26 julho 2006

Os dias

O meu Carlos faz-me falta, não é que conversássemos muito, mas sempre era uma companhia ao meu lado, sentado na poltrona agarrado ao jornal ou a ver o noticiário. Os dias eram mais pequenos quando ele estava comigo e não reparava tanto na porta do prédio a fechar, agora estou sempre com atenção à vizinha do 2º esquerdo que chega à noitinha do trabalho, ao rapaz do 1º direito que não tem respeito por ninguém e bate com a porta a qualquer hora, os dias eram mais pequenos e agora são tão grandes, deve ser porque não está ninguém sentado na poltrona, porque ninguém me pede um copo de água, porque ninguém se zanga com as notícias, ai malandros que vão outra vez subir os preços, seus gatunos, sempre a roubar quem não tem, porque aos ricos não lhes faz diferença que a gasolina suba ou que a luz fique mais cara, deve ser porque agora já não importa a ninguém se vou à praça de manhã, não importa a ninguém o que destino para o almoço ou para o jantar e por isso acabo por não destinar nada e por comer a mesma sopa durante dias, quase sempre de agriões porque diz que faz bem à circulação e eu sinto as pernas muito pesadas, os dias eram mais pequenos e derivado a isso sento-me na poltrona do meu Carlos, sinto-lhe as mossas e as rugas das costas, cheiro o ar à procura dos restos da presença dele ali, pareço um perdigueiro a farejar a caça, à volta da poltrona horas a fio, a encostar o nariz ao cadeirão à espera de encontrar o cheiro da mão que segurava o cigarro, veja lá que até do cheiro do tabaco eu sinto falta, quando o meu Carlos era vivo eu dizia-lhe que não fumasse, que o cheiro me agoniava, que empestava a casa inteirinha e depois eu que gastasse a manhã de 3ª feira e esfregar e lavar para arrancar o fumo amarelo que invadia tudo, porque era à 3ª feira que eu fazia as limpezas grandes. Desde que o meu Carlos se foi deixei-me de limpezas, não vão elas roubar o que ainda posso guardar, os detergentes ganham pó no armário, o pó ganha pó nos móveis, e talvez assim consiga tornar os dias mais pequenos outra vez, talvez consiga sentir que está outra vez alguém sentado ali e dê por mim a ir buscar um copo de água à cozinha para uma mão que acabou de apagar o cigarro.

5 comentários:

Anónimo disse...

grandioso..

Anónimo disse...

Grand'alma esta, de fazer inveja a deus.

Anónimo disse...

ninguém antes de ti
ninguém depois de ti.

Anónimo disse...

nao, sr. pirata:

dizia ela (baixinho) de olhos enxutos.
và por mim.

[A] disse...

nem dúvido que seja de facto assim...aliás, sei que é assim.