07 junho 2008

Abraço

Entro no taxi, digo para onde quero ir e o caminho que me parece melhor, estranho o silêncio do motorista que nem me saúda à entrada. Olho para a sua nuca, o cabelo claro, os olhos pequenos e transparentes, percebo que é algures de leste e que não se quer denunciar. Pergunto-me como um estrangeiro se orientará no nosso trânsito e nas nossas ruas. Pergunto-lhe há quanto tempo está nesta profissão - aprendi há muitos anos, com grandes especialistas na matéria, que é a pergunta mais fecunda.
Ah, só há um mês. Trabalhava na Abraço, sabe o que é? Uma associação de ajuda aos doentes com sida. Mas o governo cortou o dinheiro para a instituição, estava há quatro meses sem receber, tinha de fazer pela vida. Estou aqui há um mês mas é temporário. 4 meses, 4 meses sem receber é muito tempo, não podia continuar. A Sol também está com problemas, o governo deve achar que não há mais gente com sida em Portugal. Trabalhei lá durante cinco anos, gostava muito. Mas não podia estar sem receber dinheiro. Porque é que pergunta, porque é que quer saber?
Porque deve ser dificil orientar-se numa cidade que não é a sua, o trânsito e os nomes das ruas. É aqui à direita, sim aqui, pode-me deixar ali à frente. Obrigado.
Orientar-me não é dificil, conheço bem Lisboa. Só é complicado porque há muitas ruas, vielas, praças, pracetas e becos, é a única coisa que é complicada.
Claro. Boa noite, obrigada, bom trabalho.

1 comentário:

coleccionadora de cromos profissional disse...

Parabéns, oito. É sempre comovente ver a metodologia que criámos ser usada com rigor e inteligência.