26 julho 2008

Elefantes, pulgas e outros elitismos

Desde sempre me lembro de encontrar atitudes de desdém ou de troça à língua portuguesa que é falada de um modo diferente da que se fala em Lisboa. Vejo muito pouco televisão, mas quando vejo, é raríssimo, issimo issimo, encontrar outros sotaques que não o lisboeta, os apresentadores das notícias, os políticos, os actores e actrizes da novelas, os desenhos animados (com excepção do Ruca) falam, na sua maioria, com o sotaque que se usa da capital do país. Dos russos, ucranianos e outros imigrantes de leste é também frequente ouvir dizer que alguns até falam muito bem o português, nem se percebe que são estrangeiros, como se falar bem o português passasse por adoptar e imitar o sotaque lisboeta. A questão torna-se ainda mais acesa quando passa as fronteiras e já não se limita só aos sotaques mas à forma de estruturar e compor uma língua, de dar-lhe vida de uma forma diferente daquela que utilizamos em Portugal, como é o caso do Brasil. Sobre isto, encontrei aqui este texto que subscrevo:
«(…) Era bom que, com a assunção pelo Governo português de uma política da língua, se conseguisse que esta, bem como as políticas culturais, deixassem de ser dominadas por uma certa elite que parece ainda não ter ultrapassado o complexo de rejeição e de inferioridade causado pelo abandono do país por D. João VI aos ocupantes franceses, indo para o Brasil, que passou a ser sede de Império. Ou seja, era bom que se deixasse de olhar para o Brasil com despeito e se percebesse e aceitasse a magnificência cultural daquele país e a grandeza que é o português ser falado naquela imensidão de terra e de gente. Era bom que se percebesse que Machado de Assis não fica atrás de Eça de Queiroz, que Padre António Vieira existiu porque viveu a dinâmica global da sua época nos dois territórios, que se Mia Couto inovou porque enriqueceu o português com a vivência da língua em Moçambique, antes, no Brasil, existiu Guimarães Rosa. Era bom que quem se acha dono da língua percebesse que as línguas vivas vivem dos seus falantes. Caso contrário, morrem. É por isso que a capacidade de fazer uma reforma ortográfica comum a todos os países lusófonos, como o recente acordo ortográfico, é uma prova de vida e de vitalidade. É por isso que é ridículo dizer que a pronúncia do português que tem que ser regra no ensino e na política da língua no mundo é o português de Portugal. Porquê? Pelos 800 anos de história? E já agora o português de qual Portugal? De Lisboa? De Beja? De Castelo de Vide? De Coimbra? Do Porto? De Chaves? De Lagos? De Câmara de Lobos? De São Miguel? É que a arrogância de proprietários da língua que muitos intelectuais portugueses assumem em relação ao Brasil dá vontade de lhes dizer que perante o elefante cultural, artístico e linguístico que o Brasil é, Portugal não passa de uma pulga.» (São José Almeida, Público, 26 de Julho 2008)

1 comentário:

zamotanaiv disse...

Mas uma pulga com actitude!