31 dezembro 2006

Feliz ano novo!!

Às minha queridas múltiplas, ao estimável publico que por aqui passa

Um ganda bom ano cheio de sonhos que comandem a vida e jogo de cintura para os altos e baixos desta vida.

Hoje mataram um homem

Hoje mataram um homem. Foi um ditador, um assassino, um déspota, talvez um louco. Não morreu de velho como outros ditadores. Apesar de ser prisioneiro de guerra não foi julgado pelo Tribunal Penal Internacional. Não foi julgado por todas as mortes que cometeu, só por algumas, talvez as menos comprometedoras. Saddam Hussein foi condenado à pena máxima num dos países que, tal como os EUA, ainda defende a pena de morte.

Hoje não se fez justiça, antes foi mais uma vez aplicada, apesar de tantos protestos internacionais, uma lei injusta e prepotente. Tal como fez a L no seu blog, deixo aqui as palavras sábias de Gandalf:

Gandalf: “A vida de Sméagol é um história triste. Sim, Sméagol era o seu nome. Antes do Anel o encontrar… antes de o enlouquecer.”

Frodo: “É uma pena que o Bilbo não o tenha morto!”

Gandalf (olhando severamente para Frodo): “Pena? Foi a pena que deteve a espada dele!” [Pausa] “Alguns dos que estão vivos talvez mereçam a morte. Mas alguns dos que estão mortos certamente merecem a vida. Podes tu dá-la a eles?”

Pausa. Frodo baixa a cabeça, silencioso.

Gandalf: “Não tenhas muita pressa em distribuir a morte como se justiça fosse. Nem mesmo os mais sábios sabem destrinçar todas as pontas do novelo. O meu coração diz-me que o Gollum ainda tem um papel a desempenhar nesta trama, para o bem, ou para o mal.”

Senhor dos Anéis, J.R.R. Tolkien

30 dezembro 2006

Wise Up

Há coisas que não têm nome.

29 dezembro 2006

De todas as vezes...

Saí de casa. Entrei em casa. Perdi as chaves. Encontrei-as no bolso. Voltei a sair para te encontrar. Não te encontrei.Não estavas lá. Não estavas em lado nenhum. Ou era eu que não estava? Estarias à minha procura num outro lugar qualquer? Lembrei-me do café da outra rua. Lembrava-me sempre desse café quando te procurava. Não estavas lá. Nem nunca estiveras de todas as outras vezes. Bebi uma água. A senhora já me conhecia. Perguntou por ti. Ía ter contigo, disse-lhe. Ela sorriu como se já soubesse. Voltei para casa passadas horas. Com o peso do corpo muito maior. Ali estavas tu sentada nos degraus à minha porta. A perguntar onde eu estivera. Sem qualquer sentido do tempo. De orelhas arrebitadas e a abanar o rabo. Cheia de fome e sede como sempre quando desaparecias. Adormeceste com a cabeça descansada no meu colo.Voltavas sempre para casa.

O meu melhor amigo

O meu melhor amigo está sempre disponível nas noites de inverno, vai para a cama comigo, nunca se nega, aquece-me os pés, o rabo, a barriga, o peito e nalguns dias até a alma. Posso vesti-lo com várias roupinhas como antes fazia com as minhas bonecas, posso despi-lo e fica núzinho mas sempre quentinho, está sempre ali, à espera que o agarre, que o abrace, que o aperte junto ao peito. Qualquer das maravilhas do mundo é irrelevante ao seu lado, senhoras e senhores, meninos e meninas, manuéis e joaquinas, apresento-vos o meu melhor amigo nestas frias noites de inverno:

O saco de água quente

28 dezembro 2006

um dia como hoje

Ando às voltas com um texto que tenho de escrever. Sento-me em frente ao ecrã, olho para os papéis, tento organizar as ideias. Lembro-me que tenho de arrumar uns livros, desapareço daqui por minutos. Volto a sentar-me, acendo um cigarro, ensaio uma frase. Apago tudo. Talvez um chá me ajude, fujo para a cozinha e regresso confiante de chávena na mão. Retomo a frase inicial que já não existe, talvez sem os rascunhos consiga descobri-la na minha cabeça. Toca o telefone, uma amiga descobriu a pólvora sob a forma de um curso de massagem, mais uns minutos de esquecimento do texto que me espera. Termina a conversa e a página em branco cresce para mim. Roo as unhas. Acendo mais um cigarro.
Existirão doulas para estes partos caseiros?

27 dezembro 2006

Destaque do dia


"Economias liberais geram sociedades mais punitivas
Quanto maior é o grau de liberdade económica, maior é o número de pessoas presas. Este aparente contra-senso resume apenas a correlação observada por dois investigadores britânicos entre os modelos económicos e os sistemas penais. No fundo, não surpreende. A forma como as sociedades castigam os transgressores reflecte um conjunto de factores sociais, no qual se destaca o modelo económico."
A ler no DN de hoje

25 dezembro 2006

A prova de que estamos a caminhar para idade

Receber presentes que não podem ser atirados pelo ar, "cuidado que se parte".

Fotografei você na minha Rolleiflex


Entre um Natal e outro Natal (que o de 2006 já foi!)

Gosto tanto de ti!


24 dezembro 2006

Ladainha dos póstumos natais

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio.

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido.

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo.

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido.

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja nem um verso deste livro.

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo.

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido.

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito.

David Mourão-Ferreira in “Cancioneiro de Natal”, 1986.

23 dezembro 2006

Jef

Para a minha melhor amiga, uma imortal chanson de Brel (ela sabe porquê).

(não havia sem legendas, pode ser que aprendas umas palavrinhas em flamengo). :P

Tentem fotografar o Super-Homem!



Tentem fotografar o Super-homem, aqui:

http://hk.promo.yahoo.com/movie/superman/Stop_Press_Game/

(consegui chegar a Metropolis, score 82 - NOT BAD!)

Feliz Natal

Durante muitos anos, o meu pai dizia que não gostava do Natal, mas divirtia-se a encontrar as prendas mais insólitas, em cantar canções de natal em alemão, em cumprir determinados rituais. A minha mãe ficava sempre com uma má disposição terrível nesse dia, pois o meu avô materno morreu perto do natal, mas passava o dia inteiro a cozinhar todas as receitas tradicionais e quando a minha irmã e eu chegávamos à cozinha para a ajudar ia-lhe passando a má disposição que disfarçava a sua tristeza e à noite já coisa estava bastante melhor. O argumento para a inevitável comemoração, uma vez que os filhos já não eram crianças, era de que isso era importante para os meus avós, pois estes sim ligavam à tradição e à família, valores vistos como conservadores para um casal de esquerda. Entretanto, os meus avós foram morrendo e quando o último partiu, morreu também a justificação oficial para a festa de Natal. Mas ninguém disse nada e continuámos a celebrar o Natal; o meu pai começou lentamente a assumir que esta era uma data importante para ele, assumia sem dizer nada mas a gente percebia e também nada dizia. Depois, quando vieram as crianças já não foi preciso pretextos pois elas são uma justificação per se para continuarmos a tradição. Veio a imigração da minha irmã, o divórcio do meu irmão, o seu novo casamento e a minha imigração. E de cada vez que não era possível estarmos todos juntos, por impossibilidade geográfica ou por conciliações familiares, parecia que faltava qualquer coisa e notava sempre uma pontinha de tristeza nos meus pais (e em mim também).

Quanto a mim, sempre gostei do Natal. Digam o que disserem, eu gosto do Natal. Nunca acreditei no pai natal nem no menino jesus, não sou católica e não me interessa se o menino Jesus nasceu ou não, até acredito que sim, que tenha existido e tenha sido um personagem muito importante, contudo a minha ideia de deus é muito diferente daquela que está associada ao menino nas palhinhas deitado, por isso não lhe celebro o nascimento. E quanto ao pai natal, tal como o conhecemos não passa de um golpe de marketing da Coca Cola, que surgiu (acho) nos anos 30 do séc. passado.
Irrita-me o consumismo desenfreado, recebo sempre poquissímas prendas, e é raro também ter dinheiro para dar as prendas que gostaria, mas gosto do Natal. Com todas as hipocrisias, com todo o marketing que desde o Outono envolve o natal, gosto do natal e que sejam falados, lembrados e actuados valores como a solidariedade, a humanidade, a paz, etc. Mas até nem é isso o que eu mais gosto do Natal. Gosto de ver as casas enfeitadas com luzes, as ruas pomposamente iluminadas, até nem me irrita a maior árvore de natal do mundo e sempre que passo por lá abrando ou paro o carro um bocadinho para poder ver as luzes a acender e a apagar. Gosto de ver e de fazer a árvore de natal e de inventar presépios. Gosto dos cânticos de Natal e de cantá-los com outras pessoas, das maravilhosas azevias de grão, dos coscorões, das fatias paridas e de partilhar a ceia de natal com a minha família, toda ou parte consoante os anos, aquela família que me saiu na rifa da vida, aquela que por vezes não é a desejada, não é a idealizada, mas é a possível, é a que eu tenho e a que amo. E gosto de celebrar o natal com a segunda família, aquela que é escolhida por nós, e que vale mais que um pai natal. Com esta, sempre que é possível, levamos os restos das ceias das casas de cada um/a e aproveitamos mais um pretexto para estarmos juntos e inventar cada ano o Natal dos Amigos (e amigas).
A todas e todos, desejo-vos um natal tão feliz quanto possível.

Cinema Paradiso



Um momento de Amor...

22 dezembro 2006

Home alone


O meu amor foi passar o natal com a família. Fiquei sozinha em casa, portanto. O primeiro dia passei-o a comer restos de pizza e a beber cervejas de lata. Hoje a entropia aumentou (tinha que vir à baila a 2ª lei da termodinâmica nalgum momento neste blogue, mas os físicos de serviço que a expliquem, que farão com certeza um melhor serviço que eu). Ainda para mais, como tenho estado a trabalhar em casa, não tive motivo nem vontade absolutamente nenhuma de sair à rua. Dou por mim a rever a minha ementa desde que acordei. Aqui vai, por ordem:

- 2 cafés expresso
- um pacote de sumo de pera
- meio queijo que para aí havia
- 7 bolachas de chocolate
- outras quantas bolachas de canela
- 2 barras cereais
- chá de cidreira
- 1 frasco de espargos
- 1 pera
- chá de cidreira
- 1 comprimido centrum (pelo sim pelo não)

Isto está bonito, está... Não voltes depressa não, que quando regressares a casa no mínimo tenho escorbuto ou bócio.

Diagnósticos

Só quem não tem pais médicos é que acha que isso é uma grande benesse, que permite diagnósticos certeiros, prognósticos imbatíveis e posologias adequadas.
O meu pai é médico e isso nunca me serviu de nada. Enquanto era miúda ele achava que passava tudo com paracetamol, e uma vez que tinha dado um grande trambolhão e me doíam as costas respondeu-me "deixa lá, o pior são as dores de alma". Grande ajuda.
Ultimamente não há mal que não tenhamos que não seja diagnosticado como gases. A minha irmã mais velha com taquicárdias, são gases que apertam o coração. Eu com uma gastrite galopante, são gases a comprimir o estômago. A mais nova teve nódulos nas maminhas, como os gases não chegavam a tanto a resposta imediata foi "isso não é nada, não tens idade para teres coisas graves". Por via das dúvidas, carvão vegetal para as três no sapatinho.
Por isso, deixo aqui o meu apelo. Quem puder escolher, vá por um contabilista que ao menos lhe faz o IRS no fim do ano.

acusação mural




21 dezembro 2006

Deve o espírito natalício descer sobre este blogue?

foto aqui

Às vezes tenho pena que algumas das minhas múltiplas tenham tão mau feitio (olha que para as gastrites, PANTOPRAZOL é altamente indicado! E chá de erva cidreira, vá...). E agora que se aproxima o Natal, tenho-me lembrado vezes sem conta deste excerto de um poema de António Gedeão:

Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
De falar e de ouvir com mavioso tom,
De abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

(...)

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
Como se de anjos fosse, numa toada doce, de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.

E mal se extinguem os clamores plangentes,
A voz do locutor anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu e as vozes crescem num fervor patético. (Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu? Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético).

Confesso que esta quadra me 'arrepia', por motivos vários e pessoais, entre os quais aqueles implícitos no excerto do poema acima. De qualquer modo, pelo sim pelo não, e à semelhança de Mr. Scrooge, não quero ser visitada pelos três fantasmas.

Fica, pois, postado o espírito natalício possível que desceu sobre esta múltipla, desejando a tod@s - ironias à parte - UM BOM ANO INTEIRO (como me disse um colega meu).

20 dezembro 2006

Truques de acentuação

Outro dia aprendi com umas amigas que aprenderam com a D. Virgulina, sua professora primária, um truque infalível para saber sempre onde são acentuadas as palavras, e que consiste simplesmente em dizê-las como se estivéssemos a gritá-las para alguém que está longe.

Ridiiicula, acento no i
Infaliiiivel, acento no i
Oooordem , é grave
Anguuuustia-
Angustiiiiiiia – já sei onde vai o acento.

Sons de Domingo

Outro dia fui ouvir um grupo de pequenos artistas dos Violinhos a tocarem canções de natal na Igreja da Graça. Dei por mim a pensar que a única altura em que cantamos em conjunto, uma série de pessoas que não se conhecem mas que estão ali naquele momento, é no natal. Ainda que timidamente, talvez por vergonha, talvez por falta de costume de partilhar algo público com os outros, naquele domingo, naquele espaço, naquele átrio com vista sobre a cidade e o seu rio, o doce som das vozes em conjunto abraçou-me o coração.

19 dezembro 2006

A naba contra-ataca

A sete e picos faz anos, resolvo fazer o bolo de chocolate da bimby, receita já testada na minha festa com muito sucesso. Como o bolo é uma delícia, decido aumentar a dose... ora deixa cá ver, dobrar se calhar é demais, faço 1.5x.
6 ovos passam a 9; para poupar tempo decido bater as claras à parte enquanto o resto se faz. Gemas, açúcar, manteiga... espera lá, mas há qualquer coisa que não está bem, a balança da 8ª maravilha do mundo deve estar avariada, para pôr 300 de açúcar nunca mais acabo de adicionar; deve ser da minha nabice. Atiro um pacote de manteiga de 250 g lá para dentro e vem-me a prova científica: o ecran marca apenas 160. Andar-me-ão a aldrabar nos pacotes ou a balança está mesmo descalibrada? Espera lá que não me voltam a apanhar, a farinha vai segundo as medidas tradicionais, cada colher 15 g. Ou eram 20? Ai, ai, ai.
Chocolate 250, mais metade dá 375 g. Como já não me fio na balança, toca a contar quadradinhos e a fazer a proporção. Vai aquela coisada toda, a olho deve dar. Pelo sim pelo não como já dois bocados para ver se estão bem. Estão, siga a marinha.
"Para envolver as claras introduza a borboleta", que é um acessório de abas e que se encaixa em cima das lâminas. Aquela porcaria está cheia de uma papa castanha, não acerto com o sítio. Tento várias vezes mas nada. Decido explorar com a espátula, porque no meu desespero já queria enfiar as mãos por ali adentro. Eureka, lá está.
Como aumentei a dose não me cabe tudo de uma vez, não há de ser nada vai-se pondo. No fim, o copo está cheio até cima, provo aquela mousse deliciosa, sim está bem, ponho na forma e ala para o forno pré-aquecido a 200ºC.
Começo a operação mais aguardada: lamber todas as peças da bimby. Posso lá fazer um bolo e não laber aquilo tudo... borboleta, anda cá que és minha, cheia de recantos e bocados desperdiçados. Estico a lingua, vai percorrendo entre as reentrâncias, fecho os olhos, miam miam, está mesmo bom. Quando abro os olhos tenho chocolate em toda a camisola, bolas, que grande merda. Que se lixe, passamos ao copo misturador. Espátula minha, rapa tudo, vem a mim. Não chega entre as lâminas, vou lá com os dedos, não há nada como aproveitar tudo até ao ultimo miligrama.
Converso com a sete e com a que dizia ela baixinho no messenger, escrevo a posta. O forno apita, desligo-o. Espero que arrefeça e ala para mais um jantar de múltiplas e amigos.

O que farias tu por um mundo diferente?

Querida múltipla,

Que continues assim: sonhadora, utópica, combativa, guerreira. Invade-nos a mailbox com protestos contra o Feira Nova e similares. O aborto. A lei da paridade. As democracias em construção. O testemunho de quem já assistiu e viveu no fio-da-navalha. Espalha aos sete ventos tudo isto. Sobretudo, não deixes de o fazer.

Continua a interrogar por essa vida fora: O que farias tu por um mundo diferente?

Para ti - com amizade e afecto - o teu muito querido Caetano.

Muitos parabéns por estes 37 Invernos!

18 dezembro 2006

Outras adolescências (I)

fotos direitos reservados
"We are not aware of the distinctiveness and the circumscription of our own behaviour until we meet its normative boundaries in the shape of alternative forms". Anthony Cohen

17 dezembro 2006

Insónia

Pouso o cachecol e as luvas em cima do balcão e peço as chaves do quarto.
- Boa noite, Sr. Fernando, que frio que está lá fora.
- Pois está. Sabe, o frio do Alentejo é muito diferente do da minha terra, é um frio fininho, por mais que nos aqueçamos entra-nos pelos ossos dentro.
O Sr. Fernando é dono de uma hospedaria no Alentejo. Oriundo de Seia, trocou a Beira pelo Alentejo e aí vive há muitos anos. O forte sotaque denuncia a sua origem, todos os ‘s’ são trocados por ‘x’. Continuamos a conversar sobre o tempo.
- Eu morava em frente ao mar, aquilo também não é fácil no Inverno por causa da humidade. Na minha rua, os carros estacionavam ao contrário para prevenir a corrosão da chapa. O termómetro não desce tão baixo, mesmo assim digo-lhe que há dias ou noites que também não são fáceis por aquelas bandas…
Despeço-me de boa noite. O dia foi longo e preciso de descansar. Subo as escadas, meto a chave na porta, rodo a maçaneta, entro no quarto, fecho a porta, pouso as chaves na mesa de cabeceira. Procuro imediatamente o comando do aquecimento e ponho no on. Vvvvvvvvvvvvvvvvv, faz a máquina, soprando um jacto de calor no quarto. Preparo a cama, tiro o cobertor de dentro do armário e as duas almofadas. Deito-me na cama ainda a tremer, depois de trocada a roupa. Acendo a televisão, faço um zapping pelos 4 insólitos canais portugueses, telenovelas e outra coisa qualquer, a tristeza de sempre, vou mas é dormir antes que deprima. Desligo a luz.
5 minutos depois - a porcaria do barulho do aquecedor e o corpo que não aquece, as almofadas são altas demais, tenho sede. Acendo a luz, desligo o aquecedor e bebo água por uma garrafa. Silêncio finalmente.
20 minutos depois – Porra, que não há maneira de aquecer. E por mais mossas que faça na almofada, esta não cede ao meu peso e intenção. Levanto-me, vou à casa-de-banho, saco as toalhas e decido que estas farão a vez da almofada. Ponho a fronha por cima para não sentir a textura do tecido.
50 minutos depois – Continuo a tremer de frio e a almofada substituta é dura. Puxo o cobertor para cima e coloco-o à altura da cabeça. Menos mal. No silêncio, distingo uma voz no quarto ao lado, provavelmente falando ao telefone. Não estou interessada na conversa mas percebo a palavra ‘5ª feira’. Ponho os dedos nos ouvidos, era o que mais me faltava prestar atenção a uma conversa que não é minha. Não sei como, finalmente adormeço.
3 horas depois – Acordo cheia de frio. Será o tal frio fininho de que falava o dono da hospedaria? E agora o que faço? Se puxo o cobertor que funciona de almofada não durmo por causa da almofada improvisada. Se acender o aquecimento não adormeço por causa do barulho. Vou fumar um cigarro enquanto decido, já acordei à mesma. Apanho o maço e o isqueiro e vou para casa-de-banho, ligo o extractor de fumo. Sento-me na retrete e penso. Penso que isto tudo é um disparate e que já devia estar a dormir há horas. Porque raio não adormeço? Não bastam as 3 horas mal dormidas no dia anterior? Não basta o que vi e ouvi hoje? Volto para a cama. Saco do meu último recurso. Deito-me de barriga para cima e aguardo o suave embalo do hipnótico: a cabeça teima em girar e girar e girar. 3 horas, depois volto a adormecer.
8:00 – toca o despertador. Desligo. Volta a tocar. Desligo. Volta a tocar. Desligo. Acordo em sobressalto, levanto-me de um pulo, tomo banho, arrumo tudo, saio do quarto e volto para o balcão onde me encostei na noite anterior. Aparece o Sr. Fernando.
- Dormiu bem?
- Bem… Sim, obrigada. Já tomei o pequeno almoço, mas tirava-me mais um café? É que demoro o meu tempo a acordar…
- E o quarto? Estava quente?
- Eeeeh... Sim. Por falar nisso, não tem por aí uns cobertores que já não lhe sirvam? É para as pessoas que vivem naqueles acampamentos de que lhe falei ontem.
- Acho que se arranja qualquer coisa.
- Obrigada.
Vou-me embora ainda a tremer. Não há cobertor ou calorífero que me valha. Estaciono o carro e vejo a Srª Maria Emília, que vem na minha direcção. Tiramos os resguardos do porta-bagagem. Sinto o cheiro das fogueiras ainda acesas desde a noite anterior. O sol espreita e amorna a planície alentejana. Dão-me um punhado de pevides e sento-me à soleira de uma porta. Os raios do sol batem-me no rosto e aqueço, finalmente.

Artigo 1º da Constituição portuguesa

Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária.
Actualização
Ontem à noite falava sobre a ignorância da maioria das pessoas em relação às leis em geral, à constituição portuguesa em particular. A Constituição devia fazer parte da cultura geral dos cidadãos da República Portuguesa. Nem de propósito, juntou-se a nós um especialista na matéria que nos revelou o artigo 1º e passámos o resto da noite a discutir o Direito e a Sociedade.
Fico muito orgulhosa que Portugal se baseie na dignidade humana; mais, que esteja consagrado no artigo 1º a vontade e o empenho de toda a população na construção de uma sociedade livre, justa e solidária.
No entanto, estou convencida que a maioria das pessoas não sabe que o seu envolvimento na matéria não só é um direito que lhes assiste como um dever para com a República Portuguesa. Um dever para consigo e para com os outros.
Acho que os constitucionalistas que redigiram este texto foram ainda mais líricos que eu, se tal é possível. Acreditaram num mundo melhor e na vontade empenhada dos cidadãos na construção desse mundo.
E se imprimisse cartazes com o artigo 1º e os espalhasse de norte a sul e arquipélagos? Talvez depois disso fosse possível começar a pensar no assunto - de pôr as pessoas a pensar e a agir.
Um mundo melhor não só é possível como é constitucional.

16 dezembro 2006

Outras infâncias (I)

fotos F.M. Reis

Vivem debaixo de lonas, em diversas localidades do Alentejo, em condições infra-humanas. Exigem-lhes a presença na escola, sem reunirem as condições básicas para o fazer: casa, higiene, deslocação. Quando a GNR os expulsa dos acampamentos onde estão - à razão de 3 vezes por semana - torna-se praticamente impossível cumprir os acordos estabelecidos com a Segurança Social. Os apoios sociais são 'cortados'. Por quanto tempo mais vamos insistir na visão romântica dos 'filhos da estrada e do vento'? Somos todos cúmplices.

Maternidades

Há uns tempos li na newsweek um artigo sobre a tendência mundial de se ter filhos cada vez mais tarde ou mesmo escolher não os ter.
Tem a ver com a entrada definitiva das mulheres no mundo do trabalho, onde lutam com as mesmas armas e disponibilidades com os homens. Algumas não têm filhos porque não querem, outras porque querem avançar na carreira antes de o fazer, outras porque querem gozar o que o dinheiro lhes dá sem o partilharem com as obrigações da maternidade, outras ainda (a maioria segundo o artigo) porque ainda não chegou "o momento certo".
Detenho-me nas mulheres porque me parece que há muito mais em jogo para nós/elas do que para eles. Um homem pode ter filhos aos 50 ou 60 anos, sempre aconteceu. Uma mulher não, nós temos um tempo limitado para poder fecundar os óvulos, é uma reserva finita e com temporizador.
As mulheres que vão avançando pelos 30 sem filhos estão a romper um padrão desde há séculos institucionalizado, as suas mães e avós começaram a ter filhos por volta dos 20 anos, e as únicas que não o faziam eram as "tias", mulheres desinteressantes por quem homem algum conseguia ser atraído.
Hoje não é assim, há mulheres lindas e cheias de interesse que ainda não têm filhos. até mesmo por opção, ou à espera do tal momento ideal.
No entanto, fica sempre um complexo de culpa assumido ou não. Culpa perante a herança familiar, que não se está a cumprir a herança genética e social que as nossas antecessoras nos passaram. Culpa em relação a si mesmas, por não estarem a cumprir o seu papel de mães. Culpa em relação aos filhos não nascidos, que teriam o direito a gozar uma mãe na plenitude da sua juventude, força e saúde, o que lhes permitiria terem mais anos de progenitores a gozar.
As escolhas são feitas e publicamente assumidas. Na intimidade, alguém está a ser desapontado por isso, o que causa ansiedade e infelicidade.

15 dezembro 2006

À porta do 1º esquerdo

Oiço a vizinha explicar "o meu cunhado é silenciado em matemáticas e económicas".

Manhãs

O despertador toca, carrego no botão para o voltar a fazer dali a 7 minutos. Olho para a hora, já passam 21 minutos da hora programada, o que significa que nem ouvi os três primeiros toques. Ou terei ouvido e desligado sem me dar conta? A dúvida permanece todos os dias.
Volta a tocar. Volto a desligar, mas agora fico acordada até ao toque seguinte. Viro a cara na almofada, sinto a boca inchada, devo ter a cara toda inchada. O trim insiste, dou mais duas voltas e começo a ter vontade de ir à casa de banho. Está frio lá fora, enrosco-me nos cobertores debaixo dos lençóis de flanela, ordeno-me que me levante. Custa muito sair da cama.
Levanto-me finalmente, ligo a música, vou para a casa de banho cumprir a rotina matinal. Olho-me ao espelho, cabelos desgrenhados, a cara inchada, tenho a boca da Sofia Aparício. Lavo as mãos, os dentes, a cara.
Ponho uma música mais mexida, decido se tomo banho ou me visto directamente. Ligo a máquina do café.
Estou atrasada, é melhor vestir-me, se tomar banho agora fico meia hora debaixo do duche a olhar pela janela os pais a deixarem os filhos na escola primária.
Tiro um café, como uma fatia de bolo. Encontro os brincos e o anel, decido que me vou pentear enquanto o café arrefece.
O cabelo não colabora, quanto mais penteio mais horrível fica. Ponho ganchos de lado, a disfarçar. Não funciona, mas não me importo. Volto à cozinha, engulo o café.
Casaco, carteira, chaves, óculos escuros. Danço mais um bocadinho, apago a aparelhagem e saio de casa.

14 dezembro 2006

Do comportamento público e privado

As pessoas cobardes são muito tristes. Em privado são uns heróis, dizem o que pensam, o que deve ser feito, exprimem as indignações. Em público, com a audiência certa, calam-se como ratos.
Aplaudem em silêncio os que têm coragem de dizer as coisas que têm de ser ditas, votam secretamente nessas pessoas, mas defendê-las publicamente é que já não é com eles.
Tenho pena dos cobardes. Tenho pena de ter de trabalhar com gente desta. Estou a ver que a pastorícia é mesmo o meu destino.

13 dezembro 2006

Colapso

Se todas fossem condenadas, conjuntamente com os homens que (no melhor dos casos) as acompanharam e os/as médicos/as que realizaram a IVG, os tribunais e as prisões entrariam em colapso...

Ainda o protesto ao Feira Nova

Há uns meses atrás fiz um protesto a uma campanha do Hipermercado Feira Nova que promovia a compra de produtos de limpeza dirigidos a mulheres e a meninas. Depois das respostas das várias entidades a quem enderecei o email, obtive por fim a resposta do Feira Nova:

"Exma. Senhora,
Acusamos a recepção do seu e-mail de 09 de Outubro, o qual mereceu a nossa melhor atenção. Relativamente à Campanha Comercial em questão informamos que, no que respeita à ideia criativa que lhe deu origem, não iremos pronunciar-nos,uma vez que a mesma não resulta da nossa autoria, sendo a marca Vileda quem melhor poderá esclarecer quais os pressupostos em que a mesma assenta. Todavia, e na medida em que a vossa reclamação nos é dirigida e a Campanha em causa estava em curso no nosso estabelecimento comercial, não podemos deixar de registar que lamentamos que a mesma tenha susceptibilizado alguma nossa cliente, facto que, de todo, não antecipámos. Do nosso ponto de vista, pretendíamos, apenas, comunicar com os clientes que, estatisticamente, nos são apresentados como aqueles que mais adquirem a grande maioria dos produtos que comercializamos, independentemente de virem a ser, ou não, o seu destinatário final. Daí o vector da comunicação ser a compra e não a utilização. Não podemos, pois, contemporizar com as intenções que nos imputam. Trata-se de uma mensagem acrítica e objectiva, dirigida a quem a estatística identifica como comprador. Tal mensagem não reflecte quaisquer comportamentos sociais, conteúdo para o qual sempre careceria de informação, ou, sequer, visa promover a composição das responsabilidades domésticas, função estranha aos seus propósitos estritamente comerciais. A intervenção desta insígnia junto da comunidade revela-se nos inúmeros projectos de Responsabilidade Social de que é mentora e dos quais muito se orgulha. Cumpre, por isso, a quem nos avalia, saber distinguir entre comunicação cívica e comunicação comercial, para bem da verdade. Para bem do respeito pelo exercício da cidadania.
Sem mais, de momento. Apresentamos os nossos melhores cumprimentos,
A Direcção Comercial de Feira Nova Hipermercados S.A.,"
Fica-me então a ideia que, para o Feira Nova, a comunicação cívica e a comunicação comercial são dois campos opostos, não devendo "para bem da verdade" cruzar-se entre si. Direitos, direitos, negócios à parte... Nada que não se esperasse, mas que mais uma vez confirma que ainda há muita pedra a partir para convencer o poder económico que este não pode estar desconectado dos direitos sociais.
Entretanto, a CIDM também mandou outra carta, mais esclarecedora (e sintética) do que a primeira.
Exma Senhora,

Li com atenção o seu mail ao qual passo a responder:
1. A promoção dos produtos de limpeza do Hipermercado Feiranova é uma situação que factual e directamente desconhecemos, mas que a corresponder ao que nos descreve, nos leva a partilhar a sua preocupação, parecendo-nos configurar uma situação em que está em causa não só a dignidade da mulher em particular e da pessoa humana em geral mas também a promoção da igualdade entre homens e mulheres, que são príncipios fundamentais consagrados na Constituição da República Portuguesa.

2. Nos mails que nos enviou verificámos que deu conhecimento do seu protesto contra a promoção dos produtos de limpeza do Hipermercado Feiranova, ao Instituto do Consumidor.

O IC é o organismo que recepciona e investiga as denúncias efectuadas por particulares, sendo também a este organismo que a CIDM, no âmbito das suas atribuições e competências envia, depois de devidamente analisadas, as denúncias que chegam ao seu conhecimento e que tal como a que nos transmitiu pareçam configurar situações em que é posta em causa a dignidade da mulher e a igualdade entre homens e mulheres.

3.Pelo referido, e dado que já transmitiu o seu protesto ao Instituto do Consumidor, aconselho-a a aguardar o resultado da investigação que vai ser efectuada, a qual terá sido desencadeada pela sua denúncia.

No entanto, e se assim o entender poderá fazer-nos chegar a documentação referente à citada promoção de produtos de limpeza, será a mesma analisada, e, de acordo com as atribuições e competências desta Comissão, consagradas no Decreto-Lei 166/91, de 9 de Maio, terá o encaminhamento adequado.

Com os melhores cumprimentos,
Resta-me agora esperar pela tão ansiada resposta do Instituto do Consumidor, que segundo me avisaram por telefone, não será para breve pelo acumulado de trabalho que têm.
PS: Tendo sido a Vileda a empresa responsável pela campanha, reenviei-lhes agora o protesto inicial, em edição revista e aumentada, e também fiz uma reclamação ao ICAP (Instituto Civil de Auto-Disciplina de Publicidade). Mais vale a mais que a menos!

11 dezembro 2006

Recapitulação

R. & S. ParkeHarrison, Sweep-layer, aqui
Só temos um rosto, um nariz, uma boca, uma língua, um queixo, um pescoço, um colo do peito, umas costas, um ventre, um estômago.
Temos duas orelhas, duas têmporas, duas bochechas, dois olhos, duas sobrancelhas, duas narinas; dois ombros, dois braços, dois cotovelos, dois pulsos, duas mãos, dois polegares; dois quadris, duas coxas, dois joelhos, dois calcanhares.
Temos quatro pálpebras e quatro filas de pestanas.
Temos cinco dedos na mão direita e cinco na mão esquerda. No total, temos dez dedos.
Temos cinco dedos no pé direito e cinco no pé esquerdo. No total, temos dez dedos dos pés.
Temos dez unhas nas mãos e dez unhas nos pés. No total, temos vinte unhas.

Marketing e promoção do blog

Compre 1, leve 8.

Agenda cultural

O filme Excursões de Leonor Noivo,vai passar 5ª feira dia 14, às 18h. Entrada livre.

Rua dos Bacalhoeiros 125 - 2º andar. Info: 218864891, bacalhoeiro@gmail.com

Pinochet morreu

E já foi tarde... É um dos seres humanos que nada de bom trouxe ao mundo no tempo que passou por esta vida.
Para os milhares e milhares de pessoas que desapareceram, foram mortas e torturadas no tempo da ditadura no Chile, ontem foi um dia feliz.

Para elas, uma música de Ruben Blades, cantada por Maná.


09 dezembro 2006

Pesticidas no Lidér


O supermercado LIDL, também conhecido como Lídér por estas múltiplas que tanto o frequentam, obteve a pior classificação num teste de verificação do nível de pesticidas em frutas e vegetais, realizado pela GreenPeace em 2005.
Várias ONGs europeias, entre as quais a Quercus de Portugal, escreveram uma carta e protestaram contra esta situação e na Alemanha já são visíveis algumas mudanças: este supermercado passou a utilizar produtos de agricultura biológica e de comércio justo. Em Portugal, pelo menos até agora, ainda não são conhecidas alterações, mas estou convencida que se cada uma das pessoas que costumam fazer compras neste supermercado deixarem uma pequena carta manifestando a sua(nossa) preocupação por esta situação, ou subscreverem a carta enviada pelas ONGs europeias, aumentam as probabilidades para que este supermercado tenha uma politica de controlo de pesticidas mais eficaz e menos nociva para o ambiente e para o corpinho destas suas clientas tão assíduas.

08 dezembro 2006

O sentido do blogue

- Estás acordada?
- Sim, estou.
- Pergunta difícil: porque se tem um blogue?
- Sei lá, por tantos motivos. Eu não tencionava ter um, mas desafiaram-me. Porquê? (se queres uma resposta mais elaborada também se arranja).
- Deixa lá, está óptimo assim.
- E tu? Porque criaste um blogue?
- O meu ajudou-me, a minha família ficou a conhecer-me melhor...
- Porque era uma maneira de comunicar com os teus amigos quando foste para aí, certo?
- Mas não sei qual o objectivo concreto, ou o que está por trás disso...
- Sei lá, para uns é um exercício um bocado umbilical, para outros uma terapia, para outros uma oportunidade profissional, para outros uma forma de exibicionismo... Podem ser tantos os motivos. E todos igualmente válidos.
- Pois...
- Mas se queres que te diga, também não destrinço o real significado.
- Deixa lá. Não é importante a razão, desde que ainda faça sentido.
- Sempre tive imensos lugares onde escrevia, mas que eram só meus e que não mostrava a ninguém. Aqui a coisa inverte-se: tem a forma de um diário porque se escreve mais ou menos - idealmente - com essa periodicidade. Mas passa-se da esfera privada para a pública.
- É isso que às vezes também me baralha: o público...
- No início não se está muito bem consciente das regras do jogo. E isto é giro, ver o texto, as imagens, dá uma certa euforia, posta-se, posta-se, posta-se compulsivamente, com gosto. Recebem-se as primeiras mensagens de apoio, os primeiros aplausos. Depois, não sei muito bem, mas quando o blogue sai da esfera dos amigos - os leitores primeiros - acho que há um recuo, uma inibição.
- Enfim, enquanto valer a pena. Contra os canhões, postar postar.
- Podes crer. Porquê a dúvida agora?
- Às vezes deixa de fazer sentido.

A propósito de antropólogos

Cartoon de Gary Larson, aqui e aqui.

07 dezembro 2006

Mudar de vida

Estou a pensar mudar de vida. Mochila às costas, um monte de livros e um pc com ligação wireless à net. Tempo para pensar, tempo para ler, tempo para escrever.
Se já não há pastores, inventem-se novos.


boa pergunta

- Qual é esse teu trabalho, mãe?
- Entrevisto pessoas que vieram de outros países para saber como é a vida deles cá.
- E para que queres tu saber isso? Para que queres saber a vida das pessoas?

06 dezembro 2006

O que já sabiamos (de novo) escrito em relatório da ONU

"Dois por cento das pessoas mais ricas do planeta repartem entre si mais de metade da riqueza de todo o mundo, enquanto 50 por cento da população mundial divide pouco mais do que um por cento, de acordo com um estudo das Nações Unidas."

A ler no Público ou no DN de hoje.

o mundo paralelo

hoje estou naqueles dias em que precisas de falar com toda a gente mas misteriosamente ninguém te atende o telefone.

Cafeína

Passo por uma loja que se chama "AVIÁRIO DE ALVALADE - artigos de pesca". Se calhar a cafeína ainda não me chegou ao cérebro. Experimento olhar para os objectos em exposição na rua: vasos de vários tamanhos, de plástico e de barro, e terra de todos os tipos.
Vou tomar a segunda chávena de café. Penso se devo convidar o dono da loja para um também.

manhã de quarta-feira

A academia é uma seca. A academia cheira mal. A academia vive da repetição das mesmas ideias disfarçada em palavras diferentes, do horror às ideias novas, do deslumbramento com as modas. A academia enche toneladas de papel com inutilidades, com rendas de bilros e com vénias mútuas.
E isto serve a quem?

A Case of You


Que querem, hoje deu-me para isto, é no que dá ler casos de amor... De um original de Joni Mitchell, a interpretação de Diana Krall. "I could drink a case of you darling /Still Id be on my feet/ Id still be on my feet".

Para o meu pai, que já cá não está para ouvir as minhas piadas, mesmo quando não têm graça.

05 dezembro 2006

Histórias de amor

O meu avô estava a passear no parque quando viu uma rapariga sentada num banco de jardim com a sua mãe. Pediu ao rapaz que estava com ele para ser apresentado àquela família porque tinha acabado de encontrar a mulher com quem se ia casar.

O meu outro avô começou a namorar com a minha avó aos 18 anos, ela tinha 13. A minha bisavó desaprovou a coisa, porque havia muita gente na família dela com tuberculose, e considerava que a minha avó tinhas pulmões fracos o que poderia afectar os futuros filhos. Namoraram às escondidas durante muitos anos, até que os meus bisavós se habituaram à ideia e eles casaram.
Quando o filho mais velho teve uma primo-infecção a bisavó aproveitou para dizer “eu não te disse?” ao que o meu avô terá respondido “eu gosto muito dela, não a trocava por nenhuma do mundo”. A minha avó só soube disto depois de ele morrer.

Os meus pais conheceram-se num verão nos anos 60. O meu pai tentou fazer-se de interessante pondo-se num canto a fumar um cigarro com ar de matador, a minha mãe achou que ele era parvo. Quando ele finalmente perdeu a timidez e se sentou com ela a conversar nasceu o amor que haveria durar até à morte.

Pode-se racionalizar o amor de milhares de maneiras diferentes, justificar friamente porque é que gostamos de quem gostamos - mas isso só é possível depois de já estarmos apaixonados, quantas vezes ficamos frustrados por não gostarmos de quem aparentemente seria perfeito para nós e perdermos a cabeça por alguém que parece errado em todas as moléculas do seu ser.
Está-me cá a parecer que o amor é mesmo um não sei quê, que aparece vindo não sei de onde com uma intensidade que não se sabe porquê. (amigo Luis Vaz, desculpe lá a paráfrase).

03 dezembro 2006

Obscurantismo


Encontrei esta “jóia” num blog. A ignorância e o obscurantismo não deixam nunca de me surpreender, mas enfim, cada um/a faz o que melhor lhe aprouver. Só posso garantir que em todos estes anos ainda não tenho pêlos nas mãos nem sinto o organismo debilitado ou a personalidade bloqueada.

Inclusão social, talvez um dia...


Imaginem-se sair à rua sendo invisuais ou andando em cadeira de rodas, por exemplo. Imaginem a entrada para a escola, o visitar amigos, ir às compras no supermercado, tentar conseguir um emprego, escolher uma casa para morar, encontrar todos os dias com pessoas comuns que não sabem como lidar com pessoas com deficiência. As barreiras para uma vida digna são muitas, ao nível do emprego, da segurança social, da mobilidade no espaço físico.

Estima-se que cerca de 10% da população da UE, num total aproximado de 38 milhões de pessoas (45 milhões na Europa dos 25), deve ser considerada como portadora de deficiência(...) Da categoria de pessoas com deficiência fazem parte todas as pessoas que, por atitudes, preconceitos e barreiras existentes na sociedade, são impedidas de usufruir das mesmas possibilidades que qualquer outra pessoa. Existem, por conseguinte, várias categorias e formas de deficiência que levam à constituição de um grupo inteiramente heterogéneo de pessoas com problemas motores, visuais, auditivos, mentais/cognitivos e psíquicos. As barreiras com que estas pessoas se vêem confrontadas na sociedade variam não apenas em função da sua deficiência como também da sua idade e género, localização geográfica e outros factores.

Hoje comemora-se o Dia das Pessoas com Deficiência e segundo o Publico e o DN de hoje, a Associação Portuguesa de Deficientes (APD) considera não haver "quaisquer razões para comemorar" tendo em conta a existência de "retrocessos consideráveis no processo de inclusão social". A APD afirma que "o panorama da situação actual e do futuro próximo não podia ser mais desolador", nomeadamente a nível da educação, do emprego, das prestações sociais e das barreiras físicas e de informação nas ruas e nos edifícios públicos. A associação critica igualmente "o fim anunciado dos benefícios fiscais", previsto no Orçamento de Estado para 2007, que se prevê abranger 39 mil pessoas, alegando que "muitos trabalhadores com deficiência não serão capazes de fazer face às despesas que decorrem das desvantagens sociais que enfrentam".

A panóplia de deficiências é ampla e qualquer um de nós pode ser afectado. Custa-me pensar nisto e no quão afastados estamos ainda de uma verdadeira inclusão social. Talvez um dia deixemos de olhar a deficiência com tanto medo ou vergonha e aprendamos a relacionarmo-nos com ela de uma forma mais tranquila e propositiva. E talvez um dia os programas de Governo se preocupem mais em aumentar e não em diminuir as oportunidades das pessoas com deficiência para que estas, e as suas familias, possam viver em condições de dignidade e sem discriminação.

Auxiliai-me

Na verificação de palavras para introduzir comentários aparece um símbolo de deficientes motores ao lado das letras a escrever no espaço em branco. Parti do princípio que seria para deficientes visuais, mas que por um qualquer motivo decidiram englobar as deficiências em geral sentando alguém numa cadeira de rodas.
No outro dia decidi carregar nesse símbolo, e saiu-me na rifa uma coisa alucinante. Em fundo tinha uma voz masculina a fazer sons repetidos, como se estivesse a recitar o alcorão, e em primeiro plano uma voz feminina com sotaque brasileiro a soletrar a uma velocidade para deficientes mentais as letras que por ali passavam. Quando chegava ao fim dizia "de novo" e lá ia tudo outra vez.
Para além de umas gargalhadas bem dadas, fiquei com algumas dúvidas: se os deficientes visuais não vêem bem as letras da verificação de palavras, como é que conseguem ler os blogs? Porque é que há uma voz como som de fundo? Porque é que soletram como se os amblíopes não soubessem onde estão as teclas? É que se leram o post e escreveram comentários, decerto conhecem o teclado.

Post-it



Baseado num quadrro de Ana Jotta, algures em 1980, aqui.

a pedido de várias famílias

eliminou-se a boçalidade.

02 dezembro 2006

Target: USA

Durante um dia inteiro, a CNN fez um levantamento de todas as situações em que poderiam ocorrer ataques terroristas nos Estados Unidos, programa a que deu o nome de: «Target – America».
Jon Stewart, do Daily Show, dá-nos os pormenores. Ver o video aqui

01 dezembro 2006

Astigmatismo



O astigmatismo pode desfocar os dias e enevoar a existência.

Arte em mim

Nunca tinha olhado para o meu ânus. Não sei se algum de vocês já olhou para o próprio, mas depois da experiência desta tarde é coisa que não aconselho, pois vivia muito bem na ignorância.
O caso é que ao reparar numas manchas de sangue não esperadas durante actividade na retrete, decidi virar-me para trás e abrir as bochechas do rabo. O que vi deixou-me traumatizada. Descobri que tenho pêlos, mas não são assim uns pelinhos ou uma penugem, são pêlos mesmo, pretos e compridos, para aí de 4 cm. Um horror. Percebi que de facto aquilo que nos separa dos chimpazés não pode ser muito mais que um gene ou dois.

O que significa que para além de depilar as pernas, as virilhas, as axilas, o buço e as sobrancelhas agora terei também de me pôr de 4 e deixar que me espalhem cera quente no rêgo, seguido do horripilante puxão rápido para acabar com o triste espectáculo.

É que desde que me mandaram as fotografias da nova exposição de Serralves fiquei mais sensibilizada para a estética do fundo do rabo



.

30 novembro 2006

Caderneta de cromos



O taxista pedrado que quase dormia ao volante e me obrigou a encurtar a viagem, o taxista evangelizador que ouvia cassetes de cultos da igreja universal de deus, o taxista que organizava festas trance, o taxista-sósia-do-alberto-joão-jardim que garantia que a Madeira não precisava do continente para nada, o taxista que tinha sido bombeiro mas não era estúpido e fugiu dessa perigosa profissão depois de ter levado com uma trave na cabeça que o deixou vinte dias no hospital, o taxista que percebia de bruxedos e desfiava receitas infalíveis (menina, duas gotinhas de sangue da menstruação na bebida de um homem e ele fica louco), o taxista que garantia estar a ser envenenado pela mulher e me fez cheirar a garrafa de água do luso com cheiro a amoníaco.

Alguém tem cromos para a troca?

29 novembro 2006

All I need is a chip and a seat

Aprendi esta frase quando me introduziram no maravilhoso mundo do poker. Para ganhar basta ter uma ficha e um lugar à mesa, porque o poker é um jogo de paciência (saber esperar pelas cartas certas), de timing (saber quando e como apostar) e de controle das expressões corporais (mandar os sinais correctos aos outros jogadores para que isso funcione a nosso favor - seja um bom jogo ou um bluff).
Quanto mais sei sobre o jogo mais me parece que é uma excelente metáfora da vida.

Dr. House

Uma série com um inglês a fazer de americano, um médico cínico e insuportável que é suposto ter charme, especialista em fazer diagnósticos de casos estapafúrdios.
A regra é quanto mais complicado melhor, o diagnóstico inusitado e a cura sempre algo de experimental e potencialmente mortal. Mas no fim curam-se todos e vão-se embora agradecidos.
Uma espécie de Jesus Cristo vs Lázaro, com três apóstolos fixos e dispostos a tudo, em versão americanada. Não se arranja uma última ceia para dar cabo do canastro ao doutor?

28 novembro 2006

Naba

- A sopa ficou doce. O que é que eu faço?
- Esqueceste-te de pôr sal...
- Obrigada, és um génio.
(dois minutos depois)
- O meu problema é que não vinha nenhuma receita de sopas normais na bimby, fiz um cruzamento de sopa normal e receita da bimby.
- Põe sal...
(um minuto depois)
- Pus ervilhas, cebola, alho, courgette e inventei pondo uma cenoura. Acho que a cenoura estragou tudo. Achas que melhora se lhe atirar um nabo?

A alma d@s portugues@s

"A personalidade não é um ideal"- disse Keyserling. E sorriu quando o cavalheiro Fausto, seu guia e seu apoderado de ocasião, lhe perguntou o que pensava dos portugueses.
- A alma dos portugueses é uma das mais complicadas do mundo; enquanto que a dos espanhóis é uma das mais simples. (...)
Keyeserling atribuia ao português uma obstinação de atitudes que não se define senão em momentos-chave e que pode contradizer a rotina duma vida inteira. No geral, ele não participa muito no fenómeno social, concebe-o como um espectáculo, adia o compromisso, ironiza para subverter, mas não deseja modificações irreversíveis. Negoceia, pactua, envolve-se pelo sentimento nas condições das anfibologias. Mas, de repente, já não é o cidadão solícito nem o indivíduo servil. Comete um crime ou torna-se um herói; faz tábua rasa da sua formalidade, revela-se o herege, o mação ou o homem de utopias condicionado à sua oportunidade. Viveu demais pela inércia, recupera-se pela paixão. Keyeserling disse que esta gente complicada possui uma tenacidade comprimida. Acrescente-se que ela tem também a latente vocação da revolta, que corresponde à curiosidade das aspirações, quando não ao fito das ambições.
Agustina Bessa-Luís, Pessoas Felizes, 1975

Excursões

Há anos que me entopem a caixa do correio com publicidade a excursões de 1-2 dias por tuta e meia. No início pensei que era uma agradável viagem que acabava com menos um órgão, para explicar o baixo custo da mesma, para anos mais tarde descobrir que era afinal mais uma estratégia agressiva de marketing de venda de produtos. Ou seja, levam as pessoas nessas viagens e levam o tempo todo a impingir coisas e mais coisas, até que assinem um papel para acabar com a tortura.
Uma realizadora chamada Leonor Noivo decidiu fazer um documentário sobre o tema. A empresa deve ter dado a sua autorização, pois ela foi e filmou algumas dessas excursões. Algures durante o processo quiseram que lhes fossem dadas as cassettes com o material, a realizadora recusou-se e entrou num processo de litígio com eles.
Concorreu ao docLisboa e foi aceite para competição. Parece que informou os organizadores das circunstâncias em que se encontrava, e mesmo assim seguiu para programação.
No dia da exibição os espectadores foram informados que o mesmo tinha sido retirado, e que tal tinha acontecido por ameaça de processo judicial.
O filme nunca viu a luz do dia, e não se sabe onde e quando poderá ser visto.
Joana Amaral Dias fala sobre o tema no texto "censura no doclisboa". Sei de pessoas que andam a pedir explicações à apordoc há semanas sem obterem qualquer resposta, e o assunto não anda a ser discutido em lado nenhum.
Gostava de ver o filme. Gostava que a apordoc tivesse sido coerente. Gostava que a comunicação social falasse sobre isto. Gostava que as empresas não tivessem nada a esconder. Gostava que as que usam processos obscuros para atingirem os seus fins fossem expostas publicamente. Gostava de viver num país onde este tipo de coisas fosse punido e os direitos dos putativos consumidores fossem respeitados.
PS - só há um ponto que ainda não tenho esclarecido, e que me parece de fundamental importância. Só se pode fazer um filme sobre uma instituição que tenha dado o seu consentimento por escrito. Se assim não aconteceu, trata-se de uma situação abusiva por parte da produção/realização do filme. Se não, a empresa nada pode fazer.

Eu e as compras

Vivo num excelente bairro no centro de Lisboa, com metro à porta e dezenas de lojas de comércio tradicional, supermercados e praça. Vejo as senhoras que aqui vivem a fazerem as compras com carrinhos de rodinhas, como a minha avó sempre fez, e tenho andado a pensar em comprar um também - seria mais uma libertação do automóvel, fazer as compras a pé sem ter de carregar com o peso nas mãos. Das vezes em que o fiz ia-me encolhendo pelo caminho, a passos cada vez mais lentos, com vergões encarnados nos dedos levando-os à beira da necrose.
Esta manhã decidi que ia ser diferente. Quero um carrinho.
Passei por uma das lojas do bairro e escolhi um castanho, não muito grande mas decididamente económico, além do mais com as três rodinhas em vez de duas, que me disseram facilitar a subida das escadas (como tenho três andares a pé para chegar a casa achei conveniente).
Pavoneei-me orgulhosa com a minha nova aquisição até ao supermercado, olhando para as senhoras que também o tinham com uma sensação de pertença de quarteirão.
Ao chegar ao supermercado vi o que faziam as outras senhoras: deixa-se o nosso à porta e tira-se um dos deles. Fui imbuída do espírito "o mundo e tudo o que ele contém são meus!", o que se traduziu pelo enchimento compulsivo de tudo e mais alguma coisa para dentro do carro de metal. Paguei as compras e tratei de pôr os pertences na minha nova coqueluche de forma ordenada - as coisas mais pesadas e sólidas em baixo, para darem sustento e forma às que vinham por cima. Como é obvio, não me coube tudo lá dentro; saí do supermercado com o contentor cheio que nem um ovo e mais 4 sacos na mão. Mas orgulhosa.
Uma senhora cruzou-se comigo e começou a dizer "ó dona, ó dona". Não é comigo seguramente, nunca ninguém me tratou assim. Só quando me deu os dois pacotes de folhas de gelatina que eu tinha deixado cair é que percebi que com o carrinho adquiri também o estatuto.
O caminho para casa foi penoso, as compras pareciam pesar mais a cada passo. Troquei algumas vezes os sacos de uma mão para a outra, o peso do carrinho ia aumentando pela estrada fora. Cheguei a casa e quando comecei a subir as escadas não conseguia parar de rir. É que as compras pesam o mesmo, dentro ou fora do carrinho, e a subida até ao terceiro andar revelou-se tarefa hercúlea.
Até para fazer compras de bairro é preciso cabeça.

27 novembro 2006

Quarteto, Alt(m)amente







Fui ontem ao cinema Quarteto, ver o o último filme de Robert Altman (que teve a 'má ideia' de morrer no dia 21 deste mês), A Prairie Home Companion. Gostei do filme e recomendo-o: Meryl Streep faz um papel notável, canta bem que se farta, há uma dupla de cowboys hilariante. Já para não falar em Kevin Kline, perfeito no papel que lhe coube. Não me estico mais em apreciações, não sou crítica de cinema nem nada que se pareça.
Mas não foi só do filme que gostei: gostei de voltar ao Quarteto e de me voltar a sentar naquela sala (mesmo que as cadeiras só tenham melhorado um bocadinho). Antes disso, também gostei de me sentar nos bancos lá fora e de olhar e de achar engraçada a instalação que fizeram no tecto. Enquanto o filme não começava e fumava um pensativo cigarro, lembrei-me das vezes em que vinha de propósito a Lisboa para ver filmes que só mais tarde o Atlântida-Cine, em Carcavelos, começou a passar. Vi ali os primeiros filmes de Almodôvar, os filmes de Tarkovski, as maratonas de cinema no dia de aniversário do Quarteto. As memórias não acabam aqui, mas para o efeito bastam.
No Quarteto, o tempo parece ter parado. A começar pelo preço dos bilhetes: são muito mais baratos, mesmo em dias 'normais'. A rapariga do bar é a mesma, a senhora da bilheteira, a decoração (menos a instalação no tecto e os cartazes nas paredes e os postais de distribuição gratuita). Jurava que vi sentada na sala as mesmas pessoas de há 4 anos.
Quarteto, Alt(m)amente. Vou voltar.

Atrofio de final de dia




Encalhada no trânsito ou encalhada na vida? Boa pergunta. Porra, quero chegar a casa, raisparta a vida, maldita a hora em que troquei o mar por este projecto mal amanhado de cidade. Odeio Novembro, mês aziago, ainda não é natal e já tenho que levar com os cartazes a lembrarem-me que tenho que fazer as incortonáveis compras e eu que odeio lojas e tudo o que seja superfície comercial. E a chuva e o temporal dos últimos dias? Goteiras por todo o lado, a roupa que não seca. E a casa? Ui, que belo pandemónio. Xiça, dor-de-cabeça agora, onde é que está o paracetamol (a porra do ibuprofeno lixa-me o estômago). Este carro parece um cemitério de garrafas vazias, deve haver aí alguma que tenha água, se é que um novo ciclo de vida não se iniciou já dentro dela. Quero lá saber, o-que-não-mata-engorda. Tenho fome, não me apetece cozinhar, não fui às compras, tenho um buraco no estômago, pastilha, é isso. É melhor comer duas. Porra, acabaram-se as pastilhas. Onde é que estão os cigarros? Bib-bip, sms? (quem será). Só me faltava esta agora. Só me faltava esta agora. Só me faltava esta agora. Não era esta a estrada que eu queria, não era esta a cidade que eu queria, não era esta a vida que eu queria.
Há algo de fundamentalmente errado nisto tudo.
Está na altura de me fazer à estrada de novo.

26 novembro 2006

1923-2006

E aqui. E aqui. E aqui.

Morreu o Mário, Viva o Mário

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

Mário Cesariny

(Para o Mattia)

O Ar do Lisboeta

É o título de um poema de Alexandre O'Neill e é também o de um blogue criado em Outubro com a seguinte missão:

Vejam e acrescentem!

24 novembro 2006

O meu gato era assim

Acabo de receber isto por mail. O meu gato era exactamente assim - se viveu 18 anos sem engolir comprimidos, imaginem se o tivesse feito.

Como dar um comprimido a um gato

1. Pegue no gatinho e aninhe-o no seu braço esquerdo como se segurasse um bebé. Coloque o indicador e o polegar da mão direita nos dois lados da boquinha do bichano e aplique uma suave pressão nas bochechas enquanto segura o comprimido na palma da mão. Quando o amorzinho abrir a boca atire o comprimido lá para dentro. Deixe-o fechar a boquita e engolir.
2. Recupere o comprimido do chão e o gato de detrás do sofá. Aninhe o gato no braço esquerdo e repita o processo.
3. Vá buscar o gato ao quarto e deite fora o comprimido meio desfeito.
4. Retire um novo comprimido da embalagem, aninhe o gato no seu braço enquanto lhe segura firmemente as patas traseiras com a mão esquerda. Obrigue o gato a abrir as mandíbulas e empurre o comprimido com o indicador direito até ao fundo da boca. Mantenha a boca do gato fechada enquanto conta até dez.
5. Recupere o comprimido de dentro do aquário e o gato de cima do guarda-fatos. Chame a sua mulher do jardim.
6. Ajoelhe-se no chão com o gato firmemente preso entre os joelhos, segure as patas da frente e de trás. Ignore os rosnados baixos emitidos pelo gato. Peça à sua mulher que segure firmemente a cabeça do gato com uma mão enquanto força a ponta de uma régua para dentro da boca do gato com a outra. Deixe cair o comprimido ao longo da régua e esfregue vigorosamente o pescoço do gato.
7. Vá buscar o gato ao suporte do cortinado e retire outro comprimido da embalagem. Tome nota para comprar outra régua e reparar as cortinas. Cuidadosamente varra os cacos das estatuetas e dos vasos do meio da terra e guarde-os para colar mais tarde.
8. Enrole o gato numa toalha grande e peça à sua mulher para se deitar por cima de forma a que apenas a cabeça do gato apareça por debaixo do sovaco. Coloque o comprimido na ponta de uma palhinha de beber, obrigue o gato a abrir a boca e mantenha-a aberta com um lápis. Assopre o comprimido da palhinha para dentro da boca do gato.
9. Leia a literatura inclusa na embalagem para verificar se o comprimido faz mal a humanos, beba uma cerveja para retirar o gosto da boca. Faça um curativo no antebraço da sua mulher e remova as manchas de sangue da carpete com o auxilio de água fria e sabão.
10. Retire o gato do barracão do vizinho. Vá buscar outro comprimido. Abra outra cerveja. Coloque o gato dentro do armário e feche a porta até ao pescoço de forma a que apenas a cabeça fique de fora. Force a abertura da boca do gato com uma colher de sobremesa. Utilize um elástico como fisga para atirar o comprimido pela garganta do gato abaixo.
11. Vá buscar uma chave de fendas à garagem e coloque a porta do armário de novo nos eixos. Beba a cerveja. Vá buscar uma garrafa de whisky. Encha um copo e beba. Aplique uma compressa fria na bochecha e verifique a data de quando apanhou a última vacina contra o tétano. Aplique compressas de whisky na bochecha para desinfectar. Beba mais um copo. Atire a T-Shirt fora e vá buscar uma nova ao quarto.
12. Telefone aos bombeiros para virem retirar o cabrão do gato de cima da árvore do outro lado da rua. Peça desculpa ao vizinho que se estampou contra a vedação enquanto tentava desviar-se do gato em fuga. Retire o último comprimido de dentro da embalagem.
13. Amarre as patas da frente às patas de trás do filho da p*** do gato, com a mangueira do jardim e de seguida prenda firmemente à perna da mesa da sala de jantar. Vá buscar as luvas de couro para trabalhos à garagem. Empurre o comprimido para dentro da boca da besta seguido de um grande pedaço de carne. Seja suficientemente bruto, segure a cabeça do corno na vertical e despeje-lhe um litro de água pela goela abaixo para que o comprimido desça.
14. Beba o restante whisky. Peça à sua mulher que o conduza às emergências e sente-se muito quieto enquanto o médico lhe cose os dedos, o antebraço e lhe remove os restos do comprimido de dentro do seu olho direito. A caminho de casa contacte a loja das mobílias para encomendar uma nova mesa de jantar.
15. Trate de tudo para que a protectora dos animais venha buscar o cabrão do gato mutante fugido do inferno. Telefone para a loja dos animais e pergunte se têm tartaruguinhas.

E o pai natal chega dia 24 à noite, sem falta

na minha caixa de email

23 novembro 2006

Ao lado

Oiço as vozes ali ao lado e as conversas que me invadem o silêncio. Estou cansada da gente que entra e sai sem reparar que estou aqui sentada. Talvez me tenha tornado uma coisa parecida com aquela cómoda. Em vez de bonecos de loiça tenho o anel da minha avó, no lugar da moldura de prata tenho estas mãos que riscam o ar ao compasso das conversas. Se eu me levantasse e saísse, será que alguém iria reparar na minha ausência?

22 novembro 2006

A amizade é a coisa mai' linda

No domingo recebi um mail com este jogo:

Descreve-me numa só palavra (apenas uma). Não podes escrever mais que uma palavra apenas. Manda a palavra para mim, somente para mim. Depois, manda esta mensagem para os teus amigos e vê como é estranho e interessante saberes o que as pessoas pensam a teu respeito. No mínimo um jogo curioso. Faz apenas responder (reply) e manda a minha palavra. O jogo começa agora. Não é tão fácil como pensas!
No ínicio não liguei, depois resolvi encaminhar o jogo para os meus contactos - amigos e família. Queria ver-me sintetizada na tal palavra. Queria coligi-las todas e perceber melhor o que pensavam a meu respeito. Comecei a receber respostas. Entretanto, a palavra que eu mais queria - a da minha melhor amiga - tardava em chegar. Fiquei impaciente. Pus-me em contacto com ela, reclamei a resposta, fiz chantagem, pus em causa a amizade e o conhecimento dela sobre mim. Ontem, no final da noite, recebi a almejada resposta. Publico-a com o seu consentimento e digam-me lá se não vale a pena ter uma amiga assim:
Pedistemequetedescrevessenumasópalavramasconfessoquenãoconsigo
ninguémconsegueencerrarninguémnumasópalavramesmoquetenhamuitas
sílabasetuésumapalavracommuitassílabasasílabainteligenteasílababrilhante
asílabadestravadaasílabaaceleradaasílabamelancólicaasílabamalucaasílaba
sagresasílabapoemasasílabamemóriaasílabaamigadedezasseisanosasílaba
osgaasílabamudançadecasaedevidaasílabaentusiasmadaasílabavencida
asílabarisoasílabaentendimentojátantassílabasqueficastontaaleristo
ninguémconsegueencerrarninguémnumapalavramuitomenosalguém
dequemsegostatantocomoeudeti.
P.S.1 Na primeira versão do post tinha separado as palavras com hífens para melhor leitura. Hoje fundi o texto novamente porque a minha amiga prefere assim.
p.S.2 (O que ela queria era chamar-me maluca)
P.S.3 A amizade é a coisa mai' linda!
P.S.4 Adoro-te amiguinha!

Acende campaínhas

esclarecimento por correio electrónico

Devido à velocidade da luz ser superior à do som, algumas pessoas parecem inteligentes até as ouvirmos.

a apoplexia do silêncio

Altero o meu estado, despejo o que há no saco, descubro o que há de intacto nas coisas, nos traços, nos espaços, nos caminhos, na sombra dos passos. Resumo tudo em algumas palavras, em alguns gestos, alguns inesperados, parece que sinto na tua expressão, o verão a destilar-se em mim, em ti, sobre nós, em grandes pedaços de pensamento abstracto, nem lapsos, em vácuo, sem nada no meio do teu corpo e do meu. Assim de uma assentada, quase tudo o que já era, foi, quase tudo o que já havia sido ainda era, quase tudo o que parecia ser também seria. A tua nudez na minha pele branca, o teu suor na minha boca, nos membros dormentes do cansaço do dia, o nosso som recortado pela luz a entrar da janela, eternos, eterno, eterna, desmaiados.

perguntas

Mãe, o que é o imperialismo? Mãe, o que é o fascismo?

(bem me parecia que não era boa ideia ter um cartaz do PREC na sala)

21 novembro 2006

Maniqueísmos informáticos

Os cookies são bons ou maus?

(se são bons, porque é que são bloquedos se o nível de segurança é médio alto?
se são maus, porque é que os tenho de aceitar para ver os mails?)

A verdade da mentira

Uma vez perguntei-lhe porque é que não me tinha pedido para subir ao seu apartamento. Respondeu-me "porque sou parvo". Guardei religiosamente esse sms durante muito tempo. Na altura estava-se a fazer de interessante mas afinal de contas foi a única verdade que me disse durante toda a nossa relação.

20 novembro 2006

Sim, pelo direito à vida

Aproxima-se o referendo e por essa blogosfera fora aumentam as postas sobre o tema, uns a favor do sim, outros acérrimos defensores do não. Eu confesso que já não tenho paciência para argumentar o tema, a minha veia democrática colapsa quando ouço falar na humanidade do embrião, na consciência que as mulheres devem ter para proteger-se de uma gravidez não desejada, no direito à vida. Dá-me vómitos, arrepios, eczemas e outras coisas piores. Não suporto a hipocrisia das organizações que defendem o direito à vida e que, pretendendo ser coerentes, criam organizações para apoiar a mulher grávida. Mas então a defesa da vida do bebé acaba no momento do seu nascimento? Se um filho ou filha é para toda a vida como é que se podem desejar que ele ou ela nasçam sem ser desejados, queridos, sonhados? Mas não vou argumentar se é uma questão do direito ou da ética, dos direitos das mulheres sobre o seu corpo ou da vida do embrião, enfim, deixo isso para outros bloggers que o farão melhor que eu.
Mas pela importância do tema também não quero deixar passar em branco esta fase pré-referendo, por isso vou contar a minha vivência pessoal.

Há mais de dez anos atrás fiquei grávida, tinha vinte e poucos anos, ainda não tinha acabado o meu curso, andava louca de amores por um homem muito especial, mas casado, com filhos e mulher. Naqueles arrebatos de loucura desenfreada e de sexo místico, uma das noites achei que o preservativo era desnecessário, que nada nos iria passar a nós, ao nosso amor protegido pelos deuses. Acho que quando se é jovem pensa-se que se é imortal e incólume aos males dos mundo, o mundo é hoje e agora e o amanhã nada passará. Resultado, teste da gravidez positivo. O mundo desabou, ainda tentei durante uns dias fazer de conta que não era nada comigo mas não foi possível, andava num tal estado de elevação, parecia que pairava no ar, e ele adivinhou o que me estava a passar sem que eu o dissesse. Ainda sonhámos durante uns dias em como seria se tivéssemos o bebé, se fosse uma menina, pois ele só tinha rapazes com a sua mulher, em como contaríamos à minha família (os meus pais) e à sua (mulher e filhos) da nossa alegria e da nova criança que aí estava para vir e que queríamos que fosse amada por todos. Enfim, sonhámos e iludi-me por um tempo, até que de repente tive um ataque de realidade e pensei em tudo aquilo que ainda queria fazer, na minha ânsia de descobrir o mundo, a mim, de liberdade, de viajar, nas possibilidades reais da nossa relação. E é aí que ele me diz Tu é que sabes, eu faço o que tu quiseres fazer... Esta frase foi crucial na minha decisão, não foi claro o único factor mas fez-me cá dentro um click, um aperto no peito. Então e ele, qual é que era o papel que ele estava disposto a assumir e a dar, qual era a sua vontade, apenas um reflexo da minha? Acho que começou aí o meu desamor por ele que ainda mais confirmava a minha decisão.
E através de uma amiga que tinha uma amiga que sabia de uma médica que fazia anjinhos, como dizia a minha avó que era sábia e que já tinha passado pelo mesmo, lá fui, determinada a fazer o que tinha que ser feito acompanhada por duas amigas. A última coisa que vi antes de entrar para a sala foi a Serenela Andrade a dizer que alguém tinha ficado alapardado, em vez de apardalado, e isso foi o mote para ter um ataque de riso, como sempre acontece quando fico muito nervosa ou tensa com alguma coisa.
Hoje mais de dez anos passados, claro que sinto a culpa e o desconforto, não se fica incólume, sofrem-se dores físicas e psicológicas, na altura e até muito tempo depois, senti remorsos, martirizei-me pensando em como seria se tivesse ido para a frente com a gravidez, como seria a criança, enfim. Mas bem feitas as contas e a prova dos nove, olhando para trás na minha vida, não me arrependo de ter abortado, assim com todas as letras, a minha vida teria sido muito diferente e não como a sonhei e desejei. E ainda mais reforço este meu não arrependimento tendo agora uma filha que foi muito desejada e sabendo tudo o que implica a gravidez, o nascimento e a criação de uma criança. Fiz uma opção, e tive a sorte de não ter sido julgada e condenada por tribunais e leis que ainda acreditam que o direito à vida é o direito a nascer.
Eu também acredito no direito à vida, mas a uma vida mais além da possibilidade de respirar este ar que nos rodeia. Acredito que cada criança quando nasce tem o direito de ser desejada e amada e que cada mulher e cada homem quando ficam grávidos têm direito a escolher qual o projecto de vida que desejam, têm direito a querer ser ou a não querer ser pai e mãe. E mais não digo. Agora só resta esperar pelo referendo.

19 novembro 2006

O melhor dos anos 80

O plurai dos animales

Aliás, O plurão dos animãos, melhor, o plurãe dos animães, ou ainda, o pluril dos animões. Um pouco de gramática nunca fez mal nenhum a ninguém. Por isso, chamamos a atenção ao ouvinte inteligente, para o plural dos mamíferos.
Note que, se o plural de chacal é chacais, o plural de cavalos poderia ser cavais. Mas não é - é cavalos. Nesse caso, o plural de leão deveria ser leálos. Mas não é - é leões. Logo, o plural de cão, poderia ser cões. Mas, mais uma vez, não é - é cães. Então, o plural de leão poderia ser leães ou leais. Mas é leões, como já vimos. Nesse caso, o plural de chacal deveria ser chacões, ou chacães ou chacálos - mas é chacais. Vai daí, o plural de cão, deveria ser cais, ou cãos, ou mesmo calos.
E chegou a altura de entrarmos em linha de conta com a noção de conjunto, para tentar facilitar as coisas. Sabe-se que um conjunto de porcos é uma vara. Nesse caso, um conjunto de touros deveria ser uma tara. Mas não é - é uma manada. Então, um conjunto de camelos deveria ser uma camada, mas é uma cáfila. Então, um conjunto de lobos deveria uma lófila, mas é uma alcateia. Pelo que um conjunto de cães poderia ser uma caneia - mas é uma matilha. De onde se deduz que um conjunto de bestas deveria ser uma bestilha - mas é uma récua.
Como se vê, esta história do plural dos mamíferos tem muito que se lhe diga. No entanto, no que respeita ao homem - que, como se sabe, também é um mamífero - as coisas são muito mais fáceis. Assim, o plural de homem pode ser homens, gajos, tipos, fulanos, ou mesmo filhos da mãe. No mesmo sentido, um conjunto de homens pode ser um grupo, uma manada, uma cáfila, um bando, uma quadrilha, um pelotão, uma companhia, uma cambada,, uma maralha, uma multidão, uma manifestação, um monte, uma molhada, um ajuntamento, uma concentração ou ainda uma mole imensa.

*texto publicado na revista PÃO COM MANTEIGA, N5, Outubro de 1981

18 novembro 2006

Natureza feminina

Depois da casa me ter atacado com formigas, pombos, baratas alemãs e moscas rastejantes, voltou à carga ontem à noite.

Tive um jantar com umas amigas cá em casa para experimentar esse novo e fabuloso electrodoméstico chamado bimby (espécie de robot do cozinha que faz tudo por nós, especialmente desenhado para nabas da gastronomia como eu), quando durante o repasto fomos atacadas por um insecto que parecia o cruzamento entre uma vespa, uma libelinha e o Freddy Krueger - de início fiquei estupefacta mas depois horrorizada com o bicho. Foi-se esconder atrás da máquina do café, uma delas propôs que o atirássemos para o chão para esmagar com o sapato, quando o fizeram uma delas zumba com a botifarra, e a criatura começou a levantar-se qual fenix das cinzas, o que provocou em mim o horror dos filmes americanos, pensando que ele atacaria com mais poderes, o que resultou em gritos lancinantes misturados com risos pela situação. Felizmente uma delas acaba de chegar dos seus seis anos de Timor e resolveu o assunto com uma sapatada mais bem dada, embrulhou o cadáver em rolo de cozinha e ala para o caixote do lixo.

No fim da noite enquanto arrumávamos a dita maravilha do mundo moderno, descobri um ratinho pequenino, cinzento, morto em cima do balcão da minha cozinha - coisa perfeitamente inaudita desde que aqui vivo. Da estupefacção passei ao grito, de novo, seguido de risos incontroláveis encostada obviamente à parede contrária ao cadáver. Fui incapaz de pegar na criatura, inspirou-me a mais profunda repulsa e a reacção que apenas conhecia dos filmes idiotas - gritos. Não conseguia fazer outra coisa. Gritava e ria, ria tanto que parecia que chorava. De novo a nossa lorosae de serviço tratou da exumação de mais um corpo abandonado pela anima, e assim puderam ir para casa alegres e tranquilas.

Julgarão os bichos que eu sou a Dra. Doolittle? Ou deverei doar a casa à Sociedade Protectora dos Animais, já que vêm todos cá ter pelo próprio pé?