04 janeiro 2008

Fumar ou não fumar

A democracia é uma grande chatice. Não é um estado acabado, não há certezas, sobram dúvidas, mas toda a gente tem razão e tem direitos, que são lançados e apregoados aos 4 cantos do mundo ou dos nossos mundinhos. Eu por mim às vezes apetecia-me mandar a democracia para a pu.. para... para ir ber o relógiuu dar as 11 no farol, mas, muito a custo diga-se, tento calar a boca sem morder a língua. Mas esta história do fuma-se não se fuma, dos direitos dos fumadores, etc, já me começa a azucrinar a carola.

Sabemos nós que fumar faz mal à saúde, que prejudicamos a nossa saúde e, mais grave ainda, as dos outros que decidiram não fumar. Sabemos também que as contaminações das fábricas, a poluição causada pelos automóveis influenciam a nossa saúde pois afectam a qualidade do ar que respiramos. Não é o caso de Lisboa, mas garanto-vos que viver em cidades demasiado poluídas onde, à medida que nos aproximamos delas, começamos a ver uma nuvem de fumo que as envolve, é algo muito desagradável e que afecta muitissimo o dia a dia e a qualidade de vida. Ora se sabemos que a qualidade do nosso ar é importante para a nossa saúde, se exigimos ao governo, ao Estado, às câmaras e juntas de freguesia que apliquem as leis de protecção ambiental às fábricas, que regulem o trânsito automóvel para que a vida nas cidades não seja insuportável, porque raio havemos de criticar tão euforicamente a nova lei do tabaco, apontando o governo como o papão que só quer é sacar o dinheiro dos impostos do tabaco, acenando agitadamente com os direitos dos fumadores?
Eu não simpatizo particularmente com este governo, ao contrário, e não votei nele. Fumo muito mais do que aquilo que gostaria e custa-me imaginar uma boa conversa num café sem o acender frenético de cigarros. Adio ano após ano a minha decisão de deixar de fumar por gostar mesmo de um cigarro e também pela dependência reconhecida. Continuarei a fumar com ou sem lei. Mas apoio inteiramente que se proíba o fumo dos cigarros, que reconheço que para além de perigoso é desagradável, nos espaços públicos onde há muita gente que não quer ou que não pode fumar. Para mim, é uma questão de sentido comum e de respeito entre todas as pessoas que partilhamos espaços públicos como os cafés, cinemas, restaurantes, etc. Se for possível reservar um lugar para fumadores, escolho-o logo, senão... aguento-me à bronca e tento não pensar muito nisso e beber copos de água.
E como humanos que somos, aposto que passadas as primeiras indignações do pós lei, mais cedo do que tarde, encontraremos outras estratégias para diminuir a ansiedade gerada no caminho da estrada de damasco. Além disso, caramba, fumar um cigarro à chuva, resguardado na soleira de um prédio também não é assim tão mau...

6 comentários:

sem-se-ver disse...

querida múltipla... ninguém está contra o espírito da lei (acho eu) mas sim contra o seu radicalismo inadmissível que, entre outras enormidades, nao permite fumar em locais ao ar livre como as plataformas de estações de comboios... e que, bem pior, não concede o direito à OPÇÃO!

manyfaces disse...

Este radicalismo tabagista patrocinado pelo estado é de uma hipocrisia... Dou uns exemplos só para localizar a coisa e digo desde já que não fumo, nem nunca fumei. Dizia alguém no outro dia que também nos aviões se tinha deixado de fumar a bem da preocupação com a saúde de todos. A verdadeira motivação foi o vil metal: as companhias aéreas gastam hoje bem menos nos sistemas de renovação de ar dos aviões. O interesse na poupança era tanto que se começou logo por aí. A grande motivação para esta purga global anti-tabágica é das seguradoras e do estado que esperam poupar bastante em cuidados de saúde. Acontece que eles estão redondamente enganados quanto à poupança porque não há nada mais caro do que manter a malta viva até aos 150 anos. Eles que pensem nisso...
Olhemos agora para um coitado que a meio da tarde descanse repousado num banco do jardim do Campo Grande. Ao seu lado um fumador puxa do cigarro e logo recebe um olhar lancinante que o faz mudar de banco. Satisfeito com a sua vida o repousante retoma o repouso com a cabecinha apoiada no banco. Se decidir ali ficar uma hora o mais provável é passarem-lhe mesmo por cima da cabeça 2 ou 3 aviões em descolagem (se for dia de mau tempo). E alguém imagina a poluição que um avião lança numa descolagem? Para aí o equivalente a 1 milhão de cigarros, ou coisa parecida... Já alguém estará a pensar em pôr os aviões em salas de fumo? E o ruído? Alguém se rala com isso? Isso nem sequer tem sido usado como argumento para mudar o aeroporto da Portela... O tal tipo do Campo Grande chega a casa e antes de se deitar, quando fecha a persiana, fica sempre com as mãos sujas de uma fuligem negra que teima em se grudar às mãos. No dia seguinte vai comprar um carro novo e acaba por escolher um modelo a gasolina, apesar do modelo híbrido lhe custar apenas mais 15%, que ele até poderia suportar.
O tabaco passou a ser o bode expiatório. Bani-lo faz-nos sentir mais confortáveis, mais seguros. O problema não será tanto aquilo que nos faz mal e nos mata, sendo esta uma lista tendencialmente infindável, porque se assim fosse o tipo do Campo Grande estaria talvez mais preocupado com o aeroporto do que com o tabaco. O verdadeiro problema é o medo, o medo de morrer, o medo de não ter feito tudo para não morrer. A necessidade de expiar esse medo nalguma coisa, dar uma cara ao inimigo... Se eu garantir que ninguém me fuma para cima fica tudo bem. Durmo descansado, controlo a situação, está tudo no seu sítio. Há um conforto muito grande nestas coisas, que é muito humano e muito ridículo ao mesmo tempo.
Se formos contabilizar os malefícios da vida e agirmos em verdadeira conformidade em relação a todos eles seremos todos não-fumadores, macrobióticos, vegetarianos, ciclistas, hipocondríacos... decreta-se o fim do vício e a felicidade geral, o que só deve ser praticável metendo toda a gente em formol, e não há de certeza formol para tanta gente....
Que se queiram defender os direitos dos não fumadores, totalmente de acordo. Se eles querem viver até aos 150 anos têm todo o direito. E os não fumadores? Não têm o direito a trocar 50 anos por uma vida de prazer? Deve ser o estado a fazer essa escolha? Se o tabaco me desse o prazer que parece que dá aos fumadores eu trocava os tais 50 anos de vida. Vivia só até aos 100, o que já deve dar um pesadelo do caraças.

na prise és bestial disse...

ah ganda manyfaces, quem escreve asssim não é gago.

sem-se-ver disse...

nunca me apeteceu tanto dar um beijo na boca a ninguem como a vc, quando acabei de ler o seu coment, manyfaces!!

8 e coisa 9 e tal disse...

Se não for o Estado a regular isso, os fumadores sempre vão continuar a fumar em todos os lados e dessa forma não poderemos respeitar os não fumadores. Não me incomoda nada que o Estado regule algumas relações de convivencia entre os cidadãos, acho que é esta uma das suas funções, mas isto sou eu que sou uma institucionalista assumida

Os problemas não são lineares e têm de ser solucionados em várias frentes, é lógico que o problema do tabaco é só um deles, talvez o que mais impacto psicológico possa ter porque afecta a nossa vida quotidiana, por isso reclamos muito mais depressa contra esta medida do que contra a poluição que provocam os aviões, quando deveriamos estar igualmente preocupados e proactivos em relação a esta.

Que o dinheiro alimenta o mundo já nós sabemos mas colocar isso como a explicação de todos os males, por vezes induz em erro. Fumando ou nõ fumando não vamos viver aos 150 anos, nem até aos 100 sequer, mas temos direito a tentar criar um ambiente mais limpo, começando no café da esquina e terminando nos rios, e isso não é problemas das seguradoras ou das companhias aéreas, é problema nosso. E o problema maior é que queremos que tudo mude sem termos que abdicar de nada e assim, é impossível.

Também não estou de acordo com os exageros da lei, e acho que devemos estar atentos e subversivos a estes, mas o fundo da lei parece-me excelente e apoio-o inteiramente, sem esquecer que esta não é a única batalha na procura de uma ambiente melhor.

8 e coisa 9 e tal disse...

rectifique-se, UM ambiente melhor, tive um lapsus escritus...