30 abril 2008

Asteraceae*

* Ou Gerbera, nome comum.

(Recebidas hoje, via mail-expresso)

Ribautas

"Não podemos deixar que se arraste no tempo. Em Julho queremos estar todos a apoiar solidariamente a selecção nacional de futebol."
É este o desejo expresso pela patusca figura que é o senhor Ribau Esteves, que de ilustre desconhecido saltou para a ribalta política no mesmo tempo que o diabo leva a piscar um olho. É assim que ficamos a saber não só o que o faz mover na solução do enorme circo instalado no seu partido mas, e mais importante ainda, ficamos a conhecer os intentos solidários desta malta laranja. E comovem-me!
Pois acho bem... Acho até mesmo melhor que não percam tempo e que vão mas é, em grande maioria, andando. Como ele há muito quem por aí precise de apoio, ofereço até, de borla, uma lista de sugestões a terem em conta. Podem apoiar os defensores do "tunning", frustrados que estão com a impossibilidade de conceberem legalmente carripanas que circulam a 380Km/h.; podem (e devem!) prestar apoio às vítimas de "car-jacking", mas também fazê-lo ao próprio "car-jacker" que, coitado, tem visto exposto publicamente todo o seu "modus operandi", o que veio pôr à coca a malta condutora; devem solidarizar-se com os consumidores que querem ver os hipermercados abertos aos domingos mas também apoiar os que, como Sócrates, querem vê-los fechados; podem também apoiar o Belenenses, que viu serem-lhes roubados 6 pontos no campeonato e, já agora, os jogadores do Boavista por não receberem salários há meses.
Enfim, dei o meu contributo, e sem muito esforço. Se necessitarem mais sugestões, é só pedi-las que eu, a bem de alguma decência, estou pronta a dá-las.
Ah! E já agora, no 13 de Maio passem pela Cova de Iria e peçam, encarecidamente, à Senhora, que vos salve (e nos salve) do Dr. Jardim.

Mayday


Concentração no Largo Camões a partir das 13h, para picnic e animação.
Partida às 15h em direcção ao Martim Moniz.
Lá estarei.

Bombeiros dotados

A minha teoria

Depois deste post e dos respectivos comentários, não resisti a iluminar o mundo sobre a causa do reaparecimento dos nomes antigos e do tratar os filhos por tu ou por você. Comecemos pelos primeiros.

Há quase um ano, foi aqui feita uma incursão sobre os nomes próprios e a sua variação ao longo dos tempos. A razão pela qual os nomes ditos tradicionais estão de volta com uma disseminação de proporções verdadeiramente tsunamicas/irritantes e para que todos os Zés dos subúrbios não tradicionalmente chiques tenham filhas chamadas Matilde (e até pretendem tratá-las na 3.ª pessoa do singular, independentemente de tudo o resto) é simples. São as telenovelas da TVI!

Reparem: Foi nos anos 90 que começou a invasão dos nomes bafientos. E foi na TVI, nos anos 90, que a produção nacional deste género começou em força, com enredos sempre passados em clima de média/alta alta sociedade, tudo cheio de quintas e herdades, onde os meninos/as se apaixonam pelas sopeiras e pelos moços de estrebaria e acaba sempre tudo em tons de cor-de-rosa porque, afinal, o que conta é o amor e tal. Ora, as personagem são sempre Martins e Matildes e, vai daí, pimba, a nova geração é toda de Martins e Matildes. Lógico, não?

Para ser justa, também tenho de reconhecer que as Caras, Flash, Marias e TV Guias e afins também ajudam porque todas as crianças derivadas de famosos (independentemente de isso ser uma realidade ou uma produção fictícia) também são Martins ou Matildes (via TVI, claro!).

Quanto ao tratar os filhos por tu ou por você: por uns poucos que sabem porque o fazem, tantos outros apenas imitam e é nestes tantos casos em que tudo aquilo soa de maneira estranha. Juntamente porque é estranho (mais um exercício notável de lógica).
O que me enerva é a pretensão pretensiosa de que basta um determinado nome próprio ou um tempo verbal para que tudo na vida mude.

PS: Nunca tive colegas com nomes tão extraordinários como Fabíola Gisela ou Sandra Lafaiete, mas adoro esta: no Brasil há um operador de câmara dá pelo belo nome de José Microondas!

Este país não é para....

Senhora de voz estridente, presumo que no fórum TSF, ouvido no rádio do táxi ao lado:

" eu não sou especialista e por isso não posso afirmar, mas tenho a certeza absoluta que (...)" .

Não sei o que pensar sobre mim

Num momento de inspiração, disse à coordenadora do projecto em que trabalho que devíamos rever o orçamento, pois acho que estou a receber demasiado dinheiro.
Talvez um néon na testa a dizer Otária me ficasse a matar.

março 2001 (parte 2)

Estar na ribalta da vida pública não é fácil, os pobres políticos sofrem níveis de stress bastante elevados. Por exemplo, o Alcalde de Apartadó, o nosso presidente da câmara (ou melhor, da junta de freguesia), tem toda uma parafernália de segurança que deixa o silvester stalone a roer as unhas de inveja e outro dia pude assistir a tudo com este dois (ou três) que a terra há-de comer. Quando o senhor sai de casa já tem o carro blindado à porta, com dois homens lá dentro, outros dois a guardar a rua, outro atento à porta do carro, que só abre no segundo exacto em que ele está prestes a entrar, e outro ainda sempre a acompanhá-lo. Em menos de um ai, entra o alcalde e arranca o carro numa velocidade muito superior à permitida pelas leis do país e da cidade que governam.
Outra coisa também curiosa, nos seus discursos à população, sempre diz: a minha cidade, o meu centro desportivo, o meu povo, etc. Um eleitor menos atento ou consciente da realidade até poderia pensar que ele está nesse posto por ordem do divino, que por sinal, tem um conjunto de fãs bastante numeroso, pois igrejas pentacostais, evangélicas, quadrangulares, triangulares, adventistas e de tantas outras formas e feitios, são às resmas, há entre uma e três por cada rua.

março 2001 (parte 1)

O Ministro da Defesa colombiano, perante o pedido da população de Barrancabermeja para que o Governo exerça o seu dever de protecção aos cidadãos e ajude a cidade a combater o paramilitarismo, reagiu prontamente e com zelo, mandando entregar 200 caixões à cidade para ajudar os mais pobres. Certamente inspirou-se no slogan de uma funerária de Apartadó, que tinha escrito em letras garrafais num cartaz “Funerária San Nicolas Trabalhamos com amor”. De facto, o amor é um requisito imprescindível para o bom desempenho de uma funerária por estas bandas, quanto mais não seja o amor a um negócio rentável em que a matéria prima abunda. Mas também a capacidade de discrição é um requisito fundamental, para além de ser útil à sobrevivência...
Um amigo meu daqui conta que o funeral mais triste a que assistiu, foi o de um homem que tinha sido morto já se sabe por quem, e em que apenas ia a viuva, ele e psicólogo da fundação compartir, que é uma ong que apoia as viuvas e órfãos vítimas da violência; 3 gatos pingados acompanhando um caixão pois ninguém mais se atrevia a pôr o pé fora da porta.
Em Apartadó todos os dias há imensas mortes silenciosas e rapidamente abafadas nos bairros mais pobres da cidade. Apenas se ouvem os tiros durante a noite pois as lágrimas das pessoas são rapidamente secas pelas ameaças dos assassinos, (organizados legalmente numa empresa de segurança chamada Convivir e formada pelo que é hoje presidente da Colômbia, Álvaro Uribe).
As Convivir actuam dentro dos bairros mantendo a lei (que tipo de lei é outra questão) e amoral, perdão, a moral. Alguns exemplos, o filho do nosso motorista teve de fazer um retiro forçado para Medellin, pois estava ao lado de um amigo quando o mataram por ter utilizado linguagem imprópria (asneiras) e porque viu as caras que todos viram e conhecem. Por isso, é recomendável umas vacaciones até que a coisa acalme. Este é um outro tipo de desplazamento, são quase invisíveis pois as pessoas não se registram como desplazados por medo a represálias Técnicamente chama-se gota a gota e são as mulheres viuvas quem tem a fatia maior da torta deste tipo de desplazamentos.
As Convivir também fazem reuniões com a população nos bairros pobres. Contam a senhora que nos limpa a casa, Ubaldina, uma viuva vítima da violência, e as nossas secretárias, Marley e Dennis, orfãs da violência, que eles fazem a lista dos comportamentos aconselháveis para o bem da ordem pública. Alguns exemplos: as mulheres não podem andar com roupas demasiado decotadas, têm de cuidar bem dos seus filhos, a infidelidade não é bem vista, assim como o uso de palavras grosseiras. Os roubos também não são permitidos e aqui aplica-se a técnica árabe do cortar a mão ao ladrão, e em casos mais graves corta-se a vida. Também os indigentes e os meninos e meninas de rua são um problema social e estes senhores consideram que o mal deve ser eliminado pela raiz, por isso é frequente aparecerem meninos de rua mortos debaixo da ponte de Apartadó.
A tudo isto, as Convivir dão-lhe o nome técnico de limpeza social.

29 abril 2008

E mais um, e mais outro e ainda outro. E outro ainda (actualizado)

Mais quatro blogs juntaram-se ao MC-L7C.

Aquele abraço à Sem-se-ver e à Cocó na fralda. E ainda à Miss-detective. E agora também à A Pipoca mais doce. Saravah!

Até o contador já se mexeu hoje!

4'33'' versão blog

:







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grunch grunch









CLAP CLAP CLAP BRAVO BRAVO CLAP CLAP CLAP

28 abril 2008

Mais um blog

que se junta ao MC-L7C!

obrigada ao Aspirina B.

O contador é que não se tem mexido muito estes dias, será chuva, será vento ou avarias da Caixa Geral de Depósitos?

Entrámos hoje na última semana de campanha, que fechará oficialmente no próximo dia 4.

Até lá quem possa e quem queira faça mexer o contador!!

Composição musical com pauta

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Nota: Infelizmente os meios técnicos não permitiram gravar a música, assim sendo fica só a pauta.

Novembro de 2000

Aqui vai mais uma ronda de notícias ou lá como se possa chamar este desfiar de acontecimentos deste país que sempre está a começar tudo outra vez. Cada dia é apenas cada dia, primeiro e último, aqui a memória da história pertence ao chamado “curto prazo”.
Outro dia lia num jornal que a história deste pais é de apenas 4 anos, pois cada vez que há eleições muda tudo, mudam os políticos, as leis, a estrutura organizativa e todo o pessoal das distintas alcaldias ou instituições, desde o alcalde ao vigilante nocturno e à senhora da limpeza. Como exemplo, a ministra da cultura recém eleita quis fazer um novo programa de cultura e propôs suspender as temporadas de ópera e concertos de música clássica por ser música estrangeira, pois neste momento a sua política é de reforçar da identidade e a autoestima nacional através da cultura que produzem os próprios colombianos. Como é óbvio, a medida foi demasiado impopular e apenas uma pequena percentagem da população esteve de acordo com semelhante barbaridade em relação à musica clássica. Mas sim quanto ao promover a cultura colombiano, pois aqui cultura e identidade nacional vão ligadas. De facto, há uma campanha para instaurar um sentimento de identidade nacional, há necessidade de união entre irmãos. E cada grupo armado, cada elemento de governo e de estado e cada cidadão tem um sincero mas bizarro sentimento de nacionalismo. As FARC lutam pelo povo colombiano, matando aqueles que colaboram com os paramilitares. Os paramilitares lutam contra a guerrilha porque esta atenta contra o povo colombiano. Os militares lutam contra as guerrilhas e contra os paramilitares porque estes atentam contra os direitos humanos do povo colombiano. E o povo colombiano vai, ainda que timidamente, pois o medo aqui pertence ao mundo real, condenando os paramilitares e a guerrilha de atentarem contra os direitos humanos de todos os colombianos. Por outro lado, o Governo tenta conversar com todos, mas vê-se à brocha. Os paramilitares acusam o governo de não impor condições à guerrilha. A guerrilha faz greve de zelo nas negociações do processo de paz. E todos os 7 dias da semana, pontualmente às 6 da tarde, todas as rádios passam o hino nacional. E o povo colombiano responde: Presente.
E para concretizar com um exemplo recente de continuação do ciclo vicioso de críticas e de não intenção de união ou de diálogo. O Governo tentava negociar com a guerrilha o fim do sequestro e a entrega de guerrilheiros detidos, por militares sequestrados. Os paramilitares acham que o governo não tem que negociar isso com a guerrilha e sequestra a seis deputados do senado. O Presidente do Senado faz uma declaração pública contra o sequestro, contra a guerrilha, contra, embora mais soft, os paramillitares e contra o governo porque este não tem sucesso nas negociações com a guerrilha. O governo, ainda que com alguma justificação, é o saco de pancadas de todos os lados, inclusive de si próprio. E a interiorização da noção de Estado em todos os colombianos ainda é um processo que tem muito que caminhar.
Pertencer a um país é uma herança que te segue por onde vais. E ter um país em guerra e com tantos conflitos a tantos níveis não é uma herança fácil, pois a violência instala-se e demora a ser erradicada, de tão entranhada que está no dia a dia há tantos e tantos anos. (...)
Agora fico por aqui pois tenho de ir descansar depois da operação que fiz para arrancar dois dentes, e pela qual tive três anestesias, três. E ontem logo depois da operação fui para uma festa onde tomei alguns whiskys com muito gelo, por receita médica, mas não consegui cumprir a parte em que tinha que estar muito quietinha e não dançar. Por isso hoje o corpo está a dizer para ficar sossegada e descansar muito. E eu cumpro. Hoje.
Muitos beijinhos

Para a minha múltipla, com amor

novembro de 2000
(...) E a memória que nasce da historia que se constrói, perde-se nessa intensidade tão especial dos dias aqui na Colômbia, em que a heroína de muitos milhões de colombianos é Betty la Fea, protagonista da telenovela de maior audiência que dá todos os dias às 21.30, por televisão e por rádio. Uma mulher jovem mas com ar de velha, com aparelhos nos dentes, uns enormes óculos quadrados de massa, e vestida sempre com vestidos tão decentes quanto antiquados. É secretária numa grande empresa e apesar de ser de uma grande honestidade, apaixona-se pelo patrão e ajuda-o a mascarar as finanças da empresa. É a alma central daquela empresa que sem ela já tinha ido à bancarrota por dívida ao fisco. Mas depois de descobrir que o patrão es está a utilizar dela e da sua paixão, denuncia-o, deixando completamente miserável económica e sentimentalmente, pois entretanto ele tinha-se de facto apaixonado loucamente por ela. Esta é melhor que qualquer história da revista Maria, confessem...

setembro de 2000 (parte 2)

6ª feira
Hoje fui para o escritório de manhã e depois fiz ronha pela tarde. O escritório anda um caos, desde carpinteiros a instaladores de alarmas, à secretária que faltou porque os paramilitares lhe mataram um tio, temos de tudo. E ainda para mais a chover torrencialmente e sem carro. No way. Aproveitei e fiquei a ler uma série de documentos que necessito estudar e a preparar os relatórios. Adoro fazer gazeta, se é que se pode chamar gazeta ficar a ler coisas de trabalho em casa em vez de no trabalho. Outro dia a minha colega e eu saímos às 5.45 e ela estava tão contente por sair cedo, como se tivesse saído às 3 da tarde e não 15 minutos antes do que deveria ser a nossa hora de saída. É curioso que nos trabalhos ninguém se lembra de verificar se as pessoas estão a sair mais tarde do que deveriam, mas se alguém chega tarde, isso é logo apontado. E cada um de nós fica nervoso se chega tarde de manhã mas se sai mais cedo fica com sentimento de culpa e se sai tarde, quase que é normal, é porque é um trabalhador responsável e comprometido com o seu trabalho. São estranhos estes códigos inconscientes do trabalho.
Na televisão, as últimas noticias comentam a possibilidade que o Governo (se) coloca de financiar a guerrilha, caso esta se comprometa a cessar fogo e a parar com os sequestros, que são cada vez mais a psicose nacional, e com razão, acrescente-se. Há duas semanas atrás raptaram um restaurante inteiro, onde nem escapou a avózinha de 74 anos, que comemorava o seu aniversário com toda a família. Ou há moralidade ou comem todos. E a guerrilha diz que respeita os civis mas que tem que financiar as suas actividades. É a alegria da bicharada. Também já chegaram a raptar uma missa inteira, com padre incluído, ou seja, todas as pessoas que desgraçadamente resolveram ir purificar a alma precisamente nessa altura. Também outra discussão em voga é o financiamento dos paramilitares. O governo pede encarecidamente aos detentores do poder económico, empresários, bananeiros e ganadeiros (não me ocorre a tradução) que deixem de financiar os páras, ao que estes diplomaticamente respondem que quando o governo garantir a sua segurança e a dos seus negócios, eles prometem pensar no seu caso. Para dar o toque de mestre, os paramilitares vêm dizer para a televisão que não se financiam só através destes grupos económicos, mas que também têm as suas actividades próprias: fazem rifas, vendem tamales (equivalente aos pastéis de bacalhau aí), etc. É a cereja do surrealismo em cima do bolo da loucura.
E outra também fantástica que não posso deixar de contar: as FARC apresentaram o seu partido político, Movimento Bolivariano, e na apresentação pública “convidaram” toda a população das aldeias vizinhas a ir assistir, e claro que as gentes não tiveram coragem de recusar tão gentil convite. Lá se encheram uma série de camionetas e começa a festa. E como não pode deixar de ser, em todas as festas tem de haver uma parte cultural. E o povo quer o povo manda, aí vai uma obra de teatro, em que o tema central era mostrar como os bandidos dos paramilitares massacram a população civil indefesa.... Confessem que não é genial!? E viva a coltura e a sua expressão popular.
Sábado e domingo
Acordei às 7 da manhã para ir fazer meditação com um grupo de esotéricos. Aproveitei e comecei um tratamento de acupuntura para ver se me ajuda a deixar de fumar (sim, mãe, as agulhas estavam todas esterilizadas), à tarde fui à piscina e à noite fomos comemorar os anos da maria paz a uma loja/taberna que vende desde bicicletas a arroz, chupa-chupas e rum, e põe tangos e boleros. No domingo o dia já foi mais penoso, só piscina e muita água para ver se ajudava a passar a dor de cabeça que isto de rum não vai muito com o meu fígado. E aluguei filmes no clube de vídeo da zona que está sempre actualizadissimo porque copiam tudo da televisão americana.
2ª Feira
Aqui estou eu outra vez fresquíssima que nem uma alface e lá segue o trabalho que hoje basicamente foi só reuniões e contactos com organizações estatais, não governamentais e de desplazados, por causa de um novo desplazamiento de cerca de 2000 pessoas que têm 20 dias para sair das suas terras por ordem dos paramilitares. Será que tudo isto terá algum dia alguma solução não violenta? Não sei. E cada vez sei menos. Mas a esperança é a última que morre, e não acreditar seria morrer também e o instinto de sobrevivência fala mais forte. Uma das vantagens do nosso lado animal.
Fico por aqui porque se eu vou escrever a minha semana toda ficam vocês sobrecarregados de bytes. Muitos beijinhos

27 abril 2008

setembro de 2000 (parte 1)

Como muitos de vocês me perguntam o que faço eu no meu trabalho, aqui vai uma descrição de uma semana do meu trabalho.
4 feira, 20(?) setembro
Depois de um dia extenuante, com a oficina toda em polvorosa, pois desde carpinteiros, aos homens que instalam ares condicionados, visitas de missões Bogotá, etc, a Isabel e eu tivemos que ficar até às 8 da noite à espera de uma ONG acompanhante que vinha trazer uma líder dos desplazados das Comunidades de Paz que vai até Genebra, a um encontro de mulheres refugiadas e desplazadas de todo o mundo. Entre outros objectivos, estão os de divulgar o problema do desplazamento para sensibilizar as pessoas e para que alarguem o mandato do ACNUR para protecção dos desplazados internos (até agora formalmente só temos mandato para protecção de refugiados) e convencer os países doadores, vulgo comunidade internacional, a investir, se é que se pode utilizar este termo aqui na Colômbia. Enquanto esperávamos, resolvemos fazer yoga e gritar bem alto que é do melhor que há para libertar o stress. O problema sempre são os vizinhos, mas parece que já não estranham.
5ª feira
Acordei às 6 da manhã (coisa que por mais que eu me esforce me continua a custar) para ir para o aeroporto de Chigorodó receber 250 desplazados da zona de Cacarica que estavam em Bahia Solano desde 1997. Muitos deles vão ver as suas famílias pela primeira vez em 3 anos, pois quando se desplazaram muita gente se perdeu das suas famílias, e com o medo e o terror uns fugiram para Bahia Solano e outros para Turbo. Agora vão reencontrar-se em Turbo para depois iniciarem o seu retorno definitivo, tanto quanto podem ser definitivas as coisas nesta vida, a Cacarica/Chocó ou o seu reassentamento, pois algumas destas pessoas já não querem voltar para Cacarica, o que é compreensível. Depois de um desplazamiento tão terrível como este, em que o ser humano chegou ao ponto de jogar futebol com as cabeças dos mortos, têm medo e não querem reviver o horror e a possibilidade de passar por tudo isso outra vez. E também, durante estes anos, muitos dos que eram meninos e meninas passaram a jovens, e a recordação da vida no campo diluiu-se e agora não querem trocar a vida urbana pela rural. Às 7 da manhã lá estava eu no aeroporto de Chigorodó, mais ou menos a 30 km de Apartadó. Ninguém à vista. Achei estranho e resolvi ir até outro aeroporto em Carepa, a 20 km, e nada também (aqui os aeroportos são pistas pequenas onde podem aterrar avionetas e aviões pequenitos). Resolvi regressar para Apartadó, mais 30 km, e quando já estou na cidade passa um dos carro das ONGs que também ia acompanhar este retorno. Lá fomos todos outra vez. Como continuamos com as comunicações cortadas, parece que a guerrilha rebentou uma torre de comunicações aqui perto, não nos puderam avisar que o voo tinha sido adiado. Mas como aqui todos temos que passar pela mesma estrada, sempre há algumas possibilidades de nos encontrarmos.
Regressámos ao primeiro aeroporto e finalmente chega a primeira avioneta. Grande expectativa, câmara fotográfica preparada e... só vinha mercadoria. Na lista entre outras coisas estavam 20 galinhas, 7 cães e 3 gatos. Parece que as pessoas chegam mais tarde, quiseram mandar primeiro a mercadoria para assegurar-se que não perdem todas os seus poucos pertences duramente conseguidos ao longo destes três anos.
10.00 horas. Lá vou eu para uma reunião de Personeros, figura administrativa, do Ministério do Interior, e que é responsável pela defesa dos direitos humanos dos cidadãos, entre outras coisas. O sistema administrativo aqui é completamente diferente do nosso e custou-me algum trabalho perceber o que são Fiscais, Procuradores, Defensores do Povo, Personeros, etc. (também é preciso confessar que nunca tinha dedicado muito interesse a perceber como funciona o sistema jurídico/administrativo português). Esta reunião foi convocada por nós, ACNUR, com a ajuda de dois Personeros, pois uma das nossas linha de trabalho aqui é precisamente fortalecer o papel e as acções do Estado, o que é uma tarefas hercúlea, pois a ausência de estruturas e toda a indefinição e acumulação de papéis das instituições estatais, aliadas a uma ausência geográfica das mesmas e a uma incipiente tradição do Estado como representante democrático da sociedade, fazem com que não seja fácil encontrar um fio por onde puxar a meada desta nossa função.
Na Colômbia, a entidade estatal responsável por coordenar a ajuda aos desplazados é a Red de Solidariedad Social (RSS), que é ao mesmo tempo responsável pela terceira idade, descapacitados, pobres e por todas as causas sociais, com excepção da proteccao aos animais. Não têm fundos, têm 3 gatos pingados para toda a zona de Urabá, um carro que se avaria cada três dias (ainda hoje ficou outra vez no meio da estrada) entre muitos outros problemas. Só para verem um bocadinho do filme, houve inundações em Rio Sucio em Fevereiro deste ano. Veio o presidente da RSS de Bogotá e com um grande alarido disponibilizou, diante de toda a população, 20 milhões de pesos para a ajuda de emergência. Nos seis meses que se seguiram, o coitado do coordenador local da RSS teve que ouvir de tudo por parte das pessoas que reclamavam o dinheiro que lhes tinha sido prometido. E o rio subiu e baixou por mais três ou 4 vezes sem que o dinheiro viesse em nenhuma das marés. E o presidente manda assim as coisas ao ar e volta para o seu escritório em Bogotá como se nada fosse. Enfim, é um estado tão ineficiente que até assusta.
Continuando, lá fui eu mais 30 km agora noutra direcção. Pela estrada vêm-se imensos abutres, é um animal muito comum aqui, junto com os cavalos. E nas estradas como já contei muitas vezes, é tudo louco. Até os cães. Hoje estava um cão a coçar as pulgas no meio da estrada, com uma tranquilidade como se não fosse nada com ele. Instinto de sobrevivência nulo. E também é muito comum ver duas bicicletas que ocupam toda uma via só porque vão a conversar. Mas o que mais me impressionou foi ver outro dia um homem de bicicleta com uma mão no volante e um bebé de meses debaixo do braço, guiando tranquilamente no meio deste trânsito caótico.
Mas concentremo-nos outra vez. Terminou a reunião e lá fomos outra vez para o aeroporto (mais 30 km), desta vez sim saíram pessoas. Depois de mais duas horas de espera lá fomos todos em caravana (médicos del mundo, brigadas internacionais de paz e acnur) a escoltar a chiva com as primeiras 60 pessoas até Turbo, onde vão ficar até ao segundo retorno para Cacarica que será em Outubro. Aí sim, foi muito emocionante ver a alegria do reencontro das pessoas que durante mais de 3 anos estiveram separados. De repente, uma senhora pôs-me um bebé de meses nos braços e foi abraçar os seus familiares, desaparecendo antes de eu ter tempo de dizer alguma coisa. Ao fim de uma hora comecei a preocupar-me, mas ela lá apareceu.
8.30 pm. Finalmente regressei a casa. Depois de ver um filme sobre uma rapariga psicopata que se apaixona por um professor e mata pelo menos a 7 pessoas, temática recomendável para aliviar o stress, vim continuar esta carta. E agora vou dormir que amanhã continua a odisseia. São 11 p.m.

Aprender a voar

Depois da bimby, maravilha da tecnologia que me pôs a cozinhar, descobri agora mais uma invenção deste brave new world em que vivemos. Um site que me vai ensinar a domar o caos da minha vida, começa pela desarrumação da casa e acaba na organização da cabeça.


É agora ou nunca, já consegui deixar de fumar vou começar a ser uma fada do lar. Vamos lá ver por onde começar:

Lição nº 1: ter sempre o lava-loiças a brilhar.

Isto não vai ser fácil, penso eu. You can do it, repete-me ela. A ver vamos, diz o cego.

26 abril 2008

ainda em agosto de 2000

11 de agosto

Ultimas noticias deste país onde a mais prodigiosa imaginação fica a léguas de distância do real: uma equipa de cientistas da Universidade nacional de Antioquia, que tinham ido para umas veredas catalogar a fauna e a flora da zona estão desaparecidos desde 4ª feira. Nada mais nada menos que 26 investigadores e investigadoras (vamos a não esquecer a equidade de género). Duas hipóteses se apresentam, a primeira e mais banal: será este (mais um) caso de sequestro colectivo? Ou, segunda, ter-se-ão deparado com alguma fantástica e desconhecida planta carnívora, desconhecida até à presente data? Aqui tudo é possível.

A minha companheira Isabel acompanha estes momentos com uma linda canção, pondo o seu ar mais cândido:

Yo soy rebelde
Por que el mundo me ha hecho así
Porque nadie me ha dado nunca amor
Y porque nadie me ha querido nunca oír

Esta agora é o nosso hino. Estamos a afiná-lo e a prepará-lo muito bem, para se tivermos encontros imediatos de terceiro grau, mostrarmos que compreendemos e bem as realidades sociais e emocionais do povo armado. E agora vou trabalhar que tenho de preparar uma comunicação para um seminário na Policia.

15 de Agosto

O seminário da Policia correu bem mas a minha faceta de maria pingona revelou-se uma vez mais. Estavam os policias a cantar o Hino da abnegação (aqui cantam-se todos os hinos no inicio e no final das cerimónias: hino nacional, regional, municipal e se estivermos em coisas organizadas pela policia ou pelo exército, hino de um ou do outro) e então, dizia eu, estavam os policias a cantar o hino da abnegação, que fala do sacrifício que fazem os policias pela sua pátria, do amor que lhe têm, etc, e eu a apertar muito as mãos, para que não se me soltasse a lágrima. À falta de telenovelas, é o que se arranja. Mas já agora, acrescente-se que os policias são um dos grupos mais sacrificados, quer em termos de ataques, quer em termos de sequestros. E quantas vezes já não ouvimos a policia a justificar-se que teve que abandonar uma população porque os guerrilheiros eram muitos e eles poucos e são um dos primeiros alvos! Aliás, aqui é do senso comum que as casas ao lado de esquadras das policia são as mais desvalorizadas e devem ser evitadas, porque a probabilidade de atentados eleva-se exponencialmente. Mas fiquem tranquilos que as esquadras da policia quer em Apartadó quer em Bogotá ficam muito longe dos sítios por onde eu me movo (olhó nariz a crescer...).

Ah, a propósito (de quê?), parece que vão soltar os 26 investigadores. Tinham sido capturados pelo ELN, que afirmaram que desconheciam o que eles estavam ali a fazer e, agora que se esclareceu tudo e se identificaram os ilustres cientistas, a libertação promete ser para breve.

Vou terminar por aqui, pois o tempo anda escasso, prometo em breve mais noticias com um pouco mais de tranquilidade. Muitos, muitos beijos e escrevam-me, apesar de eu agora não ter tempo para escrever. É tão bom receber cartas...

Ainda Abril

Esta era uma homenagem que devia ter sido feita ontem. Não gosto muito de homenagens mas tenho mesmo vontade de fazer esta. A acompanhar muitas das vozes de Abril, esteve, vezes sem conta, Sérgio Mestre, o Serginho, que, por acaso, também se foi lembrando de compor alguns poemas. Este é dele:

É na rua que vai acontecer
É na rua
que vai acontecer
dançando nua
ao amanhecer

Com a liberdade
e o sol a brilhar
a minha cidade
vai então cantar

E a lua
de noite já vai ver
na minha rua
um fogo a arder

e a minha gente
de braços no ar
a bailar contente
comigo a cantar

O tirano
foi enfim apeado
nem mais um ano
será tolerado

O poder do povo
está no meio da rua
é um mundo novo
e a cidade é tua!

É na rua
que vai acontecer.

Sem título

Há mais ou menos 17 anos, dei uma aula sobre o 25 de Abril, atrevendo-me a aflorar o que havia sido o regime deposto. Mereci, então, a primeira e única queixa por parte de uma família que não conseguia entender o porquê de perder o meu tempo com tais explicações. Contei, na altura, com total apoio da direcção da escola, que não entendia que factos históricos tivessem de ser escamoteados ou ocultados.
Hoje, continuo a falar de Abril como o fiz outrora, talvez ainda mais segura que não posso deixar de o fazer, para bem de alguns alunos que ainda se vão interessando pelo que temos a dizer-lhes.
É que as crianças desconhecem a História do país porque a matriz socio-cultural é frágil, porque as famílias pouco falam, porque muitas têm vergonha de ensinar o que fomos e por que os ventos mudaram, porque algumas desconhecem já o passado ou porque falar sobre ele é um acto vermelhusco e hoje é o tom mais rosa que está na moda.
O progresso chegou para nós, democracia recém-nascida, depressa de mais e, na ânsia de não perdermos o combóio, temos vindo a perder peças demasiado importantes, sem as quais a tecnologia não nos serve para nada. Quando, para a maioria das famílias com rendimentos médios, o orçamento se esgota em alimentação e empréstimos, bem se vê que pouco resta para a cultura que, ainda por cima, está cara. Já no tempo da outra senhora essa era uma arma poderosa: um povo inculto é uma grande segurança para manter a ordem. Com a agravante de, nos dias que correm, serem vários os apelos enebriantes, que nos fazem esquecer depressa determinados ideais.
A sociedade tem de ser o garante de que as gerações interiorizam os valores civilizacionais que lhes abriram as portas da liberdade e que elas os asseguram. Não com aulas fastidiosas pensadas por ministérios caducos e comissões bolorentas como me está a cheirar que vai resultar a reflexão hoje falada. Mas com a verdadeira consolidação de uma sociedade culta e curiosa.
Hoje sorri várias vezes ao avistar por entre a multidão que desfilava na Avenida, alunos que pelas minhas mãos têm passado. Eles estavam e as famílias também. E eram justamente aqueles que eu sentia saberem já algo mais do que aquilo que eu tinha para ensinar.

25 abril 2008

9 de agosto de 2000

Jesus Abad Colorado, fotógrafo colombiano

PUFFF ­ E mudou novamente o cenário. Ficaram para trás as férias em Portugal, o lindo sol de Lisboa e as conversas com os amigos, o que vi e o que ficou por ver. Ficou a sensação de felicidade das férias apesar de me sentir um pouco marciana ao inicio. Senhores visitantes, a vida vai continuar. Passageiro Ete, passageiro Ete, Sete. O avião, por sorte diga-se, ainda está à minha espera, apesar de ter chegado com bastante atraso ao aeroporto. Não adianta perdê-lo, pois nada pára e já se sabe (sabe?) que não se pode estar em dois lados ao mesmo tempo. Se eu fico aqui não vou lá, se vou lá não fico aqui.

PUFFF. Vruuumm. Aterrizagem em Bogotá. Agora já conheço os truques todos do aeroporto, já sei que táxis devo apanhar, apenas os que se pedem no aeroporto, não vá o diabo tecê-las, pois o gajo aqui é um tecelão de primeira.

PUFF PUFF.

Apartadó, começa o trabalho que isto um mês de ausência aqui é equivalente a três décadas da mais intensa história, há que actualizar. O nó na garganta começa a crescer. Os confrontos agudizam-se, mais e mais. Destruem casas, pontes, igrejas, estradas, torres eléctricas, vidas. Começam, para mim claro, porque aqui a história há muito tempo que já começou, a surgir grupos que se dizem apoiantes de uma ou outra guerrilha, mas que ninguém sabe ao certo se o são. Um deles, Exército de Libertação Guevarista (deste nunca tinha ouvido falar) raptou um francês dos Médicos Sem Fronteiras, pois como a Franca está na Presidência da União Europeia dizem que é uma forma de pressionar a Europa para que esta assuma uma posição mais forte sobre os atentados aos Direitos Humanos. É paradoxal, no mínimo!.

Continuamos com o circo: um comerciante foi raptado duas vezes: tinha sido raptado pelas FARC e, precisamente no dia acordado para a sua libertação, zucas, veio outro grupo, ELN, e rapta-o outra vez. Pobre senhor, confirma-se o ditado que até ao lavar dos cestos ainda é vindima.

Conta-se a boca solta que San Vicente de Caiguán, a chamada zona de distensão, onde Governo e FARC seguem com as negociações do processo de Paz, e que por mútuo acordo não está militarizada, se tornou não só um quartel general do dito grupo subversivo, onde se combinam ataques e estratégias, como também um poiso seguro para manter os sequestrados. E na vida do dia a dia, continuamos a ver os pacotes de leite, os álbuns de foto que nos dão quando vamos revelar fotografias, jornais e outros objectos da vida quotidiana, com fotografias, avisos e conselhos úteis para prevenir o sequestro.

Mas do outro lado continua a resistência em todas as suas frentes. Os lideres activistas do Direitos Humanos seguem com o seu trabalho apesar das imensas baixas (são um dos grupos mais visados, junto com os jornalistas), as ONG´s continuam com o seu apoio de assistência humanitária e de restabelecimento económico. E as comunidades de desplazados enterram os seus mortos e seguem o seu caminho que não se sabe onde vai dar. Outro dia vi um cartaz de um grupo de crianças desplazadas que dizia ”Esta guerra não é nossa e estamos a perde-la”. Também estas crianças já estão a aprender a organizar-se para poderem ter mais força na sua luta pela paz, que apesar de não saberem o que é pois ainda não a conheceram neste país em guerra há mais de 40 anos, sabem pelo menos que é a antítese da guerra, ou seja, o perder o medo a que venham de noite e que lhes levem os pais, ou que as obriguem a mudar mais uma vez de sitio de vida, ou que as recrutem para uma guerra que não querem. FONEX. Jacpot neurótico toda esta cena.
Puf puf puf puf puf.
Uffff.

25 de Abril


Avenida da Liberdade, 2008.

Finais de fevereiro de 2000

no prédio branco ao fundo ficava a sede do acnur em bogotá

Vim a Bogotá a uma reunião, é bom um bocadinho de frio para contrastar com o calor tórrido de Apartadó. Aqui em Bogotá aos domingos há a Ciclovia, uma avenida enorme (80km) que é cortada ao trânsito e onde só podem passar bicicletas ou patins. É muito simpático ver montes de pessoas a andar de bicicleta, de patins, a correrem e a andarem livremente na cidade. E tem imensos pontos de reparação de pneus, vendedores ambulantes que vendem ananás, manga, água, sumos, etc. Como há muita necessidade de emprego, qualquer iniciativa que se faça conta com uma boa infraestrutura que se autocria espontaneamente porque há sempre quem aproveite para ganhar mais uns cobres.

Outra curiosidade daqui desta terra. Imaginem que as FARC, uma das guerrilhas (a que esteve agora numa viagem pela Europa, a fim de conseguir apoios para o processo de paz) pede aos presidentes das câmaras(alcaldes) de uma série de sítios, uma vacuna, ou seja, 10% do total de orçamento da câmara. E se não pagarem imagina-se facilmente o que acontece, pois aqui sai mais barato contratar um matador do que meter um processo em tribunal, ainda que não fosse o caso. Por outro lado o Estado ameaça seriamente que se sai um só peso do erário público, os alcaldes serão sujeitos a processos judiciais agravados. Ou seja, os pobres estão entre a espada e a parede, pois o estado também não lhes garante a sua segurança e muitos nem sequer guarda costas têm. Alguns tiveram que vender as suas propriedades particulares para poderem pagar a tal vacina. È claro que com uma situação destas a solução é a corrupção ou desistir dos cargos públicos. Ser alcalde aqui é por a saúde em risco. Para juntar à festa, também os grupos paramilitares pedem, ou cobram, “impostos”, para cuidar dos interesses de determinadas pessoas. E as pessoas têm de pagar as vacunas a uns e a outros, para que ambos os deixem tranquilos, pelo menos até ao próximo mês.

Mas o melhor de tudo, e isto vou ter de gravar pois merece a pena, são os telejornais de aqui. Juro que depois de ver estes telejornais, o da SIC fica automaticamente categorizado com 5 estrelas. Aqui misturam notícias com publicidade e sem dares conta, pois os próprios apresentadores interrompem para fazerem publicidade a algum produto e voltam à noticia antes que tenhas tempo de processar o que ouviste. Todas as noticias são rapidíssimas e é rarissimo, mas mesmo rarissimo, desenvolverem alguma das noticias. Limitam-se às estatísticas: morreram x, sitio y, ataque de xxx, policia capturou z e já está, ainda estás a tentar perceber o que se passou e já estão com um outro assunto completamente diferente de politiquices nacionais, aí demoram-se um pouquito mais, e logo depois voltam a mais algum ataque segundo o mesmo modelo estatístico. Isto ocupa 5 a 10 minutos, dependendo dos ataques que tenham ocorrido (ou dos que queiram transmitir, porque nem tudo sai no telejornal). Depois vem o desporto, que tem um tempo de antena à descrição, é dado camarada. Nos últimos 10 minutos aparece uma modelo muito bem despida a comentar os fait-divers do jet-set, ou coscuvilhice da semana e a vender mais algum produto. O cenário aparenta o de um telejornal típico, não fosse a chaise-long onde ela se deita com um écran gigante por trás com a cara dela em grande plano. De tão ridículo é absolutamente hilariante, mas ao mesmo tempo é muito triste ver a falta de qualidade na informação e de análise das noticias. Mas aqui tantos os jornais como as cadeias de televisão são controladas pelos grupos económicos mais ricos do país e só isso já fala por si.

Amanhã vou ter uma festa com os amigos daqui de Bogotá, é o que se leva da vidinha. Só espero que dê para dançar, estou a precisar de meter a energia em dia e nada melhor para isso que dançar como se amanhã não houvesse.

Muitos beijos para todos os que estão por aí em terras lusas ou outras e por aqui no meu coração.

24 abril 2008

Automarketing

Uma relação é como ir a uma loja cara, com coisas lindas, cheias de estilo e muito na moda: encontramos muitas coisas que queremos, mas, infelizmente, poucas que conseguimos realmente comprar.
Em primeiro lugar, precisamos de entender e aceitar que assim é.
Depois, convém que o que comprámos e pagámos a peso de ouro seja de excelente qualidade, senão sentimo-nos enganadas.
Eu acabo de constatar que nestes ultimos anos andei a comprar peças dos ciganos a preços de 5a Avenida.
Que grande merda!

Ena ena

Graças à divulgação na blogosfera, só ontem entraram 350 pessoas para conhecer o Movimento Cívico Leve a Sete à Colômbia.

Um grande abraço aos blogs:

Câmara Clara
Cibertúlia
E Deus Criou A Mulher
Respirar o mesmo ar

Continuem a apoiar e a divulgar, falta pouco para a nossa múltipla poder partir!

Cirurgia

A minha mágoa é tão antiga que deixei de querer.



A minha tristeza é tão grande que parei de chorar.



A minha dor é tão profunda que já não consigo sentir.



Preciso urgentemente de ir para o recobro.

algures a meio de Fevereiro de 2000


Apartadó, do avião vêm-se os quilómetros e quilómetros de bananeiras, extensões enorme do monopólio da republica de Urabá. E assim que se sai o calor húmido pega-se à pele. Parece que fui transportada para uma África latina, onde o negro parece predominar, cada bar tem uma aparelhagem sempre mais alta que o do lado e a rua é um prolongamento das casas, pois é muito frequente as pessoas trazerem as suas cadeiras e estarem sentadas na rua. E é tanto assim, que com a minha inconveniente falta de vista, outro dia entrei por uma casa particular dentro, pensando que era uma loja perguntando pelo preço das cadeiras, que eram lindíssimas. Felizmente a senhora não ficou ofendida!! Mesmo os restaurantes e bares não são rodeados por paredes mas sim por flores e por árvores, o que torna tudo muito bonito. Faz imenso calor e andamos sempre de manga curta, seja de dia ou de noite (olha a inveja...), mas foi um pouco estranho habituar-me a trabalhar neste clima que associo a férias e ao verão.

O trabalho começou e a sério. Já fui visitar comunidades de desplazados que se organizaram com o nome de Comunidades de Paz. Têm regras próprias, uma estrutura de grupo bem definida e querem ser vistas como neutrais frente ao conflito armado, ou melhor dizendo, à margem do conflito. Não querem ser conotadas com nenhum dos actores armados, inclusive o exército, pois ao estarem, ainda que muito indirectamente, ligadas a algum deles tornam-se automaticamente alvo dos outros. É uma forma muito interessante de sobrevivência nestes tempos de guerra, mas que frequentemente encontra obstáculos de todas as partes, pois por um lado estão um pouco abandonadas pelas forcas militares e pelas instituições do Estado e por outro, são pressionadas pelas guerrilhas ou pelos paramilitares que as acusam de ajudarem a um ou a outro lado.

Uma das coisas que mais me está a fascinar aqui, para além de toda esta natureza imensa, presente em todas as partes e serena apesar de tudo, é a força e a vontade com que as pessoas trabalham no meio deste estado de guerra constante. A vontade que têm as organizações e as pessoas em geral para fazer sair as suas coisas boas e encontrarem uma alternativa para a violência que as persegue é muito reconfortante e é também uma motivação para o trabalho humanitário, o de poder ajudar a população civil que vive no meio de todo este conflito. Todas as pessoas que tenho conhecido tem experiências terríveis, vividas mais ou menos proximamente, e mesmo assim todo o seu trabalho é dirigido aos outros e para o bem de um país e das suas pessoas, de um país que nunca se sabe quando vai poder viver em paz.

Às vezes pergunto-me quais os perigos reais de estar aqui, não em termos de segurança, mas das transformações que certamente me acontecerão. Até agora, em toda a minha vida nunca vi um morto real, nunca vi violência a não ser na televisão e mesmo aí tapo sempre os olhos. Acho que é a primeira vez que me confronto realmente com pessoas reais, de carne e osso como eu, que de repente perderam tudo, casa, dinheiro, trabalho, família, amigos, a terra onde viviam, tudo o que nos dá estabilidade na vida e que nunca pensamos que se pode perder. E mesmo assim, seguem, recomeçam, continuam, propõem alternativas e ainda conseguem ver coisas positivas.

A propósito, quando estava numa visita a uma das comunidades de paz que falei, resolvi perguntar se havia alguma coisa positiva que pudessem tirar desta nova situação, apesar de todas as coisas horríveis que viveram (não consigo que o meu optimismo me largue!) e as respostas foram muito interessantes. Disseram que agora tinham aprendido a viver em comunidade e que se sentiam muito mais fortes nesta nova forma de viver; têm tarefas especificas para cada um , formaram comissões, de mulheres , de jovens, de diálogo e negociação, pensam em projectos de vida comuns e não vivem cada um para a sua vida como antes, mas sim com um sentimento de pertença e de identidade de comunidade. E outro dos balanços positivos foi o de estarem mais próximos do Estado, estarem mais informados, conhecerem melhor os seus direitos e como reclamá-los, o que antes não acontecia. É bonito não é? Eu sei que isto é muito esquerda naif, mas é lindo.

Mas não sei o que pensar dos colombianos por um lado são de uma simpatia como nunca vi em nenhum outro pais, calmos, prestáveis, à vontade, disponíveis, por outro, matam-se uns aos outros e tem a violência já muito instalada no seu dia a dia, é um quebra cabeças complicado. Não sei, talvez não exista o colombiano, mas muitos diferentes...

23 abril 2008

26 de Janeiro de 2000


Queridos amigos, aqui vão mais alguns pequenos nadas dos quais é feita esta vida de aqui, mas desta vez um bocadinho a despachar pois o meu tempo anda curto pois amanhã parto para Apartadó, no departamento de Antioquia e é lá que vou ficar este ano, vindo apenas uma semana por mês a Bogotá, à civilização… Já não vou para Putomayo, de repente mudou-se tudo, a equipa teve que se restructurar e eu fiquei em Apartadó, onde tenho também selva tropical, temperaturas entre 28 e 30 graus (pobrecita de mim) e mosquitos e malária a dar com um pau. Não me escapo de apanhar malária, mesmo com todo o cuidado que tiver.

E por aqui as coisas ainda estão a correr muito devagarinho, os colegas de trabalho são simpáticos, mas a coisa não passa disso, ainda não me consegui entrosar bem, talvez por ser mais tímida do que a maioria, aqui tem tudo muito jeito para o social e eu nem por isso e acho que eles não simpatizam muito comigo, sem nunca serem antipáticos. Não sei, talvez seja impressão minha, por ainda não estar muito adaptada. Mas isto é apenas um feeling, pois no dia a dia a coisa dá-se e muito bem. Acho que isto deve ser da minha cabeça, é uma mudança de vida social muito grande, mas até confesso que já não me está a custar muito, há alturas em que parece que já vivo aqui há muito tempo.

Ontem fui a um cinema girissimo, o Cinema Paraiso, ver um filme dinamarquês que já passou aí, “la celebración”. Mas a graça do cinema é que tinha umas poltronas muito confortáveis, com umas mesinhas à frente e serviço de bar dentro do cinema e antes do filme passavam documentários sobre grupos musicais. Nesse dia não tive muita sorte pois o documentário era do Boceli, mas de qualquer maneira foi divertido estar no cinema como se estivesse num bar, com serviço à mesa e tudo. A meio do filme houve um apagón de luzes durante dois minutos como protesto contra os atentados da guerrilha, que deixaram Medellin com a energia racionada até hoje. Por aqui os ataques e confrontos entre guerrilhas, exército e paramilitares não param, cada vez aumentam mais os desplazados, mas é sempre possível diminuir o sofrimento das pessoas. Dentro em pouco já poderei contar-vos mais sobre isto pois a experiência de terreno vai ser muito importante. Por enquanto ainda estou um bocado aos papéis, como diz o povo.

Outro dia fui a uma mesa de trabalho sobre niños desplazados, uma espécie de pequeno congresso. É verdade que já me tinham avisado que os colombianos falam muito bem, mas o que não me tinham avisado é que não têm problema nenhum em ouvir-se durante muito tempo. Eu estava completamente banza, estupefacta, aturdida. No espaço dado para perguntas, em que é suposto fazerem-se pequenos comentários e colocarem-se questões ou dúvidas, cada pessoa que intervinha era como se fosse uma nova exposição, pois ficavam pelo menos 20, 30 minutos a falarem e eu sem perceber onde é que queriam chegar. Capacidade de síntese = 0. Verborreias com traços fortes de delírio.! Quando tentei resumir um bocadinho os pontos chave do que tinha sido dito, mas em poucas palavras, ficou tudo com uma cara condescendente, género ”coitada, é estrangeira”. Isto foi de facto o meu primeiro choque com o que eu estava acostumada aí em Portugal, onde a síntese é um requisito fundamental para a exposição oral. No modo colombiano, a capacidade oratória parece ser uma característica quase genética, o não ir direito ao assunto também, talvez porque aqui a cultura oral tem uma importância e uma influência muito grande e talvez também porque as coisas não podem ser ditas directamente. Não sei, são apenas hipóteses, talvez com o tempo consiga reflectir mais sobre este assunto.

Mas o ponto alto da festa foi que depois houve uma pequena apresentação de crianças desplazadas onde, para além de cantarem canções compostas por elas ou tradicionais, apresentaram também uma série de denúncias e de propostas pensadas por elas. E vocês acreditam que o raio dos putos, com 10, 12 anos de idade falavam com uma desenvoltura tão grande, que tomara eu? Para além de parecerem ligados à corrente e ao dicionário, de terem um manejo do discurso invejável, sabiam muito mais de direitos humanos do que eu! Enfim, há muito que aprender aqui…

Agora começou a chover, tem chovido quase todas as tardes e com umas trovoadas de meter medo ao susto de tão fortes. (...)

10 de Janeiro de 2000


da viagem de avião

Da parte das decolagens confesso que não me lembro muito bem, pois adormeci das duas vezes que entrei no avião (em Lisboa e em Madrid) inchadissima de tanto chorar, mas enfim, nem sempre se pode estar bela e airosa. No avião para Bogotá vim ao lado de um italiano de 48 anos, simpatiquíssimo, um rockeiro todo vestido de preto e com um grande rabo de cavalo nos seus cabelos brancos, que administra cá uma fazenda de café. Era muito engraçado e simpático e para além da fazenda tinha também uma escola para os filhos dos agricultores e fazia muito trabalho social.
(...) Logo no dia a seguir fui jantar com algum pessoal do acnur e amigos deles e depois fomos todos para casa de um deles “bailar”. Soltou-se-me a louca e pela primeira vez atinei com o ritmo da salsa e dancei até de madrugada (lembram-se de eu dizer que durante um ano não ia tocar em charros? Esqueçam, era erva e da boa...)

da cidade

Bogotá é uma cidade linda, linda, linda, nada como eu tinha imaginado, podia ser uma cidade europeia (etnocentrismos à parte), está bem urbanizada, tem jardins, muitas árvores e do lado oriental está cercada por umas montanhas enormes e lindas, poderosas. Mas é enorme, tem 7 milhões de habitantes...

da Colômbia

Com o tempo contarei mais, ainda estou a tentar captar as coisas, é tudo muito novo para mim, as pessoas parecem ser muito politizadas, muito conscientes da realidade social e política do país, mas ainda é muita informação por minuto e assim que parece que começo a perceber alguma coisa, aparece logo de seguida uma contra informação, é tudo muito complexo...

(...)

Com a distância do tempo, percebi que Bogotá de facto não tem nada a ver com uma cidade europeia, pois só uma pequena parte tem edifícios de outros séculos (o Bairro da Candelária) e o mais antigo é do século XVIII. Apesar de ter sido fundada no século XVI, não ficaram muitos vestigios dessa época. Às vezes, os meus amigos levavam-me a visitar monumentos que para eles era muito antigos e eu ficava espantadissima por serem dos anos 50, para mim isso era super recente! A noção do “antigo” é muito diferente cá e lá.

Quanto ao perceber minimamente a Colômbia, como verão pelas próximas cartas, demorei muito tempo a perceber este país tão diferente do meu, pela minha juventude na altura, e pela mesma complexidade do país. Durante o primeiro ano, ouvi, ouvi, ouvi toda e qualquer pessoa que me quisesse contar a sua versão e a sua história e tive sorte pois encontrei muita gente interessante e com vontade de falar. Lenta e acelaradamente, lá fui começando a perceber um bocadinho melhor este país.

A partida

Desde pequena tinha o sonho de ser médica para cuidar do meu avô e de ser professora em África. Tive muitos mais sonhos ao longo da vida mas este são os que recordo melhor. Em 1999 começou a tornar-se mais forte o desejo de sair de Portugal, que é um país que eu amo, é o meu país; tinha desejos de conhecer outras culturas e sabia que queria ir já não para África, mas para a América Latina, vá-se lá saber porquê. Nunca me preocupei muito em explicar racionalmente os meus desejos ou sonhos, aprendi a confiar no meu coração e na minha intuição. Resolvi então inscrever-me como Voluntária das Nações Unidas e depois de um longo processo e de muita perseverança, no final de Novembro disseram-me que havia uma missão e que partiria dentro de um mês. No dia 6 de Janeiro do ano 2000 cheguei à Colômbia para trabalhar no ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados). Apesar das imensas saudades dos meus amigos e amigas, da minha família e do meu país, os anos que se seguiram foram dos melhores da minha vida. Seis anos é muito tempo na vida de uma pessoa e muita água correu nas minhas pontes, conhecer um pais com uma realidade tão diferente da nossa, a guerra e as suas vitimas, os amigos e amigas que conheci fizeram-me uma pessoa muito diferente daquela que embarcou no aeroporto da Portela. Quando parti tinha uma ideia muito mitificada e até preconceituosa daquilo a que chamamos (mal) os países do terceiro mundo, não fazia a mínima ideia do que eram direitos humanos e muito menos do tipo de trabalho que me esperava lá.
Para que conheçam as minhas primeiras impressões da Colômbia, nos próximos dias postarei alguns excertos das cartas que escrevi nos dois primeiros anos aos amigos e amigas e onde contava as minhas experiências e vivências nesse meu segundo país.

Serei a única

que ao ouvir notícias sobre a Fergie pensa que é a princesa que está de volta?

22 abril 2008

A primeira pedra foi lançada

O movimento cívico Levem a Sete à Colômbia acabou de ser inaugurado: já temos a primeira contribuição, e diga-se de passagem muito generosa. Já só faltam 1600 érios. Um grande obrigada ao nosso muito querido leitor!

5, 10, 20, 100, 1000, o que quiserem e puderem para levar a 7 e picos à Colômbia!

Movimento cívico - Leve a sete à Colômbia


Nós por cá sensibilizamo-nos e decidimos fazer uma vaquinha, que partilhamos com quem pretender fazer o mesmo. Vamos divulgar o NIB da múltipla em causa para onde se aceitam as contribuições, até atingir o montante desejado de 2000 €, até dia 1 de Maio. Todos os recibos dos gastos (viagens, propinas e demais) serão devidamente copiados e mostrados aos contribuintes, que a gente gosta das contas bem feitinhas.
Assim, a nossa menina pode partir para Bogotá dia 5, defender a tese a 7 e voltar.

Como contrapartida a múltipla compromete-se a fazer a reportagem da ida, estadia, defesa da tese e volta.

Aqui fica, bem como na barra lateral:

NIB 003505570003099100061
Iremos actualizando diariamente com as quantias entradas e por entrar, para se saber a quantas andamos.

Dizem que, afinal, destes é que já não há!

20 abril 2008

du iu spik inglish?


Hoje andei a passear por Barcelona com uns amigos que estão de visita. Depois de muitas voltas resolvemos ir ao Museu Picasso. Como estava uma bicha enorme resolvi adiantar-me e ir espreitar à bilheteira o preço dos bilhetes. Nisto, entram dois policias que se juntam a dois turistas e a dois seguranças que tinham presos dois individuos, e depois de uma breve troca de palavras perguntam discretamente para quem está à volta: há aqui alguém que fale inglês e espanhol? Afoita, chego-me logo à frente, eu falo as duas línguas, digo. Aqui entre nós, para ser sincera, espanhol falo muito bem, mas o inglês arranho-o com muita segurança (leia-se lata) porque acho sempre que o que importa é comunicar. Vamos para um sitio reservado do museu e faço de tradutora, tentando explicar aos seguranças o que a senhora me ia dizendo sobre os tipos que lhe tentaram roubar a mala, como o marido os agarrou e como só não conseguiram porque ela tinha a carteira atada à mala. Muitos agradecimentos, é uma honra contar com visitantes tão disponíveis como a senhora e tome lá uma entrada grátis que é nossa convidada e quando quiser cá voltar já sabe, é só dizer.

E foi assim que pude ver ao vivo e grátis algumas das obras maravilhosas deste pintor que só tinha visto em livros, e muitas que não conhecia, expostas numa casa lindíssima e enorme. Ganhei o dia, os idiomas compensam!

Viva l'Italia

Tenho andado a pensar com pesar no meu país adoptivo. O irmão desta múltipla foge do anão maléfico, se continuasse lá provavelmente era o que quereria fazer também.

Zango-me, indigno-me, pergunto-me porque é que as pessoas se demitem de participar na vida pública, cívica ou política, em Itália. Porque é que se desinteressam de tal forma que permitem que Berlusconi tenha de novo subido ao poder.

Porque é que os italianos acham que não merecem melhor?

Vem-me à cabeça a música de Di Gregori. Acredito que ainda haja uma Itália que mantém os olhos abertos durante a noite triste, uma Itália que resiste. Até quando, por quem?





Viva l'Italia, l'Italia liberata,
l'Italia del valzer, l'Italia del caffè.
L'Italia derubata e colpita al cuore,
viva l'Italia, l'Italia che non muore.

Viva l'Italia, presa a tradimento,
l'Italia assassinata dai giornali e dal cemento,
l'Italia con gli occhi asciutti nella notte scura,
viva l'Italia, l'Italia che non ha paura.

Viva l'Italia, l'Italia che è in mezzo al mare,
l'Italia dimenticata e l'Italia da dimenticare,
l'Italia metà giardino e metà galera,
viva l'Italia, l'Italia tutta intera.

Viva l'Italia, l'Italia che lavora,
l'Italia che si dispera, l'Italia che si innamora,
l'Italia metà dovere e metà fortuna,
viva l'Italia, l'Italia sulla luna.

Viva l'Italia, l'Italia del 12 dicembre,
l'Italia con le bandiere, l'Italia nuda come sempre,
l'Italia con gli occhi aperti nella notte triste,
viva l'Italia, l'Italia che resiste.

Francesco di Gregori, Viva l'Italia, 1979


Beppe Grillo é um dos poucos que não desiste. No seu blog continua a denunciar a falta de liberdade de expressão na comunicação social, a quantia que o Estado gasta em subsídios à imprensa, o número de deputados eleitos com condenações judiciais, e a anunciar as suas actividades - entre as quais o V2 - vafancullo day 2. Que já aqui tínhamos referido. Aqui podemos ver alguns dos motivos pelos quais no próximo 25 de Abril os italianos vão sair à rua. Para além do anão, claro.



Last call

(clicar na imagem para ver os itinerários)

É que este ano (à excepção de todos os outros) os dias são mesmo, mesmo bons. Mesmo, mesmo imperdíveis!
Música e actividades (múltiplas!) para todas as idades e gostos.
Ou então flanar, apenas, por ali.

18 abril 2008

Ainda há destes?


Roubar: às vezes é bom

"Algo vai mal na relação que a espécie humana estabeleceu com a tristeza e a alegria. As pessoas é que deviam ser sérias e a arte entretenimento. Mas, ultimamente, preferimos um piadista que nos ponha a rir na vida real e distraia, por um momento, das desgraças que comprámos na fnac e pusemos em casa a encher as estantes do ikea. Inventámos a arte séria e densa para poder ser, trivialmente, superficiais.
Ainda não percebi se isso é mau."

Alexandre Borges, no Sinusite Crónica.

Não sei se é de andar a dormir pouco

mas acabou de passar à minha frente um esquilo a correr em plena cidade universitária de lisboa.

Bons motivos

Três bons motivos para ir ver Onde vamos morar, no Convento das Mónicas.

Pedro Gil e Sílvia Filipe, actores

José Maria Vieira Mendes, dramaturgo

A sala é fria mas os Artistas Unidos põem uma manta em cima de cada cadeira, escusa de levar a sua de casa.

Tiro no escuro


Uma vez esgotados todos os recursos institucionais e de ter recebido a mesma resposta em todos: lamentamos informar mas não damos subsídios para teses de mestrado, só de doutoramento, e uma vez que não tenho nem pais nem amigos com liquidez económica, resta-me este tiro no escuro, salvo seja. Faço então a pergunta:

Haverá por acaso alguém entre os nossos leitores e leitoras que tenha espirito de mecenas e vontade para financiar a minha viagem à Colômbia para defender a minha tese e concluir o meu mestrado em Género, Mulher e Desenvolvimento?

Eu explico: para poder defender a minha tese preciso de matricular-me; para matricular-me, uma vez que sou estrangeira, preciso de ter uma cédula de cidadania colombiana, o equivalente a um bilhete de identidade para estrangeiros, chamemos-lhe BIE; para ter este BIE preciso de o pedir pessoalmente, não posso faze-lo num consulado colombiano, o que me impede de defender a minha tese por skype ou teleconferência.

Para tudo isto preciso de aproximadamente 2000 euros (1000 para a matricula, 850 para a viagem e cerca de 150 para gastos) e de momento não tenho um tusto, pois continuo a oscilar entre o ser trabalhadora precária e desempregada, acumulando com o ser emigrante. Apesar de me considerar uma boa profissional, de momento, só tenho mesmo toda a vontade do mundo em dar por concluído este curso e a certeza de que gosto mesmo muito do meu trabalho, promover a igualdade entre homens e mulheres.

Em troca, ofereço um exemplar da minha tese, explicada e autografada (e olhem que no futuro poderá ser valioso), um simpático jantar ou almoço em excelente companhia e o meu sincero agradecimento.

17 abril 2008

Interrompemos para publicidade

www.greenpeace.pt

Castigos

Não sei o que é pior. O Benfica ter perdido 5-3 com o Sporting ou levar com o bailarico estrondoso que vem do estádio de alvalade por estarem na final da taça. O meu único consolo é pensar nas centenas de lagartos que vão passar a ter problemas auditivos derivado ao nível de decibéis dos acordeons.

14 abril 2008

O que Berlusconi faz a uma família

Sms recebida (proveniência Itália) hoje às 15:12, a propósito das eleições em Itália:

Mana, já estamos a fazer as malas e a abandonar os animais em áreas de serviço na autoestrada, burros incluídos.

É caso para dizer, estes italianos são loucos. Berlusco OUTRA VEZ?!

Sugestão de género

A propósito deste post, lembrei-me de mais uma entre tantas outras dificuldades que o toque do relógio biológico acarreta e que aumenta proporcionalmente em função do número de cabeças envolvido e do espaço reduzido.

Quando os filhos precisam ir à casa de banho em sítios públicos
- Mãe/filha ou Pai/filho: mesma casa de banho. Ok.
- Pai/filha: dificuldade técnica. Ele não pode ir à das senhoras e ela não deve ver pilinhas penduradas nos urinóis. Solução: casa de banho dos deficientes.
- Mãe/filho: tudo bem até que ele se recusa a ir à das senhoras e ela tem de ficar à espera cá fora, a gritar lá para dentro: “está tudo bem?”. Ela não aguenta a incerteza de não poder garantir que ninguém o importuna ou o olha de maneira imprópria. Solução: casa de banho dos deficientes.

Quanto os pais precisam ir à casa de banho em sítios públicos
E as crianças estão no carrinho ou a querer correr por todo o lado, é uma dificuldade técnica acrescida: elas não cabem lá dentro e não se pode fechar a porta e deixá-las sozinhas cá fora. Estar de porta aberta, o mais das vezes de frente para espelhos gigantes, colocados em todo o comprimento da parede, e a gritar “anda cá, não vás para longe e NÃO faças isso” ou "bilubilu, bébé lindo" também é, digamos, aborrecido. Solução: casa de banho dos deficientes.

Como não acho justo que os cidadãos com mobilidade reduzida tenham de aturar os pais e os filhos dos outros (que, muitas vezes, demoram uma eternidade para fazer um mini chichi ou então a solução é mesmo mudar de roupa) sugiro um terceiro género: WC para progenitores em apuros.

Recuerdo

Não me sai da cabeça a imagem dos lençóis. Aqueles do hotel onde ficamos daquela vez. Revoltos, quentes, cheirando a nós, tresandado a sexo, ao lado da mesinha de cabeceira com o guia da cidade a que nunca chegamos. Ainda sei a altura do teu peito e sinto os teus abraços. Ou o cheiro do teu perfume que chegava com o vapor da casa de banho. E aquela sensação de felicidade que me saía do coração e apertava o estômago, adormecendo as pernas. Fizeste-me feliz. Se me tivesses levado contigo, tinhas estragado tudo.

Poema para uma segunda-feira

Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo.

Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio, quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajetos, quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.

Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o negro sobre o branco e os pontos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoções, justamente as que resgatam o brilho dos olhos, sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz, quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não se permite pelo menos uma vez na vida fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante.

Morre lentamente quem abandona um projeto antes de iniciá-lo, não pergunta sobre um assunto que desconhece ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.

Morre lentamente...
de Pablo Neruda ou Martha Medeiros, não sei!

12 abril 2008

maldita ortodontia

que torna as bocas todas iguais e transforma os dentes tortos numa raridade em vias de extinção. E eu que gosto tanto de um sorriso desalinhado.

Relógio biológico


Não ponhas o dedo no nariz.
Não limpes a boca à camisola, é com o guardanapo.
Arruma os teus brinquedos.
Não se bate.
Deves partilhar os teus brinquedos com os outros meninos.
Não se grita, senão ficamos todos surdos.
Falta o “se faz favor”.
Não importa que queiras continuar a brincar é hora de ir para a cama.
Diz obrigada à senhora.
Não sejas malcriada.
Mas porque é têm que querer brincar as duas com o mesmo brinquedo? É uma vez uma outra vez outra.
...
Às vezes penso que foi o relógio biológico que me obnubilou o pensamento, é a única explicação plausível para o facto de ter imaginado um dia que ter filhos era uma coisa linda e maravilhosa, sem sequer ter pensado neste outro lado da moeda e que agora me faz ter de repetir tudo isto e muito mais dezenas de vezes ao dia, centenas de vezes por semana e imagino que milhares de vezes ao longo do resto da sua/minha existência.

11 abril 2008

10 abril 2008

O profeta

Sempre gostei desta música, mas só há pouco tempo soube a sua história. É uma canção de protesto contra a tentativa de apagarem os murais do Profeta Gentileza que andava pelas ruas do Rio de Janeiro a lembrar que a gentileza e o amor fazem a vida mais bela. O seu slogan era Gentileza gera gentileza. Tão simples.
Gostava de ter uma pessoa como esta nas ruas da minha cidade.

Gentileza



Gentileza, de Marisa Monte

Descanso

"Engraçado...quando fecho os olhos o mundo desaparece!"

Mafalda dixit.

Gloria

Saiu do seu país rumo a Benidorm, na esperança de um futuro melhor que se via difícil na terra que a viu nascer e onde a pobreza atinge a 2/3 da população. Queria conseguir um trabalho que lhe desse dignidade. Ao chegar foi assediada por todas as mafias que a queriam levar para a prostituição ou para ser “mula”, pois era branquinha e com olhos azuis, o que evita suspeitas numa colombiana. Começaram a ameaçá-la, a investigar sobre a sua família para a pressionar e só a deixaram em paz quando conseguiu um namorado, pois uma mulher que tem homem é outra coisa. Conseguiu trabalho como vendedora mas sempre em “negro”, sem direito a nada, trabalhava e aumentava a riqueza do país que a recebeu mas este só lhe dava um magro salário que mal lhe dava para pagar a casa que dividia com mais 4 famílias.
Disse para si mesma, como quem pela palavra faz realidade um sonho, em Barcelona vou conseguir! Chegou, calcorreou todas as ruas e deixou o seu cv em cada tenda com um anuncio Precisa-se Vendedora. Aos poucos dias foi chamada, aqui vamos dar-lhe um trabalho com tudo aquilo a que tem direito, vamos fazer-lhe um contrato. Trabalhava 11 horas por dia numa tenda de frutas, tinha que carregar os pesados caixotes das frutas, atender o público e marcar na caixa registadora os códigos numa língua desconhecida para si, fazer a limpeza da loja e tudo sobre as ordens da pessoa encarregada que dizia, mais rápido, isso não é assim, aqui só se faz como eu digo e mais nada. Ao quinto dia começou a sentir-se mal, sentiu a hérnia inflamada, queixou-se à colega de trabalho que só lhe deu como resposta, eu nunca fiquei doente, nunca pedi uma baixa, nunca. A febre aumentava. Foi ao centro de saúde, disse à médica que estava doente e que amanhã tinha que ir trabalhar, a médica receitou-lhe paracetamol mandou-a para casa e resmungou, eu também me sinto mal e amanhã também tenho que vir trabalhar. No dia seguinte ardia em febre, avisou que ia faltar ao trabalho nesse dia e foi ao hospital, diagnosticaram-lhe a hérnia inflamada, receitaram mais paracetamol e disseram-lhe para não fazer esforços. Nessa mesma tarde, recebeu em casa um telegrama da loja de frutas a dizer que estava despedida.
Gloria não perdeu o seu sorriso nem o brilho do seus olhos azuis. Continua a calcorrear as ruas, a deixar o seu cv em cada loja que apresenta uma promessa de trabalho, confia na sua boa estrela que diz sempre a ter ajudado em todas as dificuldades da vida. E sonha, um dia vou montar a minha própria loja e vou mostrar a toda a gente como se pode vender muito tratando bem a quem para nós trabalha.

09 abril 2008

Vou

vou escrever escrever escrever até esta insatisfação rebentar, disse eu à minha casa de palha e ao meu telhado de vidro que não me serve sequer para mandar pedras aos vizinhos e hoje que bem me estava a apetecer uma intifada contra a vida que está do outro lado deste muro que cada dia cresce mais e que já não me deixa ver o outro lado. Estou cercado de pedras, cercada de graffitis, cercada pelo barulho das ambulâncias que a cada dois por três passam nesta cidade que para mim hoje é maldita, malvista, malescrita, malvivida.
Vou escrever escrever escrever até esta angústia me passar, vai-te embora melga, vai para a tua rua, vai para o raioquetaparta vai para o diabo que te carregue.
Vou escrever, escrever, escrever até que por fim o meu lugar no mundo hei-de encontrar e hei-de plantar àrvores e construir uma casa grande, grande e hei-de juntar muita gente que quer ser feliz e hei-de espalhar flores e pássaros por toda a cidade e hei-de escrever, escrever, escrever até as minhas penas secar.
Vou escrever, vou esc, vou ver, vou er, vou!

08 abril 2008

Ainda a brincar

E agora eu era freira e abandonava a vida terrena e as suas pequenas agitações diárias. Largava o despertador e a casa de banho onde reconstruo todas as manhãs em frente ao espelho os cacos que a noite espalhou por mim, largava o trânsito e os programas de rádio sorridentes que me acompanham no caminho para o inferno diário de nove horas de secretária, largava os almoços engolidos num balcão qualquer ou em cantinas feitas de filas de gente como eu, largava os fins de tarde de rotina e de pressa ou de vontade de fingir que sou outra coisa que não isto que aqui está. Agora eu era freira e acordava todas as manhãs para um dia de recolhimento e oração, quando olhasse não via cacos mas uma monja que acorda para mais um instante de eternidade, agora eu era freira e tudo se arrumava dentro de mim em avémarias e paisnossos feitos de fé e da certeza de que tudo está no seu lugar.

mãe e filha


Fotografia de Filipe Franco.

07 abril 2008

Pois é,

Querida Oito, parece-me que o teu serviço de chá vai ter de ficar encaixotado mais um nadinha.
É que fiquei curiosa com a outra Oito, aquela do esparguete a cozer: não me atrevo a perguntar se foi a boa ou a má sorte a ditar a posta, mas gostava de saber como é que ela acha que se consegue sair da lista negra dos maus amantes?
A mim parece-me que esse é um sítio do qual nunca se volta. Nem para um chá com torradas. Safa!

E agora?

Estava tudo a correr tão bem, um blogue agradável, umas senhoras que vinham aqui e escreviam umas coisas, nuns dias havia postas para rir, noutros postas para pensar, noutros ainda postas para chorar, às vezes postas que não serviam nenhum fim em especial mas não ofendiam ninguém, um blogue que se visitava enquanto se tomava chá ou enquanto a máquina da roupa acabava de centrifugar, um blogue decente e familiar.
Estava tudo a correr tão bem e agora isto, uma poucavergonhaça que faz corar as pedras da calçada, como é que agora vou convidar as minhas amigas para mais um cházinho? E eu que queria tanto mostrar-lhes o serviço de chá que comprei na excursão da empresa da cunhada do senhor peixoto, foram só 50€ em 24 prestações que ando a pagar, tão jeitoso que é o serviço e agora não sei se posso dar-lhe uso, só de imaginar a dona arlete a olhar para isto dá-me um arrepio na espinha, coitada que vai logo sentir falta de ar e vamos ter de a sentar no sofá e dar-lhe a bomba que a alivia da sensação de sufoco, e agora como é que vamos ter conversas de gente nos nossos lanches quando levamos assim de chofre com aquele título?

Da importância do minete

Queridos amigos, queridas amigas, aproveito enquanto espero que o esparguete coza para falar-vos de um assunto fundamental: o minete, também chamado de uma forma ternurenta, mimi.
Sabemos que muitos e muitas de vocês já têm bem claro qual a sua importância no prazer sexual feminino, mas nunca está demais recordá-lo, há por aí muito homem que ainda pensa que o minete é apenas uma concessão que se faz à mulher para depois poder atingir o momento alto da festa, a penetração. Ou os que pensam que é um acto dos preliminares e não um fim em si mesmo. Ou pior ainda, existe, custa a acreditar mas é verdade, quem o ignore no acto sexual.
Por isso minhas amigas e meus amigos, abram bem os vossos olhos e a vossa mente para o seguinte: o homem que não sabe que o minete é um meio fundamental para o prazer da mulher, que desconhece ou que não explora as suas múltiplas técnicas, ou que não pede ajuda à mulher para que esta lhe diga como gosta mais que o faça, está condenado à lista negra dos maus amantes e olhem que uma vez entrado nesta lista é muito difícil sair.
É um facto sabido e comprovado tanto pela ciência como pela experiência feminina que as mulheres atingem muito mais facilmente o orgasmo pela estimulação do clitóris que pela penetração. Esta dá prazer, é verdade, mas nada que se compare a um bom minete.
Dêem à língua queridos homens, e vosso será o reino dos orgasmos femininos.

06 abril 2008

A mulher que queria ser torradeira

Em frente à torradeira descobri em mim a clarividência que sempre quis ter. De repente tudo fazia sentido, um sentido sinuoso e torto que não consigo reconstruir em frente ao computador, de repente o tempo não era este abismo incompreensível que me afasta do que vai ficando para trás e me transforma numa mulher que não sei se quero ser, em frente à torradeira pensei que o medo tinha desaparecido que afinal não havia razão para ter medo para duvidar para calar, o medo que se lixe porque afinal tudo faz sentido enquanto duas fatias de pão escurecem numa máquina incandescente. Quero ser uma torradeira e deixar esta forma de mulher onde não caibo.

05 abril 2008

CCC ou "vida a dois é fácil"

CCC - Cabeça, Coração e Cama.

Difícil é encontrar os três em cada um dos dois.

casamento vs. divórcio simplex

No último jantar, já a altas horas da madrugada, deu-me para falar da nova lei do divórcio. Então, faltou-me a lucidez e a fluidez, mas era mais ou menos isto que queria dizer:
(...) "Há uma presunção de que as pessoas se casam por «afecto», mas o afecto não é indispensável; indispensável é o consentimento.
Além disso, o «afecto» vai variando ao longo do tempo, e se por exemplo identificarmos «afecto» e «amor», então poucos casamentos duram décadas. É motivo suficiente para divórcio? Tenho dúvidas.
O casamento como «contrato» gera o casamento como «instituição», e isso, sobretudo quando há filhos, gera uma quantidade importante de deveres e direitos, e uma sanção para o incumprimento. É por isso que as construções (jurídicas ou outras) que analisem o casamento apenas segundo a coordenada «afecto» me parecem algo insensatas.
O «amor» é uma entidade inefável. Mas o casamento é uma realidade concreta, como um empréstimo ou uma torradeira."

in Estado Civil.