na Tauromaquia e no geral.

interlúdio musical

22 março 2010

a fotografia



esta fotografia é do Jerry Cooke.
mais fotografias dele no arquivo da Life, querida sem-se-ver.