13 fevereiro 2008

Em movimento (social) - 3

O nosso espaço e o dos outros

Portugal tem uma taxa muito baixa de associativismo, de pessoas que se juntam com um fim comum. Sem pretender chegar a nenhuma conclusão ou explicação para o facto, junto apenas algumas ideias que relaciono com este facto:
Parece existir uma desconfiança à associação em colectivos, medo dos grupos, de vestir camisolas. E também uma ideia de que isso só traz desilusão, pois quando se acredita com muita convicção num grupo ou numa causa depois encontram-se sempre coisas com as quais não estamos de acordo, pessoas oportunistas que nos fazem a folha, e que para isso não vale a pena pois quanto maior é o alto maior é o salto.
Preferimos assim ficar do lado de fora das ondas. Não sei se terá alguma influência o facto de sermos filhos do pós 25 de abril, apesar de noutros países acontecer a mesma coisa e não terem tido ditaduras, mas por vezes penso que o facto de termos a experiência de uma decepção do pós revolução transmitida pelas gerações anteriores, pode ter contribuído para que hoje tenhamos tanta resistência em organizarmo-nos, a actuar e a acreditar que colectivamente, é possível ajudar a melhorar algumas das injustiças que coexistem connosco.
Além disso, por vezes parece que há uma tendência para ver ao mesmo tempo todas as injustiças que nos rodeiam e assim o mundo torna-se gigantesco e pesado. Quando dizemos, ninguém vai mudar nada porque ninguém está interessado nisso, sentimos em cima de cada músculo e cada vértebra, as toneladas do mundo que nos comprimem.
Sentimos solidariedade com muitas causas, e muitas nos parecem totalmente válidas, mas estão tão distantes das nossas vidas, do aqui e agora tal como nos habituámos a vivê-lo, que não nos move a força anímica em seu favor. Por vezes, parece que existe a ideia que se somos interventivos em relação a uma causa, também o teremos de ser, por uma questão de coerência, em relação a todas as outras com a mesma intensidade, que devemos lutar continuamente pelos nossos direitos e pelos dos demais, sejam estes quantos e como forem, e como sabemos que não aguentamos nem o corpo nem a motivação social, preferimos não nos metermos em nada.
O sistema económico, social e político em que vivemos e nos conduzimos como seres produtivos em constante falta de dinheiro, de tempo e de ânimo para a vida e para os outros, também não nos deixa muitas alternativas para poder praticar o associativismo. Temos pouco tempo para as nossas vidas, quanto mais para outras causas, o mundo está-nos grande. E se alguma vez vencemos todas estas resistências e arriscamos, o tempo da nossa vida consome-nos e há sempre um relatório que tem que ser entregue, uma época de (ainda) maior trabalho ou a doença de um filho, que, poc a poc, nos vai quebrando os laços que começámos a construir. Recolhemo-nos nas repúblicas independentes das nossas casas e das nossas vidas laborais, pessoais, amorosas, familiares, de uma ou outra amizade próxima, e a possibilidade de organização com os outros humanos conhecidos ou desconhecidos, longínquos ou próximos, não tem espaço nem tempo para ter lugar. Quanto muito, e não deixa de ser importante, uma vez por ano contribuímos com uma percentagem dos nossos impostos para o trabalho de alguma organização, e ficamos contentes por poder aproveitar os benefícios fiscais e por escolher como queremos que sejam investidos os nossos impostos.
Mas talvez a limitação maior para o associativismo seja o trabalho que nos custa aprender a acreditar que podemos, e que conseguimos se a isso nos propusermos, deixar o nosso grão de areia em alguma coisa, ainda que seja pequena em alcance, em número de pessoas envolvidas, mas que seja importante para nós e para quem também aí está, para o nosso planeta, com todos os seres humanos, vegetais e animais que aqui vivem. Aprender a acreditar em alguma causa que nos faça ressonância interna, sabendo claramente que não se trata de salvar o mundo nem nós próprios. Aprender a viver e a trabalhar colectivamente com a certeza da desilusão, a evidência de que os lugares míticos não existem, que nenhum grupo é completamente feliz, nem organizado, que os altruísmos não são sentimentos lineares, e as dinâmicas de actuação são complexas, lentas, sinuosas e de alcance sempre inferior ao desejado. Aprender a actuar, conhecendo as nossas limitações, desejos e necessidades, de uma forma interventiva mas também conciliadora, não lutando contra tudo e contra todos, por mais que nos encontremos com dificuldades burocráticas, organizativas, políticas, relacionais, ou com injustiças, brutalidades, agressividades, desrespeito.
Em qualquer jogo, competição, luta por algo em relação com outros grupos/pessoas em aparente oposição, o importante não é só o resultado final mas tudo o que aí se vive. Em qualquer acto desta nossa vida mais curta que comprida, o mais importante é que o coração esteja tranquilo e que não deixemos de ser propositivos, conciliadores, responsáveis e amorosos, pois é de amor pelos próximos e pelos distantes que este mundo necessita. Só isso. Parece simples, quase ridículo, mas, para mim, é a maior das evidências e o maior dos nossos desafios, enquanto indivíduos e enquanto colectivos.

2 comentários:

foi dançar a bossa nova disse...

Oito,
Kilométrica sensibilidade para um post que, afinal, tem o tamanho exacto!

Onde é que assino?

no baile da d. ester disse...

all you need is love. a malta dá voltas e mais voltas e vamos sempre bater ao mesmo. fazer as coisas como deve ser, ser gentis uns com os outros e saber que, de facto, o que levamos desta vida é o amor que damos e recebemos.

Bela multipla.