30 dezembro 2008

Favores do Pai Natal

Não podem os leitores assíduos do Expresso ter ignorado, ao longo de vários números da "Única", uma enorme publicidade que ocupa duas das páginas iniciais. Assinada por distintas personalidades, destina-se à promoção de um dos bancos que deram buraco ou que nele cairam, neste caso o Banco Privado Português. Até Manuel Alegre foi usado para tal campanha mas também Proença de Carvalho ou Leonor Silveira, mostrando assim ser um banco abrangente e simpático a figuras que se movimentam em diferentes águas.
Esperava que, perante a vergonha que se vive na banca, a publicidade tivesse sido suspensa mas, pasme-se, da cartola tiraram a mais proeminente figura; nada mais nada menos que o Pai Natal, ele próprio, assina durante o mês de dezembro a carta em que se dirige aos portugueses não para lhes pedir que depositem dinheiro no BPP (porque isso pareceria demasiado imoral) mas sim para lhes solicitar auxílio a diversas associações de solidariedade social, cujos contactos faculta. Não posso deixar de transcrever a frase "A diferença é que desta vez não servem para aumentar a sua fortuna, mas sim para fazer de si uma pessoa mais rica".
Boa, Pai Natal, tenho a certeza que os afortunados que tinham depósitos no BPP estão já muito mais tranquilos com estas tuas palavras sábias.

das duas uma

Estou a ver que anda tudo no laré.
Ou então andam na romaria da troca dos intragáveis presentes de natal.

26 dezembro 2008

Fango



E o que quer dizer este 'fango'?
Todos os anos, descobre-se uma coisa. 
Os lagos sao sitios onde se guardam segredos.

25 dezembro 2008

Qualquer coisa de especial

Todos os anos traziam aquela altura do ano que tanta angústia lhe causava. Mais uma vez teria que enfrentar outro Natal e o entusiasmo alheio que este acarta nas outras pessoas. Como era difícil ter que rasgar um sorriso aos outros que se divertem com compras e enfeites pirosos. Como explicar-lhes que o seu Natal se fazia à volta de uma mesa que continha palavrões com primorosas descrições das actividades sexuais de todos os vizinhos do quarteirão. No seu Natal não se trocavam prendas e não se ansiava a chegada do Pai Natal. Esperava-se antes o primeiro estalo atlético de mão puxada até as costas, coreografado à imagem dos filmes que passavam na televisão ou o primeiro a abrir a sessão de discussões, adaptada a um concurso de amplitude vocal que faria rir como um idiota qualquer pessoa que afirme gostar do Natal. Eram assim as suas consoadas, sem nada de natalício mas com muito de agitação.
Não havia como gostar do Natal pensava para si. Resolveu pois fazer um esforço e tentar encontrar qualquer coisa de tão encantadora naquela época como as outras pessoas a faziam querer acreditar. Reviu metodicamente todas as etapas das maratonas natalícias ultrapassadas até então e encontrou uma mesa onde não se trocavam presentes mas afectos em voz alta e bem gesticulados para que todos os entendessem sem falsas pretensões ou ironias. Afinal o seu Natal até tinha qualquer coisa de especial.

Sinais dos tempos II


Da boca da minha mãe raras vezes ouvi sair qualquer tipo de palavrão.

Hoje, bem a propósito da quadra festiva que atravessamos, confessava-me lidar com dificuldade com as inúmeras solicitações do cônjuge para todas e quaisquer tarefas e segredava-me "Olha que às vezes até dou por mim a largar um "foda-se!"

Pois eu, que herdei dela o mesmo recato, já descobri há uns meses o poder curativo e descompressor do vocábulo, bem articulado, dito no momento certo.

Sinais dos tempos I

Ainda há 12 anitos a pari e continua a parecer-me sempre a minha pequenina.
Hoje apareceu, gilette em riste, e suplicou-me que lhe rapasse os pelos dos sovacos.
Ai!, temo não estar preparada para o resto...

22 dezembro 2008

Está a apetecer-me um banho de multidão

Vou ali ao Colombo e já volto. Roam-se de inveja.

20 dezembro 2008

Nos sítios do costume


De vez em quando sou acometida um estranho desejo masoquista, daqueles que me levam a querer dissecar desgraças alheias, a espiar comadres que se zangam, a deleitar-me com os exercícios de vaidade e os arremessos de má educação. Nessa alturas, quando o corpo me pede sangue, quando cresce em mim a vontade de estarrecer com a infinita soberba e estupidez humana, sento-me aqui e vou aos cantos onde os amigos e inimigos se fazem e desfazem em postas. Todas as semanas, uma receita nova nos sítios do costume.

19 dezembro 2008

Partida largada fugida


Bem vinda ao carrossel do oito e coisa, agarre-se bem e prepare-se para mais uma volta ao mundo em trezentos e sessenta e cinco dias. A partir deste momento, começa mais uma corrida mais uma viagem. À sua frente, tem 8760 horas por estrear.

Parabéns a mais uma das nossas almas.

18 dezembro 2008

17 dezembro 2008

E foi mesmo por pouco

Hoje o Parlamento Europeu rejeitou a proposta das 65 horas de trabalho semanais. 65 horas de trabalho, custa-me a crer que seja possível que esta proposta seja considerada viável pelas empresas, pelos governos europeus e por todos os que como eu não saímos à rua a dizer mas vocês tão tótós da mona ou o que se passa? 65 horas de trabalho, fazendo contas de cabeça que não tenho aqui a máquina à mão, dá mais de 12 horas de trabalho por dia. Se temos mais 8 para dormir são 20; muitxs de nós, levamos 2 horas de deslocação até ao trabalho, 1 para ir outra para voltar, são 22. Como o dia tem 24 horas, ficaríamos com duas horas para arrumar a casa, porque com aquilo que se ganha não podes pagar a ninguém, fazer o jantar, estar com a família, com xs amigxs, fazer desporto, namorar e manter a relação, conversar e brincar com os teus filhos, e participar na vida do país. Se já com as 40 horas a vida é tão difícil e a conciliação entre o trabalho e o resto da vida, que implica construir uma diariamente uma estratégia de vida que diariamente tem de ser reformulada, lutada, resgatada e inventada, quanto mais com 65 horas. Na época que mais defendemos liberdades e direitos, por pouco não foi aprovada uma lei que regularia a escravidão moderna, estabelecida com o comúm acordo de uma pessoa trabalhadora que tem que sustentar a sua vida económica num contexto de degradação laboral e uma entidade patronal que equipara pessoas a máquinas produtivas. A continuar assim, assusta-me imaginar qual será a jornada laboral que será discutida quando os nossxs filhxs começarem a trabalhar.

De quando em vez, também calha

Hoje estou feliz! Ah pois!

16 dezembro 2008

Interlúdio musical

Momento familiar de educação musical com criança de oito anos. Band Aid e We are the world no youtube. Estava tudo a correr bem até que salta a Cindy Lauper.
- Quem é esta histérica, mãe?

dificuldades educacionais

Sapatinho de salto alto, com o dedão de fora em pleno Dezembro.

14 dezembro 2008

capitalismo ao fundo, água...

Sou uma mulher pouco informada e não estou a par das actualidades políticas nacionais ou internacionais. Dentro da minha borbulhinha, vou ouvindo as pessoas falando, leio as noticias daqueles jornais gratuitos do metro e de quando em quando consigo ver um noticiário sem cair fulminada no sofá. Mas é impossível não ouvir falar da crise financeira mundial que anda na boca de toda a gente, ou não notar a insistência das notícias que mostram preocupação pela redução do consumo, ou as que todos os dias anunciam um novo banco que pede para ser salvo, ou os novos planos para salvar-nos da catástrofe mundial que se avizinha, ou as mais e mais pessoas desempregadas e as outras tantas com cada vez mais medo a perder o emprego. O sistema económico que durante anos especulou com o valor do dinheiro que produzimos, pede agora ao estado que o salve e o estado que antes lhe dava mais e mais reduções dos direitos laborais e sociais das pessoas que o alimentavam, solta agora grandes quantidade de dinheiro para salvá-lo da ruína. A nós, habitantes consumidorxs e produtorxs, dizem-nos que temos de consumir para salvar o mundo, prometem-nos que tudo vai ser como antes. Mas continuam a dizer-nos que temos de consumir para salvar o sistema que já está podre por toda a forma de produção e de consumo que construiu e que o vem devorando por dentro, que nos vem devorando por dentro. Todos os dias toneladas de comida são deitadas fora nas grandes cidades e todos os dias alguém morre de fome noutro lugar do planeta ou mesmo perto de nós. Todos os dias um peixe, uma tartaruga ou um golfinho morrem envenenados com um saco de plástico e todos os dias embrulhamos as nossas compras em resmas deles. O sistema económico está em ruptura porque durante muitos e muitos anos criou uma engrenagem doentia para os seres humanos e para o planeta onde vivemos, o sistema económico está podre porque nos seduziu com o verbo ter e nos fez esquecer de construir o verbo ser.
Não é consumindo mais que vamos salvar um sistema económico e uma ordem mundial que há muito tempo está moribunda, nem o planeta que habitamos, nem sequer a qualquer de nós. Ao contrário, é precisamente consumindo menos, dizendo que não queremos este sistema, conhecendo e fazendo reais os nossos direitos e xs dxs otrxs, equilibrando a distribuição das riquezas, respeitando e protegendo a natureza, admirando e aproveitando a diversidade social e cultural das pessoas com que nos encontramos, sendo mais felizes num dia de sol num banco de um jardim e não debaixo das luzes eléctricas de um centro comercial. Reinventando a solidariedade e a amizade e não perseguindo a competição sem ética.
Que se afunde de uma vez este sistema em que vivemos, e saibamos aproveitar as oportunidades de inventar-nos diferentes.

12 dezembro 2008

Sabedoria popular

- Então o que acha da casa?
- É boa, espaçosa
- E o que acha do preço?
- Parece-me relativamente alinhado com o que se pede, embora um pouco acima do seu valor justo.
- Acha? Eu acho que está bem. Sabe, se não estivesse, não teria as visitas que tem.
- Ah sim?
- Sim, Tem tido muita gente a visitar, por isso o preço é bom. Caso contrário ninguém viria vê-la. E é o que se pede.
- Ah. E tem visto muitos anúncios?
- Bem... não muitos, mas se a casa tem procura é porque o preço e bom, senão ninguém viria. Há três semanas que é só visitas, só visitas.
- E ofertas?
- Pois, até agora as pessoas não têm feito ofertas. Mas não acha que a casa é boa?

11 dezembro 2008

Presente

FELIZ


(dia 25, clickar para desembrulhar)

Feliz Natal

imagem aqui

Num Dezembro de há muitos, muitos anos, o meu pai levou-me ao Teatro Adoc a ver Os Operários do Natal, uma das idas ao teatro mais felizes da minha vida, e da qual guardo uma recordação muito querida num cantinho especial do meu coração e da minha memória. Para além de saber de cor quase todas as músicas, o que em mim é raro pois em geral só aprendo uma ou duas frases das músicas, acho que foi o inicio da consciência de que qualquer coisa que se faça, é sempre feita por alguém, alguém com uma vida própria, uma família a que pertence e um trabalho com umas condições próprias, que implica um esforço e uma dedicação. Nem nós viemos da cegonha nem nada do que temos em redor aparece por geração espontânea. Parece muito simples, mas por vezes parece que vivemos numa sociedade demasiado facilitista, em que não nos vemos uns aos outros, em que esquecemos, como cantavam os operários do natal, (que) O dinheiro pouco importa, o que importa é a verdade, e a prenda mais valiosa é a prenda da amizade. Quem faz das tristezas forças e das forças alegrias, constrói à força de amor, o natal todos os dias.

Mamma Mia


Abba - Mamma Mia
Enviado por ABBA

10 dezembro 2008

se todos fazem, eu também quero

uma voltinha na blogocoisa e descobrem-se listas de presentes que se desejam. Eu, mulher frugal que não me deslumbro com jóias, sapatos e malas, que não conheço marcas, que ignoro os prazeres de uma tarde de compras, eu completa inútil no mundo do consumo, descubro que apenas uma coisa me faria feliz este natal. Um mordomo.
(e assim desapareciam as horas a limpar, a cozinhar, a lavar, as horas de supermercado com música de fundo e demasiadas cores e luzes, e assim desaparecia a minha vida de dona de casa que tanto detesto)

Ainda faltam 14 dias

E já não aguento os jingles de Natal!

No café

"- Pá, hoje já é quarta-feira!
-Bem que podia ser sexta..."

08 dezembro 2008

07 dezembro 2008

se olharmos bem até no trabalho há poesia



Ou a alegria de partilhar este momento de poesia do Duo SãoLindas.

05 dezembro 2008

Confesso

ESTE é o meu blog favorito.

Envelhecer é

não apenas começar a ressonar, mas acordar-me sobressaltada com o barulho.

04 dezembro 2008

Carta de guia de casados

Encontrei-a no Sorumbático, mais precisamente aqui. É antiga, mais exactamente de 1651, da autoria de D. Francisco Manuel de Melo.


A propósito dos amores que por aqui vão passando e da personalidade e visão do mundo das minhas queridas múltiplas, não resisto a deixar aqui a dita carta de guia.


Algumas coisas divertiram-me por si, outras pela reacções que adivinho, outras ainda pela sua imutabilidade, como estas:

"Hũa das cousas que mais assegurar podem a futura felicidade dos casados, he a proporção do casamento. A desigualdade no sangue, nas idades, na fazenda, causa contradição; a contradição, discordia. E eis aqui os trabalhos por donde vem. Perdese a paz, e a vida he inferno."

(...)

"Dizia hum nosso grande cortesão, havia tres castas de casamentos no mundo: casamento de Deos, casamento do Diabo, casamento da Morte. De Deos, o do mancebo com a moça. Do Diabo, o da velha cõ o mancebo. Da Morte, o da moça com o velho."

Brindar com água dá azar



Parabéns, querida no baile da d. ester!

(Arquimedes explica como sais daí, 'bora lá, let's party!).

03 dezembro 2008

Em casa de ferreira...

Na escola dela estão a falar sobre os oficios e profissões dos pais e mães. Tento explicar-lhe o que faço o melhor que posso e depois arrisco: então e tu, o que queres ser quando fores grande? Responde segura, quero ser princesa, bailarina e barbie!
Acho que vou esperar mais uns aninhos antes de voltar a fazer a mesma pergunta.

Recicle o óleo alimentar

São produzidos todos os anos em Portugal, 120 milhões de litros de óleos alimentares usados, quantidade suficiente para fabricar 170 milhões de litros de biodiesel. Este valor corresponde ao gasóleo produzido com 60 milhões de litros de petróleo, ou seja, o equivalente a cerca de 0,5% do total das importações anuais portuguesas deste combustível fóssil.

Se reciclarmos o óleo que utilizamos na cozinha, em vez de o mandarmos para o sistema de esgotos estamos a evitar a contaminação das águas residuais, que acontece quando o resíduo é despejado na rede pública de esgotos, e a deposição do óleo em aterro. Os óleos alimentares usados poderão assim ser transformados em biodiesel, fornecendo uma alternativa ecológica aos combustíveis fósseis, e contribuindo desta forma para reduzir as emissões de Gases de Efeito de Estufa (GEE). Ao contrário do que por vezes acontece com o biodiesel de produção agrícola, esta forma de produção não implica a desflorestação nem a afectação de terrenos, nem concorre com o mercado da alimentação.

Através deste projecto de reciclagem da AMI, basta juntar o óleo alimentar que usa na sua cozinha numa garrafa de plástico e entregar quando estiver cheia num dos restaurantes aderentes.

Os restaurantes estão identificados e a lista completa está disponível em http://www.ami.org.pt/, assim como mais informações sobre esta e outras campanhas ambientais, como a reciclagem de radiografias ou de consumíveis informáticos.

02 dezembro 2008

Bruta flor

Já cá esteve postado há uns tempos, mas é sempre um prazer ouvir e ver Caetano e Chico cantando esta forma estranha que temos de querer e de estar nas relações amorosas.




O Quereres
Caetano Veloso
Composição: Caetano Veloso

Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão

Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde o queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói

Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock'n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus

O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há e do que não há em mi

Um dia

Vais forçar o riso. E perceber que não há mal nisso. Nem tudo o que vem do esforço é falso.

Assim, simplesmente

Assim simplesmente decidi. Assim simplesmente arrumei uma muda de roupa e assinei um contrato de arrendamento. Assim simplesmente saí da nossa (tua) vida, da nossa (tua) casa, do nosso (teu) casamento.
Demorei tempo demais a dar este passo. Afinal era simples.
Assim simplesmente voltei a ser Eu.
E tu vai para onde quiseres, que eu não quero saber. Assim, simplesmente, Adeus.

01 dezembro 2008

Fridge poetry


My steam kisses melted a caramel

29 novembro 2008

Já não sei como te quero

Cada vez te quero menos e mesmo assim continuo ao teu lado a gostar do calor do teu corpo desse lado de lá. Cada vez suporto menos os nossos desencontros de palavras e pensamentos, cada vez mais penso que já não sei o que me liga a ti além dos filhos, somos pais, é talvez isso que nos une. Cada vez que olho fundo os teus procuro desesperada os peixes verdes que lhes via em todos estes anos do nosso amor. Agora só vejo o vazio, os teus olhos já não são peixes verdes mas continuo a chamar-te meu amor, a ligar-te pelo menos uma vez ao dia para saber de ti, a perguntar como estás, como foi o teu dia, sem que isso me interesse. Mecanicamente coordenamo-nos nas coisas da casa, na vida de todos os dias, mas cada vez mais me sinto presa a estes dias, a tu que já não és tu e a mim que já não sei quem sou. Outro dia pensei que tinha chegado ao fim, disse-te não aguento mais, e senti-me livre, alegremente livre. Mas depois convenci-me ou senti, (já não sei) que ainda te amava e continuamos com esta engrenagem perra dos dias que já não sabemos como os queremos construir. Esta engrenagem perra que vai sendo a nossa vida. E contudo, não consigo dizer, sentir, que não te amo.

28 novembro 2008

Homem de todos os dias

Quero-te para muitas coisas e, sobretudo, quero-te todos os dias. Quero por o pé no fim da cama e sentir a tua perna do lado de lá. Quero acordar e sentir o calor que se liberta dos nossos corpos. Quero o teu sorriso rasgado quando chego a casa e depois quero ouvir-te dizer 'olá meu amor' e eu a perguntar sou mesmo o teu amor e tu a dizeres és mesmo o meu amor, vezes e vezes sem conta. Quero as nossas conversas, importantes, banais, triviais até ao silêncio partilhado e ainda um olhar que vale mil palavras. Quero os arrufos que acabam em gargalhadas e se dissolvem em um, dois, três, muitos beijos. Quero-te nos dias que passam sempre iguais e quero-te nos dias que passam sempre diferentes. Quero-te todos os dias neste absurdo que é a vida de todos os dias. E então sou feliz.

Homem objecto

Não penses que quero mais do que isto. Umas horas de ginástica para desentorpecer o corpo, uns suspiros e gemidos, uma vertigem qualquer que acaba nesta ponta da cama. És apenas isto que está aqui ao meu lado: um corpo de que me sirvo quando quero. Não quero saber os livros que lês, as viagens que fizeste, as angústias que te mordem as canelas à noite, o trabalho que te ocupa durante o dia. Quero-te apenas neste tempo em que te encontro aqui, corpo com voz que me enche estas horas, corpo com voz que não usa pasta de dentes, não acorda inchado de sono, não vê televisão. E sobretudo, um corpo que não tem cotovelos em cima da mesa.

Não nasci para isto

Deves achar que gosto disto. Deves achar que me divirto secretamente de cada vez que te digo que não suporto a tampa do champô aberta. Deves achar que encontro um gozo qualquer em lembrar-te sete vezes por dia que se lava a loiça depois de se usar. Deves achar que não me importo de te ver colado à televisão. Deves achar que gosto desta merda de vida que levamos, as minhas zangas e os teus sorrisos trocistas, as tuas ausências e os meus suspiros. Não foi isto que imaginei quando te disse que sim. Os cotovelos em cima da mesa, a forma como engoles a cerveja, a tampa da retrete molhada, os telefonemas de picar o ponto durante o dia, os beijos cada vez mais mecânicos. Tira a merda dos cotovelos de cima da mesa e põe-te a andar. Não nasci para isto.

Closer


dos meus elementos.
do que me faz feliz.

(Domingo passado, Guincho).

26 novembro 2008

Arqueologia de mim

Faz hoje vinte anos que comecei a namorar com o meu primeiro amor. É estranho chamar-lhe primeiro amor, está tudo tão distante que chego a acreditar que nunca aconteceu. Fecho os olhos e decido ser arqueóloga de mim mesma. O primeiro beijo numa escada e a certeza de que era mais do que um beijo (o dois na casa das dezenas), os telefonemas longuíssimos por coisa nenhuma (o zero na casa das unidades), a primeira vez que ouvi amo-te com a surpresa aterrorizada de quem não sabe o que fazer com isso (vinte anos?). Poderia jurar que nunca aconteceu, não fosse ter-me lembrado do dia do mês e do ano em que comecei a ser uma pessoa crescida.

25 novembro 2008

disclaimer

O post abaixo não é meu. O que é uma pena. Também quero.

24 novembro 2008

Porno Chanchada

Quero sexo. Intenso, duro, suado. Daquele que não nos deixa respirar, falar, sentir mais nada a não ser um prazer imenso, entre o céu e o inferno, entre a alegria e a tristeza, entre o clímax e a dor. Quero cheirar-te, lamber-te, morder a tua pele esticada, eriçada, molhada; quero puxar os teus cabelos ensopados, agarrar o teu peito musculado, apertar na minha mão o teu sexo duro e erecto, a pedir mais, mais de mim. De ti.
Quero foder-te por cima, por baixo, pela frente, por trás, quero fazer-te vir, uma, duas, três, mil vezes, e eu contigo, olhos nos olhos, em síncope ritmada, sincronizada, perfeitamente alinhada.
Quero que me chames tua, quero que digas que sou linda, quente, saborosa. Que te excito como nunca outra o fez. Como se fossemos o último par da Terra e amanhã acabasse o mundo.
Achas que é pedir muito?

22 novembro 2008

abraço-me às palavras que escrevi

"Dizem-me que as entrevistas valeram a pena. Eu, como de costume, duvido, talvez porque já esteja cansado de me ouvir. O que para outros ainda lhes poderá parecer novidade, tornou-se para mim, com o decorrer do tempo, em caldo requentado. Ou pior, amarga-me a boca a certeza de que umas quantas coisas sensatas que tenha dito durante a vida não terão, no fim de contas, nenhuma importância. E porque haveriam de tê-la? Que significado terá o zumbido das abelhas no interior da colmeia? Serve-lhes para se comunicarem umas com as outras? Ou é um simples efeito da natureza, a mera consequência de estar vivo, sem prévia consciência nem intenção, como uma macieira dá maçãs sem ter que preocupar-se se alguém virá ou não comê-las? E nós? Falamos pela mesma razão que transpiramos? Apenas porque sim? O suor evapora-se, lava-se, desaparece, mais tarde ou mais cedo chegará às nuvens. E as palavras? Aonde vão? Quantas permanecem? Por quanto tempo? E, finalmente, para quê? São perguntas ociosas, bem o sei, próprias de quem cumpre 86 anos. Ou talvez não tão ociosas assim se penso que meu avô Jerónimo, nas suas últimas horas, se foi despedir das árvores que havia plantado, abraçando-as e chorando porque sabia que não voltaria a vê-las. A lição é boa. Abraço-me pois às palavras que escrevi, desejo-lhes longa vida e recomeço a escrita no ponto em que tinha parado. Não há outra resposta" (retirado daqui)
José Saramago, cumpriu 86 anos. Muitos parabéns!

21 novembro 2008

Um caos perto de si

Fim-de-semana em grande em Lisboa. O exercício prociv IV promete transformar os próximos dias num inferno.
Para detalhes de sítios a evitar na cidade de Lisboa, vejam aqui.

20 novembro 2008

Um dia vou ter vontade

de lhe dizer tudo o que ainda não disse. Talvez lhe vá à cara também. Muitos anos de silêncio dá nisto, uma vontade que cresce devagarinho quase sem dar por ela. Um dia vou ter vontade de mostrar tudo o que sei e nunca lhe contei.
Enquanto a vontade não chega, entretenho-me a pensar como será esse dia.

às vezes eu também

O meu iPod caiu ao chão e está avariado tens de arranjar um sentido qualquer para a tua vida e de repente essas duas coisas que me são preciosas, o meu amigo acossado e o meu iPod avariado são uma única coisa que me acorda tens de arranjar um sentido qualquer para a tua vida sinto subir uma fúria tens de arranjar um sentido qualquer para a tua vida e apetece-me bater na pessoa que acossa o meu amigo, apetece-me espezinhar o iPod tens de arranjar um sentido qualquer para a tua vida tenho sono e a máquina do café não funciona foda-se tens de arranjar um sentido qualquer para a tua vida subi de novo as escadarias da Baixa-Chiado foda-se hoje almoço sozinha foda-se a luz da falta de gasolina já se acendeu no tablier foda-se a mensagem que tinha de mandar ontem a uma amiga não foi processada por saldo insuficiente foda-se ainda nem recebi o salário de setembro foda-se tenho um emprego que não gosto foda-se tenho de arranjar um sentido qualquer para a minha vida.
Tudo isto e o resto aqui.

É daquelas coisas que não percebo...

O fascínio desmesurado dos homens com a Cláudia Vieira. Não consigo ver muita graça (nenhuma aliás) naquele palminho de cara, embora reconheça que tem um corpinho laroca. Mas como ela há várias e não provocam delírios destes nem inspiram campanhas tão idiotas como a da Triumph (vão lá ver, tem umas modelos bem mais giras na minha opinião), como é tão bem notado aqui.

18 novembro 2008

Sonhos...



Maravilhoso, este "Johnny Guitar".Há dias que dou por mim a trautear a melodia sem que perceba bem porquê.

Algumas postas depois, finalmente, Juraci - a vidente contente - O desfecho.

Se não tivesse a certeza de estar em Istambul, podia jurar que estava na feira do relógio, tal era a quantidade de gente que regateava aos gritos, a oportunidade de arranjar um taxi que os levasse até ao local do seminário. Kasparov, o buldogue estava ao seu lado com o ar mais enjoado do mundo depois daquelas horas aos trambolhões no compartimento de carga do avião. A senhora do guichet Nº 5, de lábios carnudos, vermelhos e peruca à Marylin Monroe perguntou-lhe se não tinha nada a declarar. Juraci podia ouvir as conversas nos outros guichets do lado. Num deles, alguém declarava que tinha um marido para a troca, outro perguntava se seria viável montar um esquema de fuga ao fisco e quantos anos conseguiria viver no luxo absoluto sem ser catado. Estas pessoas estavam confusas. Os funcionários do aeroporto permaneciam calmos e direccionavam as pessoas para o seminário, onde para além do curso, também estavam instaladas tendas de atendimento ao público. Juraci limitou-se a apresentar o documento que conprovava o registo no seminário e enfiou uma nota de 50 euros na manga da blusa da Marylin para ela lhe chamar um taxi à parte. Juraci queria ir para o Norte de Istambul em direcçao às margens do mar Negro onde o professor Uganbanga a esperava. Ao seu lado, sentado no banco do taxi, kasparov acabava de vomitar mais uma peça de xadrês. Juraci tinha encontrado o cão assim na rua abandonado quando ele era ainda pequenito. Já sabia que alguém tinha lançado um feitiço qualquer ao cão e andava há anos a tentar quebrá-lo mas o máximo que tinha conseguido era que ele passasse a vomitar peças de damas e mal por mal, o xadrês sempre tinha mais prestígio. Desta vez, Kasparov vomitara uma rainha, seguido de um grande arroto de satisfação e Juraci não pode deixar de sorrir encararando o fenómeno como um bom presságio.
Ali estava o professor à sua espera, de mão levantada a segurar um enorme cartão que dizia, "Welcome, Juraci - A vidente contente!". Juraci correu a abraçá-lo. Ele ria-se atrapalhado ao mesmo tempo que endireitava os óculos e corava. Juraci sempre tinha achado que ele podia ser um sósia de Woody Allen, não fosse ter quase dois metros de altura e ter a mania que era imortal. Depois de um jantar luxuriante em que mais uma vez, a química que Juraci sabia ter com Uganbanga se tinha revelado, a conversa estava posta em dia e Uganbanga apresentou-lhe as novas bolas de cristal. O modelo "ver sem limites 6.5", não era nada menos do que tinha visto no folheto promocional. Juraci até sentiu que as lágrimas lhe vinham aos olhos. Uganbanga deixou-a ficar uns momentos sozinha para que ela pudesse fazer uma primeira previsão e levou Kasparov para outra sala onde pretendia lançar um contra feitiço ao pobre cão.
Juraci não sabia onde se havia de enfiar depois de ver o seu futuro estampado na nova bola. Ela e o professor casados e felizes, a viverem ali em Istambul, ele a traficar e ela a prever as maleitas do mundo. Era um amor antigo este deles os dois, que remontava há dez anos atrás quando Juraci lhe tinha comprado a sua primeira bola mas nunca concretizado porque Juraci não tinha querido deixar a pátria. No fim, acabara por casar com um activista que a tinha deixado em prol da luta contra o recente movimento do "bird porn" e que agora estava preso por ter sido apanhado em flagrande delito a mandar uma queca de binóculos, no meio do mato na zona de Mafra. Juraci desviou os olhos da bola. De facto, não havia mais nada que a prendesse ao seu país natal Quando Uganbanga surgiu a espreitar pela porta para saber se já podia entrar, Juraci lançou-lhe um olhar terno e Uganbanga soube logo ali que ela tinha decidido ficar. Kasparov correu para ela de contente. O cão não estava totalmente curado mas agora falava russo.

17 novembro 2008

Anestesia

Ontem contava as horas para te poder ligar. Para ouvir a tua voz, para te contar como tinha corrido os meus dias que passavam, apagados e discretos, durante as horas insuportáveis e intermináveis que teimavam em arrastar-se até que tu acordasses e eu te pudesse ligar.

Estavas do outro lado do mundo e do tempo, numa outra instância da vida, num outro estado de alma. Procuravas alguém que te fizesse companhia para os dias cinzentos que se aproximavam, enquanto eu buscava paixão intensa, pronta-a-usar, como uma pastilha elástica que se cospe após perder o sabor.
Fomos ambos enganados. Tu perdeste-te em mim e eu perdi-me por causa de ti.

Amámo-nos. Muito. Tanto que assustava. Tanto que aterrorizava. Tanto que eu fugi. E tu deixaste-me ir.
E o ontem foi ante-ontem, o mês passado, o ano passado, há oito anos atrás.

E o tempo nunca mais parou.

16 novembro 2008

Dia da Memória


Somos todos actores e um destes dias podemos passar a protagonistas.
Para M..

Quem é o Gualter? E o Walter? (ou a impossibilidade de ver um sem pensar no outro)






Carta aberta

Excelsa Maria de Lurdes,
devo em primeiro lugar confessar-te que a minha luta diária contra o preconceito esbarra sempre em pessoas de nariz afiado e lábios demasiado finos, que me fazem de imediato pensar em bichos alados de grande porte. É isso e homens pequenitos... Sei que são preconceitos estúpido, pelos quais devia ser penalizada na avaliação mas todos os dias me penitencio e tento ser melhor.
O que me leva a escrever-te, na esperança que a internet faça parte das tuas ocupações rotineiras, é a vontade de te aligeirar a terefa pondo-te ao corrente de uma outra forma de avaliação da carreira docente, esta praticada no país do Asterix e do Gaston Lagaffe. Faço-o porque entendo que o Sarco, pessoa com nariz bastante mais proeminente que tu, não queira abrir o jogo para que não copies um modelo tão mais simples. Não fosse a crise económica e a Carla Bruni que insiste em cantar pelo Eliseu fora, era até possível que ele ficasse irado e tentasse descobrir a identidade do bufo.
Ora cá vai. Por cada região escolar, dispõem os gauleses de um inspector, pessoa neutra e devidamente formada que, imagina, não está sentada numa poltrona ergonomicamente adaptada no Ministério da Educação, não. O inspector é alguém que, em determinada fase da vida, foi também professor formado pela "Education National" e que fez formações específicas tendo, por sua vez, sido alvo de uma avaliação para poder ascender à categoria de inspector. A cada quatro anos um docente sabe que deverá ser alvo de uma inspecção da qual resulta uma nota assente em critérios diversos e devidamente operacionalizados, que faz com que o inspeccionado progrida ou não na carreira. Mas, para além da nota, o inspector dá um feed-back in loco ao inspeccionado. Para além disso, compete ao inspector animar e propor estágios pertinentes que mobilizam o corpo docente em período lectivo, com o propósito de melhorar as práticas pedagógicas. Manias dos países mais civilizados estas de apostar na formação contínua...
Vantagens de tudo isto? Para além da neutralidade evidente do inspector (até porque para os francius a hierarquia é inquestionável - cada macaco no seu galho, mesmo!), este dá a ideia de ser alguém que trabalha; poupa-se na burocracia dos milhentos papéis, libertando os profs para o que realmente têm de fazer; colegas docentes podem voltar a ir beber uns copos à sexta-feira à noite sem medo que "o filho da mãe" que tem ao lado lhe passe a perna a curto prazo; os profs stressam à mesma e o inspector não se safa de alguns impropérios em surdina pelos corredores, mantendo-se assim o "status quo".
Sabes, é que às vezes, porque um tem um nariz mais assim e uns lábios mais assado, e porque neste mundo não há lugar para todos em cima do mesmo galho há uns que se vêem injustamente ostracizados, vítimas de estereótipos e de preconceitos demasiado estúpidos.
Estarei disponível para mais esclarecimentos, e até para a teu lado estudar novos modelos, na caixa de comentários associada a esta mensagem. No entanto, tens de ser paciente com a irregularidade da minha consulta. É que mesmo sem a avaliação, o tempo não dá para tudo.
Cumprimentos, tua
Oito e coisa, nove e tal.

14 novembro 2008

Às vezes


dou por mim a pensar se as pessoas que conheço se divertirão na cama, será que a minha chefe ou esta ou aquela colega gosta da sua sexualidade? O senhor da mercearia onde vou todos os dias, gostará de sexo? Pergunto-me... Conheço pessoas que gostam de sexo, pessoas que não gostam de sexo, e pessoas que vão gostando mais ou menos consoante os seus parceiros/as, a vida, os dias, a curva das costas que se acentua ou a pressão do ranho que aperta o nariz, a cabeça, a alma.

E se a senhora dos jornais olhasse para mim com a mesma pergunta com que eu olho para ela, talvez adivinhasse que não me anda a apetecer sexo, que não me apetece namorar nem com ele nem com ninguém mais, pelo menos de momento. Não sei que me passa, gosto de sexo, gosto de namorar, sempre gostei do sexo com companheiros de relações longas, mas agora, há essa parte de mim que se quer fechar. E esta grande falta de tusa que não me ajuda em nada à musa.

13 novembro 2008

Casa das cores

O MSV prepara-se para inaugurar a Casa das Cores, um centro de acolhimento temporário para crianças em perigo, vítimas de maus-tratos e/ou negligência, no Parque da Belavista.

O problema é a angariação dos meios necessários para a pôr a Casa das Cores em funcionamento o mais rapidamente possível porque:
- A previsão de custos é de 305.370,50 € / Ano;
- A Segurança Social só financia cerca de 50% destes custos;
- Estamos em crise e as empresas estão a cortar nos apoios sociais;
- O MSV já está a fazer um grande esforço para manter os outros projectos;
- Não há dinheiro pôr a Casa das Cores a funcionar.

Para tentar abrir portas já em Janeiro de 2009 foi lançada a campanha dos Amigos da Casa das Cores. Peço-vos que se tornem um Amigo e que se lancem na angariação de 2.000 Amigos.

O Amigo da Casa das Cores é todo aquele que contribui mensalmente para o funcionamento da casa e acompanha regularmente o seu trabalho. O donativo é feito através do sistema de débitos directos, com quantias que podem ser de 5€, 10€, 15€…Enfim aquilo que cada um puder e quiser dar.

Basta clicar em Ser Amigo e seguir os passos. Podem fazer tudo on line ou em qualquer ATM.

A informação do projecto está toda no site. Sejam amigos!

a derrota e a glória

"E penso - eu não sou a filha do meu pai. E repenso: também não sou a filha da minha mãe, muito menos da minha mãe, essa mulher inquebrável que nunca chora a não ser pelas suas árvores e pelos jardins votados ao abandono.
Eu sou qualquer outra coisa de intermédio, mas não sou mistura de nenhum dos dois. Sou a derrota e a glória. Sou bonita e sou feia. Sou amiga e venenosa. Sou mercenária e bondosa. Sou a mão que escreve e a mão que pinta. Sou a voz que canta e a voz que defende causas invencíveis."
Quando a descobri, dei por mim a ler tudo o que deixara escrito ali. Às vezes isto dos blogues é muito mais do que o nada disfarçado de qualquer coisa.

11 novembro 2008

Tony Robbins

Quero ser oradora motivacional. Dizer às pessoas que são lindas e maravilhosas, que a vida não é uma merda e que, sim, há pessoas que gostam delas como são, só assim e sem mais nada. Dar-lhes uma bofetada na cara aparvalhada pela dormência instalada dos dias que se desenrolam lentamente, uns atrás dos outros, na cara triste de expressão sombria tolhida pela falta de confianca e de auto-estima, na cara aflita, da expressão inundada por uma ansiedade cruel e mortal.
Abaná-las violentamente para exorcizar a modorra que lhes permeou a capacidade de decisão e lhes cerceou a vontade e lhes consumiu o desejo para querer, ser, fazer e acontecer, hoje, aqui e agora.
E torturá-las com recordações felizes, com lembranças bonitas e memórias deliciosas, que foram profundamente enterradas num subconsciente qualquer, para nunca mais voltarem a ser vistas ou sentidas.
E forçá-las a reagir. A sentir. A amar.
Será que funciona ao espelho?

Amor com todos

O meu amor por ti tem muitas coisas dentro. Tem o amor mentolado da adolescência e os passeios ao fim da tarde em ruas de que não sei o nome. Tem os vidros embaciados de um carro em frente ao mar. Tem horas de espera elásticas. Tem a ilha de sangue num lençol branco e o espanto pela descoberta de mim. Tem o primeiro desgosto que se repete em todos os que se seguiram. Tem as histórias de um passado que não sei se aconteceu. Tem os amores que vivi antes de ti. Tem os medos que transbordam líquidos até aqui e me molham os pés. Tem as mulheres que foram tuas e agora me povoam minúsculas num desconcerto de muitas vozes. Tem estradas e casas e cheiros, um ribeiro ali ao fundo, uma janela a dar para os telhados, uma noite de fogo de artifício, tem sono e fome e sede, uma capela perdida num monte, tem o silêncio e o som, tem árvores e plantas, a lua a nascer num céu ainda claro e a dor de ser eu com tanta coisa dentro.

Das Kapital

Acabei de receber um telefonema do meu banco. Queriam saber porque razão inusitada tenho mais uns trocos na conta. "É porque, como sabe, temos de investigar a proveniência tendo em vista a prevenção do branqueamento de capital". Não, não sei e incomoda-me profundamente que saltem janelas de pop up num qualquer pc alertando para o facto de que o meu saldo saiu - ainda que muito temporariamente, mas isso não interessa nada! - de uma pobreza envergonhada.
Não gosto de intromissões na minha vida. Não gosto de ser policiada. Não gosto de big brothers. Não gosto que um banco vá à falência e o sistema financeiro não tenha dado por nada, não tenha sabido de nada. Não gosto da impunidade. Não gosto que, tendo eu mais um zero miserável no lado direito do saldo, o mesmo sistema financeiro diga, cheio de verve,"ahhhhh, vamos ter de investigar, isto é muitoooooooo estranho! só pode ser lavagem de dinheiro!".
Vou passar ao dinheiro vivo e contado em mão e anotar tudo num qualquer caderno de mercearia. Vou passar tudo para o meu colchão. Vou entrar no submundo e poupar nas despesas de manutenção de conta.
Que imbecilidade!

10 novembro 2008

dia de festa



Sermos muitas dá nisto. Quase todos os meses alguma de nós faz anos e é mais um dia de festa. Já foi a mais nova das oito e coisa nove e tal. Hoje, perante o riso geral, fica um bocadinho mais perto das outras. Parabéns miúda.

Manual de instruções para parecer credível

Se deseja parecer credível siga atentamente estes passos. Atenção! Para que seja eficaz deve usá-los correctamente.
Primeiramente, semicerre os olhos e faça uma pausa de cerca de trinta segundos antes de começar a falar sobre qualquer tópico. É importante transmitir a ideia de que sabe bastante do que está a falar. De seguida, recorra ao suporte da imaginação. Deslize o suporte para cima até o ouvir encaixar. Dirija a imaginação para si mesmo e enumere dois ou três exemplos que justifiquem o seu raciocínio. Nunca use exemplos reais. Quanto mais inventar, melhores serão os seus resultados.
Certifique-se que a sua audiência não sabe absolutamente nada sobre o que diz enquanto cruza a perna e de soslaio olha para o tecto. Gesticule bastante e dê ênfase a todas as sílabas finais de cada palavra.
Para favorecer o arejamento deixe um espaço livre de cerca de cinco minutos. No final, será extremamente credível!

09 novembro 2008

Amor sem ti

Danço aqui para que me vejas. Não tenho medo das minhas pernas demasiado nuas, dos meus braços exagerados, do meu riso sozinho no meio da sala. Sou a mulher sem medo que dança para que a vejas, sou a mulher dos olhos pintados (eu pinto os olhos), das noites cheias de gente e sítios (eu tenho uma vida), da música que oiço e dos livros que leio (roth eno hélder mehldau). Sou a mulher de saltos altos que muda pneus cozinha escolhe vinhos faz broches tem opiniões viaja lê. Sou a mulher que te sorri do meio da sala. Danço aqui porque sou tua embora ainda não o saibas.

Jardinando

imagem aqui
Um domingo com um sol fantástico, uma noite bem dormida e um jardim para tratar. Resolvi dedicar o dia à jardinagem. Peguei, então, na roupa de trabalho (whatever that means), em luvas, sacho, ancinho, mangueira, terra, água, vasos e plantas e dei início à redecoração do meu quintal.

Tive surpresas e desilusões: os jarros começaram a proliferar pelo quintal, mas o arbusto de alfazema secou quase 2/3, pelo que tive que o cortar. Mas os lírios estão lindos e recomendam-se. Têm a cumplicidade de uma romãzeira que lhes serve de abrigo. As estrelícias estão sossegadinhas num dos cantos. Uma pata-de-leão (ou costela-de-adão) lá vai recuperando depois da chuva de granizo do mês passado, que lhe abriu buracos feios nas suas largas folhas. O hibisco de flor encarnada parece-me débil, mas umas quantas flores reavivam-me a esperança. O arbusto-quase-árvore de lúcia-lima encostada ao hibisco começa a perder as folhas. Para meu gande espanto, vejo a roseira entrelaçar-se por todo o lado, ramos a crescer na mais pura das anarquias. E a pereira do lado direito? Hummm... Vai precisar de um enxerto, não dá fruto há dois anos ou mais.

Entretanto, num canteiro grande plantei jarros, petúnias, hortênsias, agapantos. Semeei salsa e hortelã. Mudei a petúnia de lugar.

A meio dos 'trabalhos', apareceu a minha vizinha da frente, uma senhora amável e que passou o resto da tarde comigo. Ofereceu-me aloe vera que também plantei. Ensinou-me que as plantas não se podem ofender (cortar demasiado) e que a cameleira que tenho de frente para a rua dá uma flor gentil (não muito grande).

Entre a poesia e sabedoria das palavras desta senhora que fez a 4ª classe aos 27 anos, fartei-me de aprender e passei uma tarde com as mãos na terra, na água e ao sol: uma ligação directa aos elementos que são parte daquilo de que, também, faço parte.

A beautiful day!

Pensamento pré-menstrual

Devia haver uma autoridade celestial qualquer que impedisse algumas pessoas de procriarem. É pedir demais?

06 novembro 2008

Pertinente

[mail recebido hoje e pespegado aqui]

Dear Sir,
In view of current developments in the banking market, if one of my cheques is returned marked 'insufficient funds', does that refer to you or to me?

Yours faithfully

Joe, the plumber.

Precisa-se

olha apartir d domimgo exte e o meu numero novo
pexo vx n deiem a ninguém mt mxm ao joao
pk ele tem kaxe o num todox d vx bjx julieta
Recebi esta mensagem escrita de um número que não conheço.
Alguma alma caridosa pode traduzir este fascinante texto da novíssima prosa portuguesa?

05 novembro 2008

Made in USA

Acabei de ouvir os dois discursos: o da vitória e o da derrota.

Achando melhor o segundo, deitei uma lágrima em qualquer um dos dois. Pelo amor e orgulho a/de um país, pela dignidade, pela vontade de servir. Pelo moderno "Deus - Pátria - Família", infelizmente tão relativizados e denegridos neste lado do Atlântico

I hope they can!

Yes we can


04 novembro 2008

Muita terra. Minha terra.

Gostava de conseguir explicar às minhas queridas múltiplas, a do pouca terra e a dos requintados cálculos matemáticos, que a terra é, afinal, muita:

O mar, regedor do batimento cardíaco. O chão, quente de vulcão, com o temperamento excessivo que só às divas é permitido. O céu cinza chumbo ou azul profundo, nunca igual. O cheiro a verde, a azul, a amarelo, a rosa, a lilás, a castanho, ao arco íris.

Não é uma questão de escala, de contemplação bucólica ou de pitoresco. É que não há diferença entre terra, mar e céu. É tudo uma e a mesma coisa e nós somos parte dela. Uns sem os outros não existem. O mundo somos nós e a linha do horizonte, redonda, perfeita. Somos infinitos, livres da tirania dos limites! Cortar esta unidade, viver sem ela, é cortar a própria alma.

Obamming



(re)posta-se o de Fevereiro passado.
É hoje.

03 novembro 2008

Pouca terra

Não viveria aqui nem que me pagassem, penso trinta vezes por dia. Ao segundo dia de trabalho nos açores descubro que sou continental. Isto das ilhas é muito bonito, mas só aguento tanta beleza num toca e foge com dias contados. Preciso de terra para me sentir viva, gosto que o mar esteja só de um lado, a fazer o seu trabalho de estar ali. Aqui, para onde quer que olhe, falta terra e sobra mar.

01 novembro 2008

Juraci - A vidente contente

Crónicas de uma vidente em crise temporária.

Lisboa - Istambul, com escala num país qualquer de nome impronunciável. A reboque, duas malas carregadas de profecias não cumpridas que somavam dez anos de vida e o seu buldogue Kasparov. O mestre em Istambul tinha sido muito claro ao telefone. Ou arrotava a maçaroca para fazer o seminário de "novas técnicas de vidência online" ou arriscava-se a perder de vez o grau de grão-mestre das artes e magias da vidência. Os tempos eram outros. Mas o que lhe fazia afliçao nem era isso porque à custa de ter previsto a catástrofe do casamento da D.Firmina, o ataque repentino de gota do Sr.Humberto ou o desaparecimento sórdido do caniche da D. Graça que morava rés-vés com o bairro chinês, entre outros tantos casos, tinha conseguido amealhar três caixas das grandes de bolachas sortidas em moedas de dois euros. O que lhe fazia aflição era o seu próprio divórcio e a morte prematura do seu papagaio que não tinha conseguido profetizar a tempo e horas.
Nunca pondo em causa as suas capacidades, Juraci - a vidente contente - podia jurar que o mal estava na sua bola de cristal pessoal, um modelo que o famoso Professor Uganbanga tinha jurado durar uma vida e outras tantas mas que afinal, ao final de um ano já lhe desfocava metade da verdade e que ao fim de três, deixara de lhe mostrar o futuro para lhe começar a mostrar somente o presente. E o presente de Juraci - a vidente contente - era sempre a mesma coisa. Fazer sessões atrás de sessões. Era como estar a ver repetições do Dallas no canal Rtp Memória. Tornava-se chato. Por isso, Juraci - a vidente contente - pretendia fazer o seminário e aproveitar para trazer de lá, o último modelo em bolas de cristal. O modelo "ver sem limites 6.5" que lhe garantia não só o acesso ilimitado ao futuro como lhe permitia já o acesso a alguns universos paralelos, para aqueles clientes mais exigentes que gostassem de saber, por exemplo, como seria a sua vida casados com a Pamela Anderson do Baywatch e coisas assim, e também a actualização automática dos upgrades. Era um sonho.

Não perca o próximo episódio das crónicas de Juraci - a vidente contente - em crise temporária e a sua chegada a Istambual para reencontrar o seu velho amigo, Professor Uganbanga, famoso e virtuoso vidente-mor e traficante de bolas de cristal.

30 outubro 2008

Silêncio

Naquele dia eles não esperavam o blá-blá-blá acerca das leis da vida e do conceito de ser vivo.
Naquele dia, os mesmos alunos que me tinham apoiado em provas físicas nas quais lhes revelei as minhas fraquezas, esperavam que eu não lhes ocultasse a verdade que tinha ganho ecos aterrorizadores para a dezena de primaveras que contam. Lia-o nos seus olhos, o pedido para que não os defraudasse.
Assim fiz. Entrei com eles na aula e comuniquei-lhes com as devidas cautelas mas com a exigida verdade que havíamos perdido um colega, um amigo, um aluno numa qualquer auto-estrada.
E depois ficámos num silêncio grande. E dele havemos de nos lembrar para o resto das nossas vidas.

Em perfeita segurança

- Boa noite. Tenho o prazer de estar a falar com a D. Oitoecoisa?

Normalmente impelida a responder que não me encontro em casa, não o fiz destas duas vezes.

- Sim...
- D. Oitoecoisa, o Círculo de Leitores tem o prazer de oferecer um novo produto aos seus sócios. Vou passar a chamada ao colega que lho vai apresentar. Para sua segurança, a conversa vai ser gravada. Posso?

Isto dito "à toute vitesse". E a história da minha segurança deixa-me sempre desconfiada. Foi então que a esperança que me propusessem mais uma enciclopédia do José Mattoso em 68 volumes se dissipou.

- Não, não pode. Não sem antes me dizer que tipo de produto é o que me quer propor.
- É da área de seguros.

Como? Terei ouvido bem? Curioso! Há mais de um ano que não faço uma única encomenda no Círculo de Leitores mas isso não parece incomodá-los.

Dois dias depois, foi a vez da Fotosport das Amoreiras, onde (curiosamente) não revelo uma única fotografia há anos.
Também eles tinham um seguro de saúde (saúde-fotografias-seguro-películas, tudo em perfeita dialéctica) para me propor em parceria com a AIG. (Ei! E não é que o nome até parece o daquela companhia de seguros que esteve à beira da falência? Ah!, mas essa é a americana porque a portuga está de boa saúde e a Fotosport recomenda-a)

Por este andar, um destes dias entro no meu restaurantezeco de bairro e o meu caríssimo sr. Lázaro vai oferecer-me um segurozito para o caso daqueles ossitos do frango se me entalarem no garganete. E é melhor subscrevê-lo antes de degustar a avesita...

Será que isto é o mercado à rasca ou é mesmo zelo pela saúde do patego?

29 outubro 2008

27 outubro 2008

dois em dois ou mais

um a um

do atlântico

plimplom senhores passageiros com destino à graciosa, vamos começar o embarque e pedimos mais uma vez desculpa pelo atraso
trrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr olha a hélice está a funcionar, menos mal
zzzzzzzzzzzzztrrrrrrrrrrrrrrrr que barulho é este, será que vai cair?
tchrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr clap clap clap senhores passageiros, bem vindos à graciosa
tchtzzzpch boa noite, tenho uma reserva em nome de oitoecoisa
clic tchhh ufffff finalmente no quarto
muuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu olha tenho uma vaca debaixo da janela

Escala

Parada no meio do atlântico, em trânsito entre ilhas açorianas. Na última hora e meia, uma voz metálica vem explicar que por motivos de ordem técnica o voo para a graciosa está atrasado. A voz regressou agora e avisou que daqui a quarenta e cinco minutos teremos mais informações. O cotonete com asas em que viajo está parado na pista, com a hélice esventrada e dois senhores de colete amarelo à sua volta. Não sei se hei-de ficar aterrorizada ou resignada à minha sorte. Pelo sim pelo não, vou ali fumar um cigarro e fazer contas à vida.

26 outubro 2008

Minossauro

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Auto Retrato

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Simple twist of fate

Andava eu a deambular por essa blogoesfera fora quando, de repente, reparei que ela voltou. Voltou há mais de um mês com tudo o que a caracteriza e que faz com seja o meu blogue de eleição.

Admirada, reparei que tinha postado uma imagem que acabei de conhecer hoje - há menos de 24 horas - e que não me cansei de elogiar. Vou-lha roubar e o resto logo se vê.


esta imagem e outras aqui


23 outubro 2008

Todos os dias ao jantar

Segura o garfo mais atrás, a comida sobe à boca não é a boca que desce ao prato, endireita-te, baixa os cotovelos, segura o garfo mais atrás, não se fala de boca cheia, fecha os talheres quando acabas de comer, ele olha para mim e suspira de enfado, sem dar por nada passaram nãoseiquantosanos e sou agora a minha mãe, segura o garfo mais atrás, quantas vezes tenho de dizer isto?, entre conversas e risos sou a chata de serviço que repete uma e outra vez as frases que me perseguiram há nãoseiquantos e me obrigaram a fechar a boca a endireitar-me a subir o garfo à boca e a ser a pessoa crescida que ainda não tenho a certeza de ser.

22 outubro 2008

Onde assino?


É uma das frases de Chandler mais citadas:
"Chess is as elaborate a waste of human intelligence as you can find outside an advertising agency."

Por experiência pessoal, de jogador de xadrez e animal de agência, posso confirmar a exactidão do apontamento. Todavia, tivéssemos o Raymond connosco e já teria adaptado a boquinha à blogosfera. Porque aqui o desperdício de inteligência é ainda mais torrencial, incomensurável e necessariamente catastrófico. Mas o caos é apenas um estado de organização; e particularmente fértil, como se deixou escrito faz tempo. Talvez desta reunião de intelectos e vontades nasça finalmente um movimento cuja ausência está a deixar os sociólogos impacientes: um partido político com inspiradores, dirigentes e base de apoio provenientes inicialmente das redes sociais da Internet.

Daí, estas ideias quentes e boas para a renovação da classe política:

Partido sem ideologia – Estado de permanente abertura à inteligência, sem qualquer pressuposto teórico, histórico ou axiológico. As propostas dos partidos concorrentes seriam copiadas à má-fila, no todo ou na parte, à esquerda e à direita, caso tivessem os mínimos, idealmente os máximos, de proveito.

Partido com maioria de mulheres – Adequação metodológica, nos instrumentos de decisão, à psicologia feminina; esta muito mais colaborativa, horizontal. Sendo o primeiro partido preparado para o feminino, teria crescimento fulminante nesse grupo demográfico. As mulheres são mais capazes do que os homens quando se trata de gerir, proteger, reforçar.

Partido da ontologia extremista – Culto do tempo vivido e por viver, da profundidade e da amplitude, da sabedoria e da brincadeira. O programa político teria como única meta levar os nossos velhos a passar tempo com as nossas crianças. Fosse nas famílias, escolas ou ruas. Todos os dias celebrando juntos o espanto de ser.

Partido que estaria sempre na oposição à estupidez – Fazer oposição ao Governo só porque não se faz parte do Governo é uma das mais espectaculares exibições de estupidez. Quem não está no Governo deveria honrar o seu compromisso patriótico ajudando quem governa, sugerindo melhores alternativas, aplaudindo a boa obra. Este partido, mesmo que fosse Governo, ou especialmente se o fosse, continuaria a ser o maior partido desta oposição por inventar.

Partido com castigos atrozes para os cínicos – Os cínicos são a pior espécie de imbecis, devendo ser perseguidos, sovados e sumariamente expulsos desta organização. À porta dos locais onde se reunissem elementos do partido, haveria aparelhos detectores de cinismo, os quais fariam muito barulho e acenderiam luzes no caso de apanharem algum rasto de cinismo escondido nos neurónios dos participantes.

Partido cuja liderança fosse alcançada através de provas de pentatlo cívico – Os candidatos seriam aconselhados a irem para o congresso com fato de treino e sapatilhas confortáveis. Provariam o seu valor em cinco provas:
- Discurso de improviso.
- Danças de salão.
- Venda de atoalhados aos congressistas.
- Explicação da Teoria da Relatividade e definição do Bóson de Higgs.
- Confecção de sopa de legumes.
A escolha seria por aclamação. Eventuais casos de empate seriam resolvidos por sucessivas provas de confecção de sopa de legumes, sempre diferentes. Em caso de urgência, moeda ao ar.
Sim, podes inscrever-te já."
O que seria de nós se um partido com estes traços de cor pudesse existir?

21 outubro 2008

Uma volta no parque

Uma hora na blogosfera e descubro que afinal não sou diferente das pessoas que páram na estrada para ver melhor o acidente que acabou de acontecer. Aterro num blogue e descubro que está em guerra. O drama divide-se entre postas e caixas de comentários. Alguém que não concorda com outro alguém e, de repente, o caos: dezenas de comentários inflamados, quase insultos, declarações de independência. Afinal não é um blogue, são dois. O que eu gosto de um bom dramalhão.

Comigo irmãos



(Do espectáculo Se piorar estraga, interpretado por Cris Nicolotti)

Ou a receita para retomar as rédeas da vida na minha mão. Afinal é simples.

18 outubro 2008

A preguiça dos dias de chuva

Acordei com o granizo a bater na minha janela e o cão do vizinho, o Nero, num ataque furioso à sua galinha de plástico, a Jurema. Já não me lembrava de dias intempestivos como este. Nestes dias, apodera-se de mim uma grande preguiça, uma ausência de vontade em fazer o que quer que seja que implique movimento ou esforço mental. Por isso deixei-me ficar deitada. De costas no colchão, pernas esticadas, o braço direito a apoiar a cabeça na almofada e a mão esquerda na barriga. Como quando era criança e me deixava preguiçar a contar os segundos até o meu pai vir ao meu quarto pela milésima vez, com a mesma ternura de sempre dizer “acorda princesa!”.
Às vezes tenho saudades de ser pequena.

17 outubro 2008

Amarelo

o sorriso com que fiquei quando a minha chefe me anunciou o aumento previsto para o meu ordenado.

Branco

Noto que o meu bolso está curto quando olho para o carrinho do supermercado e só vejo marcas brancas.

A minha Alexandria

Nunca fui muito exigente. Bastava-me a selecção das minhas irmãs para me dar por satisfeita. Elas, furiosas da vida, eu contente porque poupava a mesada para nova compra de livros.

As sucessivas mudanças de casa fizeram com que me desfizesse sempre do que considerava mais acessório: a roupa e respectiva purga. Era tão bonita de se ver, eu até tinha um certo gozo malvado nisso. Ia tudo: sapatos, calças, saias, camisas, t-shirts, os tailleurs empandeirados por uma das minhas executivas manas ... As malas, os cintos, tudo. A cada mudança ficava num estado minimal de roupa. Leve e feliz.

Houve um dia, no entanto, em que o destino me traíu: aquilo que eu mais amava acabou por ficar numa casa onde morei por muitos poucos, tão poucos, meses. Sem hipótese de resgatar o que lá ficou.

Metade de mim continua nesse sítio sem nome. A minha alma habita o que ali ficou e, desde então, nunca mais encontrei o que demorei uma vida de 38 anos a construir:

Os meus livros (há quem lhe chame biblioteca).

E isto vale bem mais do que mil roupeiros de roupa de 3,5x2.

14 outubro 2008

Eles também podem



video premiado da campanha "ellos también pueden" para incentivar os homens a assumir as tarefas domésticas.

13 outubro 2008

doclisboa 2008

So many movies, so little time...
A programação está aqui (e esta imagem também).

12 outubro 2008

há 516 anos


imagem aqui
e até hoje continuamos a falar dos descobrimentos...

11 outubro 2008

Fim

E agora era um homem, ainda procurando o amor que nunca encontrei nas namoradas com quem vivi, nas amigas a quem me dei, nas mulheres com quem dormi, e aparecias tu, abandonada pela vida, pelo desejo, pela esperança, e falavas-me da tua dor que nunca mais acabava, das feridas que não mais saravam, da vontade que tinhas em estar, em ser, em acontecer tudo aqui, agora, e depois sorririas, e eu sorriria também, sabendo que serias tu a última pessoa que veria quando as minhas mãos deixassem de tocar, o meu coração deixasse de bater e a minha alma deixasse de sentir.

Hoje encontrei-o nestas palavras

If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you,
If you can trust yourself when all men doubt you
But make allowance for their doubting too,
If you can wait and not be tired by waiting,
Or being lied about, don't deal in lies,
Or being hated, don't give way to hating,
And yet don't look too good, nor talk too wise:

If you can dream--and not make dreams your master,
If you can think--and not make thoughts your aim;
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two impostors just the same;
If you can bear to hear the truth you've spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build 'em up with worn-out tools:

If you can make one heap of all your winnings
And risk it all on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breath a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: "Hold on!"

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings--nor lose the common touch,
If neither foes nor loving friends can hurt you;
If all men count with you, but none too much,
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds' worth of distance run,
Yours is the Earth and everything that's in it,
And--which is more--you'll be a Man, my son.

If, Rudyard Kipling.

(ouvir aqui)

Magnífica

Esta flor que apareceu assim, hoje, no meu jardim.
Vão-se as tempestades, vêm as flores.
Assim o esperamos.

09 outubro 2008

Exordio

Cuenta mi padre que foi em 1640 que Portugal e Espanha passaram a ser dois países diferentes, e deixa transparecer um certo orgulho quando conta como os portugueses puseram os espanhóis daqui para fora ainda que logo depois acrescente, e foi o pior que nós fizemos, se fossemos parte de Espanha as coisas seriam muito diferentes, e descreva a lista das benesses jurídicas, geográficas, relacionais, cívicas e etcs de que dispõem nuestros hermanos y hermanas, obviamente contrastadas com as nossas. Eu, pela minha parte, nunca dediquei muito tempo a pensar se seria melhor ou pior que agora voltássemos a ser um só território. Não sinto Espanha como um país rival, considero que é um país interessante para viver, não me desagrada a ideia, e até acho que podia ser bom sermos um só país que pudesse fazer mais força nas decisões da união europeia, mas não dedico mais que uma breve conversa ao assunto.
Ainda que a palavra nem sempre tenha uma conotação muito positiva, acho que sou nacionalista no sentido em que identifico esse território a que chamamos Portugal como sendo o meu país, com uma série de características específicas, com pessoas que partilham espaços, língua, segundos sentidos, expressões, historia, músicas, enfim tudo aquilo que se partilha num país.
Tenho uma particular sensibilidade e carinho pelo meu país de nascimento e de 30 anos de vida, e este carinho parece acentuar-se quando vivo fora de Portugal, por exemplo, só passei a adorar Madredeus 3 anos depois de viver fora do país.
Mas precisamente por um país ser tudo isto, o meu nacionalismo tem mais quartos que uma casa de putas, pois fui e vou aprendendo a querer e a pertencer a outros países que escolhi para viver.
Actualmente vivo no país daqueles que, contrariados ou aliviados, fizeram o seu próprio país depois de 1640, e estou a aprender e a gostar de conhece-los, ainda que este seja um processo lento e com surpresas.
Assim, este exórdio (o dicionário tem umas palavras fantásticas!) ao assunto do post abaixo, é para que este não seja interpretado como uma simples ou leviana manifestação de nacionalismo da minha parte.

Carta a una organización

Hola,
Conoci vuestra reciente publicación “Guía escolar, el sistema educativo en España”, por la cual les doy mis sinceras felicitaciones, es buen instrumento para apoyar a quienes recien llegan a este país y necesitan conocer el sistema educativo para mejor integrarse en el. Sin embargo, en la página 17 de esta publicación, me encontré con una imagen que me impactó bastante: un mapa de España, haciendo alusión a las lenguas co-oficiales que se hablan en este país y donde aparece representado Portugal, y la lengua portuguesa como si fuera uno de los idiomas de España, pero sin ser una lengua co-oficial. Como no aparece Francia representada, descarté la hipótesis que Portugal apareciera representado por ser un país fronterizo. Resolvi entonces mostrar esta ilustración a varias colegas o amigos/as, naturales de España y de Cataluña, que también se indignaran pero me avisaron, aqui es muy normal aparecer España representada con Portugal al lado.

Como sé que la edición de una publicación pasa por varias manos y por muchos ojos, y como nadie se dió cuentra, me pregunto, ¿a qué se debe el lapso representado en el mapa de esta Guía y en los otros que habitualmente circulan delimitando España? Y ¿por qué parece natural a las personas que dos países, que desde 1640 se construyeron separadamente, sean representados como un solo sin que eso genere una pregunta o incomodidad?

En la imagén del mapa que seleccionaron, la representación que pretende ser geográfica termina siendo mental y simbólica: España es igual a la misma Península Ibérica, pues Portugal no está gráficamente reconocido como un país. Y además, se habla portugués pero ese idioma no está siquiera reconocido como un idioma oficial.

Ya me encontré varias veces con personas de muchas partes del mundo que pensaban que Portugal era parte de España, pero no puedo dejar de sentirme sorpresa al encontrarme con esta creencia (este “lapsus mapis”) arraigada en los imaginarios españoles.

Conociendo el muy importante trabajo que hace vuestra organización para defender la diversidad social y cultural, con igualdad de condiciones y de derechos para todos y todas, y sabiendo que el proceso de transformación de imaginarios sociales es lento y que nadie le está inmune, les pido que cambien ese mapa tan pronto cuanto posible y que se encuentran otros mapas similares, delimiten bien las fronteras entre los dos países. Ampliemos y fortalezcamos cada vez más nuestras relaciones afectivas, económicas, sociales y culturales, pero respetemos nuestras fronteras geográficas.

Un cordial saludo,

Oito e Coisa