26 abril 2008

Sem título

Há mais ou menos 17 anos, dei uma aula sobre o 25 de Abril, atrevendo-me a aflorar o que havia sido o regime deposto. Mereci, então, a primeira e única queixa por parte de uma família que não conseguia entender o porquê de perder o meu tempo com tais explicações. Contei, na altura, com total apoio da direcção da escola, que não entendia que factos históricos tivessem de ser escamoteados ou ocultados.
Hoje, continuo a falar de Abril como o fiz outrora, talvez ainda mais segura que não posso deixar de o fazer, para bem de alguns alunos que ainda se vão interessando pelo que temos a dizer-lhes.
É que as crianças desconhecem a História do país porque a matriz socio-cultural é frágil, porque as famílias pouco falam, porque muitas têm vergonha de ensinar o que fomos e por que os ventos mudaram, porque algumas desconhecem já o passado ou porque falar sobre ele é um acto vermelhusco e hoje é o tom mais rosa que está na moda.
O progresso chegou para nós, democracia recém-nascida, depressa de mais e, na ânsia de não perdermos o combóio, temos vindo a perder peças demasiado importantes, sem as quais a tecnologia não nos serve para nada. Quando, para a maioria das famílias com rendimentos médios, o orçamento se esgota em alimentação e empréstimos, bem se vê que pouco resta para a cultura que, ainda por cima, está cara. Já no tempo da outra senhora essa era uma arma poderosa: um povo inculto é uma grande segurança para manter a ordem. Com a agravante de, nos dias que correm, serem vários os apelos enebriantes, que nos fazem esquecer depressa determinados ideais.
A sociedade tem de ser o garante de que as gerações interiorizam os valores civilizacionais que lhes abriram as portas da liberdade e que elas os asseguram. Não com aulas fastidiosas pensadas por ministérios caducos e comissões bolorentas como me está a cheirar que vai resultar a reflexão hoje falada. Mas com a verdadeira consolidação de uma sociedade culta e curiosa.
Hoje sorri várias vezes ao avistar por entre a multidão que desfilava na Avenida, alunos que pelas minhas mãos têm passado. Eles estavam e as famílias também. E eram justamente aqueles que eu sentia saberem já algo mais do que aquilo que eu tinha para ensinar.

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