05 junho 2008

Uma vida só é pouco

Uma vida só não chega, o tempo é pequeno para tudo o que somos e tudo o que queremos fazer. Ao fim de uns tempos a ouvir histórias contadas por uma múltipla, decidi-me a arriscar perder uns minutos desta vida terrena que tenho e entrar no second life.
Criei um avatar, uma boneca prefabricada, e aterrei numa ilha para iniciados. Tudo era um mistério. Mas lentamente descobri como pôr a boneca a andar, a tocar em objectos, a voar. À minha (dela?) volta, dezenas de avatares tão perdidos quanto eu deslocavam-se mecanicamente e aprendiam uns com os outros os primeiros passos deste admirável mundo novo. Soube mais tarde que tudo poderia ser mudado: a aparência da boneca, o cabelo, os olhos, a pele, a forma do corpo, a roupa, os movimentos e as poses. De ridículos bonecos mecânicos a maravilhosas quase cópias de pessoas, é esse o caminho de todos os avatares nesta segunda vida.
Ao fim de quase 3 meses desta nova vida, passei várias horas a voar, a teletransportar-me, a andar de cavalo helicóptero balão mota carro nave espacial, morri mais de mil vezes e fui salva pela impossibilidade da morte no second life, dancei, conheci pessoas interessantes que nunca conheceria na primeira vida, frequentei aulas de construção, aprendi o meu equilíbrio entre a personagem e a pessoa sou para além dela, desci até aos esgotos e fui atacada por zombies, vi uma exposição do júlio pomar e sentei-me em cima de um triceratops, ganhei dinheiro como tradutora, percebi que a segunda vida permite compreeender melhor a maneira como vivo a primeira, bisbilhotei centenas de perfis dos avatares à minha volta, conversei e desconversei, brinquei às barbies, ri até me doer a barriga.
Primeiro estranha-se, depois entranha-se.

5 comentários:

-pirata-vermelho- disse...

Estródinário!
Antigamente era com drogas ou com religiões... apelava mais à imaginação,exigia mais elaboração abstracta e mais crendice; era menos 'second'.

David disse...

Das várias coisas que li acerca do Second Life, habitualmente num tom evangelista proto-progressita, esta é a primeira que gostei :-)

nove e tal disse...

hehehehehehe :)

gostei muito desta posta.

as minhas múltiplas foram mais bem sucedidas do que
eu nas suas segundas vidas.

tb eu descarreguei o programa e criei um avatar. fui parar a uma ilha de onde nunca saí. isto pq o meu computador deve estar tão cheio q bloqueava cada vez q entrava no SL. acabei por desistir e apagar a hipótese para a minha segunda vida.

mas...

lembro-me de uma conversa surreal com um uruguaio na ilha de instrução, os dois à nora e ele que não parava de dar pulos (devia ter acabado de descobrir a função)!

abandonei meu avatar que - coitadinho! - deve ser um sem-abrigo neste preciso momento.

um destes dias vou resgatá-lo e brincar às segundas vidas e bonecas com as minhas amigas múltiplas.

8 e coisa 9 e tal disse...

anda daí nove! lá te esperamos.

manyfaces disse...

"The brain is nothing more, and nothing less, than a very powerful and very odd computer. Evolution has honed it over millions of years to do a fantastic job at certain things, such as pattern recognition and fine control of muscles. The brain is deterministic, meaning that its reactions and responses, including the sensations and behavior of its “owner,” are determined completely by how it is stimulated and by its own internal biophysics and biochemistry. Given those facts, most mathematical philosophers conclude that all the brain’s functions, including consciousness, can be re-­created in a machine. It’s a matter of time.

Ah, but let’s face it—time is what really matters. If you’re obsessed with your own mortality, the idea of a computer blinking into consciousness 400 years from now isn’t going to rock your world. You want the magic moment to come, say, 25 years from now at most. Unfortunately, that timetable grossly over­estimates the speed of technical progress.

Still, if you encounter my uploaded consciousness in a virtual paradise 50 years from now, feel free to tell me, “I told you so.”

I won’t mind a bit."


Full paper here:
http://spectrum.ieee.org/jun08/6311

An a lot more here:
http://spectrum.ieee.org/singularity