20 fevereiro 2008

qual é a diferença de um para nove?

Hoje faz nove anos que se foi embora. Hoje faz nove anos que passámos a última manhã consigo, ao lado da sua cama. Hoje faz nove anos que ficámos suspensas na sua respiração. Suspensas naquele fio que a levava e a trazia e a levava e a trazia, dormia ali ao nosso lado, e nós olhávamos para o seu peito que subia e descia e sabíamos que estava ali connosco. A sua respiração. E houve o momento em que deixou de ir e vir, de a levar e trazer, e levou-a não sei para onde que não a encontro agora, procuro-a em tantos lugares e em tantos momentos que lhe perco a conta, uma figura ao longe o som dos passos o cheiro. Hoje é o número nove, mas já foram outros números e serão outros tantos até ao dia em que for o meu dia de ser levada pela respiração que cessa, não sei por que razão os números são tão importantes, qual é a diferença de um para nove?, não é assim tanta, continuo sempre a sentir a sua falta, a tropeçar na imensa estupidez de ter desaparecido e ter faltado a todos os dias que já passaram e que se foram enchendo de pequenos e grandes acontecimentos e me trouxeram até esta casa onde lhe escrevo e onde vivo agora, todos os dias que passaram e me deram um filho que é já um rapaz e que ouve tantas histórias sobre a avó que nunca conheceu e que dorme no quarto ao lado desta sala onde estão também pedaços de si, uma mesa, um candeeiro, uma fotografia, muitos livros, objectos grandes e pequenos que povoam a minha casa como a Mãe me habita a mim, reconheço-a no meu pescoço nesta cara magra em coisas que penso e digo, reconheço-a nos gestos da minha irmã e na entoação segura das frases que diz, reconheço-a na cara do meu filho, e tento o consolo de saber que está ainda aqui, que de uma forma misteriosa estará aqui enquanto existirem pessoas que trazem dentro delas pedaços de si.

4 comentários:

pla disse...

Nenhuma! E passados estes anos neste mesmo dia a mesma situaçäo, pela mesma causa, actores diferentes e este mesmo espectador ...Ele há coisas que näo lembram ao diabo!

patsp disse...

E habita outros. Os que tiveram a sorte de passar perto e que se deixaram impregnar. Mesmo sem a herança directa de ser-se filha ou neto, pode-se ter sido "filha adoptiva". Com muita honra.

JPN disse...

sinto o mesmo. e o meu rapaz também não conheceu o seu avô. e também me fazem falta as horas que não passou comigo.


:)

apicultor disse...

E eu tambem o sinto. Vou tendo longos monólogos em que lhe exibo os netos que sonhou.Por vezes olho os meus filhos e encontro lá o meu pai, outras vezes encontro-me a mim, como se o filme tivesse voltado para trás muitos anos.