22 setembro 2007

Múltiplos livros

Desafiou-nos o jpn para uma corrente de livros. Nós, que até somos raparigas de nos ficarmos nestas coisas, apesar de já nos ter fugido o pézinho para o chinelo da resposta, desta vez damos luta. Vamos responder. Surpreendendo tudo e todos, incluindo nós mesmas.
Tratando-se de um blog colectivo, preparámos um jantar e estivémos até às 3h e picos da manhã a discutir o assunto. Na realidade, qualquer desculpa é boa para estarmos juntas e conversarmos. Livros não nos parece má ideia.

Decidimos, então, distribuir a coisa por categorias, sendo que cada uma teve direito a uma das escolhas. Mantendo a aura de mistério que nos caracteriza, não dizemos quem escolheu o quê, fica à escolha do freguês. No fundo, somos uma só com personalidade múltipla.

LIVROS QUE NOS MARCARAM

- Todos os de 'Os Cinco', Enid Blyton - porque foi com eles que comecei a gostar de ler, com a luz do candeeiro da rua que me entrava pela janela, porque já tinha passado a hora de dormir.

- Conceitos Fundamentais da Matemática, Bento de Jesus Caraça - porque finalmente percebi que a matemática existe e para que serve. Demorei 18 anos da minha vida a perceber isso.

- Anna Karenina, Tolstoi - porque foi escrito para mim.

- 7 anos no Tibete, Heinrich Harrer - veio com os iogurtes danone no ano passado e abriu-me todo um mundo novo desconhecido.

- O Principezinho, Saint-Exupery - porque me ensinou a responsabilidade por aqueles que cativamos. Porque li de tantas maneiras diferentes desde que a minha mãe mo deu na 1ª classe.

- Simposium Terapêutico, de 1996 - nada melhor para uma hipocondríaca como eu [e com uma vocação perdida para a medicina], este livro à cabeceira. Pela primeira razão evocada, mas também pelo efeito hipnótico que tinha, outras vezes pelo figuraço que fazia a discutir princípios activos com o farmacêutico do bairro.

- Todos os do Sam Shepard, pela visão cinematográfica.

[consenso geral com Eça de Queiroz e Garcia Márquez. Tudo o resto deu batatada e acesas discussões]

LIVROS QUE NOS PASSARAM AO LADO

- O Evangelho segundo Jesus Cristo, José Saramago - porque as 5 primeiras páginas me aborreceram de morte e não li mais. Não consegui.

- Todos os livros do clube de 'Os 7' e todos os manuais do curso de direito de Lisboa - pela presunção dos primeiros e pela altura da vida em que tive de ler os segundos.

- Qualquer coisa da Isabel Allende, nem me lembro do nome.

- Nem me lembro, passou-me mesmo ao lado.

- Os Filhos da Meia Noite, Salman Rushdie - porque fui capaz de o largar a 50 páginas do fim.

- Eurico, o Presbítero, Alexandre Herculano - muito melhor que um xanax para adormecer. Tive que o ler mas não retenho nada.

- Todos os de Harry Potter e todos os do Paulo Coelho.

LIVROS QUE NOS CHATEARAM DE MORTE

- Memorial do Convento, José Saramago, ainda mais do que os três volumes da História do Direito, Ruy de Alburquerque.

- Um artigo sobre bioética que tive de traduzir e que era uma chacha tão grande, tão grande...

- Viagens na Minha Terra, Almeida Garrett - de cada vez que começava a ler adormecia.
- Ensaio sobre a Cegueira, José Saramago - porque me obriguei a lê-lo até a fim para perceber porque é que lhe deram o prémio Nobel. Não percebi.

[a esta altura instalou-se uma acalorada discussão sobre as qualidades literárias deste escritor, dividindo-se as opiniões]
- Frei Luís de Sousa, Almeida Garrett.

- Fonética e Fonologia, da Universidade Aberta. Porque tive mesmo de estudar.

- Todos aqueles que deixei a meio, quebrando o meu compromisso de ler qualquer livro do princípio ao fim. Foram alguns e nem me lembro deles.
- Não me consigo lembrar de nada mais angustiante que Eurico, o Presbítero, Alexandre Herculano (saiu repetido, mas nós somos muitas, dá nisto. Além de que o livro é mesmo chato que se farta).

LIVROS QUE NOS FIZERAM SENTIR BURRAS

- Os Passos em Volta, Herberto Hélder.

- O Pêndulo de Foucalt, Umberto Eco, que comprei com o meu dinheiro na feira do livro, e me esforcei meses a fio para ler e não consegui, sempre a tentar a tentar, e a sentir-me burra por não conseguir entrar.

- Quase tudo o que é poesia, tirando Fernando Pessoa, aqueles mais evidentes.

- Livros ‘inteligentes’ sobre história contemporânea.

- O suplemento de economia de qualquer jornal, incluindo todo o Diário Económico e o Jornal de Negócios.

- Finnegans Wake e Ulisses, ambos de James Joyce.

- Qualquer manual de matemática e os manuais de instruções do Ikea.

Agora temos de marcar outro jantar para decidir a quem mandamos seguir a marinha da corrente (ou talvez não).

Last but not least, por causa deste post reavivámos as memórias de infância da nossa insular múltipla, a quem os livros chegavam num barco com nome de parteira new age. As suas palavras transmitem bem o seu (e o nosso) amor pelos livros:

Em sítios onde a oferta de livros era pouca, a chegada do Doulos era um maná de programa - ir à doca, subir a prancha de embarque, sobreviver a tanta gente que lá estava (ainda me lembro do calor e de querer tirar o meu casaco de lã azul escuro com pompons, e não me deixarem porque se podia perder na confusão) e depois aquele fantástico gelado com xarope de morango - e de livros, livros em estantes, livros em caixas, livros em sacos, o espreitar e ver o que havia, cheios de cor, cheios de capas, letras, desenhos, o tocá-los e eles mesmo ali ao lado....

O meu último tributo

Abri o álbum das fotografias. Há-as em que estamos felizes, aquelas em que choramos e outras em que, perante o teu olhar sempre terno e apaixonado, já não consigo esconder que o amor acabou.
O filme da nossa vida passa lentamente... O que fizemos e vivemos juntos - a fome que partilhámos e que te levava à casa de família para angariar umas latas de conservas, os momentos de calma ao pôr do sol na Praia da Areia Branca, as noitadas sem fim no teatro, a constante falta de dinheiro que nos fez solidários mas que provocou também muitas cisões, as borgas cheias de amigos e boa disposição em que eras sempre o maior contador de anedotas, as férias em Sesimbra, no Farol, na Luz, as discussões em que revelavas de forma inesperada a tua faceta obstinada... E o filme pára abruptamente, talvez no momento em que tive de dizer-te que chegara o fim.
Não te tratei bem, como não tratei bem os meus amores quando chegou o fim. Mas lembro-me de te amar. De me comover com todas as personagens às quais tu deste corpo de forma tão sábia e verdadeira. Lembro-me de te incitar, de te picar para te fazeres à vida, para não teres medo. Lembro-me do teu sorriso franco, do teu carinho imenso.
Por tudo isto e muito mais que as palavras não podem traduzir, obrigada, Pedro Alpiarça, por teres feito parte da minha vida.
Descansa em paz...

21 setembro 2007

Serviço ao cliente

"Como se insinuar eroticamente com elegância"?, pergunta um leitor que chegou aqui hoje à tarde.
Se alguém tiver sugestões, faça o favor de as deixar na caixa de comentários.

Saddam mata Mandela!!!

Ou "Como foi possivel um morto bem morto ter matado um vivo bem vivo", a master piece by G. W. Bush, disponível aqui.

20 setembro 2007

Conversa no portão da escola

Saída de mais um dia de aulas. Depois de ouvir as novidades (mãe, hoje tenho de descobrir o que quer dizer a palavra nómada, mãe hoje marquei dois golos) decido-me a contar a novidade ao meu filho de sete anos.
- Sabes quem é que está grávida? A minha amiga Mé.
- Ah é?
- Sim.
- Ela fez sexo com quem?

Trintas e vintes

Caminhar para a idade deve ser isto: ser mulher de trinta e picos que repara em rapazes de vinte e tal.

Requiem pelo Bartis

Não me conformo.
Soube aqui que o meu tasco de eleição fechou.

[E agora onde é que levo o meu irmão quando ele vier a Lisboa?]

Vou ouvir um requiem qualquer e selar o baú das minhas muitas memórias ali construídas. E, sim, também são feitas com o mau feitio da minha amiga Paula e com o sabor e cheiro inconfundíveis das tostas de frango com oregãos. Entre muitas, muitas outras.

O BA está, definitivamente, mais pobre desde 5ª feira passada.

Ora que porra...

19 setembro 2007

Mais uma corrida, mais uma viagem

Se no final deste ano eu não for viver para um sítio ermo, sem vizinhos nem gente que me chateie a mona, então é a prova da minha resiliência à prova de bomba atómica.

Começámos a ter uma infestação de baratas no prédio; quase de certeza que vinha de casa da D. Madalena, mas de qualquer modo já estavam a alastrar por mais duas casas. Como eu, boa alma com lugar cativo à esquerda do senhor (seja lá ele quem for) sou a administradora voluntária deste ano, calhou-me em rifa chamar a empresa para eliminar toda a bicharada, de todas as casas, esgotos, partes comuns, e, já que estávamos nisso, os ratos que me atormentam a existência.


O meu dia começou às 8h50 com o senhor a tocar-me à porta enquanto ainda punha cremes na fronha, sem pequeno almoço. Engulo um café e mãos à obra.

Vamos de casa em casa a exterminar tudo aquilo, e eu procuro como uma louca a chave para levantar as caixas dos esgotos. Como não se encontra em lado nenhum, desato a tocar às portas de todos os prédios, a ver se alguém me pode emprestar a sua, mas claro, ninguém tem, sabe ou está. Cada vizinho a quem peço notícias do paradeiro da mesma tem uma brilhante ideia para eu executar; um que ligue à câmara, outros às chaves do areeiro, melhor ainda aos bombeiros. Que vá à casa de ferragens ao fundo da rua. Eu ia sempre perguntando “e um pé de cabra não tem?”. Estranhamente ninguém tinha, mais valia ser vizinha de ladrões de carros, esses ser-me-iam decerto mais úteis que estas abéculas. Depois de percorridos os contactos sugeridos e em nada terem resultado, decido cravar o jardineiro da câmara para me ajudar a levantar as tampas com uma picareta e uma enxada. Dêem-me uma alavanca e eu levanto o mundo; não estava errada. Eu sabia que tinha uma razão para gostar de cavadores de batatas, este também não me deixou mal: prova superada, contra todos os vaticínios.

A velha do r/c esq da janela só repetia “isso não vai dar, assim não vão conseguir”. A múmia do 2º, “ai que partem um pé”, o do 1º “já lhe disse que chamasse os bombeiros, era uma limpeza”. Eu e o cavador é que lhes mostrámos o que era, Arquimedes rules.


No meio disto, a D. Madalena não abria a porta nem por mais uma, apesar dos murros na porta e toques insistentes. Já pensávamos mandar vir a polícia, sabe-se lá o que o Jorge lhe teria feito, quando ela nos aparece sorridente com um ramo de malmequeres e violetas colhidos durante o seu bucólico passeio pelos jardins da vizinhança. Entretanto, a pespineta dos caniches era a única que não aparecia para que lá fossem a casa. Quando entra finalmente pelo prédio adentro, a rugazinha no canto da boca deixou-me logo o alarme: vem chatice. Começou com o seu tomzinho irritante de voz a dizer que na casa dela só depois das 14h30, que não podia ser, que não queria. Respiro fundo, não há de ser nada. Eles voltam na sexta, logo se vê então.

Venho para casa, sento-me no sofá estafada, depois de ter subido e descido dúzias de vezes as escadas do prédio e andado por todas as ruas do quarteirão à procura de uma abertura para os esgotos, quando recebo telefonema da vizinha do r/c: as baratas estão-se a atirar pela janela da D. Madalena abaixo, uma espécie de 11/9 da entomologia. Preferem arriscar a morte por esmagamento que a tortura do veneno. "e agora o que é que eu faço?", pergunta-me. Deixe-as cair. O que é que ela queria que eu respondesse?

Acendo um cigarro e o computador. De repente, começo a sentir a língua encortiçar e os braços dormentes. Ai que estou envenenada, ai minha mãezinha o que é eu faço. Ligo ao homem da desinfestação, explico os sintomas e pergunto-lhe se devo chamar uma ambulância.

"Minha senhora, deve ser fraqueza. Esteve o dia todo a correr de um lado para outro só com um café, que tomou À minha frente. Apanhe um bocado de ar e coma, vai ver que se sente melhor".

Era verdade. Fiquei comovida. Quero ir viver para um prédio onde tenha por vizinhos o jardineiro e o homem da desinfestação.

(continua, como sempre)

V-Day

"O cómico italiano Beppe Grilo surpreendeu tudo e todos, quando conseguiu recolher num único dia quase cem mil assinaturas, exigindo a criação de um "Parlamento Decente"", "purging Italy of its corrupt political class, which in Grillo's view includes political parties, most government institutions and the media. "

O que é verdadeiramente desconcertante é que os "principais partidos políticos italianos - tanto de direita, como de esquerda - passaram, de facto, a ter razões para estarem preocupados com Beppe Grillo, que tem vindo a organizar com grande sucesso o "V-Day" (de "Vaffacullo Day")".
"The idea of V-day was to give a voice to those who don't have a voice," said Grillo, who has denied plans to start his own political party. "

Diz que isto de vaffacullo quer dizer : "vai levar no c*"....

Sim, porquê??

"Porque é que os maços de tabaco não dizem isto?
“Fumar reduz a permanência em lar de 3a idade”
“Fumar elimina a necessidade de fazer um PPR”
“Fumar reduz a preocupação com a reforma aos 65″"

Aqui.

Pena de morte

Aqui, ficamos a saber que "Os ministros da Justiça da União Europeia (UE), reunidos hoje em Bruxelas, sob presidência portuguesa, foram incapazes de chegar a um consenso sobre a instituição de um Dia Europeu contra a pena de morte, inviabilizado pela Polónia".
Aqui, ficamos a saber que a Polónia (...) "recentemente fez saber que se opunha à iniciativa - alegando que a UE deve abrir antes um debate mais amplo sobre o direito à vida, que incluiria o aborto e a eutanásia -," tendo-se mostrado "hoje intransigente, inviabilizando assim a instituição de um Dia Europeu."
Pois é...

18 setembro 2007

Os crocs

Em todo o lado os vejo, de todas as cores, em pessoas pequenas e grandes e novas e velhas. Hoje descobri aqui uma notícia que espantou: nos últimos tempos têm surgido notícias que associam os crocs a riscos para a saúde. Há quem fale dos perigos da electricidade estática (um hospital sueco proibiu o uso de crocs devido à avaria de equipamento médico quando utilizado por quem os calça) ou do fraco apoio que dão aos pés para quem passa muitas horas em pé. Há mesmo um blogue que denuncia os acidentes que algumas crianças tiveram devido aos crocs.
No últimos doze meses, venderam-se mais de 20 milhões de crocs. Existirão 20 milhões de pessoas assustadas com estas notícias?

17 setembro 2007

Se eu falhar


foto aqui, daqui.

... não me deixes só.

Conversa numa porta qualquer

Lá fora vozes de pessoas que dormem na rua. Passei por eles há pouco, sentados com uma garrafa de vinho numa porta qualquer, o intervalo de quem passa o dia a arrumar carros (mais para a esquerda, torça, está bom) e descansa com garrafas vazias e conversas desarrumadas. Eu sou feito de água e qualquer dia rebento, disse enquanto entornava o resto do vinho. É por isso que bebo isto, para não rebentar.

Terrorismo

"Novo vídeo da Al-Qaida apela para «extermínio colectivo» no Ocidente
2007-09-17, 11h16
Dubai, 17 Set (Lusa) - Um "site" islâmico radical divulgou hoje um vídeo atribuído à Al-Qaida que apela para acções de "extermínio colectivo" destinadas a aterrorizar o Ocidente.
"É preciso elevar o terrorismo islâmico nos países do Ocidente e transformá-lo num fenómeno semelhante ao das catástrofes naturais", afirma uma voz, anónima, no vídeo divulgado no 'site' ekhlaas, que anunciava desde 12 de Setembro a divulgação de mais um vídeo - o terceiro - a propósito do sexto aniversário dos atentados de 11 de Setembro nos Estados Unidos.
"Assim, devem perpetrar-se actos de extermínio colectivo (no Ocidente), para que as pessoas sintam que o seu bem-estar também lhes traz a morte (...) e para criar, dessa forma, um equilíbrio dissuasor entre nós e eles", prossegue.
Intitulado "A conquista de Nova Iorque e de Washington: razões e motivações", o vídeo termina com a assinatura "Al-Tanzim", nome supostamente derivado do nome da organização terrorista em árabe: "Tanzim al-Qaida".
O vídeo apresenta uma "colagem" de imagens das torres gémeas do World Trade center em chamas, após os atentados, e de campos de treino.
Além da mensagem referida, o vídeo incluiu excertos de anteriores mensagens do líder da rede, Usama bin Laden, e do seu "número dois", o médico egípcio Ayman al-Zawahiri.
MDR.
Fonte: Agência LUSA"

Lamento

Se a minha vida não me tivesse desaparecido, iria a todos os jantares. Prometo que quando a recuperar me lembro do prazer de estar. Só estar. É que agora, neste instante, eu só quero não estar.

Palavras sábias da Enilda

Pôr limites aos filhos/as é pôr limites a nós próprias/os

16 setembro 2007

Quem dá mais?

Quem dá mais?

Consulta no centro de saúde

- Sr. doutor venho cá porque apareceram ao meu filho uns altos muito estranhos e que lhe doem imenso, especialmente quando apertados.

- Vamos já ver isso. Onde é que eles estão?

- Ó Sr. Dr, mesmo abaixo da pilinha, uma coisa estranhíssima.; eu já lá toquei e toda a gente lá de casa também, e dói-lhe mesmo muito, veja lá isso que estou mesmo preocupada com o rapaz.

(o médico começa a coçar a cabeça, manda a criança despir-se. Pede-lhe que lhe mostre o sítio exacto)

- É aqui doutor, dói muito quando aperto.

(o médico passa-se)

- Minha senhora, nunca viu o seu marido nu? Ele também tem dois iguais a estes, um pouco maiores suponho.

(juro que não inventei)

14 setembro 2007

Palavras sábias da Dona Capitolina

A manha de Portugal é comer bem e dizer mal.

13 setembro 2007

do lado de fora da porta

Ela estava à porta sem coragem para bater. Não sabia há quanto tempo ali estava, cinco minutos ou cinco horas. De vez em quando ouvia um barulho do lado de lá, água a sair de uma torneira, passos, o som de objectos pousados, vagas vozes incompreensíveis. Bateu. Ouviu os passos que chegavam, tocavam na fechadura, a madeira quase a ranger, a certeza de que o sorriso que a receberia não tinha ainda reparado que ela não estava lá dentro mas sim sozinha calada quieta do lado de fora da porta.

Agradeço, bato ou atiro-me da janela?

Chego a casa no fim do dia e a minha filha, de dois anos, pergunta:
- "Quem és tu?"
- "Quem és tu?!?!"
- "Ah, és tu! Não parecias tu... tás gira."

12 setembro 2007

Quem nunca se viu assim, levante a mão

Não suportavas que te tocassem. Para que me amasses, cortei os braços. Mas depois chegou um homem com braços musculados. A tua fobia desapareceu. Gostaste dele. Eu era apenas um amputado que tu conhecias.
Aqui.

Zimbro, o lobo


15:30. O odor intenso dos pinheiros invade-me as narinas e sabe-me bem. No meio da área florestal montanhosa, no interior da Malveira estendem-se cercados em rede de aço até perder de vista e em todas as direcções.

No interior destes cercados, os terrenos que prefazem quase 20 hectares acolhem Lobos de toda a península Ibérica, animais resgatados , por denúncia das autoridades e amiúde por um ou outro civil com alma. Foram lobos que mataram vezes sem conta as ovelhas dos pastores, uma vez que desapareceram as espécies que lhes serviam naturalmente de alimento, como o javali ou o veado. Foram lobos que, por terem fome, foram mortos pelos pastores que não são indemnizados a tempo e horas pelo Estado pelas baixas sofridas nos rebanhos.

Mas o lobo caça com respeito, mata com respeito, da mesma forma que a história nos conta, matavam os índios e os esquimós, com respeito e deferência para com a peça caçada.

O homem que se diz “civilizado” não. O pastor analfabeto e mal formado não. Mata com a revolta e a raiva no corpo, com a maldade e a estupidez natural a descoberto, a prepotência e o excesso de ego a atrofiarem os seus sentidos, a obrigatoriedade de se ser humilde e de sentir em pé de igualdade com todos os outros seres vivos.

Minho é um dos lobitos trazido ainda pequeno para este centro de recuperação do lobo ibérico, único em toda a península. A mãe deste animal morta numa armadilha e o seu filho roubado para ficar preso a uma casota de cão a ser apedrejado diariamente por adultos e crianças que por ali passavam até que a situação ser denunciada e os voluntários do centro o poderem ir buscar. Hoje em dia, Minho, já recuperado das mazelas, é um lobo que não pode nunca vir a ser socializado. Não quer nada com humanos e no dia em que for libertado no cercado que lhe está destinado com cerca de 11 hectares, vai desaparecer para não mais ser visto.

É o que acontece neste centro. Quem está à espera de o visitar esperando ver ali os lobos à sua espera, como se num jardim zoológico estivesse, sai desiludido com a visita. O respeito pela privacidade e pela tranquilidade dos rituais de vida deste animal é seguido à risca por estas pessoas que dão o seu coração para a recuperação destes magníficos animais, o que faz com que seja muito díficil e uma questão de sorte conseguir avistá-los no meio da folhagem.

Para além do Minho, outro caso grave neste centro foi a denúncia de um lobo que foi resgatado pelos voluntários duma situação de extrema malícia e ignorância. Este animal, depois de apanhado pelos pastores numa das armadilhas, perdendo uma das patas, foi entretanto amarrado por uma corda a um carro e puxado a alta velocidade pela terra fora para gáudio dos habitantes da aldeia. Ainda com vida e neste momento em recuperação na unidade hospitalar do centro, é mais um caso de um animal que nunca mais poderá ser socializado. A maior parte dos lobos aqui presentes nestas soberbas instalações , são animais que por uma razão ou outra são já incapazes de sobreviverem sozinhos no no seu habitat natural.
Numa sociedade de hierarquia vincada, o lobo pode ou não desafiar o macho alfa de determinada alcateia. Se o fizer e vencer, passa obviamente a ocupar o seu lugar sendo que o seu antecessor abandonará a alcateia. Se escolher não o fazer, então será ele que a abandonará. Foi o caso de Zimbro, o único lobo que consegui ver de perto num dos cercados e fotografei. Os lobos não conseguem sobreviver sozinhos e são normalmente estes exemplares que atacam as quintas e os rebanhos sendo que mesmo esta alternativa de conseguir alimento mais facilmente se está a tornar cada vez mais infrutífera graças à concorrência das matilhas de cães, tornados selvagens por abandono dos seus donos e que cada vez mais ocupam também eles o espaço natural do lobo.

A majestosidade, a imponência, a dignidade no olhar de Zimbro fazem-me quebrar e cair do cimo do meu pedestal humano e prometer não o esquecer.

Mamas: toda a verdade

- Estás com um olho negro! O teu marido bateu-te?
- Não, estive a saltar à corda sem soutien

Maude, série americana dos anos 80

Há coisas que os homens nunca poderão entender. Bom, algumas mulheres também não, mas isso é outra história. A questão é que alguns tipos de desporto são desagradáveis quando se tem um peito avantajado, o peso, volume e a força da gravidade não ajudam aos pulos, corridas e saltos.

Joanna Scurr, uma investigadora da Universidade de Portsmouth, dedicou-se a estudar o tema de um ponto de vista científico. Mediu a amplitude do balançar das mamas durante a prática desportiva; não sabemos o tamanho das copas nem a modalidade em causa, mas não podemos de deixar de ficar abismadas com as suas conclusões: "as mamas modernas podem balançar uns assustadores 21 centímetros aquando a prática de desporto. Ou seja, mais do que as antigas, que não ultrapassavam uns moderados 16 centímetros, segundo pesquisas anteriores."

Será que a mulher moderna tem mamas maiores que a antiga? Ou será uma questão de aumento de flexibilidade? Ou o efeito de estufa influenciou os clássicos 9.8 m/s2?

Também me intrigam as partes práticas do estudo: como terão feito as medições? Imagino um senhor de bata branca e régua na mão a correr ou a saltar ao lado do objecto em estudo, presumivelmente em topless.

Questões perturbantes, sem dúvida.

Gostava de ter posto o vídeo do final do Meaning of life, com um homem a ser perseguido por uma horda de mulheres em topless e capacetes, mas não o encontro. Se alguém fizer o obséquio de arranjar o link ficava a coisa mais compreensível.
Eu não sei como é que se chegaram aos números que suportam estas decisões. Apesar de tudo, quero crer que alguém, algures, ainda quer o bem do país e, de boa fé, presumo que as decisões sejam tão próximas quanto possível das que são precisas, mas fico sempre com a sensação de que se está a esvaziar o resto do país de bens essenciais como a saúde, a educação e serviços. Li no outro dia que, algures, uma criança chorava por ter perdido a escola da sua aldeia. Fiquei triste por ela....
A ideia de um país moderno, alfabetizado, desenvolvido, onde cada um tenha o seu lugar e seja feliz a fazer o que faz, é uma ideia que me persegue há anos e tento dar a minha quota parte para que se realize. O que nunca percebi é porque é que existe a ideia generalizada que, para isso, só há uns quantos - poucos - trabalhos dignos e que todos os outros resultam de falta absoluta de informação/formação e são quase degradantes da condição de homem moderno. Será que os meninos pastores, por também serem pastores, não podem ser felizes e não podem tomar a decisão de quererem continuar a ser pastores quando crescerem? Ou isso só é legítimo e de aplaudir para os urbano-desiludidos?

11 setembro 2007

Under pressure*

Como é adequada esta música ao meu momento... Not complaining!

*The Queen e David Bowie (1982)

Palavras sábias do meu irmão

Cada dia é um comboio que parte.

Conversa de balcão

- Ó senhor jacinto, sabe dizer-me quanto tempo demoro a chegar de carro a Benavente?
- Isso depende do pezinho da menina.

09 setembro 2007

Passeio náufrago

Incomodam-nos

Uma iniciativa do après midi d'un faune, a que se associaram os blogues câmara clara, respirar o mesmo ar, saisdeprata-e-pixels, sem-se-ver e nosotras.


O desafio era encontrar uma imagem que nos incomodasse, que nos trouxesse sentimentos desagradáveis fosse por que motivo fosse. As múltiplas pensaram, pensaram, reflectiram, discutiram, e chegaram a um consenso.




RATAZANAS!!! Incomodam-nos imenso, não apenas cruzarmo-nos com elas mas pensar na sua mera existência. É obvio que os seus congéneres alados, por inúmeras razões, estão no topo da nossa lista de imagens a abater.




Também nos incomodam muitas outras coisas, por exemplo, a maldade, a estupidez. Estes dois 'incómodos' são mais difíceis de fixar em imagens.

08 setembro 2007

Quem à janela

De cada vez que alguém morre num filme, numa canção, numa notícia, és tu que morres. Quando choro, e ainda acontece sempre, és tu. Agora que é a primeira vez que oiço aquele fado do Camané depois de o termos ouvido todos na Estrela e de ter tentado sem sucesso ouvi-lo sozinha, penso se algum dia terei esta saudade sem desesperar nela. Toda a gente prometeu que ia ser mais fácil e nada. Não é mais fácil. Nada na ideia da tua ausência é mais fácil. Tu morreste. E de cada vez que me lembro disto só piora.

07 setembro 2007

06 setembro 2007

Nessun Dorma


É impossível ficar indiferente a esta notícia. Hoje calou-se uma das vozes mais poderosas do bel-canto. Luciano Pavarotti popularizou um género musical considerado elitista e espalhou a sua voz pelos quatro cantos do mundo, cantando com tantos outros cantores, aproximando gerações e estilos musicais.

Em baixo, a sua interpretação da área Nessun Dorma (Turandot, Puccini).


Gäldenär, det kommer alltid tillbaka*

Este post é dedicado ao nosso leitor sueco, que nos tem sido diariamente fiel. Graças a ele/a descobri várias coisas interessantes sobre a Suécia: é o terceiro país com mais nóbeis da literatura, a última guerra em que se meteram foi a Campanha contra a Noruega em 1814, é o país da OCDE em que mais se registam faltas ao trabalho por licenças médicas (1/5 da população), os finlandeses são a maior das minorias e não têm língua oficial.

Gostava de pensar que é o pai natal, a controlar-nos da Lapónia, para nos mandar grandes presentes em Dezembro (se és tu, não te assustes com os pombos nem te acanhes com o exaustor, atira pela janela que eu não me importo). Ou então o cozinheiro dos marretas, a verificar que a minha relação com a gastronomia é semelhante à sua com a linguística. Desde que não seja o Bengt Ekerot à nossa espera lá do outro lado, está tudo bem.


* pedimos desculpa pelos erros na tradução, imputáveis à única página online disponível para a conversão português/sueco que encontrámos

Fatalidade faducha sobre o destino da Nação

"Pátria
Até onde estamos dispostos a ir como Nação em relação a esta tendência de calçar chinelos em todo o lado? " In Voz do Deserto


Se a Nação só quer mesmo ir à praia ou andar por casa, é trágico. Se a Nação crê mesmo que pode ir a mais algum lado de chinelas, mais trágico é.

05 setembro 2007

analogias de feira



Descobri que a vida não é muito diferente dos carros de choque. Às vezes não tenho ficha e fico só a olhar os carros que passam, os gritos e sustos e caras dos que vão lá dentro, a invejar secretamente a velocidade e o medo e o riso, quase feliz na segurança de quem está só a ver só a olhar só a assistir, de quem sabe que não vai acelerar não vai bater não se vai magoar. Outras vezes, dou por mim lá dentro, o medo nas mãos e nos olhos e no sorriso com que disfarço o precipício de estar ali, a incerteza do que poderá acontecer na próxima curva que acabou de chegar.

04 setembro 2007

Despertares

Acordo e deixo-me ficar esparramada na cama, com o lençol para trás e com a pouca roupa com que durmo. Ainda estou a decidir se me apetece estar hoje no mundo quando me batem à porta, quase levemente, sem usar a campaínha. Ignoro, insistem. Lembro-me que sou administradora do condominio, pode ser alguma coisa importante, vou ver quem é. Espreito e vejo duas raparigas orientais, que não são minhas vizinhas. Arrisco perguntar quem é. "Abra a porta". Perante tal quase ordem hesito, quererão vender-me máquinas de costura a 5€ ou três camisolas por 10€? Quem é? Queremos falar consigo. Irritam-me pessoas que me batem à porta e querem falar comigo, digo-lhes que não estou vestida mas isso parece acender-lhes uma qualquer gana lá dentro "Somos coreanas. Acredita em Deus?"

Coreanas missionárias, não me faltava mais nada. Repito, não estou arranjada e não o vou fazer para falar de Deus convosco, bom dia. Não sei o que lhes terá provocado a ira, se a falta de roupa ou o ateísmo, mas desataram-me às batidelas à porta como umas loucas. Se fosse há uns meses atrás ter-me-iam causado uma apoplexia.

03 setembro 2007

Just like a rolling stone

Cate Blanchett, Heath Ledger, Christian Bale, Richard Gere, Ben Whishah e Marcus Carl Franklin. O que têm em comum estes seis actores norte-americanos? Somente o mais recente filme do realizador Todd Haynes, onde se juntam para interpretarem seis fases distintas da vida do lendário cantor e compositor Bob Dylan.
"I'm not there", foi o título escolhido, uma referência a um tema que faria parte do album, "The basement tapes (sessions)" mas que acabou por ficar de fora das gravações de estúdio podendo ser apenas encontrado agora nas versões bootleg.
A saída do filme está prevista para Novembro deste ano e o trailer já está disponível. Ainda por definir se "I'm not there", vem acrescentar algo de novo a uma biografia já usada e abusada do ícone Dylan, este novo trabalho de Haynes parece ir mais de encontro a uma representação artística e despretensiosa de pequenos momentos cruciais, na vida do herói que ofereceu, sobretudo, as palavras necessárias a uma geração envolvida seriamente na revolução das mentalidades.
Um trailer que revela uma fotografia de intenção quase documental que permite que nos envolvamos sem dificuldade e a caracterização exímia dos actores, principalmente da assombrosa e versátil Cate Blanchett, são os primeiros doces a sair do saco. O resto também parece prometer.

O nosso preço humano em euros

Um site, pelos vistos a fazer furor na Europa e nos Estados Unidos, onde através de um inquérito, é possível calcularem o nosso preço. Os critérios de avaliação escolhidos não têm, por exemplo a ver com o nosso grau de frescura ou prazo de validade como acontece num mercado mas de qualquer maneira, fiquei a saber que se não me ponho a pau, qualquer dia faço parte do caixote dos legumes que vão alimentar as pocilgas pelo país fora, em Português vulgar, "Daqui a nada tou a ir com os porcos."
Assim, fiquei a saber que valeria muito mais em euros se fosse, loira, de olhos verdes, alta, magra, atlética, homem alto, ganhasse um grande ordenadão, não fumasse e tivesse menos de 30 anos.
Fiquei também a saber que muitas pessoas se entregaram a este hobby de corpo e alma e que a todo o custo tentam melhorar certas facetas da sua vida para poderem concorrer com melhores valores monetários contra amigos e colegas de trabalho. Só não faço ainda ideia é se já andam todos com a sua etiqueta de preço ao pescoço. Se assim for, como é que será nos meses de saldo?

Apanharam-Nos

Que as oitoecoisa são muito boas já tínhamos assumido. Agora vem a revelação bombástica do século: meninas, somos umas deusas. E nem sequer é uma auto-proclamação, há uma entidade que faz publicidade no gmail que nos trata assim: "Preparamos-Te para trabalhar em creches e infantários".


(pronto, já arranjei a imagem)

viva a vida alegre e divertida

e quando tudo se compõe num crescendo de pequenas e grandes dificuldades (a máquina que avariou, a cabeça que voa supersónica sem conseguir aterrar) descubro mais uma alegria: uma multa de € 60 por ter circulado a 57 km/hora (cinquenta e sete cinquenta e sete) no túnel do marquês.
bem vinda à vida, alegre e divertida.

De volta ao trabalho

E assim acabaram as maratonas diárias do acorda, dá um biberon, tira a fralda e põe no bacio, dá biberon à outra, veste um fato de banho e põe protector, muda mais uma fralda, volta a pôr no bacio, muda uma t-shirt bolsada, arruma o saco da praia, acaba de vestir uma e dá colo à outra porque os décibeis são demasiado altos, põe o Zig Zag na RTP 2, toma café, faz sandwiches, põe a arrotar mais uma vez, lava dentes de leite, faz a cama, arruma as roupas espalhadas pelo quarto, ferve biberons, lembra da garrafa de água fresca, faz outra cama, come um bocado de pão, dá umas bolachas do Noddy, faz ainda outra cama, tenta ir à casa de banho sem interrupções, explica que o Mundo de Todd não passa na TV quando se quer, lava dentes definitivos, tenta arranjar-se com alguém ao colo, pensa se falta alguma coisa no saco, tenta acalmar a fera antes de sair, diz que não pode ter duas ao colo, põe gel nas gengivas a rasgar, tira roupa com chichi, põe no bacio e fica à espera para ver se sai cocó, embala e consola, veste outra vez, esquece de pentear, dá água, desiste de calar a mais nova e deixa-a a berrar, acarta tudo para o carro e finalmente fuma descansadamente um cigarro naquele breve intervalo até chegar à praia....
Ai, como é bom o meu cubículo no sótão do edifício onde trabalho, mais a minha mini-janela virada para uma empena cega, mais a luz fluroscente de casa de banho e as toneladas de papel em cima da mesa. As férias começaram!!!

oferece-se

dois braços funcionais, duas pernas capazes, uma cabeça que já viu melhores dias mas que cumpre os mínimos,
versátil no desempenho de tarefas (desde que afastada de uma tábua de engomar ou do atendimento ao público)
para trabalhos diversos
aceitam-se propostas

Andor de surf

procissão de nossa senhora da praia, hoje à tarde.

02 setembro 2007

Cenas da vida conjugal (iv)

[mais um jogo de futebol, deixa lá ser simpática desta vez]
- Querido, o que é que estás a ver na televisão?
- Estou a ver se o Belenenses ganha ao Sporting...
[Grrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr! não há condições para ser simpática. Vivo com um benfiquista. É um karma, é uma sina, é uma maldição que carrego!]

Lições do abismo*


Por vezes é preciso tê-las, de modo a não esquecer a atracção pelo vazio, à espreita, lá em baixo.

[* de uma frase de Jules Verne 'parfois il faut prendre des lessons d'abîme'.]

01 setembro 2007

O defeito

A Júlia inventou o Artur. O Artur é o homem perfeito, ela já lhe fez a história de vida antes e depois de a conhecer. É divorciado, tem três filhos, é arquitecto. Os filhos são amorosos e dão-se muito bem com ela. O Artur tem imensas qualidades - é generoso, companheiro, amigo, bom ouvinte, bom pai, sensível, diz a coisa certa na altura certa, tem um sentido de humor genial, adora rir, sabe quando deve calar-se, gosta de coisas bonitas, é um amante dedicado e criativo e doce e gentil, adora andar descalço na praia. O Artur dá os melhores abraços do mundo. O Artur não gosta de futebol. O Artur é um excelente cozinheiro. Ele respeita quando ela gosta de estar sozinha. O Artur tem uma voz...

Só há um pequeno problema: não conseguiu decidir quais são os defeitos dele. Ainda não chegou a um consenso sobre quais os defeitos com os quais ela conseguiria viver feliz para sempre.

Olha que coisa mais linda!


Está uma rapariga muito descansada no areal da praia, quando começa a reparar num alvoroço crescente entre os veraneantes: levantam-se, apontam com o dedo, tapam o sol que lhes bate no rosto com a mão e põe-se tudo a olhar para cima. Faço o mesmo e eis senão quando o vejo a espalhar charme e graça em pleno céu quase-de-Lisboa.
Aaaaaaaaaaah, a beleza existe!

31 agosto 2007

A minha "second life"

"Trata bem deles!" Com este pedido transformado em ordem a minha filha despediu-se de mim para uns dias de estio com sabor a fim de férias. Os "eles" que eu devo, durante três dias, bem acarinhar são uns encantadores cãezinhos de raças diversas, um do sexo masculino e duas fêmeas. "Eles" necessitam de atenções várias: o pequeno almoço "X", o almoço "Y", o jantar "Z", tudo para que se mantenham hábitos alimentares sadios. Precisam de pelo menos um passeio diário e festas, muitas festas.
Cumpri a tarefa, não sem que algum sentimento de incompetência se apoderasse de mim. Afinal, isto de mexer em botões é muito mais para as novas gerações do que para mim, considerada já uma cota. Mas cumpri e, ao que parece, bem! A "Nintendo DS" onde estes bichanos convivem assim o diz, para gáudio meu.
A dona dos cães regressou a casa. Com ela, um sentimento de ausência. Dou agora por mim a perguntar:"Já trataste dos teus cães?!" , "Levaste-os a passear?!". Emudeci de horror perante a notícia: "Mãe, vendi a Chipsie; ela não obedecia nunca!"

Portugal

Tem figurado no interior de várias publicações um anúncio de página inteira, chancelado pelo Ministério da Economia e da Inovação, onde podemos ficar a par das virtuosidades lusas no que aos recursos energéticos diz respeito. Para além dos diversos motivos de orgulho, que muitos de nós desconhecemos (e que não ficamos a conhecer melhor) é a imagem que constitui a minha indignação e que, à falta de meios técnicos para a publicar, passo apenas a descrever. Sobre um maravilhoso fundo azul, uma Europa Ocidental verdejante e um "Portugal" contornado a branco. E não é que Madeira e Açores não constam? Caso para dizer: e esta, hem?!

30 agosto 2007

Canção simples



Uma música que faz parte do meu Verão. Não há estação de rádio que não a passe e/ou a tenha passado. Nos lugares mais improváveis consegui ouvi-la, transmitida em AM ou FM Stereo.

Fazes muito mais que o sol, diz a canção. É verdade (digo eu).

portugal no seu melhor




Coisa bonita de se dizer

Some people say that I want you for your money but I really want you for your body. Pleased to meet you baby, I wanna to be your honey, so let's go tell your daddy and mommy. And this won't get any easier now that your heart is beating in my hand. And I'll try not to destroy you, baby, even though we both know I can. You know I can.
E não é que já foi dito? É ver no my space - não no meu, no delas, das meninas, das irmãs, das giras The Pierces.

29 agosto 2007

Terra à terra

O que é um pedaço de terra com outra tanta terra por cima? Terra. O que restará dos despojos dessa terra quando passarem os anos que estão estipulados pelo cemitério? Há quem diga pó, eu digo terra.
- Estou menina ----?
- Sim, sou eu.
- Vamos levantar a sepultura.
- (...) Não vou vou estar presente.
- Compreendemos, menina. Telefonaremos mais tarde.
[driiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiimmm]
- Estou?
- Lamentamos, mas o corpo ainda não estava 'pronto'.
- E agora?
- Agora, só daqui a seis anos o levantaremos novamente.
- Vai continuar no mesmo lugar?
- Sim, no mesmo lugar.
Ontem senti-me absurdamente rídicula com as flores na mão. 9 anos depois e ainda consigo ouvir o barulho daquela rosa a estatelar-se contra a madeira.

Bares da minha aldeia

Na aldeia onde estou a passar férias há uns quantos bares que competem a parca população veraneante entre si, tendo de recorrer aos mais variados truques de marketing, em geral de uma sofisticação arrasadora.

Há um bar que se chama tolomeu. É giro, perspicaz, de uma sagacidade histórica a lembrar a nossa tradição atlantica. Imagino que o dono seja um senhor de meia idade, bonacheirão, que gosta de futebol e cerveja, e que diz de si mesmo que é um tipo divertido e se ri muito das suas próprias piadas. Se alguém não lhe acha graça acrescenta "estou na reinação".

Noutro bar recentemente remodelado, com paredes coloridas e tectos de betão tapados por palhinhas, a querer fazer pensar que estamos nas caraíbas e não na terra balnear mais gélida de Portugal, usam uma sinalética sui generis para indicar o género a que se destina cada uma das casas de banho. Parei na antecâmara entre as duas, olhei atentamente. A das meninas tem muita borboletas pintadas, nas paredes e no quadro com um S enorme; a dos meninos apresenta uma pila com os respectivos apêndices reprodutivos de proporção a indiciar uma fertilidade transbordante, encimados por um par de asas, que se multiplicam ao longo das paredes. É bonito e subtil, pirilaus alados a instigar as hormonas dos que se livram dos restos da cerveja. Só não entendo que tipo de pudor os impediu de alar um pipi, para a sinalética ser mais coerente.

Modernices

Jantar familiar diário, 16 pessoas à mesa entre os 14 e os 89 anos. Vantagens de ter uma casa grande para passarmos férias todos juntos.

Uma prima conta que a caminho do cinema no centro comercial encontrou numa loja aparentemente normal (seja lá que isso for) um kit sado-maso, que incluia venda, algemas e mini chicote. O adolescente que ouviu tudo atentamente perguntou interessado: também tinha um capuz com fecho éclair na boca? Todos se calaram e ficaram a olhar para ele de boca aberta.
"onde é que tu viste isso?"
"duh, já ouviste falar da internet?"
"sim, é aquela coisa que tu não vais voltar a ver durante os próximos 5 anos"

Dia um

É o que antecede o dia dois. As horas são elásticas, umas muito grandes e outras muito pequenas. Nas maiores, vou dar uma volta de bicicleta, ouvir a senhora que está sempre a falar de coisas muito antigas e outras nem por isso, vou mergulhar no mar gelado ou pôr ordem nas letras que se amontoam em páginas e páginas que nunca mais acabam. E assim chego ao dia dois. O que me lixa é que isto dos dias nem sempre segue a lógica numérica. E não encontro uma gaiola onde os possa arrumar.

27 agosto 2007

SOS animal amigo

Há uns dias houve um incêndio enorme em Sintra, enquanto os bombeiros tiravam água das piscinas dos burgueses os pobres gritavam para os telejornais. Os ricos pagaram a crise e o fogo foi circunscrito (adoro esta expressão) e depois finalmente apagado.

Hoje recebi um mail alarmante. Parece que o gabinete médico veterinário da Câmara de Sintra está à brocha com uma quantidade não especificada de cães, gatos, periquitos, hamsters, coelhos, ovelhas e mesmo cavalos (tudo no plural) que foram resgatados da zona.

Pede-se às pessoas que façam o favor de irem buscar os animaizinhos. Não creio que seja possivel não se dar pela falta de uma vara de porcos ou um rebanho tresmalhado.

O telefone é 219238816, manda a mensagem o SOS animal.

Festas

fotografia do Filipe


Qualquer pretexto é bom, desta vez uma venda de garagem. Juntamo-nos todos, comemos, bebemos, conversamos, dançamos até cair. Duas ou três de nós tiramos sempre os sapatos a meio da noite, e comparamos escuridões nas plantas dos pés no fim da festa. Rimos, abraçamo-nos, dançamos a dois, a três, aos pulos, com passos combinados ou cada um para o seu lado. Cantamos. Os vizinhos tocam à campaínha, baixamos o som. Aumentamos de vez em quando. Bebemos, comemos, fumamos. É bom ter amigas/os assim.

26 agosto 2007

verão

queria escrever sobre não sei bem o quê, o verão que afinal não é, o último filme de não sei quem, o mundo que continua a girar apesar de tudo o que acontece dentro dele. Nunca percebi por que razão não há alguém com muita razão que chegue um dia a um ponto qualquer da Terra e diga alto e pára o baile, isto assim não pode continuar, e de repente a Terra parasse de girar em volta de si mesma e em volta do sol, e de repente todos (milhões e milhões) percebessem que do meio do nada havia alguém que visse toda esta confusão, todo o ar que se respira, toda a nêspera e figo e arroz que é engolido e devolvido sob outra forma à terra de onde veio, todas as noites mal dormidas e os suspiros e as dores e as lágrimas, alguém que visse tudo isso e nos soubesse chamar à razão e nos fizesse ver (milhões e milhões de eus e nós) que tudo isto não passa de qualquer coisa que eu ainda não sei o que é.

palavras sábias do meu avô

vocês são é todos uma cambada de malucos, irra!

O regresso do lápis azul


Ele olhava e esperava. Ninguém escrevia mais nada. Estava só ali aquela música que apela a coisas inomináveis. Ele ficou impaciente. Esperou mais um bocado. E resolveu que tinha de regressar. Com tanta personalidade múltipla, será que ninguém faz a fineza de mudar de assunto?

23 agosto 2007

Tanto rio


Vale a pena percorrer e conhecer os cursos dos rios para perceber que não temos apenas uma vocação atlântica e água salgada onde refrescar o corpo e as ideias. Este ano foi o que fiz e fiquei encantada. Aqui ficam as ligações para o ICN e para a recente rede de praias fluviais, excelente alternativa aos destinos litorais e/ou meridionais.

21 agosto 2007

Mais vale tarde...


À querida múltipla que se escuda atrás do felino, muitos parabéns - vergonhosamente - atrasados!

Gineceu

Chegaram no sábado à casa de madeira no meio de pinhal, todas gostavam umas das outras embora se conhecessem de formas diferentes. Já se tinham encontrado algumas ou bastantes vezes ao longo da vida em diversas situações e de cada vez redescobriam-se, olhavam-se, contavam-se, pensavam-se. Trouxeram para dentro da casa as suas vidas, deixaram mágoas e realçaram alegrias em cada pincelada dos vernizes coloridos, apagaram lembranças dolorosas com a acetona, com todo o cuidado para não manchar a mesa da dona da casa, e corrigiram imperfeições do carácter removendo cuidadosamente a pintura que se espalhou aos dedos. Dançaram freneticamente from Buraka to the world, saboreando ecláires de chocolate falaram da múltiplas potencialidades das masturbação feminina, trocaram receitas, felizes com as novas surpresas que poderiam vir daí. Fizeram uma corrida a pés juntos até ao carro empurrando o vento e a puta da vida, lançaram as cartas do Tarot esperando ver nelas alguma coisa que as ajude a perceber melhor a vida que é tão dura e elas que são tão molinhas, mergulharam na autoterapiagrupalpessoalecósmica introspectiva. Soltaram o riso, a gargalhada, os sorrisos, e com eles decoraram a casa transformando as paredes de madeira envernizada em cenários luminosos e coloridos. E foi assim que também contaram as suas vidas e as suas tristezas, deram rédea solta ao choro, deixaram-no ir a galope sem destino, deram forma com as palavras ao que pesava disforme no coração e confirmaram os seus desejos, sonhos e possibilidades.
Na primeira segunda feira de manhã cedo do resto das suas vidas despediram-se. Como guerrilheiras pacifistas, partiram em direcção à revolução das suas vidas quotidianas, e depois de acalmar o riso, inspiraram profundamente desde os seus plexos solares, sentiram-se, ajustando o centro do seu ser ao centro das mudanças que aí vinham, vêm, chegaram.

20 agosto 2007

Podia-me acontecer a mim



Depois de me rir durante 10 minutos, vou arrumar a casa.

A quem de direito

Na esquina da rua 54 com a 7ª avenida, Manhattan.

Há algo de terrorista nas mulheres despeitadas que me faz suspirar de alívio por ser heterossexual.

19 agosto 2007

Cos'è la destra, cos'è la sinistra*

Os farmacêuticos são feios, porcos e maus. Acabemos com o monopólio, ´bora aí vender os medicamentos não sujeitos a receita médica por todos os lados a ver se eles aprendem, vendemos como serviço à comunidade e toda a gente engole. Toma lá que já almoçaste, pimba na Amélia.



Vou ali beber uma água das pedras e já volto.

* gamado ao Giorgio Gaber

18 agosto 2007

El feo guapo


Por este até jantava favas guisadas com vinho verde e arroz doce à sobremesa. Como parece que está ocupado esta noite, como carne assada com arroz e salada, pêssego careca e um filme. A perfeição não existe.

Ansiosa e muito deprimida

A polícia quer perceber o "fenómeno de uso de drogas na condução". "Percebendo esse fenómeno, cada vez mais gerador de acidentes, podemos também reduzir a sinistralidade", frisou Ascenso Simões, secretário de estado da administração interna. Eu, ingénua me confesso, pensava que o que aumentava a sinistralidade no nosso país eram os nabos e os aceleras, afinal são os agarrados. Adiante.
O novo kit que a brigada de trânsito possui para testar o suor e saliva dos automobilistas tem capacidade de detecção de drogas e seus metabolitos; quem se recusar a fazer o teste (é um direito que assiste a qualquer cidadão, relembra-nos o major Lourenço da Silva) ocorre no crime de desobediência qualificada. Não sei qual é o prémio que toca na rifa ao engraçadinho que o tentar.
Se for testado e acusar, fica sem carta e sem dinheiro. Ou seja, vai para o Instituto de Medicina Legal ou para um qualquer estabelecimento público de saúde, para averiguar o seu grau de agarranço.
Já estou a tremer por esta altura. Mas o que mais me intriga é que esses testes detectam as ditas substânicas até 3 dias depois de serem consumidas -e todos nós sabemos que o efeito que provocam no corpo humano não dura tanto.
A saber:
Portanto, a polícia não vai andar tanto à caça de quem conduz under the influence, mas sim a fazer um rastreio dos consumidores - da última vez que olhei, o consumo de drogas é despenalizado no nosso país. Pelos vistos não.
Caso mais caricato vai para as benzodiazepinas, que na maioria dos casos é tomada sob receita médica e em doses que não afectam a capacidade de condução. Até parece que anda um certo berbicacho entre autoridades, já que o Instituto de Medicina Legal diz que mandou a BT ignorar a presença de antidepressivos e ansiolíticos e o Ministério da Administração Interna diz que vai tudo a eito.
O que é que eles querem de nós?

16 agosto 2007

Um ar de Sexo e a Cidade

Esta fase de vamos-não-vamos-apaixonamo-nos-ou-não tem, comigo, esta chatice de:

- Então, o que é que fazemos hoje? (ele)
- Nada?... estava a pensar ir para minha casa fazer as minhas coisas... (eu)
- Ah... (ele com cara de cão abandonado à beira da N125 no Verão)
- Não é que não me apeteça estar contigo, apetece... só que estou um bocado cansada (eu a segurar-me para não dizer que não somos casados, que tenho problemas com a intimidade assim de repente e que achava que toda a gente tinha)
- Pois... queria estar contigo... gosto de estar contigo... (ele a tentar qualquer coisa que eu não percebo bem o que é, dado que já lhe expliquei 300 vezes que gosto de estar sozinha)
- Amanhã? (eu a ser amorosa, a evitar ser insuportável e a tentar mostrar que não é que não queira estar com ele, que quero, só que me apanhou numa altura esquisita e eu não sou capaz de me atirar assim de repente para uma coisa de responsabilidade como uma relação boy meets girl and live happily ever after - para além de achar o género piroso até mais não)
- Está bem... (ele)
- Boa. Então até amanhã. (eu a gostar da compreensão dele)
- Mas é que... (ele)
- ... (eu a pensar: "Mau, que isto estava a correr tão bem, para que é que temos de estragar tudo? Hein? Para quê?")
- ... se não estivermos juntos não nos vamos conhecer... (ele à procura de um argumento qualquer... e a sair-se com este... mauzinho)
- Vamos, vamos. (eu, sem convicção, a tentar que ele acredite que o quero conhecer melhor, claro que sim, mas não de repente. Menos é mais?)
- Não gosto muito desta sensação de que ando atrás de ti... (ele a querer revoltar-se, dando a entender que tenho de ter cuidado, ou vai-se embora - e, pronto, se isso acontecesse de facto era uma pena, que lhe acho muita graça)
- Mas não tens de te sentir assim (eu a segurar-me outra vez, desta feita para não lhe dizer que sim, anda atrás de mim, mas que até gosto)
- Então vale a pena? (ele ansioso que até dói)
- Vale, vale. (eu a morder a língua para não dizer: "Vale tudo menos tirar olhos.")

15 agosto 2007

Prazeres

Fechada em casa em Agosto enquanto quase toda a gente está de férias ou a trabalhar nos respectivos empregos. Sozinha em casa, enfiada no escritório, a acabar um trabalho há demasiado tempo protelado. Chega a angústia, o cansaço, a tentativa de procrastinação. Mas não há muita volta a dar-lhe.
Hoje descobri um novo prazer que me posso oferecer mesmo sem sair da frente do computador. Comprei uma cadeira de trabalho, daquelas giratórias com rodinhas em baixo, muito confortável para passar aqui o dia inteiro. De repente recolhi os pés, fiquei de cócoras em cima do cabedal preto, e comecei a fazer-me andar à roda dando impulso com a mão na secretária. Fiquei nisto uns minutos, a ter um prazer incrível com isso. Primeiro visual, ver as coisas todas a passarem-me à frente, sem que os olhos tivessem tempo para processar nitidamente o que viam. Depois fechei os olhos, redescobri a posição das orelhas na cabeça, começando a ouvir a ventoinha do computador do lado direito, depois em estéreo, e a prolongar-se pelo ouvido esquerdo.
Reabro os olhos, sinto-me tonta. Estou feliz.

14 agosto 2007

E se fossem as nossas mulheres?

"Nenhuma disposição legal ou humanitária autoriza a tortura, mesmo em condições de guerra. Talvez por isso, o "Military Commissions Act" dos EUA (de 2006) exclui efectivamente a violação da definição de tortura. A lei, propugnada pelo presidente Bush, exige prova específica da intenção de cometer tortura. Mas a motivação é muito difícil de provar nos casos de agressão sexual porque o acusado pode sempre dizer que a motivação era a satisfação sexual e não a tortura. A lei limita a noção de violação à penetração sexual (na lei internacional e na maior parte dos Estados dos EUA adopta-se uma definição mais abrangente). A nova lei também condiciona a agressão sexual à existência de contacto físico, excluindo assim muitas formas de abuso sexual que as forças dos EUA cometeram no Iraque, como a desnudação forçada e as ameaças e humilhações sexuais. Segundo esta lei, só a penetração coercida e pela força é considerada violação. Deste modo, as fotos da investigação do general Taguba de um polícia militar estadunidense "a fazer sexo" com uma mulher iraquiana não seriam prova de violação, pois não estabelecem necessariamente a coerção. No entanto, as leis internacionais e dos EUA reconhecem que a violação ocorre sempre que a vítima não dá o seu consentimento livre e voluntário. Numa relação sexual caracterizada por uma extrema disparidade de poder (tal como entre um guarda prisional e um detido) o consentimento torna-se um conceito nebuloso. A nova lei de Bush, por isso, autoriza efectivamente a violência contra as mulhares pelas tropas dos EUA."
noticia daqui, original em inglês aqui

E se fossem as nossas crianças?

Ahmed Ghazi, comerciante em Faluja, tem fracas razões para armazenar brinquedos inocentes na sua loja. “É melhor importarmos brinquedos como armas e tanques porque no Iraque são mais vendidos aos rapazes, diz Ghazi à IPS. “As crianças tentam imitar o que vêem das suas janelas”. E acrescenta haver também importações especiais para as raparigas, “que preferem bonecas que choram do que outras que dançam, cantam canções ou tocam música.” (...) Nos princípios de Abril de 2003, o Fundo das Nações Unidas para as Crianças estimou que meio milhão de crianças iraquianas estão traumatizadas pela invasão levada a cabo pelos Estados Unidos. A situação tem piorado terrivelmente desde então.Num relatório publicado no início do ano pelo Ministro da Educação do Iraque, constata-se que foram mortas 64 crianças e 57 ficaram feridas em 417 ataques a escolas, num período de quatro meses. Ao todo foram raptadas 47 crianças no seu caminho de ou para casa, durante este mesmo período.

13 agosto 2007

Não se pode pedir mais de um pai

Meu amor querido, minha filha adorada, tenho muito orgulho em ti e em tudo o que fazes. Desejei-te tanto, fiz-te com tanto amor, que se não fores feliz sentir-me-ei culpado por te ter posto no mundo.
- no meu voice mail esta tarde.

12 agosto 2007

O Jorge

Na porta de um dos apartamentos do meu prédio coabitam uma imagem de Nossa Senhora de Fátima com um autocolante que diz não à entrada da Turquia na União Europeia. Gente estranha, pensei eu quando vim para cá morar.

Descobri que quem lá vive é uma senhora com mais de 90 anos que anda sempre sozinha. Muito magra e tímida, encolhe-se toda quando alguém passa por ela, quando a cumprimento na rua não me responde - não me deve reconhecer fora do contexto. Passa muitas horas sentada num banco do jardim em frente ao prédio, gostava de saber no que pensa. Por vezes quando me responde aos bons dias sorri, e nesse sorriso descubro uma alegria quase infantil, e imagino-a de tranças a andar de baloiço. Presumo que a santa mãe seja dela, a declaração de ostracismo de um qualquer neto ou sobrinho.

Um dia vi-a entrar com um rapaz volumoso, moreno, bigode, com um ar malandreco e autoritário. Sem dúvida o autor das afixações, que entretanto tinham aumentado com a publicidade a um campeonato de kick boxing, onde se mostravam 4 galfarros em poses ameaçadoras e possantes. Informação sem dúvida utilíssima aos 8 inquilinos do edifício.

Quando estava a tomar chá em casa dos únicos vizinhos da minha idade descobri que a D. Madalena de seu nome não tem netos e que os autocolantes se devem ao Jorge. Eles vivem mesmo em frente dela e um dia o Jorge começou a aparecer lá por casa. De início a D. Madalena dizia que era o seu sobrinho, e passado uns tempos começou a referir-se a ele apenas como “o Jorge”. O rapaz começou a ser visita habitual.

A senhora que era assídua nos pagamentos do condomínio e seguro começou a ser menos pontual e a acumular dívidas. Um dia a falar com esta vizinha disse “sabe, comecei a ter umas despesas extra. O Jorge acha que eu devo ter telefone, TV cabo, internet... começámos a fazer umas viagens, que o Jorge diz que a vida é para aproveitar enquanto cá estamos... além do mais, coitadinho, precisou de fazer uma operação à vista e como ele não tinha dinheiro eu paguei-lhe. A vida é para aproveitar, sabe”.
Depois da operação à vista o Jorge começou a aparecer menos. A D. Madalena continua a passear sozinha. A vida é para aproveitar enquanto cá estamos.

Leões, crocodilos, búfalos e as suas crias

Ver documentários sobre os animais selvagens é sempre educativo; o que vem em baixo é de tal forma insólito no panorama a que estou habituada que não posso deixar de o mostrar.
Uma manada de búfalos passeia-se ao longo de um lago, sem perceber que estão a caminhar na direcção de um grupo de leoas que os espera. A poucos metros de distância o líder do grupo sente o cheiro dos predadores, pára e começam todos a fugir, perseguidos pelos felinos - que atacam uma das crias, conseguindo arrastá-la até à beira do lago enquanto os outros búfalos fogem como podem.
O grupo de 5 leoas domina o búfalo, abocanhando-o pelo pescoço e arrastando-o para a água; mas o cheiro de sangue atrai um crocodilo que tenta roubá-lo. Todos os leões se juntam para arrastar o almoço que ainda esperneia para fora da boca do crocodilo, que sendo apenas um não tem força para ganhar esta luta.
Enquanto os leões tentam sangrar o búfalo até à morte, a manada reorganiza-se e decide voltar atrás para reaver a cria caçada, aparecendo em bloco e encurralando os leões. Num ataque de fúria bem pensado e orquestrado, coisa que nunca antes tinha visto, os búfalos conseguem livrar a sua criatura das garras dos atacantes.
Os leões ganharam aos crocodilos, mas os búfalos ganharam a todos. A prova de que a união faz a força. Ou de como ser búfalo não significa que se deixe comer pelos leões. Pelo menos não hoje; amanhã, bem, logo se vê.

11 agosto 2007

Estes são os meus avós

Tenho grandes preocupações em ser politica e socialmente correcta, livre-me Nossa Senhora dos Aflitos de ofender quem quer que seja. Por isso vivo atenta às novas regras que vão surgindo e procuro aplicá-las sempre e em todo o lado.


Hoje apeteceu-me falar dos meus avós, e queria uma fotografia para os ilustrar. Mas, graças à Shyznogud, descobri que não os posso mostrar de qualquer maneira, existe toda uma lista de imagens a evitar - nomeadamente as que dizem respeito aos mais velhos. A saber:



Persons who are older: Images to avoid



Assim sendo, não me resta que este desenho

(eu sempre desconfiei que ser graficamente desafiada me haveria de ser útil um dia)

Canino

O que separa o desejo de infidelidade e a sua concretização é a capacidade de arriscar. Em geral aprecia-se num cônjuge o virtuosismo da palavra e acção, mas quando toca à traição todas preferem dormir com um enconado que com o infiel. O mundo é feito de contradições.

08 agosto 2007

Desespero doce ou doce desespero

Do I kid myself to think that I'm your one 'n only?

06 agosto 2007

Verdade ou Consequência

Para onde foste quando desapareceste?

03 agosto 2007

Sedução na Lisboa à Noite

Para que não haja mais desculpas sobre a falta de livro de instruções do sexo oposto e a falta de oportunidade para encontrar alguém mais especial, ou mesmo que não seja especial, só alguém, há uma alma caridosa disposta a acabar com essa situação ingrata e ensinar "comportamentos de sedução heterossexual (sujeitos entre os 18 e os 25 anos) em contexto urbano nocturno, festivo, com incidência na exibição corporal, nas fantasias privadas, na sedução verbal e na passagem ao acto através de carícias e de beijos. Será apresentada uma análise dos diversos discursos femininos e masculinos sobre as experiências sexuais pessoais, bem como uma análise psico-sócio-histórico-cultural das transformações na estrutura conjugal. Estas análises serão seguidas de uma interpretação das mudanças relativamente aos comportamentos vividos em contexto nocturno." Ver aqui.

Os destinatários deste curso são "Estudantes de Antropologia ou de outras áreas, público em geral" que também terão direito a visita guiada ao "Bairro Alto, Docas de Alcântara, Rocha Conde d`Óbidos e Belém, seguida de reflexões sobre a estadia nesses contextos."

Eu sempre disse que agora é que tinha idade para saber estudar!!

O tempo sem tempo

Ministro quer creches abertas até mais tarde. (..)Para reforçar a sua posição, Vieira da Silva apontou o exemplo de uma creche que visitou recentemente em Vila Nova de Cerveira: "Visitei uma creche que estava aberta das sete da manhã até as dez noite e estava cheia", disse para justificar a necessidade que os pais sentem em contar com um serviço mais alargado. A maioria das creches praticam horários até as 18 horas, sendo que algumas, funcionam até às 19 horas, mas cobram uma taxa suplementar.

Enquanto o ministro se alegra por uma creche estar aberta e cheia até às 10 da noite e quer alargar este medida a outras creches, a mim aterroriza-me esta notícia e a falta de sentido crítico sobre ela. Porque será que os pais têm de trabalhar tanto que não podem estar com os seus filhos e filhas? Às 10 da noite já uma criança deveria estar supostamente a dormir, mas em vez disso ainda está na creche, certamente acompanhada por uma auxiliar mal paga, com filhos que (com sorte) também lá estão à espera que a mãe saia.

Continuamos a fazer a contabilidade errada do nosso tempo e o saldo sai sempre negativo. Continuamos a inventar máquinas e sistemas informáticos que produzem dez, cem, mil vezes mais do que as pessoas e contudo estas, nós, continuamos escravos do tempo e de um sistema económico e político que não se compadece de quem o alimenta. Quanto tempo o nosso tempo tem?

01 agosto 2007

Holiday!



Férias!
Vou e volto. Com histórias para contar desses 'caminhos por Portugal, onde vou ver tantas coisas lindas, vou ver um mundo sem igual'...

P.S. A 'queen' Madonna agora e sempre a celebrar a efeméride!
Até já, queridas múltiplas e leitores deste blogue.

Coisas que não percebo

Arrendamento. Antigamente era comum, especialmente porque as casas não eram muitas, a esmagadora maioria das pessoas não tinha o dinheiro necessário e os bancos não ajudavam.
Hoje em dia confesso que não percebo a lógica do "queremos mais casas para arrendar". Então já não se considera positivo que as pessoas tenham casa própria e/ou sejam incentivadas a isso? Quer-me parecer que casas para arrendar não faltam (basta ver os classificados) e que o arrendamento faz todo o sentido para pessoas que estão em situações transitórias, mas não sei se será uma boa solução final (passe-se a conotação histórica da expressão). Até porque entre o preço de uma renda e o preço de uma prestação bancária a XX anos, a diferença não costuma ser muita (e estamos a falar de arrendamentos novos, por isso não vale o argumento da velhinha que vive na mesma casa há 100 anos e agora vai ter de pagar mais 0,06 € por mês).
A única explicação é ele(s) ser(em) proprietário(s) de vários terrenos urbanizáveis/urbanizados nos concelhos limítrofes e querer(em) ganhar umas massas valentes, porque não acredito que, sem nenhum negócio escuro atrás, os promotores vão nessa...

Inquietação

E se eu, de repente, me cansasse do meu corpo? Não do meu corpo, mas de ter corpo. Quem me valia?