08 maio 2008

Blues all around my head

A face do mediatismo sempre me espantou. Bem, mentira, não é bem um espanto porque como costuma dizer um amigo, já são muitos anos a virar frangos nesta terra, mas é de facto, ainda, tenho pena de dizer, uma constatação feita de olhos meio arregalados. Quando digo isto estou, neste caso, a pensar em todas as “viagens” musicais que percorri e neste ou naquele fenómeno a que assisti que me deu, por assim dizer, a volta ao estômago. Um deles é o fenómeno do intérprete, guitarrista e compositor da música pop/soft rock“ e aclamado “rei do rock português”, também designado de “Bluesman”, Rui Veloso. Pois aqui há uns anos,para quem se lembrar, o Sr. BB King veio cá fazer um espectáculo ao Casino do Estoril e chamaram o nosso Rui Veloso para partilhar o palco com ele durante alguns temas. Ora, como sempre, a nossa produçao prefere o mediático ao realmente talentoso e com todo o devido respeito pelo talento do Rui Veloso como criador de canções, no que respeita ao blues, por mais jeito que também tenha e tem-no, não o tem suficiente para estar no mesmo palco que um BB King. No entanto, havia, naquela altura quem o tivesse e não era de todo um deconhecido do grande público, mas apenas não mediático. O nosso excelentíssimo músico guitarrista João Allain, co-fundador com Paulo Gonzo, da já extinta, blues band portuguesa (não confundir com boys band), Go Graal Blues Band, e que supostamente seria a escolha óbvia para se juntar a BB King naquele palco, ficou para trás, refém das nossas típicas e mesquinhas lutas de bastidores que, bem, como dizer, metem nojo. BB King não ficou contente nem descontente, não esperava ele outra coisa, Rui Veloso estava mais nervoso que um perú antes do Thanksgiving e parecia que tocava guitarra há dois meses, mas quem não percebia nada de blues, inclusive a produção do espectáculo e só tinha como pretensão mostrar um português ao lado dum monstro musical daqueles, disse que ele esteve muito bem. Até fizeram questão de passar a vergonha na televisão e tudo. Para quem não sabe ou não conhece, ou nunca ouviu ou só ouviu os “Jardins Proibidos” e o “Sei de cor”, Paulo Gonzo é também, e antes de tudo o mais, um exímio cantor e tocador de Harmónica Blues, tendo já acompanhado James Cotton num concerto do CCB, esse sim ficou espantado e contente, e também ele, claro está, teria feito melhor figura a acompanhar BB King naquele dia do que Rui Veloso. Ah mas espera, pois é, o Paulo Gonzo, naquele tempo ainda não cantava em português e por isso era como, deixa lá pensar num termo, uma espécie de desterrado musical. Coisas da mentalidade terceiro mundista ou mais provavelmente da atitude do “Deixa-me lamber-te o cú que eu gosto tanto”.

Enfim, esta treta de conversa toda só para me apressar a deixar-vos já aqui, para a posteridade, a apresentação de um grande bluesman português da nova geração, André “puto” Rodrigues, antes que outras histórias semelhantes à que acabei de vos contar, se continuem a repetir infinitamente.

Para quem gostar realmente de Blues e quiser perder três minutos a ouvir como o blues deve ser tocado, seja por um americano ou por um português, aqui fica o “puto”, André Rodrigues (guitarra e voz), a interpretar o standard, “Goin’ down”. Vá lá, carreguem nesse Play.

4 comentários:

manyfaces disse...

Não sou grande entendido na matéria mas lá ouço os meus blues... Gosto do Legendary Tiger Man "one-man show" Paulo Furtado.... rapaz da minha terra e que toca em qualquer coisa que lhe ponham à frente.... ao vivo então é outra coisa. E já o era nos tempos dos Tedio Boys
(Jasus Senhor que estou velho...)

nove e tal disse...

sim senhora, querida oito. um texto tão convincente que me fez carregar imediatamente no play.

o puto faz-se! grandes malhas de guitarra, excelente voz.

(faltou a harmónica).

-pirata-vermelho- disse...

Ficou-lhe bem pôr os pontos nos is ou, como eventualmente diria o seu amigovira-frangos, 'os nomes nos bois'- a música da GoGraalBluesBand era distinta.

-pirata-vermelho- disse...

O 'puto', sendo português a tocar em Portugal, tem graça, faz-se depois de aprender a dominar o grito. Também parece um instrumentista dedicado.