25 novembro 2009

Abstinência

Primeiro forams os namorados e os amores. Abstinência, disse ela. Os dias encheram-se de minutos só seus, minutos e horas em que não precisava de negociar e saber e decidir como quando e porquê haveria de estar com a outra pessoa. Deitou-se ao comprido nesses minutos e horas e dias, esticou braços e pernas para sentir todas as migalhas do novo tempo, por baixo do pé esquerdo as manhãs de sábado enrolada na cama sozinha, o polegar direito encostado na noite de domingo à beira de uma semana  por estrear, o mindinho esquerdo por cima de um pedaço cheio de horas sem telefonemas nem relatórios do dia. Gostou tanto da abstinência que decidiu deixar de beber café. Passadas as dores de cabeça iniciais, mergulhou numa alienação encortiçada, separada do mundo por uma gaze fina que coava sons palavras e cheiros. Esta forma gasosa de viver tornou-se o seu vício. Talvez a seguir decida deixar de respirar.

3 comentários:

Leo Mandoki, Jr. disse...

o problema é o tempo da abstinencia...abster-se de respirar durante 45 seg é uma especie de mergulho numa piscina olimpica. Abster-se 45 dias de amor é uma especie de ferias longas numa ilha da polinesia.

dizia ela baixinho disse...

errado: a seguir a deixar de beber café deixa-se de fumar. um não vai sem o outro. e respira-se melhor.

sete e picos disse...

nao te abstenhas é de deixar de escrever coisas tao b onitas como esta.