12 fevereiro 2008

isto de a gente ser grande não é como se nos pinta

Apareceu choroso depois de lavar os dentes. Não era choroso: eram lágrimas a sério. "Mãe, eu não quero ser adulto. É uma seca. Tem de se pagar impostos e está-se mais perto da galhofa". Não percebi porque razão chorava quando dizia que os adultos estão mais perto da galhofa. Explicou-se: galhofa era a morte, por uma misteriosa razão a que acedem apenas as pessoas de sete anos. A meia hora seguinte foi passada a tentar explicar as coisas boas de ser grande. Logo eu, que ando com tantas dúvidas sobre isso.
E lembrei-me do poema do José Régio que tantas vezes li quando era adolescente e ainda não sabia o que era essa coisa de ser grande.

Em cima da minha mesa,
Da minha mesa de estudo,
Mesa da minha tristeza
Em que, de noite e de dia,
Rasgo as folhas, leio tudo
Destes livros em que estudo,
E me estudo
(Eu já me estudo...)
E me estudo,
A mim,
Também,
Em cima da minha mesa,
Tenho o teu retrato, Mãe!

À cabeceira do leito,
Dentro dum lindo caixilho,
Tenho uma Nossa Senhora
Que venero a toda a hora...
Ai minha Nossa Senhora
Que se parece contigo,
E que tem, ao peito,
Um filho
(O que ainda é mais estranho)
Que se parece comigo,
Num retratinho,
Que tenho,
De menino pequenino...!

No fundo da minha sala,
Mesmo lá no fundo, a um canto,
Não lhes vá tocar alguém,
(Que as lesse, o que entendia?
Só riria
Do que nos comove a nós...)
Já tenho três maços, Mãe,
Das cartas que tu me escreves
Desde que saí de casa...
Três maços - e nada leves!-
Atados com um retrós...

Se não fora eu ter-te assim
A toda a hora,
Sempre à beirinha de mim,
(Sei agora
Que isto de a gente ser grande
Não é como se nos pinta...)
Mãe!, já teria morrido,
Ou já teria fugido,
Ou já teria bebido
Algum tinteiro de tinta!

3 comentários:

no baile da d. ester disse...

quem tem mãe tem tudo, lá diz o povo na sua infinita sabedoria.

dizia ela baixinho disse...

onde é que o miúdo foi buscar galhofa como sinónimo de morte?!

o poema de josé régio é lindo.

'apraz-me' (adoro este verbo) dizer:

"O conhecedor que despreza reger sua viagem
pelos astros já fósseis e as águas ocultas
e a quem é indiferente ir em sonho ou desperto
numa senda submersa em trinados e frondes

nunca decifrará porque um nítido vulto
se instaura na cidade e derruba os metais
que sem lei nem fadiga a ofendem e ofuscam

(...)

com um rumo tão secreto que ele próprio o ignora
e suspeita que em vão lhe será revelado,
chega com sua mensagem talhada a fogo na íris

esse que vai por ínsulas estranhas.

Por Ínsulas Estranhas, José Bento (1932)

JPN disse...

que lindo. comovente. abraço aos dois