12 setembro 2007

Zimbro, o lobo


15:30. O odor intenso dos pinheiros invade-me as narinas e sabe-me bem. No meio da área florestal montanhosa, no interior da Malveira estendem-se cercados em rede de aço até perder de vista e em todas as direcções.

No interior destes cercados, os terrenos que prefazem quase 20 hectares acolhem Lobos de toda a península Ibérica, animais resgatados , por denúncia das autoridades e amiúde por um ou outro civil com alma. Foram lobos que mataram vezes sem conta as ovelhas dos pastores, uma vez que desapareceram as espécies que lhes serviam naturalmente de alimento, como o javali ou o veado. Foram lobos que, por terem fome, foram mortos pelos pastores que não são indemnizados a tempo e horas pelo Estado pelas baixas sofridas nos rebanhos.

Mas o lobo caça com respeito, mata com respeito, da mesma forma que a história nos conta, matavam os índios e os esquimós, com respeito e deferência para com a peça caçada.

O homem que se diz “civilizado” não. O pastor analfabeto e mal formado não. Mata com a revolta e a raiva no corpo, com a maldade e a estupidez natural a descoberto, a prepotência e o excesso de ego a atrofiarem os seus sentidos, a obrigatoriedade de se ser humilde e de sentir em pé de igualdade com todos os outros seres vivos.

Minho é um dos lobitos trazido ainda pequeno para este centro de recuperação do lobo ibérico, único em toda a península. A mãe deste animal morta numa armadilha e o seu filho roubado para ficar preso a uma casota de cão a ser apedrejado diariamente por adultos e crianças que por ali passavam até que a situação ser denunciada e os voluntários do centro o poderem ir buscar. Hoje em dia, Minho, já recuperado das mazelas, é um lobo que não pode nunca vir a ser socializado. Não quer nada com humanos e no dia em que for libertado no cercado que lhe está destinado com cerca de 11 hectares, vai desaparecer para não mais ser visto.

É o que acontece neste centro. Quem está à espera de o visitar esperando ver ali os lobos à sua espera, como se num jardim zoológico estivesse, sai desiludido com a visita. O respeito pela privacidade e pela tranquilidade dos rituais de vida deste animal é seguido à risca por estas pessoas que dão o seu coração para a recuperação destes magníficos animais, o que faz com que seja muito díficil e uma questão de sorte conseguir avistá-los no meio da folhagem.

Para além do Minho, outro caso grave neste centro foi a denúncia de um lobo que foi resgatado pelos voluntários duma situação de extrema malícia e ignorância. Este animal, depois de apanhado pelos pastores numa das armadilhas, perdendo uma das patas, foi entretanto amarrado por uma corda a um carro e puxado a alta velocidade pela terra fora para gáudio dos habitantes da aldeia. Ainda com vida e neste momento em recuperação na unidade hospitalar do centro, é mais um caso de um animal que nunca mais poderá ser socializado. A maior parte dos lobos aqui presentes nestas soberbas instalações , são animais que por uma razão ou outra são já incapazes de sobreviverem sozinhos no no seu habitat natural.
Numa sociedade de hierarquia vincada, o lobo pode ou não desafiar o macho alfa de determinada alcateia. Se o fizer e vencer, passa obviamente a ocupar o seu lugar sendo que o seu antecessor abandonará a alcateia. Se escolher não o fazer, então será ele que a abandonará. Foi o caso de Zimbro, o único lobo que consegui ver de perto num dos cercados e fotografei. Os lobos não conseguem sobreviver sozinhos e são normalmente estes exemplares que atacam as quintas e os rebanhos sendo que mesmo esta alternativa de conseguir alimento mais facilmente se está a tornar cada vez mais infrutífera graças à concorrência das matilhas de cães, tornados selvagens por abandono dos seus donos e que cada vez mais ocupam também eles o espaço natural do lobo.

A majestosidade, a imponência, a dignidade no olhar de Zimbro fazem-me quebrar e cair do cimo do meu pedestal humano e prometer não o esquecer.

7 comentários:

Ruiva disse...

Triste. Comovente.


Os reis podem cair do trono, mas jamais deixaram de ser reis...

foi dançar a bossa nova disse...

Sim, triste, muito triste.

no baile da d. ester disse...

fico apertadinha por dentro a ler isto. e não é só por gostar muito de lobos.

sete e picos disse...

bonita história esta, oxalá se consigam salvar muito mais lobos. É possivel visitar esse parque da Malveira? gostava de ir...

PS: seria possível editar o homem civilizado e substituir por o ser humano que se diz civilizado ou então pelo menos por homem com maiscula? desculpa lá oito e coisa, mas é o raio da urticária que começa logo a dar de si...

dizia ela baixinho disse...

uma história sentida e bonita, acompanhada por uma foto extraordinária.

sete, é possível visitar esse parque e inclusive 'adoptar' um lobo. vale a pena.

Vespinha disse...

Já lá tive uma loba adoptada, a Aurora, de que ainda guardo fotografias... Entretanto a Aurora morreu, mas há lá muitos outros. Nunca vi a maior parte deles, mas num passeio pelo centro de recuperação sente-se no ar a sua presença e sabemos sempre que estamos a ser observados. E não há nada como um fim de tarde a ouvir os lobos a uivar!

A Vida é Belga disse...

Ofereci à minha mãe o apadrinhamento de um lobo ibérico e sábado passado fomos visitá-los ao centro de recuperação do lobo ibérico. Conhecemos alguns deles, mas nenhum nos tocou como o Zimbro. Na imponência dos seus 40 kgs, ele desarma qualquer um com o seu olhar meigo e claro, guloso! Não foi de espantar que ele tenha sido o escolhido para afilhado e ocupa agora um lugar especial na nossa família. Visitem-nos também vocês. E mesmo que não os vejam todos, eles contam convosco...