30 setembro 2007
Receita
Para harmonizar sentimentos que pululam como pipocas na panela: ponha o volume no máximo, levante-se da cadeira, vá respirando lentamente enquanto a música não desenvolve e depois, à medida que, dance, dance desenfreadamente, faça moche com as cadeiras, com o sofá, com o cabide da entrada, com a porta da casa de banho, com o tecto, evitando as arestas:
Quando terminar, respire outra vez fundo, beba dois goles de água e veja o vídeo.
Fica-se como nova!
Quando terminar, respire outra vez fundo, beba dois goles de água e veja o vídeo.
Fica-se como nova!
A bola é redonda, tudo pode acontecer
Sábado à tarde, chuva incessante, dia de derby nacional, bilhetes para a catedral para toda a família benfiquista. Toda? Bem, quase toda. Existe uma criança que resiste ainda e sempre à febre genética pelos encarnados, e num acesso de personalidade consegue enervar toda a gente insistindo em ser sportinguista. Decidimos mesmo assim levá-lo connosco ao futebol.
Todos exibimos os nossos cachecóis com águias, o pequeno infante leva um leão na sua. Não há de ser nada. Chegamos aos lugares marcados, que isto de ir ao estádio já não é o que era, os lugares são reservados e nos inúmeros bares à escolha lá dentro até há sandes de queijo da serra ou de paio de porco preto, os couratos já devem ter dado a alma ao criador, sentamo-nos mesmo em frente à bandeirola de canto. Que emoção, com sorte vemos o golo da vitória em primeiro plano, ao vivo e a cores.
Um rapaz aproxima-nos para nos dar um conselho: é melhor que o miúdo esconda o cachecol verde, vá-se lá saber porquê sentaram-nos ao lado (mas mesmo ao lado, quase ao colo) dos Diabos Vermelhos, que ainda na semana passada ameaçaram de pancada uma mulher que era da equipe contrária e que teve o azar de se sentar perto deles. Um dos stewards vem-nos dizer a mesma coisa. Eu, que já não ia muito feliz para um sítio com milhares de pessoas potencialmente agressivas, começo a hiperventilar. Como se não bastasse, a Juve Leo está posicionada no outro canto da mesma baliza, a acicatar as almas que foram chegando para ocupar o sítio da claque. Aquela gente nem está interessada no jogo, vêem já ébrios destilar o seu fel do dia a dia para um alvo de cor diferente. As massas acéfalas assustam-me de morte.
Ajudadas pela chuva que nos encharca, tentamos procurar um sítio mais tranquilo para ver o jogo com a criança. No meio disto, tentamos explicar a uma inocente criatura de 7 anos que há gente que nos pode fazer mal apenas porque ele gosta da equipe contrária. A natureza humana é tramada.
Depois de muitas voltas e indecisões, descobrimos finalmente um sítio onde parecemos a salvo. Por incrível que pareça, o oásis estava entre as duas claques, que se coibiram de nos brindar com granadas de ataque e defesa por cima das nossas cabeças.
Duas filas atrás de nós estavam 3 mulheres sentadas, vestidas de encarnado dos pés à cabeça. Gritavam e berravam os maiores impropérios aos jogadores do sporting. O miúdo, espantadíssimo, olhava para elas que lhe iam repetiam "oh amor tu não oiças isto", "oh amor, isto não é para repetires", enquanto para baixo atiravam "oh palhaço, a multiópticas já dá desconto igual ao da idade" "Cabrão, cona da mãe, a tua avó nunca devia ter nascido!" "Liedson, devias era partir uma perna, paneleiro de merda", pontuado com "ai se a minha mãezinha me ouvisse". O estímulo aos jogadores preferidos também era bom de ouvir "Luisão, seu cabeçudo, a tua cabeça vale ouro" "ah grande Quim, anda cá que eu já te conto". Enquanto isso, Di Maria insistia em não acertar.
No final de contas, a batatada maior a que assistimos foi em campo, mesmo à nossa frente que tivemos a sorte de ver que a bola bateu no ombro do Katsouranis e toda a gente pedia penalti sem se perceber porquê. Até o santo do Rui (por esse gritava eu) se meteu ao bedelho.
Pouco depois houve finalmente um lance que ia dando golo ao Sporting. O miúdo já pensando que não sofreria sevícias, não se controlou e gritou "GOLO!". Viraram-se centenas de cabeças para ver quem era o anormal. A nossa sorte foi ter sido apenas falso alarme.
Viemos embora, incólumes mas pouco satisfeitos com o resultado. No carro ouvimos os comentários na TSF. Veio-me à memória uma tirada de um vizinho de cativo de há uns anos atrás, que no final de um jogo exclamou, batendo com as mãos na barriga, "aaah, agora vou para casa, comer que nem um porco e ver os resumos todos". Burp.
Todos exibimos os nossos cachecóis com águias, o pequeno infante leva um leão na sua. Não há de ser nada. Chegamos aos lugares marcados, que isto de ir ao estádio já não é o que era, os lugares são reservados e nos inúmeros bares à escolha lá dentro até há sandes de queijo da serra ou de paio de porco preto, os couratos já devem ter dado a alma ao criador, sentamo-nos mesmo em frente à bandeirola de canto. Que emoção, com sorte vemos o golo da vitória em primeiro plano, ao vivo e a cores.
Um rapaz aproxima-nos para nos dar um conselho: é melhor que o miúdo esconda o cachecol verde, vá-se lá saber porquê sentaram-nos ao lado (mas mesmo ao lado, quase ao colo) dos Diabos Vermelhos, que ainda na semana passada ameaçaram de pancada uma mulher que era da equipe contrária e que teve o azar de se sentar perto deles. Um dos stewards vem-nos dizer a mesma coisa. Eu, que já não ia muito feliz para um sítio com milhares de pessoas potencialmente agressivas, começo a hiperventilar. Como se não bastasse, a Juve Leo está posicionada no outro canto da mesma baliza, a acicatar as almas que foram chegando para ocupar o sítio da claque. Aquela gente nem está interessada no jogo, vêem já ébrios destilar o seu fel do dia a dia para um alvo de cor diferente. As massas acéfalas assustam-me de morte.
Ajudadas pela chuva que nos encharca, tentamos procurar um sítio mais tranquilo para ver o jogo com a criança. No meio disto, tentamos explicar a uma inocente criatura de 7 anos que há gente que nos pode fazer mal apenas porque ele gosta da equipe contrária. A natureza humana é tramada.
Depois de muitas voltas e indecisões, descobrimos finalmente um sítio onde parecemos a salvo. Por incrível que pareça, o oásis estava entre as duas claques, que se coibiram de nos brindar com granadas de ataque e defesa por cima das nossas cabeças.
Duas filas atrás de nós estavam 3 mulheres sentadas, vestidas de encarnado dos pés à cabeça. Gritavam e berravam os maiores impropérios aos jogadores do sporting. O miúdo, espantadíssimo, olhava para elas que lhe iam repetiam "oh amor tu não oiças isto", "oh amor, isto não é para repetires", enquanto para baixo atiravam "oh palhaço, a multiópticas já dá desconto igual ao da idade" "Cabrão, cona da mãe, a tua avó nunca devia ter nascido!" "Liedson, devias era partir uma perna, paneleiro de merda", pontuado com "ai se a minha mãezinha me ouvisse". O estímulo aos jogadores preferidos também era bom de ouvir "Luisão, seu cabeçudo, a tua cabeça vale ouro" "ah grande Quim, anda cá que eu já te conto". Enquanto isso, Di Maria insistia em não acertar.
No final de contas, a batatada maior a que assistimos foi em campo, mesmo à nossa frente que tivemos a sorte de ver que a bola bateu no ombro do Katsouranis e toda a gente pedia penalti sem se perceber porquê. Até o santo do Rui (por esse gritava eu) se meteu ao bedelho.
Pouco depois houve finalmente um lance que ia dando golo ao Sporting. O miúdo já pensando que não sofreria sevícias, não se controlou e gritou "GOLO!". Viraram-se centenas de cabeças para ver quem era o anormal. A nossa sorte foi ter sido apenas falso alarme.
Viemos embora, incólumes mas pouco satisfeitos com o resultado. No carro ouvimos os comentários na TSF. Veio-me à memória uma tirada de um vizinho de cativo de há uns anos atrás, que no final de um jogo exclamou, batendo com as mãos na barriga, "aaah, agora vou para casa, comer que nem um porco e ver os resumos todos". Burp.
29 setembro 2007
Once in a lifetime
Andava eu por aqui e por aqui , quando tropecei nesta notícia e respectivo vídeo.
E não é que, pela primeira vez na vida, estou de acordo com qualquer coisa que Pedro Santana Lopes disse e/ou fez? Foi-se embora? Não quis falar mais? Fez muito bem. A SIC esteve mal, atropelando princípios básicos de educação e de respeito. Nem que seja para (não) entrevistar o 'the special one'. Ou o papa. Ou o zé dos plásticos.
(e acabei de saber agora mesmo, pela mesma SIC, que Luís Filipe Menezes sucede a Marques Mendes na liderança do PSD. Com a possibilidade de Santana Lopes se candidatar à liderança parlamentar. Parece que Pacheco Pereira está muito melindrado. É ir aos respectivos blogues e confirmar como vão os moods.)
Ordem e desordem

Eu sei que este meu desabafo perto deste é coisa pouca, de qualquer modo não posso deixar de me manifestar. Eu explico: durante 3 semanas a minha vida foi uma não-vida. Isto é, nada mais fiz do que trabalhar numa rotina que era muito simples: acordar alvoraçada pelo despertador, pensar 'bem que dormia ainda mais umas horas', tomar banho, vestir, bater a porta, trabalhar, trabalhar, trabalhar com um dealine a pesar mais que a excalibur em cima da cabeça.
Durante 3 semanas assim foi, o tal do deadline ocupava todo o espaço da minha mente, da minha vida, do meu tempo. Felizmente, o famigerado dia chegou, o deadline foi cumprido e lá recuperei a minha vida. Pensei então: aaaaaah! agora é que vai ser aproveitar o tempo e a vida que me foram devolvidos! Nessa mesma noite fui sair, assisti um qualquer espectáculo, jantei fora, bebi uns canecos. No dia a seguir acordei à hora que o meu corpo julgou necessário.
Sábado início de tarde - olho em volta e vejo a casa de pantanas, como já não tinha memória. Deve ser falta de cafeína, vou fazer um café, é isso, não pode estar assim tão mal. Pego na cafeteira que tem uma crosta preta agarrada ao fundo. Ok, toca de a esfregar. O café pinga e eu começo a vislumbrar a dimensão da entropia que se instalou no meu cubiculum vitae: pilhas de jornais espalhados por todo o lado, louça e mais louça por lavar, lixo cheio... Abro o frigorífico e julgo ver um alien lá dentro. Fecho-o horrorizada, mas como preciso do que lá está, resolvo fazer a limpeza necessária. O conteúdo do frigorífico vai na sua grande maioria para o lixo, resolvo atar o saco bem atado, não vá ele ganhar pernas e andar.
Sento-me com o café na mão e olho para o chão: vejo novelos de cotão, migalhas, sapatos por todo o lado, roupa, livros. As minhas probres plantas que olham murchamente para mim. Hummmm... Começo a recolher tudo, a arrumar, a limpar, a lavar...
4 horas depois - a casa está mais ou menos decente, já fiz 3 máquinas de roupa. O tempo colabora, ao menos isso. Agora tenho que ir à compras e adquirir o que me falta, deve haver uma conspiração qualquer, invariavelmente a pasta-de-dentes terminha na mesma altura que o detergente para a louça, assim como o amaciador do cabelo, entre outros. Já para não falar na comida que é inexistente, aprodreceu ou ganhou nova vida. Saio de casa e vou para uma grande superfície. Uau! Programão para um sábado à tarde...
2 horas depois, regresso do hiper. Toca a arrumar tudo. Entretanto, decido tomar banho e descubro que a minha roupa ou está suja, ou por secar ou então - pior! - por passar.
4 horas a passar roupa a ferro. Não existe tarefa mais inglória que esta. Decidi abolir as camisas do meu vestuário.
Faço o jantar e acabo o dia mais exausta que qualquer um dos 21 dias que trabalhei ininterruptamente.
Se a minha vida regressa desta forma, então quero a minha não-vida de volta.
Durante 3 semanas assim foi, o tal do deadline ocupava todo o espaço da minha mente, da minha vida, do meu tempo. Felizmente, o famigerado dia chegou, o deadline foi cumprido e lá recuperei a minha vida. Pensei então: aaaaaah! agora é que vai ser aproveitar o tempo e a vida que me foram devolvidos! Nessa mesma noite fui sair, assisti um qualquer espectáculo, jantei fora, bebi uns canecos. No dia a seguir acordei à hora que o meu corpo julgou necessário.
Sábado início de tarde - olho em volta e vejo a casa de pantanas, como já não tinha memória. Deve ser falta de cafeína, vou fazer um café, é isso, não pode estar assim tão mal. Pego na cafeteira que tem uma crosta preta agarrada ao fundo. Ok, toca de a esfregar. O café pinga e eu começo a vislumbrar a dimensão da entropia que se instalou no meu cubiculum vitae: pilhas de jornais espalhados por todo o lado, louça e mais louça por lavar, lixo cheio... Abro o frigorífico e julgo ver um alien lá dentro. Fecho-o horrorizada, mas como preciso do que lá está, resolvo fazer a limpeza necessária. O conteúdo do frigorífico vai na sua grande maioria para o lixo, resolvo atar o saco bem atado, não vá ele ganhar pernas e andar.
Sento-me com o café na mão e olho para o chão: vejo novelos de cotão, migalhas, sapatos por todo o lado, roupa, livros. As minhas probres plantas que olham murchamente para mim. Hummmm... Começo a recolher tudo, a arrumar, a limpar, a lavar...
4 horas depois - a casa está mais ou menos decente, já fiz 3 máquinas de roupa. O tempo colabora, ao menos isso. Agora tenho que ir à compras e adquirir o que me falta, deve haver uma conspiração qualquer, invariavelmente a pasta-de-dentes terminha na mesma altura que o detergente para a louça, assim como o amaciador do cabelo, entre outros. Já para não falar na comida que é inexistente, aprodreceu ou ganhou nova vida. Saio de casa e vou para uma grande superfície. Uau! Programão para um sábado à tarde...
2 horas depois, regresso do hiper. Toca a arrumar tudo. Entretanto, decido tomar banho e descubro que a minha roupa ou está suja, ou por secar ou então - pior! - por passar.
4 horas a passar roupa a ferro. Não existe tarefa mais inglória que esta. Decidi abolir as camisas do meu vestuário.
Faço o jantar e acabo o dia mais exausta que qualquer um dos 21 dias que trabalhei ininterruptamente.
Se a minha vida regressa desta forma, então quero a minha não-vida de volta.
Coisas de óptica
Depois de muito pensar e desejar, há uma semana mudei-me com a família para tentarmos melhor sorte no trabalho, no estudo e na vida. Lisboa ficou para trás e viemos para uma nova cidade, Barcelona. Só tinha estado cá um dia há muitos anos atrás, quando os meus estudantes da altura me convenceram a acompanhá-los a uma viagem de finalistas. Nessa altura tive a sensação de que era uma cidade em que um dia gostaria de viver. Hoje pergunto-me que raio me terá levado a pensar e a convencer-me disso. Por agora, os meus olhos vêm o brilho que Barcelona não tem comparativamente com Lisboa e vêm a falta do encanto que Bogotá e a Colômbia tinham. Por agora, só vejo uma cidade cheia de turistas que pululam sozinhos, aos pares ou aos montes por toda a cidade. Vejo pessoas daqui que fazem as suas vidas, de uma forma mais ruidosa que nós mas menos alegre que na Colômbia, e que hesitam entre a receptividade aos que não são daqui e a desconfiança e certeza de que o multiculturalismo e a emigração estão a ameaçar as suas vidas e a sua tão valorada identidade cultural. E vou-me encontrando com pessoas que me fazem sentir em casa, dispostas a dar uma ajuda, atenção, um sorriso, um desconto no balão comprado no parque ao conterrâneo que já cá está há 13 anos. Em geral, essas pessoas são brasileiras, portuguesas, galegas ou colombianas.
Acho que tenho de mudar a graduação destes óculos para ver se corrijo a miopia...
Remember my name

Vi este senhor pela primeira vez esta noite, mas creio bem será coisa para se repetir amiúde nos próximos tempos. O senhor que era até ontem mais conhecido pelos cidadãos de Ílhavo como o seu presidente da câmara (também responsável pela administração geral, recursos humanos, cultura, saúde, planeamento e ordenamento da cidade) é o porta-voz de Luís Filipe Menezes.
Eu via-o impante a falar e no meio dos substantivos e predicados parecia-me estar perante uma caricatura em vez de uma pessoa. Uma espécie de Santana Lopes mais feio e com defeito na fala. Isto vai ser um pagode para os comediantes com talento em Portugal.
Ribau Esteves de sua graça.
28 setembro 2007
Ainda o portão da escola
- Hoje houve um menino que gozou comigo, mãe. Chateou-me por causa dos meus dentes.
- Para a próxima, diz-lhe que vá chatear o Camões.
- O Camões não, mãe. É um poeta.
27 setembro 2007
Dúvida sobre o amor moderno
Antes, escreviam-se carta de amor, bilhetes escondidos à espera da surpresa e da alegria de serem descoberto. Hoje, escrevem-se sms, mails, mensagens no msn.
Antes, o amor era tendencialmente eterno. Hoje, o amor tendencialmente só é eterno enquanto dura.
Antes, se o (n)amor(o) acabava, devolviam-se as cartas e os bilhetes, devolvendo ao outro parte de si, da sua dignidade e privacidade. Hoje faz-se o quê? Um mail a fazer fwd dos mails e msn´s e a dizer que a pasta onde eles estavam vai ser apagada, que os sms vão pelo mesmo caminho e que, já a seguir, se vai apagar o próprio mail dos "sent items"?
26 setembro 2007
Insólito ignoto
Fritz* tinha tudo previsto. De noite não estava ninguém no consultório médico, escalaria a parede do prédio e entraria pelo tecto. Arrepanharia o dinheiro e material que encontrasse e sairia sem que ninguém desse por ele. O crime perfeito, que segundo Hitchcock acontece todos os dias.
Como alemão organizado que se preze, apetrechou-se correctamente. Calças e camisola preta, botas de escalada, mochila, cordas, arnês. Foi dura a subida, mas conseguiu atingir o 2º andar do edifício usando a sua destreza e força física, no auge dos seus 41 anos, qual Cary Grant. Preparou-se então para encontrar o melhor sítio para furar o chão e assim passar pelo tecto do consultório almejado, mas estava na sua noite de sorte: havia uma janela. Perfeito, pensou certamente, assim nem tenho de fazer barulho nem sujar nada. Abriu-a e fez-se baixar com elegância com uma corda como Tom Cruise e aterrou na sala debaixo sem fazer ruído.
Em vez dos apetrechos médicos soou um alarme inesperado e em poucos segundos viu-se rodeado de inúmeros polícias.
Como alemão organizado que se preze, apetrechou-se correctamente. Calças e camisola preta, botas de escalada, mochila, cordas, arnês. Foi dura a subida, mas conseguiu atingir o 2º andar do edifício usando a sua destreza e força física, no auge dos seus 41 anos, qual Cary Grant. Preparou-se então para encontrar o melhor sítio para furar o chão e assim passar pelo tecto do consultório almejado, mas estava na sua noite de sorte: havia uma janela. Perfeito, pensou certamente, assim nem tenho de fazer barulho nem sujar nada. Abriu-a e fez-se baixar com elegância com uma corda como Tom Cruise e aterrou na sala debaixo sem fazer ruído.
Em vez dos apetrechos médicos soou um alarme inesperado e em poucos segundos viu-se rodeado de inúmeros polícias.
Havia-se enganado na planta do edifício, em vez do consultório entrou por uma sala de interrogatórios da esquadra de polícia de Ludwigshafen.

Strange but true, for truth is always strange. Stranger than fiction. (Lord Byron)
* nome fictício, assim como todos os detalhes.
Bons encontros
Estava eu deambulando pela blogosfera quanto tive um bom encontro:
"Quem me dera ouvir de alguém uma voz humana, que confessasse não um pecado, mas uma infâmia, que contasse, não uma violência, mas uma cobardia! Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam."
Álvaro de Campos
"Quem me dera ouvir de alguém uma voz humana, que confessasse não um pecado, mas uma infâmia, que contasse, não uma violência, mas uma cobardia! Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam."
Álvaro de Campos
E mais nada!
A propósito da posta Augúrios, lá mais abaixo que termina com a espantosa frase "viver mata" e de uma t-shirt que vi ontem a dizer exactamente o mesmo.
Pois é sim senhora! Viver mata, a vida é uma doença crónica. Agora experimentem lá morrer sem estar vivos, não dá, é condição para morrer o estar vivo. Não há cá segundas hipóteses. Pois é, como faço para fugir da morte? mato-me?
Da mesma forma que experimentar viver estando mortos é outra grande chatice, clinicamente possível mas uma complicação com mazelas imprevistas.
Não dá, ponto final. O melhor é mesmo curtir a vida e o resto é conversa.Pois é sim senhora! Viver mata, a vida é uma doença crónica. Agora experimentem lá morrer sem estar vivos, não dá, é condição para morrer o estar vivo. Não há cá segundas hipóteses. Pois é, como faço para fugir da morte? mato-me?
Da mesma forma que experimentar viver estando mortos é outra grande chatice, clinicamente possível mas uma complicação com mazelas imprevistas.
Desculpem lá, é que tem dias que uma pessoa acorda assim optimista. E além disso, as árveres somos nozes, olha que porra!
24 setembro 2007
Pena de Morte II
Tenho uma pena de morte por ter feito algumas das coisas que fiz.
Morro de pena por não ter feito outras.
Se a pena matasse, eu tinha a pena de morte.
Palavras sabias do Rafael
O Rafael tem uns olhos imensos e uma cara redonda de lua cheia. Dizia-lhe eu que seria a sua professora ao que ele, como quem me revela que com os seus 5 anos não tem tudo por aprender, me diz:
- Sabes, eu sei falar inglês.
- Ai sim? Que bom!
- Queres ver? "Fak iu"!
Olha Rafael, até que te percebo bem...
- Sabes, eu sei falar inglês.
- Ai sim? Que bom!
- Queres ver? "Fak iu"!
Olha Rafael, até que te percebo bem...
Distracção III
Estou deitada a dormir. Acordo de repente, estremunhada, alertada por barulho que vem da cozinha. Vejo as horas e levanto-me num ápice a pensar que raio se passará. Na cozinha dou com a minha mãe em roupão, exibindo o ar mais ensonado e rabujento que alguma vez lhe vi na cara. Mal consegue abrir a boca para trincar a torrada do pequeno almoço e bebe o chá a olhar o infinito.
"mãe...""diz filha, já tás acordada?"
"que tás a fazer mãe..?
Olha-me com um ar meio escandalizado mas só consegue levantar uma das sobrancelhas. A outra está a tentar impedir que o olho se feche.
"que tou a fazer? atão tou a tomar o pequeno almoço para ir para o trabalho, que achas que tou eu a fazer?"são três da manhã mãe...."
Distracção II

Paradas no trânsito, eu e a minha mãe. Depois de um dia de praia. O cansaço impera. Depois de quase uma hora de espera entaladas na fila, já conseguimos ver o cruzamento para entrarmos na estrada principal. Temos que nos enfiar na outra fila de trânsito, esperando que alguma alma caridosa nos deixe entrar, para seguirmos para a esquerda em direcção a casa. Estou à espera que a minha mãe faça exactamente isso, quando já quase a sentir os olhos a fechar de sono, viramos para a direita.
"mãe...""diz filha..."
O meu ar é incrédulo. Olho até ao horizonte e a fila de trânsito não termina, desaparece atrás de um monte.
"para onde é que tás a ir..?""para onde é que tou a ir? atão, para o fim da fila...."
Distracção I
Paradas no trânsito, eu e a minha mãe. Um carro pára ao nosso lado e uma senhora abre a janela. Ela e o senhor, que pelo ar percebemos imediatamente serem franceses, perguntam à minha mãe, onde fica o hotel Meridien.
A minha mãe gesticula, de braços no ar, apanhada de surpresa, a tentar desesperadamente relembrar o francês do liceu e fala muito sem dizer coisa nenhuma.
"la bas...vous allez..."
E os franceses vão respondendo...
"ah, e depois..?
E eu.
"mãe...."
E a minha mãe continua na sua demanda interminável de quem quer muito ajudar os pobres senhores que estão perdidos no meio de lisboa.
"oui...non, mais oui, la bas, la bas.."
E eu.
"mãe...."
E os franceses.
"pois, ali à direita.."
E eu.
"mãe..."
E a minha mãe finalmente olha para mim com um ar atarefado e impaciente.
"diz filha...."
"eles estão a falar contigo em português mãe..."
A minha mãe gesticula, de braços no ar, apanhada de surpresa, a tentar desesperadamente relembrar o francês do liceu e fala muito sem dizer coisa nenhuma.
"la bas...vous allez..."
E os franceses vão respondendo...
"ah, e depois..?
E eu.
"mãe...."
E a minha mãe continua na sua demanda interminável de quem quer muito ajudar os pobres senhores que estão perdidos no meio de lisboa.
"oui...non, mais oui, la bas, la bas.."
E eu.
"mãe...."
E os franceses.
"pois, ali à direita.."
E eu.
"mãe..."
E a minha mãe finalmente olha para mim com um ar atarefado e impaciente.
"diz filha...."
"eles estão a falar contigo em português mãe..."
23 setembro 2007
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