Mas sim este
29 setembro 2011
28 setembro 2011
Ouvida na sala de aula
A discussão estava lançada e versava sobre as disputas meninos - meninas, direitos de ambos e deveres de cada um para consigo próprio e para com o outro. Claro está que, com 9 ou 10 anos, cada uma das partes apenas tem a dizer da outra o pior possível, recusando quase todos o simples facto de partilharem a mesa com o género oposto.
Eis que o Vasco, normalmente portador de palavra sensata, resolve dizer, alto e bom som: "Pois eu até gosto muito das meninas! E não tenho dúvida nenhuma: quando for adulto quero casar-me."
Até aqui a coisa ía, provocando muita risota e algum rubor no semblante de algumas das "fillettes" que se sentiam já visadas. O pior veio a seguir, quando o Vasco especificou:
- Quero casar-me porque quero ter alguém a fazer-me o jantarinho e a ocupar-se da cozinha e das crianças enquanto eu vejo televisão e leio o jornal.
Nesse momento, a risota foi geral e até eu não resisti. Mas no meu íntimo não deixo de pensar nesta concepção de mundo que já existe nesta verde cabecinha. Bem sei que este e outros vascos da mesma idade têm muito tempo pela frente para reformularem os seus modelos mas... será que reformulam?
Eis que o Vasco, normalmente portador de palavra sensata, resolve dizer, alto e bom som: "Pois eu até gosto muito das meninas! E não tenho dúvida nenhuma: quando for adulto quero casar-me."
Até aqui a coisa ía, provocando muita risota e algum rubor no semblante de algumas das "fillettes" que se sentiam já visadas. O pior veio a seguir, quando o Vasco especificou:
- Quero casar-me porque quero ter alguém a fazer-me o jantarinho e a ocupar-se da cozinha e das crianças enquanto eu vejo televisão e leio o jornal.
Nesse momento, a risota foi geral e até eu não resisti. Mas no meu íntimo não deixo de pensar nesta concepção de mundo que já existe nesta verde cabecinha. Bem sei que este e outros vascos da mesma idade têm muito tempo pela frente para reformularem os seus modelos mas... será que reformulam?
26 setembro 2011
Ouvido na rua
Ele: E acordaste e estavas a sonhar contigo própria?
Ela: Eu às vezes acordo e estou eu ao meu lado!
Ou isto era conversa de engate ou o meu Eu é muito mais uno e muito menos esquizóide do que eu supunha. Um daqueles momentos em que me sinto estranhamente equilibrada.
Ela: Eu às vezes acordo e estou eu ao meu lado!
Ou isto era conversa de engate ou o meu Eu é muito mais uno e muito menos esquizóide do que eu supunha. Um daqueles momentos em que me sinto estranhamente equilibrada.
17 setembro 2011
O fascinante mundo de Jack (sendo este um taxista absolutamente saudável)
(Promissora cliente tentando engolir à pressa o último pedaço do bolo de arroz antes de entrar no táxi.)
Cliente - Desculpe tê-lo feito esperar.
Jack - Sem problema. Estava com fome?
Cliente - Fome, fome... Não era fome mas sim necessidade de comer. Estava a sentir-me um bocadinho mal disposta.
Jack (interessadíssimo e mostrando-se conhecedor) - Mas tem problemas de glicémia?
Cliente - Bom, que eu saiba não. Era apenas uma fraqueza.
Jack - Eu, graças a deus, não tenho problemas nenhuns de diabetes, nem colesterol, nem hipertensão. Nada... A única coisa que tive até hoje foi uma neoplasia no intestino aos 26 anos. (cliente à rasca, sem saber o que dizer). Duma vez cortaram-me 1 metro e meio de intestino. (cliente solta um "ha ha..." só para não estar caladinha). E não faço control nenhum!
Cliente - Então mas não era melhor fazer?
Jack - O que faltava enfiarem-me um chicote deste tamanho ( gestos largos das mãos que largaram o volante), desculpe a expressão, pelo rabo acima!
Felizmente as viagens de táxi terminam mais cedo ou mais tarde e esta foi curtinha mas um bom taxista pode dar-nos a conhecer todo um mundo novo.
Cliente - Desculpe tê-lo feito esperar.
Jack - Sem problema. Estava com fome?
Cliente - Fome, fome... Não era fome mas sim necessidade de comer. Estava a sentir-me um bocadinho mal disposta.
Jack (interessadíssimo e mostrando-se conhecedor) - Mas tem problemas de glicémia?
Cliente - Bom, que eu saiba não. Era apenas uma fraqueza.
Jack - Eu, graças a deus, não tenho problemas nenhuns de diabetes, nem colesterol, nem hipertensão. Nada... A única coisa que tive até hoje foi uma neoplasia no intestino aos 26 anos. (cliente à rasca, sem saber o que dizer). Duma vez cortaram-me 1 metro e meio de intestino. (cliente solta um "ha ha..." só para não estar caladinha). E não faço control nenhum!
Cliente - Então mas não era melhor fazer?
Jack - O que faltava enfiarem-me um chicote deste tamanho ( gestos largos das mãos que largaram o volante), desculpe a expressão, pelo rabo acima!
Felizmente as viagens de táxi terminam mais cedo ou mais tarde e esta foi curtinha mas um bom taxista pode dar-nos a conhecer todo um mundo novo.
12 setembro 2011
Ter e não ter
Tenho saudades dos dias em que me sentava ao teu colo e tu, sem admitires que podíamos ser em tudo diferentes, me obrigavas a copiar de olho os desenhos das capas dos cadernos. Eram os Meninos Rabinos os das capas dos cadernos, lembras-te? E o meu insucesso estampado na tua desilusão. Tenho saudades de quando nos penteavas a preceito, a mim e à minha irmã, ou não nos penteando, e nos fotografavas enfeitadas de flores ou de colares de pedras falsas, verdes e cor de rosa.
Passaram tantos anos e tu sem nunca me dizeres "amo-te" e eu sem nunca te dizer "amo-te".
Lembro aquela vez em que não tinhas roupa lavada para que eu e a minha irmã fossemos à praia, e esta é a única explicação que aceito, e em que nos convenceste que em Espanha toda a gente ia à praia com aquela vestimenta a que nós chamávamos camisa de dormir. E fomos. Eu sempre cheia de vergonha mas fui. Só tu para me fazeres exibir uma camisa de dormir em plena Praia Grande! E depois da praia, eu invariavelmente escaldada, passavas-nos no corpo álcool canforado, com propriedades calmantes e refrescantes que só tu sabias. Porque nunca te disse, como não te disse que te amava, mas a mim pareciam-me agulhas.
Tenho saudades da tua música sempre a tocar e de saber que nunca estavas lá, de onde a música saía, porque te deslocavas como os gatos e subias as escadas sempre sem ninguém dar por isso. Se quisessemos encontrar-te, o melhor era usarmos o olfacto e detectarmos de onde vinha o cheiro a cigarros que comias e que bebias como bebias café.
Tenho saudades das tuas mãos que raramente tocaram as minhas, pelo menos não a tempo de eu o poder recordar. Mas as tuas mãos são em tudo iguais às minhas! Agarravam a vida e os livros e o volante do carro que te herdei da mesma forma que as minhas agarraram as tuas a poucos dias de desistires de me querer.
Ensinaste-me quase tudo o que sei e muito mais quiseste que eu aprendesse, sem sucesso. Mas ensinaste-me aquilo que para mim é fundamental, a lealdade.
Tenho saudades das tuas mãos que raramente tocaram as minhas, da tua música, dos teus discursos ateus viscerais, das nossas discussões por convicções diversas, das vezes em que não me disseste que me amavas e das vezes em que, a caminho do fim, eu tive coragem de te chamar "nomes maricas" e de te dizer "amo-te".
Tenho saudades tuas, pai.
Passaram tantos anos e tu sem nunca me dizeres "amo-te" e eu sem nunca te dizer "amo-te".
Lembro aquela vez em que não tinhas roupa lavada para que eu e a minha irmã fossemos à praia, e esta é a única explicação que aceito, e em que nos convenceste que em Espanha toda a gente ia à praia com aquela vestimenta a que nós chamávamos camisa de dormir. E fomos. Eu sempre cheia de vergonha mas fui. Só tu para me fazeres exibir uma camisa de dormir em plena Praia Grande! E depois da praia, eu invariavelmente escaldada, passavas-nos no corpo álcool canforado, com propriedades calmantes e refrescantes que só tu sabias. Porque nunca te disse, como não te disse que te amava, mas a mim pareciam-me agulhas.
Tenho saudades da tua música sempre a tocar e de saber que nunca estavas lá, de onde a música saía, porque te deslocavas como os gatos e subias as escadas sempre sem ninguém dar por isso. Se quisessemos encontrar-te, o melhor era usarmos o olfacto e detectarmos de onde vinha o cheiro a cigarros que comias e que bebias como bebias café.
Tenho saudades das tuas mãos que raramente tocaram as minhas, pelo menos não a tempo de eu o poder recordar. Mas as tuas mãos são em tudo iguais às minhas! Agarravam a vida e os livros e o volante do carro que te herdei da mesma forma que as minhas agarraram as tuas a poucos dias de desistires de me querer.
Ensinaste-me quase tudo o que sei e muito mais quiseste que eu aprendesse, sem sucesso. Mas ensinaste-me aquilo que para mim é fundamental, a lealdade.
Tenho saudades das tuas mãos que raramente tocaram as minhas, da tua música, dos teus discursos ateus viscerais, das nossas discussões por convicções diversas, das vezes em que não me disseste que me amavas e das vezes em que, a caminho do fim, eu tive coragem de te chamar "nomes maricas" e de te dizer "amo-te".
Tenho saudades tuas, pai.
15 agosto 2011
e amiga
Soneto do amigo, Vinicius de Moraes, saravah!
Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.
É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.
Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.
O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...
Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.
É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.
Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.
O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...
03 agosto 2011
foi você que pediu
uma máquina de lavar azul? e para quê azul se a imaginação é o limite para a sua máquina? saiba mais aqui
23 julho 2011
09 julho 2011
04 julho 2011
i just can't get enough
Finalmente encontrei a autocaravana, depois de muitos anúncios e telefonemas. Mas nem aqui me safei de burocracias. As autocaravanas precisam de seguros. Os seguros são caros. Através do clube português de autocaravanismo consegui chegar a um seguro razoável, que não me deixa sem dinheiro para o gasóleo. Fiz-me sócia. E o grande momento chegou:
"Companheira oito e coisa,
Acusamos a recepção da sua candidatura a sócia do C.P.A.
Foi-lhe atribuído provisoriamente o nº 1234.
Após aprovação formal em reunião de Direcção, enviaremos toda a sua documentação.
Ao dispor, Saudações Autocaravanistas"
Oh a infinita glória de ser autocaravanista.
03 julho 2011
brisa
Recordo o prazer daqueles dias em dormia na casa dos meus avós, aqueles dias que se sabiam iguais, em que o tempo era diferente do tempo da escola ou dos fins de semana. Era aquele prazer que sentia ao acordar com o canto do galo tediboy, despedir o meu avô que saía logo cedinho para trabalhar e ficar só eu e a minha avó a fazer as rotinas da vida: dar dois biscoito ao cão da vizinha acompanhados de umas palavras meiguinhas, recolher o ovo quentinho da galinha e fazer uma gemada com pao e ovomaltine, tratar dos animais, as rendas e os bordados, o repassar vezes sem conta o enxoval já preparado para um futuro que levaria muitos anos a chegar, o descobrir uma e outra vez os jogos de madeira que o meu avô guardava como a um tesouro, escondidos sempre no mesmo sítio, usados e voltados a guardar, com cumplicidade e respeito. Foram momentos que deixaram de repetir-se há muitas vidas atrás mas que ao recordá-los parecem atravessar-me de novo vindos de lá muito atrás para dizer, presente!
retroprospectiva
Ah que saudades do tempo em que a oito pendurava frequentemente posts fresquinhos aqui neste lençol, das descriçoes das casas habitadas por bichos e quem sabe que mais, das histórias de videntes em istambul ou do rapaz que comia sapos (ou seria lagartos?), de quando se brincava aos amores ou se escrevia ao desafio, se debatiam opinioes e havia comentários sérios, divertidos ou fora de tom. Que saudades do tempo em que isto nao era um velho café abandonado onde se vêm cá guardar umas coisas porque nao se sabe muito bem onde pô-las. Qualquer dia falo com as minhas sócias a ver se damos aqui uma limpeza, pomos um letreiro na porta, vendemos isto a um milionário japonês e vamos todas de férias conhecer as maravilhas do caribe.
30 junho 2011
Dificuldades:
nao saber o que fazer com a constataçao de que as mulheres fomos ensinadas desde pequenas a desconfiar à partida e à chegada, de TODOS os homens e ao mesmo tempo, a encontrar UM a quem amar perdidamente e ser alma sangue e vida em ti e dizê-lo cantando a toda a gente. E em nesse um cai toda a responsabilidade de nao ser igual a todos os seus outros semelhantes, ao mesmo tempo que, nao se aceita muito bem se ele for de facto muito diferente, de modos que assim é, assim como assim nao somos muitxs aqui por estes bandas, aproveito e venho cá estender uma posta de pescada neste céu azul, com aquel sol de maos lá em cima, antes que venha chuva.
27 junho 2011
Conversas cheias de passado, presente e futuro
A rapariga até já nem era uma catraia. Talvez uns 30 anos. Mostrava-se indignada e gesticulava enquanto, sentada na esplanada, discursava para o telemóvel. Quando passei, não pude deixar de ouvir: "tu, no dia em que souberes cativar uma mulher...!" e insistia, não fosse ele ser surdo, ´"siiiiiim, no dia em que souberes ca-ti-var. Ouviste bem?".
Eu não quis ouvir mais mas não consegui conter uma gargalhada. Ca-ti-var. Há homens que sabem, mas aqueles que não sabem também não acredito que venham a sabê-lo.
Eu não quis ouvir mais mas não consegui conter uma gargalhada. Ca-ti-var. Há homens que sabem, mas aqueles que não sabem também não acredito que venham a sabê-lo.
24 junho 2011
Ora aqui segue uma anedota de salão, que fica sempre bem
Casal supé-queque discutindo organização da vida semanal de recém casados:
-Olhe, Kiki, há certas rotinas a que, a partir de agora, a menina tem de se habituar. À segunda e à quarta feira eu jogo golfe com a rapaziada da empresa; à terça reunimo-nos sempre para uma prova de vinhos; à quinta tenho uns amigos com quem pratico ténis; e à sexta é quando jogo umas cartadas de póquer. Ao fim de semana eu e a menina podemos então passear e dedicarmo-nos às nossas actividades como casal.
- Certo, amor. Em contrapartida também tenho umas actividades de que não abdico: às segundas, quartas e sextas fode-se nesta casa. Quem está, está. Quem não está, estivesse.
-Olhe, Kiki, há certas rotinas a que, a partir de agora, a menina tem de se habituar. À segunda e à quarta feira eu jogo golfe com a rapaziada da empresa; à terça reunimo-nos sempre para uma prova de vinhos; à quinta tenho uns amigos com quem pratico ténis; e à sexta é quando jogo umas cartadas de póquer. Ao fim de semana eu e a menina podemos então passear e dedicarmo-nos às nossas actividades como casal.
- Certo, amor. Em contrapartida também tenho umas actividades de que não abdico: às segundas, quartas e sextas fode-se nesta casa. Quem está, está. Quem não está, estivesse.
22 junho 2011
rame rame
É estranho, sinto-me estranhamente próxima dele e muito muito distante. Ele diz que me ama, me quer e me deseja. Eu acho que ele me ama porque me deseja. Da minha parte acho que nao o desejo porque ainda nao sei se o posso voltar a amar.
O melhor seria cortar com isto de uma vez por todas em vez de andar aqui no rame rame, mas acho que tenho medo que a dinâmica de relacao dele com o filho ainda nao esteja resolvida, ou entao é mesmo a nossa dinamica que ainda nao está resolvida, e eu acho que se eu disser que nao quero nada com ele, ele pode abandonar o filho que tanto o adora.
Se assim é, eu devia era dar-lhe um par de patins já.
Mas também nao é bem isso, já nao sei o que sao os meus medos e o que sao as possibilidades reais, nao sei.
Como eu gostava de me abrir às pessoas, ao mundo a mim mesma, abrir o coraçao em vez de insistir em ser a minha própria carcereira.
O melhor seria cortar com isto de uma vez por todas em vez de andar aqui no rame rame, mas acho que tenho medo que a dinâmica de relacao dele com o filho ainda nao esteja resolvida, ou entao é mesmo a nossa dinamica que ainda nao está resolvida, e eu acho que se eu disser que nao quero nada com ele, ele pode abandonar o filho que tanto o adora.
Se assim é, eu devia era dar-lhe um par de patins já.
Mas também nao é bem isso, já nao sei o que sao os meus medos e o que sao as possibilidades reais, nao sei.
Como eu gostava de me abrir às pessoas, ao mundo a mim mesma, abrir o coraçao em vez de insistir em ser a minha própria carcereira.
Receita de mulher
As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança,
qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize
elegantemente em azul,
como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso
que súbito tenha-se a
impressão de ver uma
garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só
encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas
que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso,
é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que
umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como no âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos então
Nem se fala, que olhe com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas,
e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras:
uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável.
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mas que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas que haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto, sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!).
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser frescas nas mãos, nos braços, no dorso, e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37 graus centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se fechar os olhos
Ao abri-los ela não estará mais presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.
Vinícius de Moraes
As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança,
qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize
elegantemente em azul,
como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso
que súbito tenha-se a
impressão de ver uma
garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só
encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas
que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso,
é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que
umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como no âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos então
Nem se fala, que olhe com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas,
e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras:
uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável.
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mas que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas que haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto, sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!).
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser frescas nas mãos, nos braços, no dorso, e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37 graus centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se fechar os olhos
Ao abri-los ela não estará mais presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.
Vinícius de Moraes
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