Se no final deste ano eu não for viver para um sítio ermo, sem vizinhos nem gente que me chateie a mona, então é a prova da minha resiliência à prova de bomba atómica.
Começámos a ter uma infestação de baratas no prédio; quase de certeza que vinha de casa da D. Madalena, mas de qualquer modo já estavam a alastrar por mais duas casas. Como eu, boa alma com lugar cativo à esquerda do senhor (seja lá ele quem for) sou a administradora voluntária deste ano, calhou-me em rifa chamar a empresa para eliminar toda a bicharada, de todas as casas, esgotos, partes comuns, e, já que estávamos nisso, os ratos que me atormentam a existência.
O meu dia começou às 8h50 com o senhor a tocar-me à porta enquanto ainda punha cremes na fronha, sem pequeno almoço. Engulo um café e mãos à obra.
Vamos de casa em casa a exterminar tudo aquilo, e eu procuro como uma louca a chave para levantar as caixas dos esgotos. Como não se encontra em lado nenhum, desato a tocar às portas de todos os prédios, a ver se alguém me pode emprestar a sua, mas claro, ninguém tem, sabe ou está. Cada vizinho a quem peço notícias do paradeiro da mesma tem uma brilhante ideia para eu executar; um que ligue à câmara, outros às chaves do areeiro, melhor ainda aos bombeiros. Que vá à casa de ferragens ao fundo da rua. Eu ia sempre perguntando “e um pé de cabra não tem?”. Estranhamente ninguém tinha, mais valia ser vizinha de ladrões de carros, esses ser-me-iam decerto mais úteis que estas abéculas. Depois de percorridos os contactos sugeridos e em nada terem resultado, decido cravar o jardineiro da câmara para me ajudar a levantar as tampas com uma picareta e uma enxada. Dêem-me uma alavanca e eu levanto o mundo; não estava errada. Eu sabia que tinha uma razão para gostar de cavadores de batatas, este também não me deixou mal: prova superada, contra todos os vaticínios.
A velha do r/c esq da janela só repetia “isso não vai dar, assim não vão conseguir”. A múmia do 2º, “ai que partem um pé”, o do 1º “já lhe disse que chamasse os bombeiros, era uma limpeza”. Eu e o cavador é que lhes mostrámos o que era, Arquimedes rules.
No meio disto, a D. Madalena não abria a porta nem por mais uma, apesar dos murros na porta e toques insistentes. Já pensávamos mandar vir a polícia, sabe-se lá o que o Jorge lhe teria feito, quando ela nos aparece sorridente com um ramo de malmequeres e violetas colhidos durante o seu bucólico passeio pelos jardins da vizinhança. Entretanto, a pespineta dos caniches era a única que não aparecia para que lá fossem a casa. Quando entra finalmente pelo prédio adentro, a rugazinha no canto da boca deixou-me logo o alarme: vem chatice. Começou com o seu tomzinho irritante de voz a dizer que na casa dela só depois das 14h30, que não podia ser, que não queria. Respiro fundo, não há de ser nada. Eles voltam na sexta, logo se vê então.
Venho para casa, sento-me no sofá estafada, depois de ter subido e descido dúzias de vezes as escadas do prédio e andado por todas as ruas do quarteirão à procura de uma abertura para os esgotos, quando recebo telefonema da vizinha do r/c: as baratas estão-se a atirar pela janela da D. Madalena abaixo, uma espécie de 11/9 da entomologia. Preferem arriscar a morte por esmagamento que a tortura do veneno. "e agora o que é que eu faço?", pergunta-me. Deixe-as cair. O que é que ela queria que eu respondesse?
Acendo um cigarro e o computador. De repente, começo a sentir a língua encortiçar e os braços dormentes. Ai que estou envenenada, ai minha mãezinha o que é eu faço. Ligo ao homem da desinfestação, explico os sintomas e pergunto-lhe se devo chamar uma ambulância.
"Minha senhora, deve ser fraqueza. Esteve o dia todo a correr de um lado para outro só com um café, que tomou À minha frente. Apanhe um bocado de ar e coma, vai ver que se sente melhor".
Era verdade. Fiquei comovida. Quero ir viver para um prédio onde tenha por vizinhos o jardineiro e o homem da desinfestação.
(continua, como sempre)