23 maio 2008

O essencial é invisível aos olhos - caso prático




"No verão quente de 93, quando alguns jogadores saíram para o Sporting eu fiquei. Para mim não era uma questão de dinheiro [...]



Iria ganhar 120 mil contos por ano no Sporting, no Benfica pagavam-me 25 mil contos, tinha os salários em atraso, 21 anos, vivia na Damaia e estava para casar. [...]



Quando voltei para o Benfica assinei um contrato em branco, disse ao presidente para preencher a parte relativa ao meu salário. Apenas fiz uma exigência:ter o meu número 10 nas costas! [...]



Bom, já vi que não vao descansar, vou fazer a conta - nunca a fiz. Palavra de honra que nunca a fiz! (pausa, enquanto faz a conta no telemóvel). O salário que o Benfica me pagou era 12.5% do que o que eu ganhava no Milão"


Rui Costa, em entrevista à Unica, 17 de Maio de 2008.

11 comentários:

manyfaces disse...

Este homem é um Senhor.


Uma história Benfiquista, contada salvo erro pelo Medeiros Ferreira num programa de rádio. Um bom teste para distinguir "sofredores a sério" dos chamados "simpatizantes".

No último Benfica-Académica um Pai levou a sua filha ao Benfica pela primeira vez. O Pai parece estar bastante tenso. (Compreendo: já levei o meu filho ao Benfica e senti bem a responsabilidade do momento.) O Pai vai explicando à filha quem são os jogadores, vai recordando outras noites e outras glórias. A académica marca o primeiro. "Acontece", diz o Pai. A académica marca o segundo. O Pai começa a perder a cabeça e esforça-se por conter a linguagem. A académica marca o terceiro. A uns minutos do fim do jogo e depois de longo silêncio do Pai, a filha diz-lhe "Pai, há um outro Benfica não há?".
Eu não sei como reagiu o Pai... No que me toca quando me contaram esta história fiquei com um nó na garganta.
Resultado do teste: Quem esboçar apenas um sorriso não pode ser "sofredor a sério". Quem sentir o tal nó... sofre.

na prise és bestial disse...

Palavras para quê? O Rui Costa é o maior.
(ele merece que o Benfica seja muito mais do que a pálida coisa dos últimos anos)

apicultor disse...

A única coisa que invejo aos benfiquistas é terem tido um Rui Costa, grande jogador e uma jóia de moço.

8 e coisa 9 e tal disse...

Uma jóia de moço, perfeita definição. Destes fazem-se poucos, e é pena. A maioria das pessoas algures no processo da vida concentra-se noutra coisa que não o essencial, de que vale um projecto se não acreditarmos nele? Se uma camisola valer os euros ao fim do mês e pronto?

É por estas coisas que pessoas como o Rui Costa nunca serão infelizes. Porque fazem apenas aquilo em que poem a alma.

(nó, manyfaces, nó)

8 e coisa 9 e tal disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
apicultor disse...

Fazer aquilo em que se põe a alma, é um bom principio de integridade, coisa rara numa actividade frequentemente mercenária.Eis a minha dor de cotovelo de sportinguista....ter tido por lá muito poucos moços destes.

d. inês sequiosa disse...

Apicultor, no melhor pano cai a nódoa. Ainda está a tempo de mudar para o glorioso e redimir os anos de cegueira.

apicultor disse...

Caríssima d.inês,infelizmente fui pouco prendado com a perfeição, portanto de redenção estamos conversados.Boa sorte para a temporada de gloriosos desgostos que se anunciam.

8 e coisa 9 e tal disse...

sobre o fervor do campeonato a minha posição continua a ser esta
http://oitoecoisa.blogspot.com/2007/05/madeleine.html

Apicultor, goze bem a sua taça. Quanto ao campeonato, que ganhe o melhor. Ganhar sem ser à Benfica não me interessa.

Nuno Abreu disse...

O drama de Pacheco Pereira, Nuno Brederode

… e dos telespectadores da RTP


Chegou à praça pública um tremendo rugido de protesto, implacável e ao mesmo tempo desesperado, contra o estado a que chegou a informação nos telejornais portugueses: Pacheco Pereira perdeu a cabeça (ou usou-a como nunca) clamando contra “A cultura da irrelevância (que) está a crescer exponencialmente” (“Público” de 17 de Maio). E escreve, mortificado: “Futebol, futebol, futebol, fumei, pequei, vou deixar de fumar, a Esmeralda entre o pai afectivo e o pai biológico, futebol, directo do acidente na A1 que provocou três feridos, os pais da pequena Maddie, futebol, tenho um cancro-tive um cancro-vou ter um cancro, futebol, futebol, futebol.”

Dias depois, adesão insuspeita: Nuno Brederode Santos junta a sua pena demolidora às diatribes de Pacheco Pereira para lamentar “… ter de saber que, no hotel do estágio, a ementa de hoje foi canja de galinha e carne à jardineira (e o cozinheiro já vai explicar porquê), mas também que o craque A, afectado por uma ligeira indisposição, comeu pescada.” (“Diário de Notícias” e blogue “Sorumbático” de 25 de Maio).

O ridículo elevado ao delírio? A imbecilidade transformada em cartilha editorial dos telejornais? Pode ser, mas resulta muito pior quando praticados na antena do serviço público – vulgo RTP.

Ora eu, que não ostento de Pacheco e Brederode a fama e glória, também tenho a minha história de rebelião contra este filme de massacre futebolisivo.

Enviei a seguinte carta ao Provedor do Espectador da RTP:

“Senhor Provedor,

Às 20 horas de ontem, dia 12 de Maio, os editores do Telejornal já possuíam a notícia e as imagens: oito mil e quinhentos seres humanos tinham morrido, poucas horas antes, num terramoto na China. Sabiam também que novecentas crianças estavam debaixo dos escombros da sua escola. Mais de oitenta por cento das casas de uma grande cidade estavam derrubadas, com gente lá dentro.

Os senhores editores do Telejornal sabiam isto tudo às 20 horas. Até porque as grandes cadeias de televisão mundiais ( BBC, Sky e CNN) já tinham transmitido reportagens sucessivas sobre todo esse horror.

Parece que uma notícia desta magnitude iria abrir o jornal do serviço público lusitano, com devido trabalho jornalístico.

Mas não, senhor Provedor: Os primeiros DEZASSETE MINUTOS do Telejornal foram integralmente dedicados ao anúncio dos jogadores escolhidos para chutar a bola na selecção nacional!

Que valem milhares de mortos ao lado da conferência de imprensa do treinador Scolari ?

Senhor Provedor:

Temos o direito, todos os que ainda nos reclamamos da cultura e da inteligência, de ouvir da boca dos editores do Telejornal de ontem as inqualificáveis razões editoriais para tamanho insulto aos espectadores. Por isso me dirijo a V. Exa, que tantas provas de verticalidade nos tem trazido em cada um dos seus excelentes programas.

Com a maior consideração,

N.”

Chegou resposta, assinada pela chefe de gabinete, D. Fernanda Mestrinho. Em dois secos parágrafos estilo Formulário-Norma-4 agradecia a mensagem e mandava à m…era procura de um programa do Provedor que fora emitido meses antes.

Tenho a certeza cega de que o ponderado Prof. Paquete de Oliveira desconhece esta troca de correspondência, nem que mais não seja pela boçalidade que enforma e ele é, além de inteligente, um homem de finesse.

Que isto se tenha passado assim com um ignoto espectador, diz apenas de quem assessora o Provedor. Mas a coisa fia mais fino quando dois comentadores de nomeada exibem, em dois dos maiores jornais do país, o mesmíssimo cartão vermelho à RTP e… tudo fica na mesma. Aí o povo contorce as mãos, desesperado, e percebe quão majestático é o poder da tv estatal, sem se dignar explicações, mantendo inalterável o rumo soturno do seu navio fantasma. E os telejornais continuam a dedicar os seus primeiros quinze a vinte minutos a banalidades insípidas que rodeiam os treinos da Selecção de futebol em Viseu. Noite após noite, os directos espremem não-notícias, vulgaridades sonolentas, opiniões vazias de passantes sem o menor interesse. E a tal pescada que o jogador comeu, em vez de bife. Puro lixo televisivo. Vejo os telejornais estatais de Espanha, França, Inglaterra e Itália e nenhum se atreve a tamanho desperdício de tempo com tamanhas ninharias das suas selecções de jogadores. Só mesmo a RTP, até à náusea.

E porquê? Acho que sei, e até peço perdão se estou errado.

Sem ofensa pessoal para ninguém envolvido, eu acho que Pacheco e Brederode tiveram apenas um azar de circunstância, que passo a explicar.

A RTP é como o Estado: são todos e ninguém. Preciso é distinguir quem vale e quem não vale. O segurança da RTP não vale para definir telejornais, mas há três pessoas que valem tudo para definir os conteúdos dos telejornais: o Zé, o Luís e a Cristina. Se eles lerem os dois cronistas e se a sua roda de amigos concordar com os cronistas e comigo, tudo vai mudar no telejornal desta noite. O país, em vez de vinte minutos de nha-nha de Viseu, só grama dois ou três minutos de nha-nha de Viseu, se gramar!

Basta que o Zé tome café com o Luís e a Cristina e se ponham de acordo. Podia ser: o Zé Alberto é director de Informação e até pode decidir sozinho. Mas como a matéria é gravíssima para os interesses estratégicos de Portugal, admito que não queira utilizar o seu formidável poder sem ouvir o Luís Marinho que era seu chefe até ontem mas hoje é administrador da empresa. Os dois teriam quórum mais que bastante para colocar o terramoto da China antes das canelas do Petit a abrir o telejornal, mas vamos supor que isso teria implicações formidáveis no orçamento da TV pública e portanto conviria ouvir a Cristina Viegas, a sempre presente directora do subdepartamento comercial da empresa. Que diabo, a campanha publicitária que tem Nuno Gomes aos saltinhos e gritinhos poderia estar-se nas tintas para os mortos na China e exigir prioridade a Viseu Petit.

Portanto, seria superiormente recomendável um cafezinho a três – o Zé, o Luís e a Cristina. Belém reúne o seu Conselho de Estado por bagatelas bem menores do que o primeiro quarto de hora do Telejornal.

Simples, não é? Tudo arrumado em dez minutos de um café de bom senso. Pois não senhor: isso jamais acontecerá. O drama de Pacheco, Brederode e de todos os espectadores da RTP é que um dos três – acho eu – não gosta de café.

na prise és bestial disse...

caro nuno abreu, compreendo o que escreve e concordo em absoluto consigo.
Mas o Rui é o Rui é o Rui é o Rui.