É preferível uma boa massagem a uma má foda.
I'm baaaack :)
30 setembro 2014
20 setembro 2014
Gloria
Um belo filme. Uma grande actriz. Uma história que raramente se vê no cinema: o amor, a solidão, o sexo, quando se tem quase sessenta anos.
16 setembro 2014
Setembro
Lembro-me dela desde sempre. Sentada na sua sala a ler, enquanto a minha irmã e eu brincávamos com as casinhas que nos trazia de Nova Iorque. Lia muito. Jornais, livros, muitos livros. A minha avó ficava ali sentada, calada, e nós brincávamos com brinquedos que não existiam cá, uma escola, as casas da rua sésamo, a quinta, o aeroporto, os legos antigos que tinham sido dos nossos tios. Noutra sala, o meu avô ouvia música muito alto, tinha o radiador junto dos pés, um copo de conhaque no chão, caramelos escondidos num armário. Vivemos catorze anos na casa por cima deles.
De vez em quando, o jogo de canasta com as amigas era lá em casa. Nós descíamos as escadas, ficávamos entre as duas mesas onde ouvíamos falar de bestes e flores. Os jogos pareciam intermináveis. Nunca mais chegava a hora do chá, a que horas é o lanche Avó? Bolos, pães, doces, o cheiro do pó de arroz e dos perfumes, a elegância dos gestos das tias das canastas que depois imitávamos, sumo em chávenas pequenas e nós as duas a sermos senhoras crescidas também, oito senhoras e duas miúdas em volta da mesa oval da casa dos meus avós. O aparador, o carrinho de chá, o louceiro com três jarros em cima, uma tela com uma vaga nossa senhora na parede, o soalho de madeira que chiava com os nossos passos. A minha avó levava-nos aos jogos de canasta nas casas das amigas, o pó de arroz, os perfumes, os bestes, o melhor lanche era em casa da nossa tia gogó, uma sala de jantar enorme, a conceição que mandava na casa e fazia a melhor trança do mundo, o tio salvador que dizia 'cautela' e se ria baixinho de tudo. A casa dos meus avós era a nossa casa, sabíamos os sítios de tudo, a cubinhos de marmelada na mesa de cabeceira do avô, os álbuns de fotografias dos seis filhos, o pote das bolachas.
A casa dos avós era a nossa casa até ontem. Dez anos depois do marido, nove meses depois do filho, a minha avó morreu ontem, uma segunda feira de chuva de setembro.
15 setembro 2014
Cântico negro 4.5
Sem ironias nem cansaços nos olhos lassos, o cleverbot é um robot que fala connosco.
Acreditem ou não: fui falar com ele e nesse momento éramos 79 mil pessoas a falar com uma inacreditável inteligência artificial.
o cleverbot é tão inteligente que até conhece o 8 e coisa:
User: Do you know 8 e coisa?
Cleverbot: Yes.
User: How do you like it?
Cleverbot: I like it just fine. Are you an Atheist?
User: Are you?
Cleverbot: A little bit!
User: How does it feel being a little bit atheist?
Cleverbot: Like I don't exist.
Onde já vão os mircs, facebooks e chats desta vida.
O cleverbot é que é. A sua glória é essa: criar desumanidades, não acompanhar ninguém.
Cântico negro 2.0
"Prove que não é um robot", dizem-me alguns com olhos doces.
Estendendo-me a imagem, e seguros
De que seria bom que eu visse o raio das letras desfocadas que me mostram
Quando me dizem "prove que não é um robot!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há nos olhos meus ironias e cansaços)
E cruzo os dedos
E nunca acerto nos números
Estendendo-me a imagem, e seguros
De que seria bom que eu visse o raio das letras desfocadas que me mostram
Quando me dizem "prove que não é um robot!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há nos olhos meus ironias e cansaços)
E cruzo os dedos
E nunca acerto nos números
Ó da casa!
Aquela ali atrás é a senhora do guichet?
Ps: Vês, eu bem te tinha dito que este inverno iamos ter a casa cheia: elas vêm aí!!
Ps: Vês, eu bem te tinha dito que este inverno iamos ter a casa cheia: elas vêm aí!!
12 setembro 2014
Sem título
Passaram-se anos e, às vezes, ainda dou por mim a olhar para a tua fotografia, a tentar procurar dentro dos teus olhos se mudaste ou não. E nunca consigo uma resposta que sobreviva a ti próprio. Ainda há dias em que me magoa o teu desamor ter sido tão grande. Só a falta de amor tinha sido suficiente.
31 agosto 2014
Frase sábia do meu avô
(que a dizia pausadamente e em sotaque ribatejano)
É preciso a gente ter sorte com os porcos, mas os porcos também precisam de ter sorte com a gente.
O que eu tenho pensado nisto!
É preciso a gente ter sorte com os porcos, mas os porcos também precisam de ter sorte com a gente.
O que eu tenho pensado nisto!
25 agosto 2014
Irrita-me
Escrever coisas originais e profundas, com um leve sentido de humor a correr ao longe, e depois sair do duche e ir-se tudo com o turco da toalha!
Ainda sobre a inveja
É tudo verdade, querida múltipla. Mas o que me irrita é que nessas ditas fotografias a praia está deserta, as barrigas são verdadeiros hinos ao tónus muscular, os gins são preparados na perfeição e os pores-do-sol parecem vir de Hollywood. Dentes brancos em bronzes felizes. Imagens perfeitas ao lado das quais os retratos das minhas férias, quando os há, parecem sempre tirados do quarto da criada...
Ah!, o tempo...
Há músicas que me fazem cantar. Como esta.
O refrão: "Morena no fundo quer/tempo para ser mulher".
O refrão: "Morena no fundo quer/tempo para ser mulher".
21 agosto 2014
A inveja é uma coisa lixada
E não há nada pior do que ter inveja das férias dos outros. Sou um poço de maus sentimentos. A azia cresce. A veia da testa está quase a explodir. Rezo aos santinhos da meteorologia por chuva no algarve, granizo no alentejo, uma vaga de alforrecas assassinas, chuva de gafanhotos e pragas bíblicas diversas.
Mas o que me salva é a internet. Blogues, instagram, facebook, twitter, enchem-se de fotografias das férias dos outros. Suspiro de alívio. Sorrio de maldade. As férias dos outros são afinal uma grandecíssima merda.
As férias que exibem, sorridentes e orgulhosos, são o meu pesadelo. Praias cheias de gente. Guarda-sóis de colmo a fingir que estamos nas caraíbas. Sunset parties em cima da praia. Restaurantes gurmê da treta. Ir ao mar como quem entra no metro, com licença faz favor. Regressar a uma toalha rodeada de gente, música, gritos, jogos de raquetes, futeboladas. Dormir em apartamentos, bandas de moradias geminadas, ter a vida de todos os dias naqueles dias que deveriam ser de fuga. Gente. Muita gente.
Não há nada melhor do que os outros para deixar de ter pena de mim mesma.
do regresso ao trabalho
O que mais custa não é a otite, a bronquite ou mesmo a estupidez dos colegas. Não são as graçolas, o perímetro abdominal do cro-magnon do economato ou a unha fúngica daquela-com-ar-de-puta-velha do 4.º andar.
São os sapatos. São os meus próprios sapatos que, a cada passo durante todo o dia, insistem em provar, de forma absoluta, que os meus pés já não estão naquela areia a escaldar, a correr para o mar. Que insistem em lembrar-me que estou condenada a mais 347 dias sucessivos de permanente aperto aos calos...
São os sapatos. São os meus próprios sapatos que, a cada passo durante todo o dia, insistem em provar, de forma absoluta, que os meus pés já não estão naquela areia a escaldar, a correr para o mar. Que insistem em lembrar-me que estou condenada a mais 347 dias sucessivos de permanente aperto aos calos...
Vês?
Não te dizia quetambém elas têm saudades tuas?! Pouco a pouco, havemos de voltar. Todas... E que lindo dia será esse!
11 agosto 2014
Porque
Porque as palavras já foram quase todas inventadas e as da poeta devoraram o tempo.
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
Sophia de Mello Breyner, Mar Novo
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
Sophia de Mello Breyner, Mar Novo
26 julho 2014
Desvidas
Há muito que F. não
trabalha, desde que no seu corpo começaram a crescer “coisas más”; assim lhe
chamam as pessoas, com medo de pronunciar o vocábulo maldito. Cancro. Não um,
mas dois.
F., inicial do seu
nome, de franzina, que consigo rimava, mas também de força, aquela com que deu
luta à doença durante os últimos anos. Não somos propriamente amigas, mas
liga-nos uma vida de trabalho e de algumas conversas simpáticas que tivemos,
sobre filhos, sobre a vida, sobre a necessidade de largar vícios e até sobre a
doença que a minava aos poucos. E impossível não sentir carinho por ela. Doce,
frágil, de sorriso tímido e maroto e corpo saltitante.
Hoje ganhei coragem,
a que me tem faltado e que encontra sempre muitos argumentos, e fui vê-la. Que
estava bonita e lhe ficava bem a maquilhagem, assegurei. Falámos uma vez mais
dos filhos, dos dela, dos meus, dos dos outros. Do trabalho, da vida e da
solidão com que ela se tem desenhado. E lá estava o seu sorriso. Tímido e
maroto. O corpo já não saltitante, mas desse, nem uma palavra, nem do que
continha lá dentro. Bebemos chá e fez-me prometer que agora sim, iria largar o
vício do tabaco, tantas vezes tema das nossas conversas. Despedimo-nos com um
abraço longo.
Assim quero eu
escrever a história.
25 julho 2014
E Gaza aqui tão perto
A
questão nem sequer é exactamente Gaza. Porque podia não ser Gaza e ser outro
local remoto do planeta, ou até mesmo aqui ao lado. E também não é a justiça ou
injustiça do que lá se passa. Porque nenhuma guerra é justa. A questão é a
imagem no espelho que esta guerra fratricida nos devolve.
Enquanto
centenas, muitas centenas, são dizimadas e espoliadas do pouquíssimo que já era
o seu mundo, uma imensa maioria continua no seu mundo ridiculamente comezinho -
afinal, Gaza ali tão longe. Continuamos alegremente a “postar” postas de
pescada nas páginas das redes sociais, fotografias de um pretenso ameno verão,
queixando-nos, é certo, do tempo que vai incerto, comentários acerca do
concurso de domingo que nos traiu, imagens das jarrinhas de flores que enfeitam
a casa, do creme para a cara infalível no combate às rugas, selfies, festivais
sazonais, e mais uma selfie sem percebermos que nos traímos a nós próprios,
porque a humanidade é traiçoeira e entrou em colapso. E porque a vida continua,
é certo, e é também justo o júbilo por momentos felizes, partilhado com amigos
e com a família. Mas a dimensão da indiferença tem-me feito pensar muito. Por vivermos
de tal forma autocentrados e por ela ser o reflexo do medo; o medo de nos
manifestarmos, o de tomarmos partido por uns ou por outros com toda a exposição
perante o olhar crítico dos 666 amigos que temos na rede e que podem, afinal,
guardar de “mim” uma imagem de amigo dos árabes, que são aqueles que quiseram
as crenças sociais transformar em preguiçosos, bombistas, violadores dos
direitos das mulheres e umas tantas coisas mais. E caímos em desgraça porque ficamos mal na selfie!
Quando
eu era gaiata e que a televisão tinha, como dizia o meu pai, 1º e 2º esgoto, o
momento das notícias era quase solene em casa. Os adultos viam notícias em
silêncio e as crianças retiravam-se para os quartos, porque a elas era
permitido o alheamento. Hoje já ninguém vê notícias. Porque centenas de canais,
há sempre um que nos permite, enquanto o mundo é desfiado, assistir a um
qualquer estupidificante concurso de master qualquer coisa, chefe, gordo,
inteligente, mas sempre master. Porque queremos assistir ao engrandecimento de
uma criatura que não conhecemos de lado nenhum, mas também à humilhação dos que
vão sendo eliminados. E mesmo que vejamos notícias, podemos sempre confundir os
tiros do Mundo com aqueles que ainda há pouco, mesmo antes de zappar, o Johnn
Wayne desferiu no índio malfeitor. Negamos a actualidade do Mundo, para negarmos a nossa própria actualidade.
Vivemos
tempos que nos reduzem a nada e pensamos sermos muito. O sistema financeiro
ocidental faliu, e questiono-me se essa falência será causa ou consequência da
falência de valores, ou se apenas de mãos dadas. O nosso mundo pequenino,
aquele em que cada um de nós gravita, longe, longíssimo de Gaza, está cheio de
pequenas guerras, marcado por intolerância, palavras amargas, provas de
individualismo e de indiferença para com o outro que, também ele, mora ali
longe ou que até talvez partilhe a mesma cama, mas a ele as suas dores, que eu
também tenho as minhas. E queremos fingir que tudo vai bem, porque enquanto o
pau vai e vem, folgam as costas. Também aqui não sei qual a ordem a atribuir;
se reproduzimos à escala micro o que vai mal na macro, ou se o macrocosmos
reflecte a instabilidade dos muitos microuniversos tumultuosos que temos
criado.
Não
sou indiferente, há muito, ao que se passa em Gaza. Como não sou com os
milhões de deslocados e de refugiados que temos por este mundo fora, vítimas de
guerra, de pobreza, de tiranias de senhores do mundo que os querem esfomeados
porque de barriga vazia não se pensa e é-se submisso. Mas sou ainda menos indiferente
a esta escravidão velada, silenciosa, que faz de nós seres passivos perante uma
humanidade em implosão. E não pense ninguém que a carapuça não me entra. A
verdade é que agora mesmo parto para o meu duche, visto-me e vou seguir a minha
vida. E talvez apenas porque o tempo não está de feição, lá pouparei o Mundo de
saber em que praia eu estou, coisa que lhe interessava de sobremaneira. Temos
pena.
24 julho 2014
O mundo precisa
De justiça, de bom senso, de seriedade, de sobreidade, de alegria, de força, de rectidão. Precisa que se acabem as meias tintas, os relativismos e as normalizações. O Mundo precisa do Bem e do Mal.
23 julho 2014
Da cegueira
Oh,
por favor, está calado! Não vês que bombas explodem nos meus olhos? E corpos
preenchem o chão, a maioria crianças, mulheres choram as dores que não contêm o
corpo, porque esse já não chega para conter nada, homens vagueiam na solidão do
desespero, procurando sinais do que era uma casa e do que era família. E tu, as
tuas dores, os teus ouvidos, o teu joelho, e agora mais o coração que isto e as
costas que aquilo. Bombas explodem nos meus olhos! Nos teus não?
17 julho 2014
Verde Limão
No outro dia ultrapassei uma lambreta, verde limão, com um casalinho pipoca dependurado lá em cima.
Tive saudades de ter 20 anos, um amor de verão e três meses de férias.
Tive saudades de ter 20 anos, um amor de verão e três meses de férias.
10 julho 2014
Amanhos
Do uso e do tempo, estás um um bocadinho estragado. Estás lento, confuso, baralhado. Vamos arranjar-te e ficas como novo. E vamos poder brincar como dantes!
08 julho 2014
espelho meu
Espelho meu: devia ser escritora, se fosse um animal era um cisne, sou o ObiWan, o meu evil twin (é mesmo) o Darth Vader, se fosse uma flor era uma rosa, devia viver em Londres e tenho um IQ de génio. Quem sou eu?
03 julho 2014
Saudades
Tantas! Quantas!!
Do teu recolhimento, do teu anonimato, do teu silêncio!
Preciso de ti. Já não te quero matar, afinal.
Vais ser meu. Só meu. Elas vão brincar lá fora. Onde está sol, onde há barulho, confusão, gente, tanta gente, tanto barulho, Deus meu. Vou ficar aqui um bocadinho. Só nós. Como dantes. Pode ser?
Do teu recolhimento, do teu anonimato, do teu silêncio!
Preciso de ti. Já não te quero matar, afinal.
Vais ser meu. Só meu. Elas vão brincar lá fora. Onde está sol, onde há barulho, confusão, gente, tanta gente, tanto barulho, Deus meu. Vou ficar aqui um bocadinho. Só nós. Como dantes. Pode ser?
03 abril 2013
Nova caderneta de bairro
A espanhola da tasca onde compro cigarros e que tem cara de bruxa má num dia de folga, o barbeiro bêbedo que a mulher pôs fora de casa e agora vive na barbearia com a montra partida, a jovem cineasta que largou as artes e abriu um café modernaço cheio de móveis reciclados e cartazes de cinema, o bigode do senhor da mercearia que sorri sempre que passo, o segurança do prédio recuperado que guarda o castelo fantasma que nunca mais é habitado, os homens do talho que conversam na rua enquanto fumam cigarros intermináveis, o farmacêutico musicólogo que aproveitou a boleia do negócio familiar para se salvar de uma vida de criatividade e penúria e agora avia receitas a assobiar.
03 novembro 2012
Para dias assim-assim
Na grafonola, e com volume sonoro alto a bem alto, coloque Caetano Veloso, qualquer um que tenha à mão. Em seguida, feche os olhos e deixe-se inundar pela alegria da música e optimismo dos seus poemas. Na sua boca verá então surgir o esboço de um sorriso. Acentue-o. Aos poucos, deixe o seu corpo mexer-se, até ter ganho vida própria. Quando atingir esse ponto, o seu dia ter-se-á transformado num dia-sim. Cubra tudo com uma boa leitura e acompanhe com uma bebida quente.
31 outubro 2012
Porque sim!
30 outubro 2012
fio fio fiuuuu fiuuu fiiiiiiiiiiiiiiuuuuuuuu uuuuuuu
iuuuuu, belas adormecidassss....
e que tal um desafio para ajudar a acordar? e os leitores e leitoras que andarem por aí meio adormecidos também podem participar.
o desafio é para continuar a encher o chouriço, salvo seja, do label "medicina musicopática".
Tanto podem ser posts como videos (curtos de preferência), feitos com o telemóvel ou como quiserem.
para quem quiser participar do nosso inestimável público (e ouve-se uma aranha a descer pelo seu fio no meio de uma sala vazia) basta enviar o texto ou video para oitoecoisa@gmail.com e será publicado (devidamente identificado e inserido na nossa licença de creativecommons).
até 1 de dezembro de 2012.
aceitam? alguém tem algum outro desafio para a troca?
e que tal um desafio para ajudar a acordar? e os leitores e leitoras que andarem por aí meio adormecidos também podem participar.
o desafio é para continuar a encher o chouriço, salvo seja, do label "medicina musicopática".
Tanto podem ser posts como videos (curtos de preferência), feitos com o telemóvel ou como quiserem.
para quem quiser participar do nosso inestimável público (e ouve-se uma aranha a descer pelo seu fio no meio de uma sala vazia) basta enviar o texto ou video para oitoecoisa@gmail.com e será publicado (devidamente identificado e inserido na nossa licença de creativecommons).
até 1 de dezembro de 2012.
aceitam? alguém tem algum outro desafio para a troca?
Para os dias em que não se sabe quem se é
Risquei o teu nome de
todos os compêndios de História universal
Rasguei-te de todas as
fotografias
Fechei todas as portas e janelas
por onde pudesses entrar
Cortei estradas, dinamitei
pontes
Cuspi o meu ódio em todos
os rios e mares
Cortei veias (cortei-te as veias!)
Matei-te e gritei a tua morte como
quem ergue o triunfo de uma caçada.
Matei-te. Mas tu não me morreste.
todos os compêndios de História universal
Rasguei-te de todas as
fotografias
Fechei todas as portas e janelas
por onde pudesses entrar
Cortei estradas, dinamitei
pontes
Cuspi o meu ódio em todos
os rios e mares
Cortei veias (cortei-te as veias!)
Matei-te e gritei a tua morte como
quem ergue o triunfo de uma caçada.
Matei-te. Mas tu não me morreste.
22 outubro 2012
Para os dias em que se sabe quem se é
(Ler em voz alta procurando fazer entoações diferentes ou inventando músicas.
Repetir duas ou três vezes ao dia. Pode deixar ao alcance das crianças.)
Eu sou fado, sou guitarra, sou merengue,
bossa nova e funáná.
bossa nova e funáná.
Sou passada,
sou quizomba, sou qualquer.
Sou bolero e tango,
vallenatos e rancheras,
vallenatos e rancheras,
sou Martirio, sou “a pele que
há em mim”
nos dias em forma de assim.
Sou corridinho, sou chorinho,
sou brasil, sou carinho e cafuné.
sou brasil, sou carinho e cafuné.
sou zouc,
salsa
e son,
sou para o que der e vier
Sou jazz, sou soul, sou Aziza,
Sou cumbia, sou vira,
e viro e torno a virar,
a roda vai continuar,
a ver se me entranhas
ou se ficas lá no ar,
ou se ficas lá no ar,
que eu sou fado, sou guitarra,
sou merengue,
sou qualquer
e sou
e sou
só uma.
Para dias de limpeza na casa e/ou de concentração
a flauta mágica de mozart. Pôr o volume em doses generosas, deixar inundar toda a casa e abrir as janelas, faça chuva ou faça sol.
Para as avarias da vida
variações goldeberg (bach). Alternar entre a
primeira e a segunda gravação, duas ou mais vezes ao dia. Pode afetar a condução de veículos.
18 outubro 2012
a insustentável estranheza do eu
Olho-me fixamente no espelho e por
mais que olhe de um lado do outro e de trás, continuo a ver aquela que já não
quero ser mas que continua pegada a este corpo que parece ser meu.
08 outubro 2012
Viúvas cruzadas em linhas de tempo paralelas
Ás vezes, caminhar no meu bairro, onde nasci, cresci e
onde revivo agora, é como caminhar em linhas cruzadas de tempo, onde o passado
se espelha no presente como sacudidelas à memória e à consciência entorpecidas.
Estou na paragem de autocarro, de novo em dia de greve de metro, e vejo-as
atravessar a estrada a caminho da Igreja.
Passam de braço dado, cada uma apoiando na outra as dores
das muitas idades dos seus corpos, as duas vestidas de negro carregado e
púdico, escondido. Parecem iguais às viúvas do meu bairro de há 30 e muitos
anos atrás, quando eu era uma miuda e quase todas as mulheres avós eram viúvas,
a dona antónia do sr brás cuja cara juro que vi no céu em forma de nuvem no dia
em que morreu, a augusta do nogueira que morreu levado pelo cancro, a dona
firmina, a dona brilhante e tantas outras. Passam, antes como agora, com aquele
ar de que lhes pesa a vida, a existência,
circunscrevendo-se num mundo de hábitos enraizados e repetidos no dia a
dia de dar continuidade a um morto e suportar o peso de um corpo. Se hoje são
octogenárias, quando eu era criança. deveriam andar nos 50. Ou seja, poderiam
ser quase da minha geração actual, podiam ser eu, qualquer uma de nós hoje.
Dentro de uns anos também vamos ser as velhas, as senhoras maiores do futuro,
vamos ser amanhã uma parte do que somos hoje. É um bilhete faz favor, que me
esqueci outra vez de carregar o cartão. Eu só desejo que ainda que nos possa
pesar o corpo, não nos pese a existência.
da importância das costas
Tenho umas ervilhas com ovos escalfados ao lume e
enquanto espero que fiquem no ponto, queria comentar-vos uma coisa de interesse
público para a humanidade, ou pelo menos para mais de metade da mesma, ou pelo
menos para umas tantas…e é que não são uma, nem duas, nem três as mulheres que
se queixam que muitos homens ignoram por completo as suas costas e nem festas,
nem caricias nem massagens a esta zona tão importante do nosso corpo, nem no
acto sexual nem fora dele. Alguns parecem desconhecer ainda que para além de
vagina, clitoris e mamas, as mulheres temos costas e nelas temos omoplatas,
coluna, ombros, ancas, lombares, muitas curvas e concâvos, muitos caminhos por
onde as vossas mãos, lingua, cara, cabelo, tronco, pernas, pénis podem
percorrer, saborear-se e deleitar-nos. Explorem-nos, perguntem-nos, ouçam-nos,
conquistem-nos e percam-nos, percam-se em nós e verão como pode ser simples
chegar ao céu sem sair da terra.
06 outubro 2012
ebulição
Em mim tudo está tenso, os meus ovários, as minhas
mamas, as minhas veias acumulam
sangue que as pressiona e me pressiona. Tudo me parece negro, o mundo é um
lugar inóspito e sem sentido. Abro a janela para o mundo e no écran dou-me
conta de que o país e a sua bandeira estão ao contrário, há um congresso de alternativas
democráticas que discutem não sei que alternativas, há gente desesperada, há
gente com raiva, a violência parece estar preso por um débil fio, há ministros rodeados de
guardas costas com medo de sair à rua, o caldeirão da nossa vida ferve, ferve,
ferve. O sangue escorre-me por
entre as pernas e tudo se distensiona em mim, recupero o meu corpo, recupero a
cordura, esboço um sorriso. Mas lá fora tudo continua em tensa calma, ferve,
ferve, ferve.
05 outubro 2012
Uma manhã
Sentei-me ao lado dela no autocarro. No colo, um caderno onde escrevia furiosamente.
2ª feira
pão € 1,60
legumes € 3,80
3ª feira
pilhas relógio pedro € 3,40
passe € 35
Encolhi-me na pornografia da minha riqueza. Sim, ando de autocarro. Sim, não compro roupa há meses. Sim, também sinto que o bolso encolhe a cada dia. Mas ainda não faço conta aos cêntimos do dia.
Tenho vergonha e medo e raiva do mundo em que vivemos.
03 outubro 2012
retratos
Ás vezes penso em ti, és um retrato a preto e branco guardado no hábito da minha memória e que pretende ser presença na minha realidade
multicromática. Não existes.
Uma manhã, num autocarro.
Num banco de dois lugares eu e um senhor de 80 anos que parecia ter 60. De pé, junto ao nosso assento, um tipo de quarentas, jeans rasgado de cima a baixo e uma camisola que lhe deixava ver o umbigo, com um headphones por onde ele e toda a gente ouvia rock a abrir e uma rapariga que devia ter 30 mas parecia de 40 e que falava ao telemóvel com voz estridente e despachada. Nos instersticios, magotes de gente a tentar chegar a algum sitio em dia de greve do Metro. O senhor levanta-se abruptamente, pousa todos os seus papéis no banco põe-se a procurar o seu bilhete. O autocarro curva para um lado, curva para o outro e o senhor tambaleia para um lado, tambaleia para o outro. Eu em sobressalto atenta a ver se o podia agarrar, o tipo do rock e a rapariga também, os 3 a fazer um cordão de segurança à volta do senhor, algumas pessoas à nossa volta também atentas ao iminente desiquilibrio do senhor. Depois de muito procurar ao ritmo das curvas, arranques e travagens, o senhor resolve ir até ao motorista contar-lhe a sua situação, a rapariga dispõe-se a ir com ele e resolver já tudo, não se preocupe, vai ver que tudo tem solução, tudo isto sempre em voz muito alta, o que ajuda a que todo o autocarro já esteja inteirado da situação do senhor e participe também na missão “à procura do bilhete perdido”. Entretanto o senhor encontra o bilhete, que afinal nunca tinha saído do bolso das calças e senta-se de novo ao meu lado, contente.
Depois de um minuto de contentamento colectivo, ouve-se: pois, hoje em dia as pessoas já não estão dispostas a ajudar ninguém, e começa-se a dissertar sobre esta certeza agora colectiva. E o senhor ajudado concorda, agora anda tudo muito individualista, já ninguém ajuda ninguém. A rapariga estrondosamente prestável, diz: o que me consola é o meu paizinho que me diz, ó filha, tu és uma santa!, tens um lugarzinho no céu à tua espera. O senhor conta uma desgraça recente, o meu carro avariou numa estrada do algarve e ninguém parou, é inacreditável. Mas num momento, fica em silêncio, pára, pensa e diz: mas a verdade é que eu também não pararia, a gente sabe lá, hoje em dia há tanta gente a querer fazer mal, ainda outro dia contou-me um vizinho meu que parou o carro na autoestrada… e continua com o tema da desgraça em que está este mundo.
Chega a minha paragem, desço do autocarro, e lá dentro fica o senhor com o seu bilhete no bolso, a rapariga despachada e alma caridosa com lugar no céu, o rapaz do rock que mais coisa menos vai precisar dos serviços da Sonatone e mais outras tantas pessoas solidárias que também procuraram o bilhete ou estiveram com atenção para o senhor não cair, a falar da desgraça em que está este país, o mundo, ninguém ajuda ninguém.
01 outubro 2012
Telelavores boa tarde, em que posso ajudar?
- Boa tarde, ouvi dizer que a Telelavores tem um serviço de xailes por encomenda.
- Sim senhora, confirmo. Trabalhamos com os melhores materiais e executamos o modelo que os clientes desejam.
- Então faça a fineza de tomar nota do meu pedido. Eu queria um xaile negro BDSM. De lã virgem, claro.
- Tem preferência pelo material das franjas do xaile? Podem ser em cabedal?
- Franjas, só em vinil.É que o meu escravo é vegan.
de um porto italiano ao futuro
Recentemente resolvi comparar os dvds do Marco para mostrar à minha filha e recordar a série que tanto me tinha presa à televisao sofrendo pelo míudo que nao encontrava nunca a mãe. Nem tinham passados 10 minutos do primeiro episódio e já estava eu a correr para a casa de banho, a chorar convulsivamente, carpindo memórias que pensava esquecidas, perante o olhar espantado da minha filha. Ao terceiro episódio lá recuperei e comecei a seguir a história. É curioso, quando era míuda não tinha reparado que o Marco tinha de trabalhar para sobreviver, que bebia vinho, que além de ir à escola tinha de trabalhar em casa para poder ajudar a sua familia e que estava separado da sua mãe porque ela teve de imigrar para poder ganhar dinheiro para a familia. Ou que queria ser médico quando fosse grande e às vezes parecia um homem pequenino e não um menino, ainda que o seu macaquinho puxava-o para as macacadas próprias das crianças.
30 setembro 2012
Ontem
reuniram-se as múltiplas só porque sim, tinham saudades de estar
juntas. Têm um blog em comum onde em geral não escrevem. Quando se encontram falam do blog e de outras coisas. Em
geral começam a falar do blog e logo o tema varia. Falam muito de política actual,
mas desta vez, derivado ao facto
que a situação do país e do mundo está muito escaldante e que cada cabeça sua
sentença e antes que fosse só esse o tema do jantar e se engalfinhasem todas, resolveram vetá-lo (só por este jantar, porque elas não
se aguentam e que porque a diferença faz parte da vida).
Também perdem horas a falar de crochet: eu agora cada vez que penso em homens,
começo logo a imaginar como fazer naperons, ou, o sexo tântrico para mim é como
o crochet, sempre são coisas que eu penso que um dia gostava de experimentar,
uma tipa numa festa de bdsm ia toda vestida de cabedal e por cima tinha um
vestido de rendas negro como os dos panos de tabuleiro das avós. De síntese
ficou uma bela reportagem gráfica, a tarefa de ver a casa dos segredos para poder falar disso com propriedade no próximo jantar, uma sala com as janelas abertas há dois dias
para fazer sair o cheiro a cigarros e, apesar de que aparece um facalhão no registo gráfico, não temam, estava destinado ao bolo
de brigadeiro, ainda não foi desta que matámos o oito e coisa. A recuperação
pode estar por um fio. Ou não. Só nós
dDeus e as oito e coisa nove e tal é que sabemos.
24 setembro 2012
Tem dias
Tem dias em que acordo e sinto que estou fora do tempo. Ou que o meu tempo já passou. Olho em volta e sou a inveja.
Inveja da lisura da pele. Inveja dos anos que se tem pela frente quando se tem vinte. Inveja de tudo o que se pode vir a fazer. Inveja da surda admiração que a juventude acorda. Não por nada de especial, mas pela simples e fugaz perfeição material dos corpos ainda intocados.
Descubro: o meu tempo já passou.E quando o tive, fui a mais inconsciente das criaturas, sentada na soberba de tudo o que havia de vir.
Tem dias que deviam ser noites. O sono é a melhor forma de esquecimento.
17 setembro 2012
O prazer da leitura
O projecto Hysterical Literature de Clayton Cubitt.
À nossa frente, mulheres que lêem um livro. Tudo o que as faz hesitar, suspirar, sorrir, passa-se fora do nosso olhar.
Não me importava de ser a próxima cobaia.
09 setembro 2012
As férias
Sabe,
menina, este ano só vou uma semanita, aluguei uma casita no Algarve, é mais por
causa da minha filha, está a ver o que seria se a miúda não tivesse nada para
contar das férias às amigas da escola, as outras miúdas cheias de histórias e a
minha sem nada para lembrar, por isso este ano aluguei um apartamentozito perto
de Quarteira, mas este ano só dá mesmo para uma semanita.
Eu gosto muito das minhas férias e aproveito para fazer o que não
faço durante o resto do ano: sento-me na esplanada da praia a vigiar os
mergulhos da miúda - e dos magarefes que já começam a por olho nela – e
hidrato-me por dentro, uma duas três minis até ficar saciado. Chega, então, a
vez de me hidratar por fora: levanto-me da cadeira de poliuretano da esplanada,
deixo a mini e os tremoços, pego na miúda pela mão (às vezes até a ponho aos
ombros) e mergulhamos os dois na água cálida deste mar, “oh pai não me atires
assim tão alto, oh pai olha que os meus amigos estão todos a olhar para nós, oh
pai pára com isso”, mas eu não ligo. Do que a miúda precisa é de uns bons
momentos com o pai desde que a mãe ma começou a entregar todos os
fins-de-semana de 15 em 15 dias, dizia que eu era violento, que a guerra me
tinha pisado uns parafusos, mas verdade verdadinha é que eu não nunca fui do
tipo de levantar a mão a uma mulher, posso ter dito umas coisas das quais me
arrependo, mas nunca nenhuma das duas levou uma cachaporra daquelas, isso era
no tempo dos meus pais quando fugíamos à escola, aí sim era porrada a valer,
três dias a mondar o campo, e agora vem-me esta miúda queixar-se dos três
mergulhos com que a atiro à água. Duvido que estes miúdos estejam preparados para
a vida, com que responsabilidade é que vão tomar conta de nós, dos seus pais,
se não sabem nada de nada da vida, é tudo dado por adquirido, até esta semanita
de férias aqui neste apartamentozito em Quarteira?
Como é que vou pagar as férias? Isso é só fazer contas, graças a
deus que nunca me falhou essa vocação. No meu caso, deixo acumular duas contas
de eletricidade e quando receber o aviso de corte vou logo à loja do cidadão e
pago em dinheiro vivo. Este ano vou fazer o mesmo com o gás, já tenho gás natural
no bairro onde vivo, graças a deus, duas contas acumuladas e a garantia de
férias no apartamentozito do Algarve. Não se preocupe menina, eu depois faço
horas extraordinárias neste carro onde a conduzo, se for preciso 12, 13, 14
horas por dias. A única coisa certa é que a minha miúda vai ter que o que
contar às amigas quando voltar à escola.
15 fevereiro 2012
14 de fevereiro
Não é hoje porque foi ontem. Foi ontem que quis fazer-te esta homenagem de tantos anos que levaste a martelar-me os ouvidos, a mim e às minhas irmãs, com esta Procissão. Era isto e o chapéu aos quadradinhos, sempre igual, apenas aumentava o número de chapéus. Mas ontem fiquei inerte, mãos presas, à espera apenas de te ouvir cantar e a tua voz a martelar-me os ouvidos.
05 fevereiro 2012
o drama, o horror
Não é verdade, mas podia ser.
Mais do que as birras e as noites sem dormir da infância, as febres e cabeças partidas, sobreviver à adolescência dos filhos é um milagre.
Brain-Dead Teen, Only Capable Of Rolling Eyes And Texting, To Be Euthanized
mais um brilhante video the onion
17 janeiro 2012
11 janeiro 2012
E um feriado pessoal para nos celebrarmos a nós mesmas?
Para mulheres que não desistem de si e de serem bonitas. Falo de nós, globulistas deste gulob em mudança inspiradora.
Por tudo e por nada
Por todas as más palavras que te mereci e as boas que nunca haviam de chegar, as noites em desassossego, os jantares à espera ou com fim trágico, a prepotência com que irrompias pela nossa casa e impunhas os teus humores de fel, pelas vezes que me rasgaste por dentro... apenas quero agora dizer-te que a minha casa é o meu continente e a minha cama demasiado pequena para conter mais que um corpo, o meu.
fotos do fogo
(ou outra forma de contar a guerra colonial)
Fotos do Fogo
Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira
A guerra deu na tv
foi na retrospectiva
corpo dormente em carne viva
revi p´ra mim o cheio aceso
dos sítios tão remotos
e do corpo ileso
vou-te mostrar as fotos
olha o meu corpo ileso
Olha esta foto, eu aqui
era novo e inocente
"às suas ordens, meu tenente!"
E assim me vi no breu do mato
altivo e folgazão
ou para ser mais exacto
saudoso de outro chão
não se vê no retrato
Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira
Nesta outra foto, é manhã
olha o nosso sorriso
noite acabou sem ser preciso
sair dos sonhos de outras camas
para empunhar o cospe-fogo e o lança-chamas
estás são e salvo e logo
"viver é bom", proclamas
Eu nesta, não fiquei bem
estou a olhar para o lado
tinham-me dito: eh soldado!
É dia de incendiar aldeias
baralha e volta a dar
o que tiveres de ideias
e tudo o que arder, queimar! no fogo assim te estreias
Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira
Nesta outra foto, não vou
dar descanso aos teus olhos
não se distinguem os detalhes
mas nota o meu olhar, cintila
atrás da cor do sangue
vou seguindo em fila
e atrás da cor do sangue
soldado não vacila
O meu baptismo de fogo
não se vê nestas fotos
tudo tremeu e os terremotos
costumam desfocar as formas
matamos, chacinamos
violamos, oh, mas
será que não violamos
as ordens e as normas?
Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira
Álbum das fotos fechado
volto a ser quem não era
como a memória, a primavera
rebenta em flores impensadas
num livro as amassamos
logo após cortadas
já foi há muitos anos
e ainda as mãos geladas
Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira
quando a recordo
sei que quase logo acordo
a morte dorme parada
nesta morada
aguçadamente escrito pelo sérgio godinho e enternecedoramente cantado por ele, Carlos do Carmo e Camané no ámbum "O Irmão do Meio".
Fotos do Fogo
Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira
A guerra deu na tv
foi na retrospectiva
corpo dormente em carne viva
revi p´ra mim o cheio aceso
dos sítios tão remotos
e do corpo ileso
vou-te mostrar as fotos
olha o meu corpo ileso
Olha esta foto, eu aqui
era novo e inocente
"às suas ordens, meu tenente!"
E assim me vi no breu do mato
altivo e folgazão
ou para ser mais exacto
saudoso de outro chão
não se vê no retrato
Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira
Nesta outra foto, é manhã
olha o nosso sorriso
noite acabou sem ser preciso
sair dos sonhos de outras camas
para empunhar o cospe-fogo e o lança-chamas
estás são e salvo e logo
"viver é bom", proclamas
Eu nesta, não fiquei bem
estou a olhar para o lado
tinham-me dito: eh soldado!
É dia de incendiar aldeias
baralha e volta a dar
o que tiveres de ideias
e tudo o que arder, queimar! no fogo assim te estreias
Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira
Nesta outra foto, não vou
dar descanso aos teus olhos
não se distinguem os detalhes
mas nota o meu olhar, cintila
atrás da cor do sangue
vou seguindo em fila
e atrás da cor do sangue
soldado não vacila
O meu baptismo de fogo
não se vê nestas fotos
tudo tremeu e os terremotos
costumam desfocar as formas
matamos, chacinamos
violamos, oh, mas
será que não violamos
as ordens e as normas?
Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira
Álbum das fotos fechado
volto a ser quem não era
como a memória, a primavera
rebenta em flores impensadas
num livro as amassamos
logo após cortadas
já foi há muitos anos
e ainda as mãos geladas
Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira
quando a recordo
sei que quase logo acordo
a morte dorme parada
nesta morada
aguçadamente escrito pelo sérgio godinho e enternecedoramente cantado por ele, Carlos do Carmo e Camané no ámbum "O Irmão do Meio".
10 janeiro 2012
trezentosesessentagraus
Adoro decoraçao, adoro mudar tudo. Gosto de arrastar móveis, repensar espaços, imaginar e ensaiar como os mesmos objectos podem modificar um ambiente de um espaço, gosto de ver tudo a circular e a mudar de sitio, para continuar em frente com a vida mas com uma lufada de ar fresco. Gosto de mudar a minha casa e gosto de mudar as casas das minhas amigas e amigos, ainda que nem sempre a coisa saia bem, como quando dormi na sala da casa de uma amiga e a acordei de madrugada para lhe perguntar se podia mudar uma ou outra coisinha na sala, ao que respondeu que sim meio ensonada e quando acordou na manha seguinte teve um baque e um ataque de surpresa e agrado mas com uma nesga de mau humor, que atribuí à possibilidade de não ter dormido bem por causa do barulho dos móveis a arrastar durante a noite. É a única explicação que encontro para me ter feito voltar a pôr tudo no seu lugar inicial.
à berlinda ao serviço da pátria
Outro dia o meu pai, numa viagem de carro a propósito de umas fotografias de que precisava, contou-me que uma vez, acabado de vir da guerra e precisando de renovar o bilhete de identidade, foi tirar uma fotografia numa qualquer fotomaton. Sentou-se no banquinho giratório ajustado á sua medida, olhou em frente, e não aguentou, desatou a gritar e a correr dali para fora, assustado pelos sucessivos flashes da máquina. O meu pai disse que a minha mãe contava isto como uma história divertida, em que ela se escangalhava a rir (quando ria com gosto a minha mãe era mesmo muito efusiva). Mas ao contrário, continuou ele com um certo pesar, já punha um tom mais sério quando contava a história do senhor neves, quando recém regressado de angola ao serviço da pátria, que uma vez estava num café quando o empregado deixou cair a bandeja grande e metálica no chão e imendiatamente ele se pôs debaixo da mesa. Acho que o meu pai se lamentava por ela reconhecer o senhor neves como um afectado da guerra e não reconhecer nele as consequências da guerra. Com este episódio dei-me conta que ultimamente por uma razão ou por outra, a guerra colonial anda na berlinda da minha vida. Quase todas as minhas amigas têm pais que foram à guerra, que partiram jovens e foram fazer uma guerra que não era sua.. Alguns tentaram ser refugiados em frança ou na suiça mas poucos o conseguiram. A julgar pelo meu pai e pelo que vou pescando dos seus, só muito de quando em quando falam desse tema, até podem analizá-lo, racionalizá-lo enquanto fenómeno politico e social condenável, obviamente com motivos económicos identificáveis, com consequência sociais e até psicológicas para os soldados da guerra, esse ente externo e estranho, mas, portas dentro de casa e de si, fez-se silêncio, já passou, não se fala para que ele não possa viver de novo, a gente tem que ser forte e ninguém quer ser um inválido de guerra, o que lá vai lá vai, os miudos ainda podem ficar impressionados. Ou então contam os seus actos de bravura, elogiam os seus reflexos apurados, a sorte, a camaradagem e as dificuldades com os outros como eles. Pouco dizem sobre o horror do que viveram, ainda que este às vezes se lhes escape surdo nos pesadelos que lhes trazem de novo o que viveram na guiné, moçambique ou angola. Talvez esse não dizer seja uma forma de apagar esse tempo, ou talvez não consigam encontrar dentro de si as palavras para contá-lo sem que volte a fazer-lhes mal. Talvez se tenham convencido de facto que já passou. Mas ela esteve aí, a guerra colonial existiu, a que conhecemos e a que adivinhamos. Afectou os nossos pais, as nossas mães, as nossas familias e até a nós, que tentamos conhecer e compreender melhor a presença surda e muda desse tempo que anda à berlinda nas nossas vidas.
08 janeiro 2012
Alta voltagem
Vou oscilando entre uns minutos na cadeira eléctrica e enfiar os dedos na tomada. Porque eu gosto mesmo é de uma bela descarga.
07 janeiro 2012
O cúmulo da ironia (história verídica com nomes semi fictícios)
Ricardo e Carlos eram dois jovens que em comum tinham o bairro em que moravam e o verem-se convocados para a mesma guerra embora em palcos diferentes. Ricardo, filho de gentes abastadas, iria parar à Guiné, onde o terreno era difícil e as balas, muitas, resultavam em grandes perdas para a nação que Salazar comandava; o outro, menos endinheirado e filho de pai que queria dar-lhe uma lição de vida e ensinar-lhe o que é "ser homem" (expressão sempre dita com vários pontos de exclamação a marcar o orgulho pelo produto final viril), não o poupando a esta tortura, tinha passagem marcada para andar aos tiros em Angola. A família do primeiro moveu influências e solicitou uma troca de postos com Carlos, o que veio a assegurar mediante a oferta de umas quantas notas de mil escudos. Quis o destino que a aventura de Ricardo em Angola não durasse mais de um dia. Haveria de regressar à metrópole, como tantos outros, em posição horizontal e mais rapidamente do que era suposto. Já Carlos cumpriu quase todo o serviço na Guiné até ao dia em que os estilhaços de uma mina o interromperam. E viveu uma vida em permanente conflito consigo próprio, uma vida na qual nunca mais se ergueu em absoluto, mas uma vida cheia e longa.
31 dezembro 2011
Porque a vida é bela
O dia de amanhã é o primeiro de um novo ano mas apenas mais um a seguir a todos os outros das nossas vidas. Um Ano Feliz, passado a celebrar vidas bonitas como as nossas, é o que desejo às oito gajas, ou nove e tal...
24 dezembro 2011
23 dezembro 2011
Um natal feliz
Com perú, com bacalhau ou cabrito, ou mesmo sem eles, mas com o brilho nos olhos só porque temos família que se faz de amigos e de parentes. Um natal feliz para as personalidades múltiplas que vão compondo estas páginas e para quem se dá ao trabalho de as ler. (este senhor que se segue sorri com a boca e com os olhos, e eu rendo-me ao seu sorriso...)
19 dezembro 2011
Outra caderneta de outro novo bairro
A dona Rosa dos jornais e o senhor António das frutas que parecem esperar a minha saída apressada pela manhã para me darem os bons dias, a rapariga de olhos gigantes que à porta da garrafeira me detém para uma gargalhada partilhada entre dois dedos de conversa em que maldiz o género masculino, o senhor da bilha de gás que em nada se assemelha à rapariga da Galp e que vive rodeado de gatos, os empregados com ar gasto e pouco brioso do restaurante da frente, o senhor Victor do talho que corta carne com a delicadeza e a distinção de quem faz arte, a família de brasileiros que no andar de baixo recebe gente dia sim dia não e que me custa perceber se confraternizam ou se se matam. A "menina" Estrela que mora no andar de cima, que leva para mais de duas décadas de avanço em relação a mim e que me confidencia que o segredo da sua jovialidade é nunca ter casado nem ter tido filhos. As ex putas, os ex toxicodependentes e outros párias, todos alcoólicos, todos sem dentes, que vegetam no take away da frente e que controlam a rua. O rapaz imigrante que na sua loja de conveniência vê televisão no ecrã micro enquanto aguarda a entrada de um cliente menos desconfiado a quem confidencia vender muito mais barato que o "chino" da rua. Outra dona Rosa que aproveita cruzar-se comigo para falar das articulações e da puta da idade, que traz sapiência mas não saúde.
Como é boa a vida num bairro em que as pessoas se olham nos olhos!
Como é boa a vida num bairro em que as pessoas se olham nos olhos!
42 abençoados
A vida é para valer, é uma só e é a arte do encontro. Ainda bem que te encontrei há tantos tantos anos atrás. Parabéns, querida oito aniversariante.
18 dezembro 2011
Ou como fracassamos sempre que nos queremos tornar naquilo que não somos
E por que carga de água lhe pus eu este título?! Talvez por ter postado a des(h)oras e com alguma obnibulação devido aos açucares resultantes da digestão dos alcoois. Toda a gente sabe que Pai Natal há só um.
17 dezembro 2011
Há 15 anos...
não estava um dia lindo como hoje mas foi seguramente o mais belo da minha vida. Almocei na Antiga Casa Faz Frio, interrompendo as garfadas para uma respiração profunda durante mais uma contração, o pai da criança c'os nervos, o Zé, empregado da casa e amigo, que transpirava quase tanto quanto ele e ambos muito mais que eu. Dez voltas a pé ao jardim do Principe Real para que a digestão se fizesse, uma paragem no Porão de Santos para dizer à quase-tia que o ia ser, uma viagem debaixo de chuva intensa até ao hospital, horas ligada a uma maquineta e as águas que não rebentavam, e a epidural que não vinha, e as contrações ao rubro, uma cortina rasgada, as águas que sairam à força de uma alavanca gigante e a epidural que não veio, e respirar o tanas!, qual respirar, qual controlo que aquela merda dói no momento da expulsão.
Às 23 horas e 13 minutos, relógio de parede assim dizia, ouvi-lhe o primeiro choro e despedi-me da minha barriga. (texto editado às 03h44 da manhã do dia 18) Quinze anos depois já comemorámos em separado; ela na casa de uma amiga que convidou mais amigas e lhe prepararam uma festa e eu a dançar até há 44 minutos atrás com pretextos vários, entre os quais celebrar a minha mais primorosa obra de arte. E eu que sempre me achei um ser sem arte!
Às 23 horas e 13 minutos, relógio de parede assim dizia, ouvi-lhe o primeiro choro e despedi-me da minha barriga. (texto editado às 03h44 da manhã do dia 18) Quinze anos depois já comemorámos em separado; ela na casa de uma amiga que convidou mais amigas e lhe prepararam uma festa e eu a dançar até há 44 minutos atrás com pretextos vários, entre os quais celebrar a minha mais primorosa obra de arte. E eu que sempre me achei um ser sem arte!
15 dezembro 2011
caderneta do novo bairro
A mulher zangada que grita com toda a família e de quem só conheço a voz. A velhota meia surda do andar de cima que ouve a eucaristia dominical todas as semanas. O velhíssimo cão que desce as escadas do terceiro andar ao colo do dono. A angolana enorme que vende comida para fora e me trata por querida enquanto enche uma embalagem com moamba. A tia desempoeirada do restaurante marroquino que distribui sorrisos de madeixas loiras. A chinesa da loja que nos segue à distância entre taparueres e lâmpadas para ter a certeza que ninguém a rouba. O homem das obras do prédio do lado que canta queen e antónio variações. O dono da mercearia que pendura na parede os desenhos do neto. O bêbedo desdentado que quer ser amigo da angolana mas que ela enxota com um olhar sério. Os homens da funerária que parecem mais mortos do que os clientes que enterram. As festas dos brasileiros aos domingos à tarde que inundam o bairro de samba e gargalhadas.
14 dezembro 2011
13 dezembro 2011
trabalho para casa: ver este documentário
Inside Job / Trabalho Interno (2010) Legendado PT from MDDVTM TV12 on Vimeo.
depois deste filme, não há canção liberal que nos possam vender.
12 dezembro 2011
interlúdio musical
Misteriosos caminhos os das sinapses cerebrais.
Hoje só me vêm à cabeça músicas assim.
(E descubro como são, afinal, lindas)
09 dezembro 2011
Todos os anos a mesma história,
lá vamos nós representar uma tradição não acreditamos mas que se repete há 2011 anos, o pai natal que nao existe e que é producto da coca-cola mas que ainda por todo o lado a fazer fotografias com as crianças, o menino jesus nas palhinhas deitado ao lado da sua mãe que é virgem mas que o concebeu com um pai que deu logo á sola e foi para o céu salvar a humanidade e deixou a mãe a cuidar o menino, a aturar-lhe as birras e a fazer dele um homem, o san josé que não é pai dele mas que fez mais por ele do que se fosse, as luzes de natal por toda a cidade a gastarem a electricidade que nao temos, os quilos e quilos de papel de embrulho e de plástico que contaminam o ambiente e as coisas inúteis que as pessoas oferecem para mostrarem que gostam de nós, as gestões das familias separadas, o 24 com a mãe, o 25 com o pai, o comércio a queixar-se ano após ano que este ano o negócio está pior, a ausência dolorosa de quem já não está entre nós. Todos os anos montamos a farsa e nos montamos nela.
Tenham uma boa farsa 2011.
Tenham uma boa farsa 2011.
08 dezembro 2011
Digamos que foi uma noite
... "espiritualmente correcta".
É bom ter amigas como vocês. (ainda tenho uma Mary e uma Margueritta a falarem dentro de mim)
É bom ter amigas como vocês. (ainda tenho uma Mary e uma Margueritta a falarem dentro de mim)
07 dezembro 2011
Hoje vai ser assim...
Mas este também não podia faltar
E amanhã é que vão ser elas. Graças à Senhora da Conceição, é dia feriado. Obrigada, senhora.
06 dezembro 2011
Quantas notas cabem numa vida?
Já lá vão cinco meses, hoje mesmo, que foste nessa tua viagem e eu a precisar de te falar na 2ª pessoa para te dar um puxão de orelhas e para podermos rir os dois.
Com que então, sempre foste um aluno exemplar... Mas viste, eu sei que viste, a caixa repleta de cartas trocadas entre ti e os teus pais e que eu descobri e "violei" com a minha irmã há dias. Cartas dos tempos em que foste entregue aos teus "amigos" padres em regime de internato, na que há-de ter sido uma tentativa desesperada dos teus pais para que tivesses juízo. E nelas, não há dúvida, bem se vê o cábula que eras. Oh pai, não me digas que não, não me lixes! Em 1958, conta redonda, fácil, já levavas 20 anos, estavas no 7º ano da época (no 7º ano!) e os alertas do director para o comprometimento do teu ano lectivo acompanhavam os teus textos quase sempre vazios e elípticos. Tu próprio dizes num deles que tiveste negativa a Filosofia "mas não faz mal, porque vocês sabem que sou bom a Filosofia". Hã hã...Ou ainda "mas as notas não interessam, o que interessa é passar, não é?"
Pois é. Se calhar até tens mesmo toda a razão. Para que raio interessam as notas nesta vida se o que importa mesmo é vivê-la e as notas são nada? Percebo que quem fez da vida o que tu fizeste, com algumas notas negativas mas com elevados valores, não se disponha a revelar à descendência esses pés de barro sem significado. Porque foi no caminho que percorreste que te conhecemos, que aprendemos as tuas mágoas, que te tornaste na pessoa valiosa que amámos. Nela ficaram as marcas de um casamento cheio de amor mas atormentado e encurtado pela ressaca de uma Guerra Colonial na 1ª pessoa, um outro em que reinou o desamor mas que durou uma vida de fuga e fingimento. E a guerra, ainda a guerra, sempre a guerra, que te enfiou o focinho nos copos de whisky como a avestruz o enfia na areia, que te impedia o sono nas noites em que os foguetes estouravam nas festas de Colares, de Almoçageme, do Mucifal, de Nafarros... Suspeito que mesmo sem foguetes e sem festa, era ela que estourava dentro de ti e que te impedia o sono nas outras noites também. Foi dela que vieste cheio de tiros colados à pele mas foi dela também que te fizeste sobrevivente numa vida em que as notas são nada, uma merda!
Com que então, sempre foste um aluno exemplar... Mas viste, eu sei que viste, a caixa repleta de cartas trocadas entre ti e os teus pais e que eu descobri e "violei" com a minha irmã há dias. Cartas dos tempos em que foste entregue aos teus "amigos" padres em regime de internato, na que há-de ter sido uma tentativa desesperada dos teus pais para que tivesses juízo. E nelas, não há dúvida, bem se vê o cábula que eras. Oh pai, não me digas que não, não me lixes! Em 1958, conta redonda, fácil, já levavas 20 anos, estavas no 7º ano da época (no 7º ano!) e os alertas do director para o comprometimento do teu ano lectivo acompanhavam os teus textos quase sempre vazios e elípticos. Tu próprio dizes num deles que tiveste negativa a Filosofia "mas não faz mal, porque vocês sabem que sou bom a Filosofia". Hã hã...Ou ainda "mas as notas não interessam, o que interessa é passar, não é?"
Pois é. Se calhar até tens mesmo toda a razão. Para que raio interessam as notas nesta vida se o que importa mesmo é vivê-la e as notas são nada? Percebo que quem fez da vida o que tu fizeste, com algumas notas negativas mas com elevados valores, não se disponha a revelar à descendência esses pés de barro sem significado. Porque foi no caminho que percorreste que te conhecemos, que aprendemos as tuas mágoas, que te tornaste na pessoa valiosa que amámos. Nela ficaram as marcas de um casamento cheio de amor mas atormentado e encurtado pela ressaca de uma Guerra Colonial na 1ª pessoa, um outro em que reinou o desamor mas que durou uma vida de fuga e fingimento. E a guerra, ainda a guerra, sempre a guerra, que te enfiou o focinho nos copos de whisky como a avestruz o enfia na areia, que te impedia o sono nas noites em que os foguetes estouravam nas festas de Colares, de Almoçageme, do Mucifal, de Nafarros... Suspeito que mesmo sem foguetes e sem festa, era ela que estourava dentro de ti e que te impedia o sono nas outras noites também. Foi dela que vieste cheio de tiros colados à pele mas foi dela também que te fizeste sobrevivente numa vida em que as notas são nada, uma merda!
04 dezembro 2011
Happy birthday!!!
Aos 38 ou aos 40, ou mesmo aos 40 e picos, é muito bom ter os carochas a cantarem os parabéns. Felicidades, querida oito e sempre sempre na nossa companhia.
03 dezembro 2011
Pedro
A idade faz-nos estas coisas, traz a recordação do que nas nossas vidas valeu a pena e extrai dela aquilo que não valeu, nem uma pena nem nada, nem um chavo sequer.
Hoje é dia 3 do último mês do ano e lembro, por ser o dia dos seus anos, um dos grandes amores da minha vida.
E falar de amores não é uma banalidade. Quando se leva pelo menos metade de uma vida às costas, a palavra amor é uma constelação onde poucas estrelas cabem. E ele cabe não pelo amor que lhe tive, que foi muito mas repleto de adolescência tardia, mas mais, muito mais, por aquele que ele me dedicou. Hoje reconheço essa grandeza com muita saudade. É sempre assim, só anos passados se consegue dar o devido valor ao que se deixou fugir.
O Pedro era um homem de palco mas cheio de medo das luzes. Único na forma como contava anedotas e tão capaz de papéis cómicos, tão a jeito da sua fisionomia, como de papéis dramáticos que me faziam chorar de comoção quando subia a palco. Um homem bonito e que sabia provocar o riso nos que o rodeavam mas que chorava muitas vezes em silêncio. Um homem com uma só cara.
Um dia escolheu voar e eu sabia que um dia havia de ser essa a escolha. Conhecia-o e entendi-o como um gesto de coragem. O derradeiro mas, talvez, o único gesto de coragem que teve perante uma vida que não ia com ele e com a qual ele travava uma luta desigual. Quando o telefone tocou eu quase que já sabia que notícia ele me trazia do outro lado do fio.
Parabéns meu amigo, parabéns meu amor. Hoje eu brindo à tua vida, da qual eu me honro ter feito parte, e que foi enorme.
Hoje é dia 3 do último mês do ano e lembro, por ser o dia dos seus anos, um dos grandes amores da minha vida.
E falar de amores não é uma banalidade. Quando se leva pelo menos metade de uma vida às costas, a palavra amor é uma constelação onde poucas estrelas cabem. E ele cabe não pelo amor que lhe tive, que foi muito mas repleto de adolescência tardia, mas mais, muito mais, por aquele que ele me dedicou. Hoje reconheço essa grandeza com muita saudade. É sempre assim, só anos passados se consegue dar o devido valor ao que se deixou fugir.
O Pedro era um homem de palco mas cheio de medo das luzes. Único na forma como contava anedotas e tão capaz de papéis cómicos, tão a jeito da sua fisionomia, como de papéis dramáticos que me faziam chorar de comoção quando subia a palco. Um homem bonito e que sabia provocar o riso nos que o rodeavam mas que chorava muitas vezes em silêncio. Um homem com uma só cara.
Um dia escolheu voar e eu sabia que um dia havia de ser essa a escolha. Conhecia-o e entendi-o como um gesto de coragem. O derradeiro mas, talvez, o único gesto de coragem que teve perante uma vida que não ia com ele e com a qual ele travava uma luta desigual. Quando o telefone tocou eu quase que já sabia que notícia ele me trazia do outro lado do fio.
Parabéns meu amigo, parabéns meu amor. Hoje eu brindo à tua vida, da qual eu me honro ter feito parte, e que foi enorme.
Frases sábias das amigas
"Há quem escolha fazer da vida uma obra prima e quem escolha fazer dela uma obra pimba!"
Como às vezes é tão fácil ver a luz e perceber os equívocos da vida!
Como às vezes é tão fácil ver a luz e perceber os equívocos da vida!
02 dezembro 2011
01 dezembro 2011
Curta do oito aos sábados (ou às quintas feiras por ser dia feriado)
"As coisas que amamos
as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto." Carlos Drummond de Andrade
29 novembro 2011
Aprende-se muito com adolescentes em casa. Aprendem-se palavras e expressões, músicas e vídeos. A nova paixão cá em casa é o Nurb.
Ou muito me engano, ou ainda vamos ouvir falar deste miúdo.
26 novembro 2011
Vantagens de habitar um primeiro andar baixinho ao pé de restaurante onde se apanham grandes pifos
Acabou de embater uma coisa destas, em tamanho gigante e apenas com o cartão semi-aberto, na minha janela e com votos gritados de "Feliz Natal". Presumo que a noite possa ter corrido mal a alguém mas eu fiquei a ganhar.
23 novembro 2011
Ele vem aí para ficar
...apesar das mínimas baixas.
EI, DEPRESSÃO DOS DIAS INVERNOSOS, VAI PRÁ-PUTA-QUE-TE-PARIU!!!
EI, DEPRESSÃO DOS DIAS INVERNOSOS, VAI PRÁ-PUTA-QUE-TE-PARIU!!!
20 novembro 2011
A minha árvore
Não tive dúvidas. Mal tinha ainda entrado naquela que é agora a minha casa, já a sabia minha, como se de alguma forma eu já a habitasse. Percorri os espaços com uma não estranheza que chegava a ser inquietante. E foi ao chegar à cozinha que vi, para lá da janela, a árvore a que passei carinhosamente a chamar a minha árvore.
Era grande, majestosa até, linda, com o sol as folhas ganhavam diferentes verdes. Senti-a como um elemento protector e detinha-me horas a fio a beber o meu café matinal e a olhar para ela. Uma árvore perde as folhas a cada outono que passa, assim como nós perdemos o cabelo e ficamos mais tristes. Mas a primavera renova-a, traz-lhe vigor e a esperança de ser de novo habitada. Eu via-a perder a alegria a cada dia mas não a força. Nela pousava quase todas as manhãs um melro, não sei se o mesmo ou se vários, com o qual me habituei a uma troca de assobiadelas. Fascinaram-me sempre, os melros. Penso muitas vezes que eles transportam a alma de pessoas que amei e que, como eu, se entregavam facilmente a uma conversa assobiada. E como são simples! Completamente negros, com o bico laranja. A beleza que lhes vem da simplicidade.
Há dias fui sobressaltada com o som seco e frio de um machado que, aos poucos, desmembrava a minha árvore, sem qualquer amor, sem qualquer emoção. Parece que largava muitas folhas e que a vizinhança se queixava dos estragos e do lixo.
Da minha árvore sobra um coto. Morreu a esperança de a ver tornar-se verde. A minha cozinha está despida e pela janela só o branco sujo dos muros mas não a vida. Em mim, ficou maior o medo do uso dos possessivos. Tanto a que eu chamei meu e que a vida (ou a morte) me levou em escassos meses.
O melro, não sei se o mesmo ou se outro, canta agora numa outra árvore num quintal lá adiante. Não sei se tem quem fale com ele. Espero que sim porque eu sinto-lhe a falta.
Era grande, majestosa até, linda, com o sol as folhas ganhavam diferentes verdes. Senti-a como um elemento protector e detinha-me horas a fio a beber o meu café matinal e a olhar para ela. Uma árvore perde as folhas a cada outono que passa, assim como nós perdemos o cabelo e ficamos mais tristes. Mas a primavera renova-a, traz-lhe vigor e a esperança de ser de novo habitada. Eu via-a perder a alegria a cada dia mas não a força. Nela pousava quase todas as manhãs um melro, não sei se o mesmo ou se vários, com o qual me habituei a uma troca de assobiadelas. Fascinaram-me sempre, os melros. Penso muitas vezes que eles transportam a alma de pessoas que amei e que, como eu, se entregavam facilmente a uma conversa assobiada. E como são simples! Completamente negros, com o bico laranja. A beleza que lhes vem da simplicidade.
Há dias fui sobressaltada com o som seco e frio de um machado que, aos poucos, desmembrava a minha árvore, sem qualquer amor, sem qualquer emoção. Parece que largava muitas folhas e que a vizinhança se queixava dos estragos e do lixo.
Da minha árvore sobra um coto. Morreu a esperança de a ver tornar-se verde. A minha cozinha está despida e pela janela só o branco sujo dos muros mas não a vida. Em mim, ficou maior o medo do uso dos possessivos. Tanto a que eu chamei meu e que a vida (ou a morte) me levou em escassos meses.
O melro, não sei se o mesmo ou se outro, canta agora numa outra árvore num quintal lá adiante. Não sei se tem quem fale com ele. Espero que sim porque eu sinto-lhe a falta.
19 novembro 2011
Às minhas parceiras setipicosoiticoisanovital
De uma múltipla com falta de inspiração e medo da exposição. Mesmo a precisar de um jantarinho animado e bem regado.
13 novembro 2011
Ruínas
Por onde quer que tenha começado,
pelo corpo ou pelo sentido,
ficou tudo por fazer, o feito e o não feito,
como num sono agitado, interrompido.
O teu nome tinha alturas inacessíveis
e lugares mal iluminados onde
se escondiam animais tímidos que só à noite se mostravam
e deveria talvez ter começado por aí.
Agora é tarde, do que podia
ter sido restam ruínas;
sobre elas construirei a minha igreja
como quem, ao fim do dia, volta a uma casa.
Manuel António Pina
pelo corpo ou pelo sentido,
ficou tudo por fazer, o feito e o não feito,
como num sono agitado, interrompido.
O teu nome tinha alturas inacessíveis
e lugares mal iluminados onde
se escondiam animais tímidos que só à noite se mostravam
e deveria talvez ter começado por aí.
Agora é tarde, do que podia
ter sido restam ruínas;
sobre elas construirei a minha igreja
como quem, ao fim do dia, volta a uma casa.
Manuel António Pina
12 novembro 2011
10 novembro 2011
09 novembro 2011
São mesmo o melhor do mundo
Informavam-me que amanhã temos a fotografia da classe e quase me ordenavam que eu devia vir aperaltada, "impecável!", exclamou o V. Retorqui um ora, pois não ando eu sempre impecável e bem apresentada?! Foi então que da boca de D. ouvi a revelação: entenda, professora, que nós sabemos que anda sempre a 100%. Mas o que queremos é que amanhã esteja a 200% para que em vez de parecer ter 35, pareça ter 25.
Não é da boca das crianças que sai sempre a verdade?
Não é da boca das crianças que sai sempre a verdade?
08 novembro 2011
Inesperada e profunda declaração de amor (ouvido no metro)
Sabes, pá, eu durante o dia até nem me sinto nada mal sozinho. Consigo suportar bastante bem. Mas à noite é que me faz cá uma falta ter companhia... Não queres namorar comigo à noite?
Dedicatória a uma oito transtornada
Desculpa lá, amiga oito, transtornar-te nesta nossa casa, mas parece que cantei esta canção ao longo de todo o meu sonho.
07 novembro 2011
Do not disturb
Entre o que tenho de um lado e não quero, e o que queria por outro e não tenho, acho que preciso de uma electrocução. Vou ali sentar-me um bocadinho na cadeira eléctrica. Por favor, não incomode.
Tacones Lejanos
Sabes pá, há dias em que se acorda já com a raiva do que se foi e do que não se chegou a ser. E ela, a puta, irreprimível, a bailar entre a goela e o ventre, come-nos por dentro e nós a querer expulsá-la a cada expiração e ela, insidiosa, provocadora, que não vai, não vai.
Acendo um cigarro, ponho o café a aquecer no pucarinho de alumínio, dou um golo e travo já o fumo de outro cigarro, abro e fecho as portas da varanda que atravesso num e noutro sentido e sempre sem saber onde vou quando as passo para o interior.
Por que razão a raiva, pergunto eu. E por que não?, torno. E por que raio de moralidade tenho de me sentir pecadora ou culpada pela sua existência dentro de mim? E que culpa tenho eu que ela tenha vindo cá morar? Não a chamei e até nem consigo conviver muito bem com ela, mas enviaram-ma com muito carinho e tenho de a aceitar.
Vou sair, penso, e transformar em passos sincopados a dor que vai cá dentro. Caminharei por algumas horas sobre os passeios desta cidade. Paro em frente à montra de uma sapataria, entro a medo que o dia não se conjuga com o verbo confiar-em-si. E olha, vê tu bem, transformei a tal coisa que tinha cá dentro num par de sapatos que para além de não muito caros, até são de salto alto, acessório que uma voz amiga me confiou não dar muito jeito mas fazer muito bem.
Hoje saí para a rua com 66 euros de raiva nos pés, que calquei, pisei, sacudi, esmaguei e acabei por abandonar nas pedras da calçada. A raiva, porque os sapatos, sendo de salto, fazem-me mesmo muito bem.
Acendo um cigarro, ponho o café a aquecer no pucarinho de alumínio, dou um golo e travo já o fumo de outro cigarro, abro e fecho as portas da varanda que atravesso num e noutro sentido e sempre sem saber onde vou quando as passo para o interior.
Por que razão a raiva, pergunto eu. E por que não?, torno. E por que raio de moralidade tenho de me sentir pecadora ou culpada pela sua existência dentro de mim? E que culpa tenho eu que ela tenha vindo cá morar? Não a chamei e até nem consigo conviver muito bem com ela, mas enviaram-ma com muito carinho e tenho de a aceitar.
Vou sair, penso, e transformar em passos sincopados a dor que vai cá dentro. Caminharei por algumas horas sobre os passeios desta cidade. Paro em frente à montra de uma sapataria, entro a medo que o dia não se conjuga com o verbo confiar-em-si. E olha, vê tu bem, transformei a tal coisa que tinha cá dentro num par de sapatos que para além de não muito caros, até são de salto alto, acessório que uma voz amiga me confiou não dar muito jeito mas fazer muito bem.
Hoje saí para a rua com 66 euros de raiva nos pés, que calquei, pisei, sacudi, esmaguei e acabei por abandonar nas pedras da calçada. A raiva, porque os sapatos, sendo de salto, fazem-me mesmo muito bem.
04 novembro 2011
Amores à primeira vista
Cheguei ao grande supermercado de livros muito tempo antes da hora marcada para o happening de fim de dia. Como sempre, uma impossibilidade de ali entrar, ali ou em qualquer livraria, e sair de mãos a abanar. É como a velha história de ir a Roma e não ver o Papa. Mesmo se não uma impossibilidade, uma enorme dificuldade.
Deambulei com algumas ideias bem claras na minha cabeça do que gostaria de levar para casa. Havia começado a ler, por sugestão de uma amiga do peito, um romance de Ricardo Adolfo, uma surpreendente revelação na literatura em português, mas que tive de deixar para trás no momento de retorno à pátria. "Depois de morrer aconteceram-me muitas coisas" é uma história apaixonante narrada por um imigrante ilegal que se perde na cidade onde habita não conseguindo encontrar o caminho para casa. Encontrei-o e pu-lo na cesta. Procurei "A Cidade dos Prodígios", sem sucesso. A paixão que trago por Barcelona precisava de ser alimentada por um romance que me falasse dela e era este mesmo que tinha na fisgada.
Mas como tantas vezes me acontece na vida, às vezes basta-me querer para que a surpresa me caia mesmo à frente do nariz. Não estava lá o que eu procurava mas bastou-me varrer com o olhar o primeiro expositor dos estrangeiros traduzidos para me deparar com uma capa fabulosa, ilustrada por uma imagem lindíssima do fotógrafo do instante, Catalá Roca.
E agora ando com Clara, com Daniel, com Barceló, com Julián Carax e mais umas quantas personagens, a viajar pelas ruas da Barcelona do princípio do século XX.
É o que eu sinto: Barcelona vai comigo e eu vou muito bem com ela. E este é um amor à primeira vista nada traiçoeiro.
Deambulei com algumas ideias bem claras na minha cabeça do que gostaria de levar para casa. Havia começado a ler, por sugestão de uma amiga do peito, um romance de Ricardo Adolfo, uma surpreendente revelação na literatura em português, mas que tive de deixar para trás no momento de retorno à pátria. "Depois de morrer aconteceram-me muitas coisas" é uma história apaixonante narrada por um imigrante ilegal que se perde na cidade onde habita não conseguindo encontrar o caminho para casa. Encontrei-o e pu-lo na cesta. Procurei "A Cidade dos Prodígios", sem sucesso. A paixão que trago por Barcelona precisava de ser alimentada por um romance que me falasse dela e era este mesmo que tinha na fisgada.
Mas como tantas vezes me acontece na vida, às vezes basta-me querer para que a surpresa me caia mesmo à frente do nariz. Não estava lá o que eu procurava mas bastou-me varrer com o olhar o primeiro expositor dos estrangeiros traduzidos para me deparar com uma capa fabulosa, ilustrada por uma imagem lindíssima do fotógrafo do instante, Catalá Roca.
E agora ando com Clara, com Daniel, com Barceló, com Julián Carax e mais umas quantas personagens, a viajar pelas ruas da Barcelona do princípio do século XX.
É o que eu sinto: Barcelona vai comigo e eu vou muito bem com ela. E este é um amor à primeira vista nada traiçoeiro.
01 novembro 2011
Inventem-se novas famílias
Tornei este outono a Barcelona com umas coisas no coração, que entretanto deixei cair pela janela (consta que em Barcelona objectos volumosos podem cair das janelas fazendo perigar a vida a passeantes mais incautos) mas vim de lá com outra bem maior. Regresso com a certeza que a família não é o conceito abstracto a que nos habituámos mas sim as pessoas e os sítios onde nos sentimos bem, onde somos de verdade, aos quais sentimos pertencer sem que pertença signifique posse. Estar em família significa cooperar, enfrentar a vida com o(s) outro(s) entendendo e respeitando silêncios, partilhando dores e alegrias. Significa discutir pontos de vista, respeitar espaços e ideossincrasias, rir, brincar, chorar, aconselhar sem impor, concedendo ao outro a liberdade das suas próprias escolhas.
Estive em família e isso é sentir-me em casa. O caminho para Portugal é por aqui (<). O meu corpo partiu mas parte de mim ficou por ali.
Estive em família e isso é sentir-me em casa. O caminho para Portugal é por aqui (<). O meu corpo partiu mas parte de mim ficou por ali.
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