05 março 2007

Lições do abismo*

Saio de casa e bato a porta com força, muita força. Só espero que aquele sacana ouça o bater da porta. Preciso de espairecer depois da noite de ontem. Desço a rua em passo estugado, os braços a balançarem e a empurrarem o resto do corpo. Respira, controla-te, o ar vai-te fazer bem. Lembra-te daquela respiração das grávidas que ensaiavas com a tua irmã. Continuo a descer a rampa e…

- Ó bacana! Vfiuuuuu, vfiuuuuuuuuu…

[Olho em todas as direcções à procura do grito e dos assobios. Que porra, estou a ver cada vez pior, de facto não vejo um corno, tenho mas é que me concentrar no som. Mas de onde é que ele vem? Olho e volto a olhar e volto a olhar…]

- Ó chavala! Aqui, pá! Não me ‘tás a ver? Ouve lá, trouxeste o que te pedi no outro dia?

[Eeeeeeeeeeh. Não posso acreditar, o Gustavo, era o que mais me faltava…Seja. Avanço na sua direcção]

- Então Gustavo, tudo bem? ‘Tá-se? Epá, desculpa lá, mas ando aí com uns desatinos com um mitra de um vizinho que me tem dado cabo da paciência e ainda não tive tempo para nada, nem sequer para tratar das minhas cenas… ‘Tou mesmo fodida… Desculpa, mas ainda não te pude desenrascar, estou em falta contigo…

- Ouve lá, mas quem é o bacano que te anda a melgar? Queres que vá lá dar-lhe uns aplicativos? Hum? Quem é o caramelo? Diz lá, que eu vou lá com uns chavalos e tratamos da saúde ao gajo…

- Caga nisso Gustavo, eu sou da paz. Não quero cá mais confusões, já sou crescidinha e desenrasco-me sozinha. E para inferno têm-me bastado estes últimos dias. Aliás, tu já deves saber da cena com o meu ‘sócio’…

- Pois é, miúda, tu metes-te em cada uma… ‘Dasse…

- Diz o roto ao nu! Olha, caga nisso…

[Reparo então no braço dele, que vai esfregando vigorosamente, um risco de sangue vai percorrendo o antebraço, ao mesmo tempo que as pálpebras vão cedendo à lei da gravidade]

- Gustavo, foda-se, o que é que combinámos, porra? Que merda é essa aí no teu braço? Ó caralho, vou ter que chamar o 112! Olha o teu estado, meu!

[Gustavo levanta os olhos, de um verde líquido e translúcido e sorri]

- Epá, acabei de dar uma ‘mista’, sabes como é, o vício é como uma amante: leva-nos a puta do tempo, do dinheiro e da saúde…

- Ia, muito bem visto! Ao ponto de empenhares a tua vida, a tua família – e aqui nem sequer estou a falar dos teus pais – estou a falar da tua mulher e das tuas 2 filhas pequenas, da puta de toda a merda de oportunidades que tens tido e deitas fora? Foda-se, também eu começo a perder a paciência… Ouve lá, estás branco! Onde é que fizeste essa merda? Partilhaste a ‘bomba’ com alguém? O que é que meteste?

- Caga nisso, chavala… Foi só meia de cavalo e meia de branca, ‘tá-se… Foi ali com o F. mas o gajo disse-me que estava ‘limpo’. Aquela merda ardeu na carica para os dois e pronto…

- SÓ?! Porra que não sei como é que estás vivo. Desculpa a franqueza… Essa merda levava qualquer outro ao tapete. Se ainda te aguentas em pé, tens mas é que ver essa merda como um sinal… Porra, nem que seja pelas tuas filhas, pensa nelas…

- Ia, elas são lindas, penso nelas todos os dias e choro, choro com saudades dela e da minha mangolé… São tão lindas, tenho tantas saudades delas… Mas a porra deste vício é mais forte do que o meu amor… [Pausa] Miúda, tu és uma bacana, gramo de ti, sabias? Esta merda do cavalo e da branca é que tiram a pica toda, senão… De qualquer maneira, sabes que não deixava que ninguém te fizesse mal, não sabes? Vem-me cá contar mais cenas dessas que eu digo-te…

- Gustavo, anda ali limpar essa cena, olha o hematoma que tens, ainda te entopes todo e aí é que já não vês ninguém, nem sequer a mim... E aí é que não te posso desenrascar de todo.

[Numa casa-de-banho, faço o curativo possível]

- Agora vai dormir. Já estás com a broa, q.b. Amanhã falamos. Venho aqui ter contigo à mesma hora.
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Epílogo - No dia a seguir encontrei-me com o Gustavo – nome fictício - e desenrasquei-o, tal como estava combinado. Nunca mais o vi. Penso nele muitas vezes. Uma vez tive este sonho: tinha entrado num num programa de recuperação e tinha-se safado. Resgatou a confiança da família e voltou a viver com a mulher e com as duas filhas, que entretanto voltaram de África. Gustavo trabalha para uma associação que lida com seropositivos e toxicodependentes. Somos amigos até hoje. Ainda me chama ‘miúda’ (embora já não queira prestar contas com todos os que se atravessam no meu caminho).
Era isto que eu queria que tivesse acontecido ao Gustavo.
*De uma frase de Jules Verne, parfois il faut prendre des lessons d'abîme.

7 comentários:

Ruiva disse...

É forte... bateu fundo...

Anónimo disse...

(...)

texto comovente e hiper-realista.

8 e coisa 9 e tal disse...

tive muitas dúvidas em postar este texto, sobretudo pelo vernáculo que empreguei: ou era assim ou não corresponderia à realidade.

a ideia não era, no entanto, a de chocar, mas de ouvir mais 'vozes' relativamente a questão.

alea jacta est.

no baile da d. ester disse...

Gostei muito de ler. É sempre tudo tão diferente quando se passa do discurso teórico ao prático, na carne.

Não sei quais as possíveis vias de tentativa de minorização do problema (que é evidentemente irresoluvel de todo). acho que há pessoas perdidas sempre, outras que não. Mas tudo depende da vontade e do empenho de cada um.

Para que os gustavos deixem a amante têm de querer fazê-lo, quanto a isso não há nada a fazer.

-pirata-vermelho- disse...

Muito bem!
Nem a linguagem podia ser outra.

Este conto vale mais pelo retrato que pela denúncia; ficou 'tudo' muito bem dito.
E
os meus cumprimentos pela sua lata (leia força-e-decência); eu sei que sabe que foi mera panaceia.

8 e coisa 9 e tal disse...

eu sabia q era uma mera panaceia...
mm assim escolhi sempre acreditar no gustavo, não obstante as suas constantes 'recaídas'.

de qq modo, e como bem disse no baile da d. ester, uma 'amante' deste calibre só se larga em querendo muito e muito.

obrigada :)

Anónimo disse...

muito bem! sem tirar nem por... parabéns pela coragem na 'postagem'.

um anónimo assumido